


Somos Todos Inocentes

Zbia Gasparetto

Ditado por Lcios


Prefcio
Observando o que se passa no mundo, onde a violncia, a crueldade, a
corrupo, a maldade, a hipocrisia, parecem haver tomado conta de tudo, voc
se pergunta como Deus permite que pessoas inocentes, bondosas e honestas
sejam foradas a suportar essa convivncia.
E a noo da injustia e o medo vo estabelecendo uma descrena
progressiva que como um vrus destruidor vai contaminando as pessoas,
inferiorizando-as e colocando-as como vtimas indefesas da sociedade.
Julgando defend-las, voc briga com a vida, procura os culpados, deseja v-
los punidos e, dedo em riste, vai tentando descobri-los entre os polticos, os
jornalistas, o governo, os artistas, os escritores, os militares, os sindicatos, os
empresrios, etc.
Dentro desse processo,  fcil ir para o mbito pessoal e culpar o patro pela
sua falta de dinheiro, a esposa ou o marido, pela sua infelicidade, os pais, os
amigos, a crise, a recesso, a poluio, a sorte. Para o que sofre, sempre
haver um culpado.
A culpa tornou-se um elemento fundamental. Somos todos muito rigorosos
quanto a isso. Quem fez deve pagar. E prazerosamente, divulgamos casos
onde as pessoas que erraram, pagaram pelos seus erros.
E o que dizer da mea-culpa? Quem cultiva a culpa, costuma ser um cobrador
inveterado de si mesmo.
Entretanto, a moral csmica  muito diferente. Tendo militado nas leis da Terra,
custei muito a compreender isso. Mas agora eu sei que somos todos inocentes.
Diante do quadro que voc tem diante dos olhos, talvez no concorde comigo.
Mas, eu sei que o que voc quer mesmo,  melhorar as suas condies no
mundo, melhorando a sociedade.
Se  o que deseja, comece a perceber que a culpa nunca contribuiu para isso,
nem a punio jamais conseguiu consertar ningum.
Cada um tem um nvel que lhe  prprio e vai agir de acordo com ele. Ser
intil exigir de algum algo que ainda no pode dar. Quanto aos erros, eles
representam degraus necessrios  aprendizagem. Culpar algum por isso, 
injusto e ineficaz.
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Claro que a sociedade precisa de leis que regulamentam a ordem e precisa
preservar o direito do homem, mas s.
Alm do mais, Deus nos fez do jeito que somos, com o poder de criarmos
nosso destino, de manusear a matria, at certo ponto. O sofrer 
desagradvel, mas educa, o esforo  trabalhoso, mas desenvolve, a confiana
 abstrata, mas harmoniza; a conscincia do prprio poder, centra e dignifica.
Escrevendo esse livro, coloco em suas mos a descoberta dessa realidade. Se
voc no quiser v-la agora, no importa. Eu sei que um dia voc vai chegar l.
Ento, nesse dia, poder olhar o mundo de hoje e compreender que ningum 
vtima de ningum, que apesar das aparncias, a vida mantm tudo sob
controle e tudo est certo como est.
Lucius


Captulo 1
Condenado  priso, o Jovino olhava desconsolado as paredes frias e tristes,
sujas e descoradas de sua cela. Rosto vincado pela amargura, corao
oprimido, alma dorida, sequer encontrara foras para defender-se.
Estava cansado de lutar contra o destino que considerava cruel e inapelvel.
Deixara-se levar qual folha batida pelo vento, sem reagir, convicto que nessa
luta considerava-se perdedor.
De nada lhe valera contar a verdade, quem acreditaria? As aparncias estavam
contra ele e as evidncias o colocaram como ru de um crime que no
cometera.
A quem recorrer? Em quem confiar, se os amigos que julgava fiis o tinham
trado? Onde buscar o alvio para a tremenda mgoa que o acometia frente 
injustia e  vergonha?
Estava j habituado a ser subestimado, colocado em segundo plano. Sua
orfandade, agasalhada em casa do dr. Homero, mdico conceituado e bem na
vida, sempre fora lembrada no olhar de tolerncia dos membros da famlia, nos
elogios a D. Aurora pela bondade em recolher o filho de sua empregada
quando ela fora atropelada e morta por um automvel. Como Jovino no tinha
pai, foi ficando ali, fazendo pequenos servios, obedecendo os filhos de D.
Aurora, conformando-se em vestir as roupas velhas dos dois meninos e em
aturar-lhes as birras e caprichos.
Eles no eram maus. Porm o Jovino era para eles uma espcie de valete, e
devia sempre estar disposto s brincadeiras ou a cumprir as ordens que lhes
ocorressem dar.
Magali era mais doce, todavia, mal reparava no menino triste e quieto que
estava sempre pronto a buscar seus cadernos, suas bonecas, seus sapatos,
seu agasalho; a levar o guarda-chuva na escola quando chovia ou seu lanche
quando o esquecia.
Alberto era o mais velho, o Rui tinha dois anos menos. Jovino era um ano mais
novo do que ele e um ano mais velho do que Magali. Mido, magro, no por
falta de comida, porque neste particular D. Aurora era prdiga. Deus nos livre
de algum dizer que ela no tratava
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bem do Jovino! O que seus filhos comiam, ele tambm comia. Doces,
guloseimas, frutas, etc. Ele era magro por natureza, costumava dizer, vendo-o
mido ao lado dos seus viosos e bem tratados filhos. Alto, cedo se curvara,
abaixando a cabea, obedecendo a uns e a outros.
Os amigos da famlia, freqentemente, olhavam-no com simpatia, alguns
batendo amigavelmente em seu ombro, falando-lhe da bondade do dr. Homero
e de D. Aurora, acolhendo-o, dando-lhe tudo. At na escola ele ia, aprendendo
a ler e a escrever!
O Jovino, envergonhado, abaixava a cabea concordando e seu corao
apertava-se num vazio triste e sem remdio.
s vezes, na solido do seu quartinho apertado, deitado, sem conseguir dormir,
olhos abertos no escuro, ficava pensando. O rosto da me era lembrana vaga
em sua memria e a cada dia, menos conseguia recordar-se de seus traos.
Lembrava mais o calor de seus braos morenos em torno de seu corpo e os
beijos sonoros que lhe dava nas faces, suas mos passando pelos seus
cabelos. Nessas horas, a solido doa e ele chorava, triste. Daria tudo na vida
para que ela voltasse. Talvez ela o pegasse ao colo como D. Aurora fazia com
os meninos que disputavam seus braos acolhedores de me.
Gostava da famlia. Devia ser grato pela bondade deles. Porm a tristeza e o
vazio brotavam dentro dele, sem remdio, sem esperana.
D. Aurora queria que ele estudasse e se ele se esforasse, ela o mandaria tirar
carta de motorista, e ele passaria a trabalhar de verdade, com ordenado e tudo,
dirigindo o carro de luxo do patro.
O Jovino limpava cuidadosamente o carro todos os dias, tremendo s em
pensar que um dia ele se sentaria naquele banco, para conduzi-lo.
Quando completou dezoito anos, tirou carta de motorista e dava gosto v-lo, de
uniforme discreto, muito elegante, conduzindo garboso o carro de luxo, sempre
trocado a cada dois anos, cuidando dele como se fosse seu maior tesouro.
A princpio, revelava certa insegurana, mas depois de algum tempo tornou-se
eficiente e discreto. Conhecia o carro nos mnimos detalhes, mantendo-o polido
e escrupulosamente limpo.
Assim, o Jovino passou a acompanhar todos os membros da famlia. As
escapadas do dr. Homero  boate, ou ao encontro furtivo com alguma
aventura, a visita aos clientes que estavam mal, altas horas da
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noite, as idas de D. Aurora ao dentista,  modista, ao mercado. As aulas de
bal de Magali, as festinhas em que ela comparecia, que o Jovino tinha que
levar e buscar, o colgio que ela s vezes cabulava por causa de um cinema
ou de algum encontro de namorado.
Quando no estava ocupado com um desses trs, os rapazes tambm
serviam-se do carro. Assim, Jovino participava da vida ntima de cada um,
conhecendo-lhes os segredos, as fraquezas, os hbitos, tudo. Era calado,
discreto, mas gostava de D. Aurora e no se sentia  vontade vendo as
aventuras do dr. Homero; preocupava-se com os namoros de Magali sempre
s escondidas, com os pileques do Alberto e as brigas do Rui, sempre
escondido dos pais.
Era paciente, discreto, pedia prudncia aos jovens sempre que necessrio.
No queria que nada de mal lhes acontecesse.
Eles estavam to habituados com a presena do Jovino que no tinham meias
palavras diante dele. Confiavam. Para eles, o moo era uma espcie de rob
que os obedecia cegamente, com dedicao.
Tudo comeou numa noite de inverno. Os rapazes foram a um clube de bairro.
O Alberto andava namorando uma moa da periferia, bonita e graciosa. O Rui
foi junto.
J era tarde quando os dois, acompanhando as moas, saram do clube e
depois de lev-las para casa no distante dali, iam voltando ao clube onde
dentro do carro Jovino os esperava. Alguns vultos sorrateiros caram sobre os
rapazes. Surpreendidos, eles se defenderam como puderam. O Jovino, porm,
sacando a arma que tinha no porta-luvas, gritou com voz firme:
- Parem ou eu atiro!
Vendo que eles no atendiam, deu um tiro para o ar e os atacantes largaram
os rapazes. Um deles ainda ameaou:
- Se ele no deixar a Mariazinha, eu mato os trs! Principalmente voc, seu
cachorro!
Jovino fez um gesto ameaador e eles fugiram esbaforidos. Os dois rapazes,
rindo satisfeitos, no se cansavam de elogiar o Jovino pela atuao pronta e
bem-sucedida.
O moo, contudo, estava preocupado:
- No voltem mais por aqui. Eles so perigosos. O melhor  esquecer a moa.
- Ela  uma gracinha - disse o Alberto enlevado - No vou deix-la para ele.
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O Jovino abanou a cabea preocupado.
- No se preocupe, Jovino. Vamos dar um tempo, eles vo esquecer. No
falaram mais nisso, e tudo foi esquecido. Foi exatamente um ms depois que
tudo aconteceu. O dr. Homero, D. Aurora e Magali haviam viajado. Na casa,
ficaram, alm de uma criada, os dois rapazes e o Jovino.
O Alberto queria ir ver Mariazinha. Jovino tentou dissuadi-lo, o Rui tambm. A
princpio o moo relutou, mas depois concordou. O Rui saiu para um cinema e
o Alberto no quis ir. O Jovino recolheu-se para dormir. Contudo, estava
inquieto e sem sono. Sentia o corao oprimido.
Levantou-se, dirigiu-se  cozinha para tomar gua. Depois, devagarinho, foi ao
quarto do Alberto e abriu a porta sem fazer rudo. A cama estava vazia. O
moo sara. Assustado, o Jovino pensou:
- Ele foi ver Mariazinha!
Sem pensar em nada, vestiu-se e saiu rapidamente. Foi at o clube de bairro,
circulou por perto da casa da moa, procurou durante horas, mas no o
encontrou. O dia j estava raiando quando ele voltou para casa. Foi ao quarto
do Alberto, e o moo ainda no havia voltado.
Tentou acalmar-se. Talvez ele tivesse ido a outro lugar. De vez em quando ele
passava mesmo a noite fora. No havia razo para preocupar-se. Deitou-se e
por fim adormeceu.
Mas o Alberto no apareceu no dia seguinte, e o dr. Homero, j de volta,
procurou a polcia. Dois dias depois, num terreno baldio atrs do clube de
bairro, na beira do rio, encontraram o corpo. A autpsia revelou que uma das
balas acertara a cabea e a morte fora imediata. A arma estava ao lado do
corpo.
Foram dias interminveis. A famlia estava inconsolvel. A polcia descobriu
que a arma do crime era a do dr. Homero, que ficava no porta-luvas do carro.
Tinha as impresses digitais do Jovino no cano, embora o cabo estivesse sem
marcas.
Jovino foi acusado pelo delegado e no soube explicar onde havia estado na
noite do crime. A criada, vira-o sair sozinho, e algumas pessoas lembravam-se
de t-lo visto rondando o clube naquela noite.
Foi em vo que Jovino procurou dizer a verdade. Ningum acreditou. Para
piorar as coisas, nas mos do Alberto foi encontrado um cachecol do Jovino,
como se houvesse sido arrancado na hora do crime.
Todos estavam convencidos de que ele havia matado o Alberto. O horror de D.
Aurora, de Magali, de Rui; o dio do dr. Homero, o
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desprezo com que o trataram sem dar-lhe crdito de maneira alguma, deixou-o
arrasado. Ele chorava e repetia:
- Eu gostava do Alberto como irmo. Fui defend-lo. No tinha motivo para
mat-lo!
A imprensa, revoltada com o crime, publicou manchetes violentas contra o
Jovino. Os conhecidos o repudiaram, reprovando sua ingratido e apareceram
at psiquiatras que explicaram que o crime do Jovino contra o Alberto fora
cometido por inveja. Enquanto o moo assassinado tinha tudo, ele, Jovino, no
tinha nome, amor, famlia, posio.
Cansado de gritar, de chorar, de explicar, Jovino calou-se. Ouviu calado as
ofensas, suportou o dio do dr. Homero, o ressentimento do resto da famlia.
De que lhe valeria protestar? De que adiantaria repetir que era inocente?
Foi nesses dias que o Jovino sentiu mais sua orfandade. Ele estava s e no
tinha ningum que se preocupasse em ouvi-lo, em compreend-lo, em
acreditar nele. Tornou-se amargo, ctico, indiferente. Olhava as paredes da
cela e evitava pensar.
Como a arma fora parar ao lado do Alberto? Como seu cachecol estava nas
mos dele? Parecia um plano para incrimin-lo.
No se incomodava com os estranhos, mas a atitude da famlia causava-lhe
imensa dor. Havia nascido naquela casa. Conheciam-no muito bem. Como
acredit-lo capaz de cometer tal crime? Esforava-se para esquecer, mas essa
mgoa atormentava-o constantemente.
Foi condenado a vinte anos. O Tribunal do Jri comovera-se com o depoimento
dos familiares do Alberto, dos clientes do dr. Homero, dos parentes. Todos
falaram da bondade de Aurora, da pacincia do dr. Homero, da amizade dos
meninos, dividindo com ele guloseimas, roupas, brinquedos.
Sentado no banco dos rus, Jovino no conseguia nem chorar. Foi apontado
como assassino frio e cruel, como ingrato, invejoso, mau-carter, que calado,
escondia seu rancor e sua revolta.
Jovino sentiu-se trado. Amava aquelas pessoas, elas eram sua famlia, sentiu-
se abandonado, escorraado, desprezado.
Na priso, tornou-se um indiferente. Ningum o visitava e at os carcereiros
olhavam-no como se fora um monstro. Todas as portas se haviam fechado
para ele que no via nenhuma possibilidade de auxlio.
Os dias se sucediam iguais, tristes, e o Jovino continuava amargo,
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calado e s. No havia nada nem ningum em quem apegar-se. No tinha
esperanas.
Seus companheiros uniam-se entre si. Muitos rezavam, pedindo a Deus a
liberdade. Iam  missa, quando era rezada na capela do presdio. A maioria
tinha esperanas de sair logo, impetravam recursos jurdicos, faziam o mximo,
tentando reconquistar a liberdade. Tinham famlia que lutava por eles do lado
de fora.
Jovino no tinha nada. No acreditava em Deus. Como poderia? Era inocente,
por que Deus no o defendera? Se ele existisse,
- pensava desanimado
- no teria permitido a condenao de um inocente.
Fechou seu corao. Nada conseguia toc-lo. Nem a dor, nem a alegria dos
seus companheiros, nada. Obedecia s ordens que os carcereiros lhe davam,
procurava manter a cela asseada. No tolerava interferncia dos outros presos
em sua vida, quando tornava-se at agressivo.
Isso imps respeito frente aos demais, que compreenderam que se o
deixassem em paz, ele no se intrometeria em nada, tornando-se inofensivo.
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Captulo 2
Mariazinha levantou-se um pouco assustada, olhando o relgio com
preocupao. Precisava apressar-se para no chegar atrasada.
Lavou-se rapidamente, vestiu-se e engoliu uma xcara de caf com leite,
apanhou a bolsa e saiu, mal ouvindo as recomendaes da me para que se
alimentasse melhor.
Precisava tomar o bonde das sete para chegar s sete e vinte e cinco na porta
da fbrica. No conseguiu. O bonde j havia passado. O remdio era esperar.
Eram sete e dez quando conseguiu enfiar-se em um bonde cheio, apertada por
todos os lados, segurando firme a bolsa para no perd-la.
Mariazinha estava acostumada a essa luta. H dois anos trabalhava nessa
fbrica do Brs e todos os dias tomava o bonde na Penha, onde morava, e,
tanto na ida como na volta, eles passavam cheios. Sem importar-se com o
desconforto, Mariazinha pensava.
Havia dormido mal naquela noite. A figura de Alberto no lhe saa do
pensamento. Apaixonara-se por ele. Embora o houvesse visto poucas vezes,
ele representara para ela o prncipe encantado. Jovem, bonito, elegante,
instrudo, rico, havia sido um sucesso sua presena no clube do bairro,
geralmente freqentado por rapazes de nvel social mais modesto.
As garotas o haviam disputado. Ele, porm, s tivera olhos para ela. Haviam
danado e a moa sentira seu corao bater mais rpido aspirando
gostosamente o perfume delicioso que vinha dele, sentindo seus braos ao
redor do seu corpo, olhando seus olhos castanhos e profundos, onde havia
admirao e carinho. A voz grave de Alberto dizia-lhe palavras doces, e
Mariazinha deixou-se levar nas asas do sonho. Apaixonou-se desde o primeiro
dia.
Sentiu que Alberto a apreciara. Havia sinceridade em seu olhar, em sua voz.
Sairam juntos do clube, ela, o Alberto, sua amiga Nair e o irmo dele, Rui.
Foram caminhando lentamente para a casa delas que moravam perto
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uma da outra, e Mariazinha queria que o tempo parasse, que no chegassem
nunca. Pararam na esquina, e Mariazinha disse:
- Vamos nos despedir aqui. Papai pode acordar e j passa da meia-noite. Se
nos vir acompanhadas, pode zangar-se.
Ficaram conversando mais algum tempo. Alberto no estava querendo ir
embora, e Mariazinha queria que ele ficasse. Mos dadas, olhos nos olhos, ele
dissera em voz baixa:
- Eu vou, mas volto. J sei o caminho. No vou esquecer esta noite.
- Eu tambm. Estarei esperando.
- No h ningum que tenha chegado antes?
Mariazinha sacudiu a cabea negativamente:
- Nada importante.
- Posso voltar a v-la?
- Claro.
Os olhos dela brilhavam e Alberto levou aos lbios a mo que segurava,
beijando-a com delicadeza. O corao de Mariazinha descompassou-se e uma
onda de calor a envolveu. Naquela noite, ela custou a dormir. Pensava nele
com entusiasmo, tecendo sonhos para o futuro.
No dia seguinte, quando regressava do trabalho, Nair j a estava esperando
ansiosa.
- Voc no sabe o que aconteceu ontem, depois que os dois nos deixaram!
- O que foi?
- Um horror. At tiros houve. Mariazinha empalideceu:
- Algum ferido?
-No. Foi s briga e o susto. O porteiro do clube me contou. Uma turma tentou
bater nos dois e parece que o motorista do carro, voc sabe que eles tm carro
com motorista?
- Mariazinha fez que no. Nair continuou:
- Pois tem. Vieram em um carro ltimo tipo, com motorista de uniforme e tudo.
Foi ele quem tirou o revlver e assustou os malandros.
- No aconteceu nada a eles?
- Nada a no ser o susto.
- Quem voc acha que pode ter sido?
- Desordeiros, s pode ser a turma do Rino.
- Ser?!
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- Claro. Ele est apaixonado por voc. Tem nos seguido por toda parte.
Meu Deus! Se for assim, o Alberto no voltar mais aqui! -
Mariazinha agarrou o brao da amiga com fora:
- Eu estou apaixonada. O que: ser de mim se ele no voltar?
No  tanto assim. s vezes, uma disputa dessas aumenta o interesse. Depois,
o Alberto parece um moo superior. No vai se intimidar por um despeitado
como o Rino.
- No gosto dele. Se soubesse que ia me causar tantos problemas, nunca teria
sado com ele algumas vezes.
- Cheguei a pensar que voc estivesse interessada por ele.  um cafajeste.
Ainda bem que desistiu.
- Tem boa aparncia. No incio foi gentil, depois comeou a mostrar o que .
Queria mandar at no ar que respiro. Ciumento, desconfiado, mentiroso, mau-
carter. Hoje, tenho-lhe averso. J lhe disse que no quero nada com ele.
Que me deixe em paz.
Por um desses acasos que no se explicam, algum levantou-se para descer e
Mariazinha sentou-se.
Em seu pensamento, ainda estavam vivas as lembranas. Continuou
recordando. Depois daquela noite, Alberto no apareceu mais no clube e
Mariazinha que esperava ansiosamente, comeou a perder a esperana.
Por outro lado, Rino no a deixava em paz. Seguia-a por toda parte e a moa
tratava-o com irritao e desprezo.
Uma noite de sbado no clube, Rino aproximara-se dela, com olhar
apaixonado.
- Vamos danar?
- No sinto vontade.
- Voc no vai me dar tbua. Se no danar comigo, vou fazer um escndalo.
- Estou cansada.
, - Se fosse aquele boneco de luxo, garanto que seu cansao passava!
- Deixe-me em paz.
,-.: - Venha, - disse ele, puxando-a com fora pela mo.
Assustada, a moa levantou-se. No queria ser motivo de escndalo. Se seu
pai soubesse, no a deixaria mais freqentar o clube. Essa era a sua melhor
distrao e a esperana de rever Alberto.
- Est bem, - disse sria. - S esta vez.
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Rino enlaou-a com fora e a moa teve que colocar a mo em seu ombro
empurrando-o.
- Se fosse aquele boc, voc no faria isso. Eu vi como se colou nele naquela
noite.
- Nada tenho com voc. Sou livre para namorar quem eu quiser.
- Voc  que pensa. Vai casar comigo ou no se casar com mais ningum.
- No diga isso. No pode me obrigar. No quero namorar com voc, muito
menos casar. No percebe isso?
- Vai gostar de mim, ver. Tenho muitas mulheres que beijariam o cho se eu
pedisse.
- Fique com elas, deixe-me em paz. Sabe o que mais? No quero danar com
voc nunca mais. Se me ameaar vou falar com o guarda.
Mariazinha, zangada, empurrou Rino com fora e saiu nervosa, indo procurar o
guarda-civil que ficava de servio na porta do salo. Enquanto o guarda
procurava por ele para adverti-lo, Rino misturou-se aos demais e, rosto
fechado, olhar rancoroso, deixou o local.
Alberto no aparecia e Mariazinha pensou que ele a houvesse esquecido. Uma
noite em que se encontrava em casa, Nair chegou dizendo com euforia:
- Mariazinha, advinhe quem est a fora, na esquina!
- Quem?!
- O Alberto. Eu vinha vindo da padaria quando passei por ele que me
cumprimentou e perguntou por voc. Est l, a sua espera.
Mariazinha sentiu o corao descompassar e as pernas tremerem.
- Vou me arrumar. Diga a ele que espere.
- E seu pai?
- Est ouvindo rdio na sala. Fica aqui,  melhor, vou dizer que vou  sua casa
ver uns figurinos.
- Est bem.
Rpida, tremendo de excitao, a moa arrumou-se discretamente, sem pintura
para que o pai no desconfiasse e saram. Enquanto a amiga entrava em casa,
Mariazinha, corao cantando de alegria, foi ao encontro do Alberto.
- Boa noite
- foi dizendo com suavidade.
- Boa noite
- fez Alberto segurando a mo dela com delicadeza, retendo-a com carinho.
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- Pensei que nunca mais me procurasse
- disse a moa.
- Tentei, mas no pude. Seus amiguinhos tentaram acabar comigo, e eu
esperei um tempo para que eles esquecessem.
- Eu soube do que houve.
- Amor contrariado?
- Bobagem. Foi o Rino. No tenho nenhum compromisso com ele nem nunca
terei. Enfiou na cabea que vai casar comigo e tem me perseguido em todos os
lugares.
- Voc no gosta mesmo dele ou est comigo para fazer cimes?
Mariazinha abanou energicamente a cabea:
- No diga isso. No quero nada com ele. Tenho pensado muito em voc. No
esqueci aquela noite!
- Eu tambm no. Vamos dar uma volta. Precisamos conversar. Mos dadas,
trocando olhares carinhosos, os dois foram andando
lentamente. Mariazinha esqueceu tudo o mais que no fosse o moo de olhar
doce, o calor que vinha de sua mo que de vez em quando apertava a sua
deliciosamente.
Conversaram bastante e quando em um canto discreto Alberto a beijou, a
moa pensou haver encontrado o cu. Sentiu-se completamente apaixonada
por ele.
- Aquele seu admirador vai ter que se acostumar comigo. De agora em diante,
estarei sempre por aqui.
Mariazinha sorriu feliz. Era tarde da noite quando ela voltou para casa,
procurando entrar sem que o pai percebesse. Na cama, a moa deu livre curso
aos seus sonhos de amor. A recordao do perfume dele, da maciez dos seus
lbios, da delicadeza do seu trato, dos beijos carinhosos que ele de quando em
quando lhe dava na mo, faziam-na estremecer de felicidade e foi pensando
nisso que naquela noite adormeceu.
Eles haviam combinado um passeio no dia seguinte, um sbado  tarde e ela
mal podia esperar. Porm, Alberto no apareceu. Decepcionada, Mariazinha
no saiu de casa, esperando, olhando de quando em quando para a esquina
onde ele deveria aparecer. Nada do Alberto. Nem no domingo.
Foi na segunda-feira que a bomba estourou. Quando voltou da fbrica, Nair a
esperava um tanto plida, tendo nas mos um jornal.
- Mariazinha, aconteceu uma desgraa! : - O que foi? - indagou ela
assustada.
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- O Alberto! Est morto!
- No pode ser! - fez a moa, sentindo-se desfalecer.
- Olha aqui o retrato no jornal!  ele mesmo.
Com mos trmulas Mariazinha apanhou o jornal e de fato, a notcia era
assustadora: Moo da nossa sociedade aparece morto, atrs de um clube no
bairro da Penha. A polcia est investigando.
Deixou-se cair em uma cadeira desalentada.
- No  possvel! No posso crer!
- Infelizmente  verdade - fez Nair preocupada. - Quem voc acha que foi?
Teria sido o Rino?
Mariazinha sentiu um arrepio de terror:
- Espero que no. Para mim, isso no importa. O Alberto era todo meu sonho
de amor, que agora se desfaz! Se voc visse como era carinhoso, educado,
fino! No pode ser. Custo a acreditar.
Mas era verdade e ela tivera que render-se  evidncia. Olhou em volta e deu o
sinal. Estava na hora de descer. A custo conseguiu chegar  porta de sada e
saltar do bonde.
Ia chegar atrasada, quase quinze minutos. Mas ela no estava to preocupada
por isso. Sentia-se particularmente acabrunhada naquele dia, sem poder
esquecer a tragdia e o seu amor truncado.
J em frente ao tear onde trabalhava, envergando o uniforme, enquanto
maquinalmente suas mos experientes executavam seu trabalho de rotina, no
pde deixar de pensar no seu drama.
O choque havia sido grande. As investigaes da polcia, os tinha levado at
ela. O suspeito, o motorista de carro do Alberto, contara que o moo havia se
interessado por ela e a agresso que os dois irmos tinham sido vtimas
naquela noite. Dissera recear que Alberto houvesse sido assassinado por
aqueles rapazes.
Assim, Mariazinha foi intimada a comparecer na delegacia. Apavorou-se. Seu
pai, preocupado com o envolvimento da filha, pediu-lhe que negasse esse fato,
para no envolver-se em maiores encrencas.
A moa, porm, estava interessada em contar a verdade. Todavia, na tarde
anterior ao seu depoimento na delegacia, na sada da fbrica, foi procurada
pelo Rino.
- Voc no vai dizer nada sobre aquela noite
- dissera ele segurando seu brao com fora.
- Vou sim
- respondera ela com raiva. - Foi voc quem o matou.
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- Voc est louca! Posso ser violento, mas assassino no. No h mulher no
mundo que valha isso.
- Ento do que tem medo?
- No quero ser envolvido. Se me delatar e a polcia me inco-modar, vai pagar
muito caro por isso.
- O que voc pode fazer?
- Se tem amor ao seu pai, trate de fechar o bico.
- Est me ameaando? Ser capaz de matar meu pai?
- Quem falou em matar? Mas uma lio ele leva. Uma boa surra, um assalto,
um susto, mas s. Deus sabe como ele vai reagir.
Mariazinha empalideceu:
- Deixe meu pai em paz. Afaste-se dele.
- S se voc no contar  polcia aquela briga.
- Vou pensar. Meu pai no tem nada com isso.
- Depende de voc!
Foi tremendo que Mariazinha compareceu  delegacia para declaraes. No
falou da briga, que por sinal nem assistira, nem do cime do Rino. S relatou
seus dois encontros com Alberto. Soube que o porteiro do clube havia
declarado ter ouvido tiros naquela noite, mas quando saiu para ver o que era,
os atacantes j haviam ido embora. Assim, apesar do Rui, irmo do Alberto,
haver confirmado a agresso e a ameaa de um deles para que Alberto se
afastasse da moa, a polcia no se interessou em investigar. Tinha j um
suspeito e tudo indicava que ele havia sido o assassino. Talvez at ele o tenha
assassinado ali, naquele local, para impingir a culpa aos que o haviam
agredido.
Mariazinha, porm, tinha suas dvidas. Embora Rino afirmasse o contrrio, ela
desconfiava dele. Contudo, no queria falar sobre isso com a polcia, sentia
medo.
O tempo passava, mas a figura de Alberto no lhe saa da mente. Recordava
com amor cada frase trocada, cada gesto, cada olhar e tudo isso, agora,
ganhava uma conotao especial.
Freqentemente era assaltada pelas dvidas. Apesar da polcia haver prendido
o chofer e consider-lo culpado, teria mesmo sido ele? Eram s suspeitas e ela
nada poderia provar. Sentia medo do Rino. A sua ameaa assustava-a.
Julgava-o capaz de tudo.
Sentia-se infeliz e desanimada. Nunca mais encontraria algum como Alberto.
Felizmente Rino havia deixado de importun-la. Ela no fora mais ao clube e
ele no mais a procurara.
21


Naquela tarde porm, ao sair da fbrica, teve desagradvel surpresa. Rino
esperava-a na porta, tendo um jornal nas mos. Mariazinha fingiu no t-lo
visto, foi saindo, ele segurou-a pelo brao.
- Espere a. No me viu a sua espera?
- O que quer?
- Falar com voc.
- Estou cansada e com pressa de ir para casa.
Ele no escondeu a irritao.
- Voc vai falar comigo de qualquer jeito.
- No temos nada para conversar.
- Engana-se.  um assunto srio.
Ela parou e olhando-o com frieza respondeu:
- Est bem. Mas seja breve.
- Vamos conversar em um lugar sossegado. No no meio deste povo.
- J disse que estou com pressa. A voz dele tornou-se splice:
- Mariazinha, no seja injusta comigo. Vou provar para voc que no sou ruim
como pensa.
- At agora, s tem demonstrado o contrrio.
- Sou impulsivo. Depois me arrependo. Estou louco por voc. Meu cime tem
me feito sofrer muito. Quero que compreenda.
- Est bem. Vamos conversar naquela esquina. No tem ningum l.
Caminharam para outro lado da rua em local discreto.
- Aqui estamos ss. Pode falar.
- Estou muito magoado com voc. Suspeita de mim, acha que tenho alguma
coisa a ver com a morte daquele moo.
- Voc o agrediu e ameaou - respondeu ela.
- S por cime. Mas eu no seria capaz de matar ningum.
- Voc me ameaou tambm.
- Procurei defender-me. Se me incriminasse, a polcia ia me envolver.
- Se  inocente, no tem nada a temer.
- No  bem assim... Sabe como so as coisas. Ia ter aborrecimentos. At que
tudo se esclarecesse...
- Bom, mas afinal, o que quer?
- Veja neste jornal. O motorista foi julgado e condenado. Ele  o
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culpado. Ficou provado. Trouxe o jornal para que comprove a injustia que fez
comigo.
Mariazinha apanhou o jornal e leu: "Motorista do crime da Penha, condenado a
vinte anos," mais abaixo o relato do julgamento. Apesar do ru jurar inocncia,
as provas eram contra ele, e os jurados o com sideraram culpado.
Os olhos de Mariazinha encheram-se de lgrimas.
- Espero que tenha se arrependido de haver suspeitado de mim.
- Voc parece muito alegre com essa notcia.
- Claro.  a prova que eu esperava para que voc esquea o passado.
Mariazinha olhou-o com tristeza.
- Gostaria de esquecer. Entretanto, jamais conseguirei.
- Bobagem. Mal o conhecia. Iludiu-se. Ele era rico, almofadinha. Mas eu estou
aqui e a amo muito. Vou ajud-la a esquecer.
- Olha, Rino,  intil. Apesar do motorista dizer-se inocente, eu at posso
acreditar que voc no foi o assassino do Alberto. Mas eu gostava dele de
verdade e se quero esquecer o crime, o meu amor por ele continua. Ningum
poder arranc-lo do meu corao. Sei que voc gosta de mim, mas no
adianta. No quero namorar ningum. E posso garantir que nunca vou aceitar
seu amor. Peo-lhe que me deixe em paz. Procure esquecer-me. H de
encontrar outra moa que o ame e o faa feliz.
Rino estava plido.
- Isso passa. Voc no pode amar um morto.  jovem, no vai passar a vida
inteira sozinha.
-  o que eu sinto agora. Se amanh eu mudar de opinio, ser por sentir por
outro um amor maior do que o que tenho por Alberto. Nada tenho contra voc.
Podemos at ser amigos, mas amor, no.  definitivo.
Embora contrariado, Rino procurou dominar o rancor. De nada lhe valeria
express-lo. A moa se afastaria mais ainda. Decidiu contemporizar.
- Est bem. Apesar da dor que sinto, respeito seus sentimentos. Um dia, voc
ainda me amar e receber de braos abertos.
- Agora preciso ir.
- Vou lev-la at sua casa.
- Melhor no. Prefiro ir s. Desculpe.
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- Disse que podamos ser amigos!
- Disse. Mas hoje quero ir s. No leve a mal mas estou muito cansada.
Vendo-lhe o rosto plido Rino concordou.
- Est bem. Seja como voc quer. S desejo que quando me encontrar, no me
evite ou me ignore. Ser seu amigo, me conforta.
- Est bem - concordou ela ansiosa para ver-se livre dele. Apertou-lhe a mo e
saiu apressada. Estava escurecendo quando
chegou em casa. Depois do jantar, procurou a amiga para desabafar. Nair
ouviu-a com ar preocupado.
- Voc no vai ser amiga dele, vai?
- Quero distncia dele, mas se ele compreender e aceitar minha recusa, ser
melhor.
- No acredito nele. Viu que no vai conquistar voc com brutalidade e agora
quer passar por bonzinho. Daqui a pouco vai chorar a seus ps um amor to
grande que pode ser at que voc com pena o acabe aceitando.
- Deus me livre. Tenho-lhe averso.
- Cuidado. Tenho minhas dvidas se no foi ele quem assassinou o Alberto.
- A polcia diz o contrrio. Ser que eles podem haver se enganado?
- No  o primeiro caso. O motorista no confessou.
- Isso me intriga. Mas ser que o Rino seria capaz de matar? Ele  um pouco
papudo.
- Isso . Mas tambm ele  muito violento. Numa hora de raiva, no sei, no.
- A polcia deve saber o que est fazendo.
- Amanh a Ana vai me dar o endereo de uma cartomante. Quer ir?
Mariazinha animou-se:
- Quero! Embora esteja desiludida, estou curiosa. Ela  boa mesmo?
- Acertou tudo pra Ana. Ela estava entusiasmada!
-  longe?
- No. Ela vai me dar o endereo. Amanh, quando voc chegar da fbrica, ns
iremos. Vamos ver se ela descobre a verdade.
- Mal posso esperar.
No dia seguinte as duas amigas foram  casa de D. Guilhermina.
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Estavam ansiosas e excitadas. Sentadas na sala simples da pequena casa,
esperavam.
A mulher que as atendera era de meia-idade, cabelos grisalhos, fisionomia
simptica.
- Vamos entrar - dissera com simplicidade. - Sentem-se que vou pegar o
baralho.
Logo depois ela voltava com um mao de cartas bem usado.
- Quem quer vir primeiro?
- Ela, - disse Nair, indicando a amiga.
- Melhor irmos para o quarto - disse Guilhermina.
- No, - respondeu Mariazinha. - No tenho segredos para ela.
- Muito bem. Vamos comear - disse, indicando as cadeiras ao redor da
mesa.
Depois de v-las acomodadas, colocou o mao de cartas diante de Mariazinha,
dizendo:
- Corte trs vezes com a mo esquerda.
Mariazinha obedeceu. Guilhermina disps as cartas e comeou a falar. Disse
coisas triviais, sem importncia at que a certa altura, levantou os olhos
admirada, fixando Mariazinha. Juntou as cartas e disse:
- Vamos ver de novo.
Disps as cartas na mesa, depois levantou a cabea e seus olhos perdiam-se
em um ponto distante:
- Voc est entre dois homens, - disse. - Cuidado. Os dois esto
desesperados. No deve querer nenhum deles.
Mariazinha no entendeu:
- Dois?
- Sim. Um  ciumento, perigoso, desonesto e se voc o aceitar, vai sofrer
muito.
- Sei quem  - disse Mariazinha, - mas no quero nada com ele.
- Ele no desistiu. Vai assedi-la.  at obsesso. Cuidado. No deve dar a
mnima esperana a ele. Mas h o outro. Esse tambm est desesperado. 
um amor impossvel. Foi cortado pelo destino, mas ele sofre muito e est a seu
lado.
Mariazinha assustou-se.
- Engana-se - disse com ar preocupado. - Tive um namorado a quem amo
ainda, mas ele morreu.
Guilhermina olhava fixamente para frente e parecia haver esquecido as cartas
dispostas sobre a mesa.
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- O corpo morreu, mas ele continua vivo. Voc no sabe que a vida continua?
Nair segurou a mo da amiga, apertando-a com fora como para infundir-lhe
coragem. Guilhermina continuou:
- Deve rezar para que ele a esquea. Ele a segue por toda parte.
- O que ele quer de mim? - indagou Mariazinha com voz insegura.
- No sei. Mas diz que voc pode ajud-lo. Vejo uma trama, uma injustia,
muita luta.
- O que devo fazer?
- Rezar. Pedir a ajuda de Deus. Procure um lugar, um Centro Esprita, voc
precisa.
- Sou catlica. Tenho medo dessas coisas - respondeu Mariazinha preocupada.
-  s o que posso dizer - completou Guilhermina voltando a olhar
atentamente para as cartas na mesa.
- Tem muita proteo. No precisa ter medo de nada. H uma possibilidade de
casamento para daqui dois a trs anos. Uma mudana de vida para melhor.
A cartomante fez algumas previses sem que Mariazinha desse importncia.
Foi a vez de Nair que com ar divertido ouviu as informaes de Guilhermina e
depois de haverem pago, as duas saram.
Mariazinha estava impressionada.
- Ela falou sobre o Rino.
- Eu no disse que ele no serve? Ela pediu para voc no lhe dar ouvidos.
- Isso eu sei. No pretendo nada com ele. Mas e o outro? E o Alberto. Ela disse
que ele me acompanha. Ser verdade? Ser que os mortos podem voltar e
acompanhar os vivos?
- Que pode, pode. Eu mesma sei de vrios casos. Meu tio Mrio era
acompanhado pela alma de minha av Josefa, porque ela queria que ele
voltasse pra casa. Meu tio havia se separado da mulher e dois filhos. Gostava
de beber. Ele tinha crises e dizia que vov estava com ele. Que ele a via e que
ela queria que ele largasse a bebida e voltasse para casa.
- A bebida d alucinaes. Com certeza, ele bebia e pensava ver a me.
Sempre quando ns fazemos alguma coisa errada, a figura da me aparece
em nossa memria.
- No sei, no. Tio Mrio sofria muito.
- E agora?
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- Agora? Voltou pra casa h alguns anos e parece que melhorou. Faz tempo
que no ouo falar das bebedeiras dele.
- Se ele deixou de beber,  claro que no viu mais a alma da sua av.
 Quanto a isso, ele fala sempre com muita convico. Ele anda freqentando
um Centro Esprita. Alis, D.Guilhermina aconselhou voc ir procurar um.
- Bobagem. No gosto dessas coisas. Se o Alberto pudesse voltar e ficar perto
de mim, no ia me fazer mal. Ele me amava tanto quanto eu a ele.
- , mas agora ele morreu e  melhor que fique longe. No  bom ter um
encosto desses. Eu, se fosse voc, procurava um Centro e ia me benzer.
- Isso  superstio. Vou  igreja e pronto, tudo fica em paz.
Daquele dia em diante, Mariazinha passou a ir  igreja com mais assiduidade.
Rezava pela alma de Alberto com devoo e saudade.
Nair estava preocupada com a amiga. Achava que ela precisava esquecer.
Afinal o Alberto estava morto mesmo, e ela era jovem, bonita, tinha o direito de
ser feliz.
Compreendia que Mariazinha estivesse deslumbrada com o romance,
porquanto o Alberto era o que se chama um bonito moo, pertencia a um nvel
social superior, fora atencioso com ela, e sua morte trgica colocara naquele
romance uma aurola dramtica.
Mariazinha era muito romntica, sensvel e sonhadora. Por isso, mesmo depois
de quase um ano da morte de Alberto, ela ainda conservava-se chorosa e
triste, fugindo aos divertimentos dos quais tanto gostava e isso no era bom.
Parecia-lhe que a amiga estava cultivando uma paixo doentia e prejudicial.
Para ela, nenhum rapaz tinha o porte de Alberto, sua gentileza, seu sorriso.
Mariazinha isolava-se mais a cada dia, tornando-se angustiada, triste, amarga.
Nair tentava de todas as formas tirar a amiga dessa situao. Convidava-a
freqentemente para ir ao clube, a passeios, procurava traz-la para a
realidade, estimulando-a ao flerte e aos divertimentos. Contudo, Mariazinha
no melhorava. Se ia ao clube, ficava triste, sentava-se a um canto, recusava-
se a danar. Dizia no poder esquecer o Alberto, e tudo quanto fazia,
aumentava sua saudade.
Nair preocupou-se de verdade. Rino no lhes dava descanso e assediava-as
por toda parte. Mariazinha, porm, no cedia. Sua averso
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pelo moo era evidente. Apesar disso, ele no desistia. Ao contrrio. Parecia
at que quanto mais ela o recusava, mais ele se obstinava.
Uma manh de sbado, Nair encontrava-se no centro da cidade fazendo
compras, quando cruzou com o Rui. Ele olhou-a srio. Ela parou, estendendo-
lhe a mo.
- Como vai?
- Bem... e voc? - respondeu ele educadamente.
- Tambm. Gostaria de falar-lhe por alguns minutos. Foi bom t-lo encontrado.
- Comigo?
- Sim. Talvez possa ajudar-me.
- Vamos tomar alguma coisa e nos sentarmos um pouco -props ele.
Entraram em uma confeitaria e sentaram-se. Rui pediu refrescos. Estava
admirado. Nunca mais a havia visto depois daquela noite no clube, quando
Alberto conhecera Mariazinha.
- Sinto muito quanto ao seu irmo. Foi um golpe duro - foi dizendo logo que
se viram a ss.
Rui suspirou fundo:
- Obrigado. Ainda no nos refizemos da tragdia. Minha me est inconsolvel.
- Imagino. A Mariazinha tambm. Est dando trabalho. No consegue esquecer
Alberto. Est magra, abatida, no sai para divertir-se. Mudou completamente.
Era alegre, bem humorada, disposta, agora, parece uma sombra.
- Sei que no teve culpa, mas cheguei a ter raiva dela. Foi para v-la que
Alberto saiu naquela noite.
- No faa essa injustia. Ela o amava muito. Est sofrendo pelo que
aconteceu. Na minha opinio, um pouco demais. Afinal, eles se viram por duas
vezes apenas. No houve tempo para conhecerem-se melhor e amarem-se de
verdade.
- Ela ficou impressionada por causa do crime. Se ele estivesse vivo, era
possvel que nem continuassem com o namoro.
- Tambm acho. Ela est at doente. Talvez, se voc a procurasse e
conversasse, como irmo dele, Mariazinha encarasse a realidade.
- Eu?! No saberia o que dizer-lhe. Depois, eu tambm no consegui esquecer.
Naquela noite, ele enganou-me. Disse que ia ter com ela, mas como ns
tentamos impedir, mentiu.
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-- Ns?
A fisionomia do Rui sombreou-se de tristeza.
- Aquele perverso do Jovino. Tentou impedir que o Alberto sasse. Fingiu,
naturalmente. Ah! Se eu tivesse desconfiado!  claro que ele quis preparar seu
jogo. E eu fui ao cinema. Como no percebi? Como no evitei aquela
barbaridade?
Na ir olhou penalizada o rosto contrariado de Rui. Guardou silncio durante
alguns momentos, depois, quando ele pareceu mais calmo, disse pensativa:
- Tem certeza mesmo que foi ele?
- A polcia comprovou. Por mais duro que possa ser,  verdade. O Jovino foi
criado em casa, como filho. Participava de nossas brincadeiras, era como
irmo. Quem podia saber a inveja e o cime que ele guardava no corao?
- Ele sempre jurou inocncia.
- Claro que ele no ia confessar. Mas as provas eram todas contra ele. Matou
meu irmo com a arma que papai colocara no porta-luvas do carro para nos
proteger.
- Ele alguma vez demonstrou insatisfao?
- Nunca. Soube enganar-nos muito bem.
- Voc j pensou que ele pode mesmo estar dizendo a verdade e ser inocente?
Rui sacudiu a cabea energicamente.
- Isso no  possvel. Alm da arma, h o cachecol dele que estava na mo de
Alberto. Depois, ele foi visto com o carro perto do local do crime. Foi ele
mesmo.
Nair calou-se. Suspeitava de Rino, mas no possua nenhuma prova. De que
lhe adiantaria falar? Ningum acreditaria. Depois, e se Rino fosse inocente?
Eram apenas suspeitas, nada mais.
- Sinto t-lo feito recordar-se de um assunto to triste. Mas, quando no
podemos fazer nada, o melhor  tentar esquecer.
- Tem razo.  difcil mas  preciso.
- Obrigada por ter me escutado. Ainda penso que se Mariazinha conversasse
com voc, desabafasse, talvez sasse da depresso em que se encontra.
Rui deu de ombros.
- Se acha que posso fazer alguma coisa, vou dar-lhe um carto meu. Telefone
e combinaremos.
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Tirou do bolso um carto e entregou-o  moa. Terminaram de tomar o
refresco e despediram-se.
- Que Deus os ajude a esquecer - disse a moa com sinceridade.
- Vai ser difcil, mas o que podemos fazer? Obrigado e at outro dia.
- Telefonarei.
- Est bem.
Guardando o carto na bolsa, Nair sentia-se esperanosa. Se Mariazinha
falasse com Rui, desabafasse, conseguisse esgotar sua mgoa, poderia
esquecer aquela tragdia e partir para uma vida normal.
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Captulo 3
Rui saiu da confeitaria um tanto nervoso. Era-lhe penoso recordar-se da morte
do irmo. Lembrando-se de Jovino, um sentimento de rancor invadiu-lhe o
corao. Sentia vontade de esgan-lo com suas prprias mos. Profunda
amargura sombreava-lhe a fisionomia enquanto caminhava rumo ao lar.
Um garoto aproximou-se de mo estendida: Moo, me d uma ajuda?
Rui teve vontade de esmurr-lo. Sai daqui seu sem-vergonha - disse com
raiva. O moleque saiu assustado perdendo-se no meio dos transeuntes. Sua
me devia ter jogado o Jovino na rua, -pensou o moo irritado.
- de que lhe adiantara proteger aquele traidor? Alimentara a serpente que os
haveria de destruir.
Seu corao estava apertado e seus olhos refletiam a revolta e o dio que lhe
iam na alma. Nada havia para ser feito e a sensao da prpria impotncia
esmagava-o. Contra a morte, no havia remdio.
Chegou em casa, cenho carregado, engolfado nos prprios pensamentos. No
aceitava a morte do irmo, em plena juventude e de maneira to trgica.
Magali, vendo-o entrar na sala, observando sua fisionomia, procurou acalm-lo.
- Voc voltou cedo. Hoje  sbado, pensei que s voltasse pela tarde.
- No tenho disposio para passeios - respondeu Rui de mau humor. - Perdi o
companheiro. Sozinho no tem graa.
Magali aproximou-se fitando o irmo preocupada. Ela tambm sofria pela
tragdia que abalara toda a famlia. Porm, tinha vinte anos, uma vida inteira
pela frente. Amava o irmo desaparecido to tragicamente, mas no queria
passar a vida inteira chorando. Nada que fizesse poderia devolver a vida de
Alberto. Era um fato consumado e sem volta. Tinham que superar a dor e
continuar a viver. Ela recusava-se deixar vencer. Aceitava a morte do irmo
contra a qual nada lhe restava fazer, mas queria refazer sua vida.
Suspirou fundo, depois disse:
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- Compreendo sua dor, mas Alberto no voltar nunca mais. Voc no pode
passar a vida se lamentando. Precisa fazer amigos, sair, levar vida normal.
- Voc  insensvel. Como pode dizer isso?
-Engana-se. Sinto tanto quanto voc pelo que aconteceu, porm, no nos cabe
culpa alguma, assim como tambm nada podemos fazer para mudar os fatos.
Contudo, no pretendo passar minha vida toda chorando. Quero viver, ser feliz,
usufruir da minha mocidade.  injusto destruir nossas vidas por um drama que
no criamos e que no podemos modificar.
- Isso  egosmo. Nossos pais sofrem, ns sofremos e voc pensa em sua
prpria felicidade. No v que nunca mais seremos felizes? No percebe que a
sombra de Alberto estar sempre em nossas vidas, como uma chaga dolorosa
que sempre carregaremos?
Magali sacudiu a cabea.
- No eu. Eu quero libertar-me dela. Vocs no so religiosos? Mame no
vive na igreja a ouvir sermes e a rezar? Por que no aceitam a vontade de
Deus?
- No blasfeme. Deus no pode permitir um assassinato como aquele.
- Nesse caso, o assassino  mais poderoso do que Deus?
- Voc  criana, s fala besteiras
- retrucou ele srio.
- Vocs dizem sempre que Deus  absoluto. Que pode tudo. Que no cai uma
folha da rvore sem que ele permita. Logo, se Alberto morreu daquela forma,
foi com a permisso de Deus.
- Que absurdo!
- Ento ele no pde impedir, logo, ele no  to absoluto se um reles
assassino pode mais do que ele.
- No se pode conversar com voc que s diz asneiras.
- Voc no tem argumentos
- fez ela triunfante. -
- O que eu quero dizer : se Deus permitiu, quem somos ns para no aceitar?
Voc quer ser maior do que Deus.
- Quando voc comea com essas idias, no h quem agente. Deixe-me em
paz.
Magali segurou o brao do irmo dizendo com voz splice:
- Rui, no vale a pena guardar tanta tristeza. No tem jeito mesmo. Ns
precisamos esquecer. A vida continua e nossos pais precisam de ns. Se
perdemos o irmo, eles perderam o filho. Isso di muito
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mais. Temos que cultivar a alegria para que eles encontrem em ns a ajuda
que necessitam. Se nos abatemos, se destrumos nossas vidas, como > eles
podero suportar a dor? Se formos felizes, eles se sentiro confortados.
Perderam um filho, mas pelo menos, os outros dois foram felizes. No acha
mais acertado?
Rui olhou a irm admirado. Sua fisionomia distendeu-se quando disse:
- No havia pensado nisso.
- Ns somos a esperana que lhes resta. Vamos faz-los felizes com o que
temos.
- Tem razo - considerou ele. - Eu a chamei de egosta mas s pensei em
minha dor. Perdoe-me. O egosta sou eu. Voc est certa. Vou esforar-me
para ocultar a tristeza e procurar melhorar.
- Podemos ir ao cinema hoje, - sugeriu ela sria. - Tem um timo musical no
Rosrio.
Rui sentiu mpetos de recusar, porm controlou-se.
Est bem. Iremos na sesso das quatro. Magali levantou-se na ponta dos ps
beijando a face do irmo com meiguice.
Agora sim. Encontrei meu irmo Rui. Ele sorriu. Sentia-se mais calmo. A
tenso havia passado.
Nair chegou em casa pela hora do almoo e esperou com impacincia que
Mariazinha voltasse da fbrica. Com o carto do Rui em seus dedos, foi
procur-la. A moa surpreendeu-se:
- O irmo do Alberto?
- Sim. O Rui, bonito e cheiroso como o irmo.
- Ele a viu?
- Claro. Voc acha que eu ia perder a chance? Sempre desejei encontr-lo.
Parei e cumprimentei.
'''' - Voc teve coragem?
- Naturalmente. Ele foi muito educado.  um moo fino. Estendeu-me a mo e
me reconheceu. Eu disse que precisava falar-lhe e ele conduziu-me a uma
confeitaria para podermos conversar.
O corao de Mariazinha batia descompassado. Seus olhos encheram-se de
lgrimas.
- E ento?
- Ele est muito sentido com a morte do irmo. No se conforma.
-  natural.
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- Pensa que foi o motorista.
- Pode ser.
- Eu no acho. Tenho minhas idias, mas no tenho provas. Mariazinha deu de
ombros. Conhecia os pensamentos da amiga.
- Falei de voc, do seu sofrimento, do seu amor pelo Alberto.
- E ele?
- Deu este carto. Combinamos de nos encontrar para conversarmos.
- Vocs dois?
- No, ns trs. Bem que eu gostaria que ele se interessasse por mim, mas
isso no aconteceu. Eu disse que voc no esqueceu o Alberto, e ele quer
conversar um pouco. S isso. Pensei que voc fosse gostar.
- Claro. Tudo quanto diz respeito ao Alberto interessa-me.
- Amanh  domingo. Podemos telefonar e marcar um encontro. Mariazinha
segurou o brao da amiga com fora.
- Faa isso. Mal posso esperar.
No dia seguinte, Nair telefonou para Rui que no se sentia com vontade de
encontrar-se com elas. No desejava rever o lugar onde Alberto perdera a vida.
Deu uma desculpa alegando outro compromisso e arrependeu-se de ter-lhes
dado o nmero do telefone.
Magali, vendo-o recusar o encontro comentou:
- Por que no saiu com a garota? Desde quando recusa um convite desses?
- No sinto vontade. No se trata da minha garota.  a amiga de Mariazinha, a
menina que o Alberto foi procurar naquela noite.
Magali olhou-o curiosa.
- O que ela quer com voc?
- Encontrei-a na rua ontem. Disse-me que Mariazinha tem estado doente desde
que o Alberto morreu. Pediu-me para conversar com ela.
- Ficou muito chocada,  claro.
- Ficou impressionada. Nair contou-me que ela se recusa a sair para passear,
vive triste e chorosa. Ela acha que se eu conversasse com ela, talvez pudesse
ajud-la de alguma forma.
Magali considerou: ,
- Eu gostaria de conhec-la. Afinal, Alberto gostava dela, seno, no teria
voltado a v-la.
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- De certa forma, ela foi culpada. Se ele no houvesse ido a sua procura, talvez
ainda estivesse vivo.
- No seja injusto. Se o Alberto tinha que morrer daquele jeito, isso ia acontecer
de uma forma ou de outra. A moa nada teve com isso. perdeu o namorado, o
que sempre  triste.
- Aquele cachorro estava aqui, dentro de casa, ia matar de qualquer forma.
Nesse ponto voc tem razo, mas no acho que minha presena possa faz-la
esquecer. Ao contrrio. Vendo-me, ela se recordar mais dele.
- No sei, no. Voc podia ter marcado o encontro. No custava nada ter ido.
Eu gostaria muito de conhecer essa moa.
- Uma pequena bonita de bairro, nada mais.
- Que interessou o Alberto.
- Bobagem. Coisa passageira por certo.
Nair desligou o telefone decepcionada.
- Ele no pode. Tem outro compromisso.
- Ou no quis encontrar-se conosco. Afinal, para qu? Nada que fizermos vai
trazer o Alberto de volta...
- Telefonaremos outro dia. No vamos desistir.
Naquela mesma tarde, Nair foi a procura da amiga.
- Vamos dar uma volta. Quero sair, passear um pouco.
- No tenho vontade, - respondeu Mariazinha desanimada.
- E eu? Voc no  minha amiga? Quero passear, ver gente, estou cansada de
ficar em casa. Que tal irmos at a cidade ver as vitrines? Podemos tomar um
sorvete.
- Est bem, vamos.
Nair sorriu satisfeita. Estava cansada de ver as lojas da cidade, mas queria tirar
a amiga de casa de qualquer jeito. Quando estavam no bonde Mariazinha
perguntou:
- Voc trouxe o carto do Rui?
- Est na bolsa, por qu?
- Tem o endereo. Eu li. Sinto uma vontade imensa de ver onde Alberto
morava, sua casa, parece que indo l, eu fico mais perto dele.
Nair abanou a cabea.
- Samos para passear. Para esquecer as tristezas. De que lhe servir ir at l?
Vai ficar mais triste ainda. No. Ns no iremos.
Mariazinha agarrou a mo da amiga com fora.
- Por favor! - pediu com voz splice. - Eu quero ver a casa!
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- Nair suspirou fundo. Teria sido bom haver conseguido aquele endereo?
Estava relutante. Mariazinha insistia. Desceram na Praa da S e tomaram
outro bonde para a casa de Alberto.
Os olhos de Mariazinha brilhavam de forma diferente e Nair observava-a com
ansiedade. Chegaram. Foi fcil encontrar a casa, Mariazinha parou frente ao
porto de ferro da entrada, corao batendo forte, olhando o jardim bem
cuidado com emoo.
- Voc j viu a casa, agora vamos embora - disse Nair querendo afast-la dali.
- No, - disse ela firme. - Conheo este lugar. Vou entrar.
- No faa isso. Viemos s olhar a casa. Vamos embora.
- No, - repetiu ela tentando abrir o porto sem conseguir.
Seus olhos estavam abertos e pareciam olhar sem ver. Nair assustou-se.
Mariazinha no estava bem. O que ela sempre temera, havia acontecido. Seu
sistema nervoso no suportara mais aquela depresso, aqueles pensamentos
doentios.
Olhou em volta, mas no havia ningum. Precisava levar a amiga embora dali.
Segurou-a pelo brao.
- Mariazinha, vamos embora. Chega. Vamos para casa. A moa soltou o brao
com violncia.
- Deixe-me em paz. Daqui eu no saio. Preciso de ajuda. Vou entrar!
Nair apavorou-se:
- Mariazinha! Vamos embora. Algum pode ver e no vai ficar bem
- Eu vou entrar. Para isto vim. Ningum vai tirar-me daqui! Abra este porto. Eu
vou entrar!
Sacudia o porto com ambas as mos. Nair estava apavorada. Mariazinha
demonstrava estar fora de si.
Algum abriu a porta da casa. Era Magali. Saiu admirada, vendo Nair puxando
Mariazinha que, agarrada ao porto, o sacudia. O que estava acontecendo?
Foi at l.
- O que  isso? - indagou admirada.
-  Mariazinha, - disse Nair preocupada. - Quis ver a casa de Alberto e teve
uma crise. No consigo control-la. Desculpe por favor
Mariazinha parou e olhou fixamente para a moa que a encarava curiosa.
- Magali!
- disse
- Que saudade! At que enfim!
Antes que uma das duas pudesse dizer alguma coisa, Mariazinha desmaiou.
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Nair amparou-a assustada. Magali abriu o porto rpido, ajudando-a a
sustentar o corpo da moa.
- Meu Deus, - gemeu Nair. - Ela est mal!
- Desmaiou, - disse Magali. - Acalme-se. Vamos lev-la para dentro.
Tocou a campainha no porto e uma criada apareceu. As trs levaram
Mariazinha at a sala de estar, colocando-a no sof. Rui acorreu preocupado.
Seus pais haviam sado, mas Magali procurou socorrer a moa afrouxando-lhe
a roupa e colocando um vidro de amonaco perto do seu nariz. Mariazinha
suspirou levemente.
- Graas a Deus! - fez Nair. - Que susto!
- O que houve? - indagou Rui.
- Ela quis ver a casa do Alberto. Disse que queria s passar em frente, ver
onde ele tinha vivido. Porm, quando chegamos aqui, ficou transtornada, disse
coisas sem nexo, parecia fora de si. Agarrou-se ao porto e queria entrar de
qualquer jeito. No consegui afast-la. Quando vi 11'0 chegou - apontou Magali
- ela desmaiou.
- Ela me conhecia - disse Magali impressionada - chamou-me pelo nome e
disse que sentia saudades.
, - Ela disse coisas sem nexo, - resmungou Rui. - Estava fora de si. - Eu
nunca a vi antes. Como sabia o meu nome?
- Com certeza Alberto falou de voc. Olha, parece que ela est melhorando.
Suas cores esto voltando. J respira normalmente.
O moo estava aborrecido. Por que dera o carto a elas? Magali porm,
condoa-se da moa. Compreendia seu abalo. Sentou-se a seu Lado.
Mariazinha abriu os olhos ainda um tanto alheia, aos poucos foi se sentindo
melhor. Olhou Nair um pouco assustada.
-Nair! O que aconteceu?
- Voc desmaiou. No se lembra?
-Eu?
- No importa. Agora voc j est bem, - disse Magali olhando-a com simpatia.
- Vou mandar trazer um caf.  bom para reanimar.
Mariazinha estava envergonhada.
- No se incomode. J vamos embora. Desculpe o incmodo. - Olhou para o
Rui admirada.
, - Voc por acaso no  o Rui?
- Claro. Voc est em minha casa.
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Ela corou encabulada. Estava em casa do Alberto. Seus olhos encheram-se de
lgrimas.
- Voc  a irm dele? - indagou emocionada.
- Sim. Magali. Chamou-me pelo nome, no se lembra?
- Eu?! No sabia que se chamava Magali. Muito prazer.
- Melhor pedir o caf, - disse o Rui.
A moa parecia mesmo muito perturbada.
- Desculpe, - continuou Mariazinha sem saber o que dizer. - No tencionava
incomodar. Porm, sinto uma sensao diferente, uma emoo muito grande.
-  natural, - disse Nair. - Voc no tem feito outra coisa seno pensar no
Alberto, falar no Alberto, desde que ele morreu. Bem que eu no queria vir.
Voc precisa esquecer. Afinal, o mal  sem remdio.
As lgrimas corriam pelas faces de Mariazinha sem que pudesse cont-las. Rui
apressou-se em pedir o caf e o trouxe ele prprio. Era muito desagradvel
aquela situao. Fora ingnuo em dar o carto. A moa era desequilibrada e
poderia trazer-lhes aborrecimentos. Magali pegou a xcara e a ofereceu a
Mariazinha.
- Beba. Vai sentir-se melhor.
Ela apanhou a xcara e suas mos tremiam tanto que Nair perguntou:
- Quer que segure?
- No, - respondeu Mariazinha procurando dominar-se. Apesar do tremor que
lhe sacudia o corpo, bebeu o caf.
Magali sentou-se a seu lado. Mariazinha era bonita e apesar de vestir-se
modestamente, era elegante, discreta, tinha bom gosto, Compreendia porque
seu irmo se interessara por ela. Seus olhos eram brilhantes e seu rosto muito
expressivo. Mariazinha devolveu a xcara a Magali dizendo:
- Obrigada. Sinto-me melhor.
- Ento vamos embora, - decidiu Nair percebendo o desagrado de Rui e
contrariada por ter atendido o desejo da amiga. Parecia-lhe estar abusando da
confiana dele, invadindo sua casa quando ele recusara encontr-las. Estava
claro para ela que Rui no tinha outro compromisso. Simplesmente no
desejava v-las.
Mariazinha fez meno de levantar-se. Magali a deteve.
- Fique um pouco mais. Voc ainda est trmula e um pouco plida. No se
preocupe. Espere melhorar para poder sair.
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-  muito gentil, - respondeu Mariazinha olhando-a nos olhos. Sentiu-se bem
ali. Gostava da casa, dos mveis e mais ainda da moa bonita e educada que
a olhava com simpatia. Percebia que ela a compreendia. Era a irm do Alberto,
com certeza eles se amavam muito. Aos poucos foi se sentindo mais calma.
Suas mos esquentaram, o tremor passou.
Mariazinha levantou-se. Despediu-se de Rui. Nair, estendendo a mo a ele,
prometeu:
- Fique tranqilo. O que aconteceu hoje, no mais se repetir. No voltaremos
a incomodar. Eu no sabia que ela pretendia entrar aqui.
Rui apertou a mo dela respondendo srio:
- Estas cenas so sempre desagradveis. Para ns, j basta nossa prpria
tragdia. Nossos nervos no suportam mais. Agradeceria muito que voc
cuidasse disso realmente. Ainda bem que mame no estava, teria entrado em
crise, chorado, recordado tudo novamente.
Nair lanou um olhar furtivo a Mariazinha que j no jardim conversava com
Magali. Felizmente no tinha ouvido.
- Fique tranqilo. Apesar do que houve, Mariazinha  discreta e no pretende
perturbar ningum, muito menos vocs. Adeus.
Nair estava irritada. Rui demonstrara frieza e orgulho. Pena. Bonito por fora,
feio por dentro, - pensou ela desalentada. - O Alberto tambm seria assim?
Estaria Mariazinha chorando por quem no merecia? Agora, mais do que
nunca, lutaria para que ela pudesse esquecer.
Magali acompanhou Mariazinha ao porto.
- Estou envergonhada, - disse ela. - No sei o que se passou comigo. Nunca
tive isso antes. Foi a primeira vez na vida que desmaiei. Sempre fui saudvel,
equilibrada. Logo aqui que eu gostaria de causar uma boa impresso.
Magali olhou-a firme nos olhos:
- Sempre tive vontade de conhec-la. Queria saber quem tinha abalado o
corao do Alberto. Ele ficou muito impressionado com voc.
Os olhos de Mariazinha iluminaram-se.
- Ele falou em mim?
- Na ocasio no prestei muita ateno. Voc sabe, ele e o Rui sempre
conversavam sobre garotas. O Rui caoou muito dele porque ele falava em
voc e estava muito interessado.
- Obrigada por me haver contado. Conhecer o Alberto foi para
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mim a coisa mais maravilhosa. Apaixonei-me desde o primeiro dia. Ele
correspondeu. Quem poderia prever o que ia acontecer?
- De qualquer forma, gostei de conhec-la. Gostaria de conversar mais com
voc, um outro dia quando estiver mais calma. Posso contar-lhe muitas coisas
sobre ele. Voc me falar como ele era para voc. Vamos matar as saudades?
Mariazinha sorriu:
- Faria isso? Verdade? Sinto-me acanhada. O Rui no gostou de eu ter vindo
perturbar seu sossego.
- No gostou mesmo, - disse Nair que tinha ouvido as ltimas palavras da
amiga. - Acabo de prometer-lhe que nunca mais voltaremos aqui.
Magali sacudiu a cabea.
- No se preocupe com as rabugices do Rui. Ele tambm est muito
acabrunhado com o que aconteceu. Ele e Alberto eram inseparveis. At
agora, ele ainda no aceitou o que aconteceu. Antes, ele era mais alegre,
agora, est contra o mundo. Mas no importa. Eu pretendo v-la muitas vezes.
Se me der o endereo, irei  sua casa qual quer dia destes.
Nair suspirou. Estava difcil cortar as lembranas de Mariazinha. porm, no
teve outro remdio seno pegar um papel na bolsa e escrever o endereo.
- Eu trabalho durante a semana, mas a noite ou aos domingos eu estou.
- Talvez no prximo domingo. Vamos ver, - prometeu Magali.
- Adeus e obrigada, - despediu-se Mariazinha estendendo a mo. Magali
apertou a mo que ela lhe oferecia e puxando-a para si, beijou-lhe as faces
com sinceridade.
- Tive muito prazer em ver voc. Senti o Alberto muito perto de mim. Espero
que se sinta melhor.
- Obrigada.
- Adeus, - tornou Nair.
Magali beijou-a na face com delicadeza. Quando saram, Magali entrou na sala
onde Rui tomava um caf, olhar perdido em um ponto distante.
- Voc podia ter sido mais atencioso - reclamou ela. Arrancado de seu mundo
interior, ele respondeu:
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Tenho mais em que me ocupar do que suportar a histeria de uma menina
desequilibrada.
- No seja rude. A moa estava em crise, no me pareceu nem histrica nem
louca.
No falava coisa com coisa... Magali sentou-se pensativa.  estranho que em
sua crise ela soubesse o meu nome. Falou comigo como se me conhecesse.
Nunca nos vimos antes. Como poderia?
- Bobagem. Quem nos garante que Alberto no tenha falado em Voc,
mostrado seu retrato?
- Que eu saiba ele no andava com nenhum retrato meu na carteira.
- Voc sempre se apega a detalhes sem importncia. Ser mesmo que ela
disse isso? No pode ter-se enganado?
Magali sacudiu a cabea. Certamente, no. Que ela disse tenho certeza. Disse
tambm: que saudades! Saudades de qu? Nunca nos vimos antes.
O que prova que ela estava fora de si. Vamos esquecer este assunto que
estragou meu domingo. Arrependo-me de ter lhe dado o carto.
Eu gostei. Mariazinha  moa boa e sincera. Pretendo conhec-la melhor.
- Voc no a convidou para vir aqui, convidou?
- No. J que voc foi to indelicado, e ela percebeu, vou  sua casa qualquer
dia destes.
Rui deu um salto e segurou Magali pelo brao.
- No far isto. No permitirei.
- Por qu?
- O ambiente l no  para voc. No deve misturar-se com essa gente.
- O que tem isso? Mariazinha  uma moa bem-educada.
- Uma operria!
- Rui! Desde quando se julgam as pessoas pela sua posio social? So esses
valores podres e distorcidos que vocs querem impingir-me. Pode saber desde
j que no vo conseguir. Recuso-me a escolher meus amigos pela posio
que desfrutam. Um dia vocs vo arrepender-se de tanto orgulho.
-No vou discutir com voc. Papai  que vai cuidar da sua rebeldia.
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No quero que v ver essa moa e pronto. Papai e mame concordaro
comigo.
- Vocs so farinha do mesmo saco. Eu no penso assim.
- Voc se mistura com a ral. O Alberto deu-se mal. Ainda no foi o bastante?
- Sei o que fao - respondeu ela sria e afastou-se antes que Rui revidasse.
Ele tinha mu gnio, mas o pior  que o dr. Homero e Aurora sempre o
apoiavam. Ela era mulher, mais nova, tinha que obedecer ao irmo. No tempo
do Alberto, este sempre a protegia. No deixava o Rui fazer o que queria. Ele
sempre dava a ltima palavra. Tinha muita ascendncia sobre o irmo e at
sobre os pais. Agora, sem ele, Rui dava vazo a seu temperamento hostil, sem
que ningum o contivesse. Os pais eram condescendentes com ele. Afinal, era
agora o nico filho homem.
Eram severos com Magali. Uma moa precisava ser submissa, educada, sem
muita cultura para no ficar pedante mas boa filha para poder encontrar um
bom marido e vir a ser boa esposa e me.
Magali tinha idias prprias e reagia s determinaes da famlia. Gostava de
ler sobre todos os assuntos e discutir livremente seus pontos de vista, no que
era sempre muito criticada pelos pais e pelo Rui. Alberto era mais liberal. Com
ele trocava idias, podia dizer o que pensava e ouvia sempre esclarecimentos,
orientaes, que mesmo no sendo aceitas inteiramente por ela, davam
margem a reflexes proveitosas.
Era com ele que ela conversava mais, principalmente sobre os assuntos
proibidos. Apesar do pai ser mdico, no podia mencionar certas doenas que
lembrassem sexo, gravidez. Adultrio e desquite tambm eram temas
proibidos.
Magali tinha sede de saber. Obteve permisso s para ler os romances da
coleo das moas, onde a herona era sempre cheia de virtudes, rodeada pela
maldade de algumas pessoas e que ao sacrificar-se pela honra e pela
renncia, acabava por derrotar seus inimigos.
Ela tambm gostava de ler esses livros. Era romntica. Contudo, sentia-os
muito distantes da realidade e buscava respostas atravs de outros livros
cientficos, filosficos, enfocando os problemas humanos do dia-a-dia. Quando
conseguia um desses livros, escondia-o e lia-o no
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Quarto, at altas horas da noite, meditando sobre eles. Depois, perspicaz e
observadora, procurava testar essas teorias na vida prtica, rejeitando o que
no achasse verdadeiro.
Por essa razo, muitas vezes no concordava com o que a famlia desejava
que ela fizesse. Habituada a questionar as coisas, Magali no se submetia aos
acanhados padres dos familiares, embora condescendesse em admitir que
eles agiam assim pretendendo poup-la aos problemas da vida, desejando
mostrar-lhe apenas o lado cor-de-rosa que ele, em sua ingenuidade,
favoreciam.
Ela irritava-se com isso, porque seus pontos de vista eram to singelos e pueris
que ela sentia-se subestimada em sua inteligncia. Por isso, era considerada
rebelde e os pais apoiavam Rui na difcil tarefa de disciplin-la.
No importa - pensou Magali trancando-se no quarto. - Vou visitar Mariazinha
e pronto. Vou escondido.
No gostava de mentir mas era a nica forma de escapar daquela presso
injusta e sem sentido. Ela sabia o que queria e quando resolvia uma coisa,
ningum a faria desistir, a no ser que lhe provassem estar errada. Quando se
convencia de que no tinha razo, voltava ATRS com a maior facilidade.
Estendeu-se no leito e como era seu costume, procurou recordar os
acontecimentos da tarde. Ela tinha o hbito de rever tudo quanto lhe acontecia
nos mnimos detalhes. Era possuidora de rara acuidade de percepo, bem
como de certa facilidade, desenvolvida pelo uso, de fotografar com a mente os
fatos que a interessavam.
Foi com certa facilidade que recordou-se de tudo. Estava na sala quando ouviu
um rudo no porto, abriu a porta e viu duas moas l fora. Ela reviu tudo
mentalmente e chegou a sentir de novo a emoo que as primeiras palavras de
Mariazinha lhe causaram. Tivera vontade de abra-la, logo depois substituda
pelo susto, vendo-a desmaiar.
Por que tanta emoo frente a uma moa desconhecida? Estaria sendo
romntica, deixando-se envolver pela atmosfera mstica de Mariazinha? No
saberia dizer. S sabia que a presena da moa a emocionava muito e que
desejava ir a sua casa, conhec-la melhor. Talvez seu amor pelo Alberto as
aproximasse. Sentia-se tocada no ntimo do ser e essa sensao desconhecida
era como um m levando-a a buscar de novo a presena de Mariazinha.
Decidiu ir v-la, assim que pudesse iludir a vigilncia do irmo. Ele
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era astuto. Por certo, estaria de olho nela para tentar impedi-la. Magali sorriu.
Teria o prazer de despist-lo. Apanhou um livro que escondera sob o colcho e
tranqilamente comeou a ler.
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Captulo 4

Mariazinha chegou em casa um pouco triste. Nair passara-lhe um sermo
durante o trajeto, insistindo que no ficava bem perturbar a famlia de Alberto j
to sofrida, afirmando que ela, Mariazinha, acabaria doente se no procurasse
esquecer.
Nair tinha razo. Ela compreendia isso. Todavia, nos dias que se seguiram,
embora tentasse reagir, sentiu-se debilitada, descontrolada. Idias diferentes
afluam ao seu pensamento, provocando inquietao, desespero, revolta e
depresso.
Aquele desmaio a preocupava muito. Por isso finalmente decidiu ir ao mdico.
A noite, no dormia bem, as nuseas e as dores de cabea repetiam-se a
mide. Quando conseguia pegar no sono, ouvia como que Um estrondo que a
acordava, em meio ao terror, a angstia e a dor na cabea.
Estava doente. Embora amasse Alberto, no desejava morrer. Ao contrrio,
amava a vida, apesar de tudo. Seus pais preocupados queriam que ela tirasse
uma licena na fbrica, ela recusava-se.
Marcou o mdico e resolveu esquecer Alberto. Era triste, mas a situao no
podia continuar. O mdico ouviu os sintomas e diagnosticou abalo nervoso.
Receitou calmantes e sugeriu que ela procurasse SE interessar por outros
rapazes para esquecer.
Mariazinha saiu do consultrio mais animada. Precisava reagir. O sonho
terminara. Alberto no voltaria nunca mais.
Nessa disposio, comeou o tratamento mdico. Vitaminas e calmante para
dormir. Sentiu-se melhor.
Uma noite, sonhou com Alberto. Ele estava plido, abatido, e em meio a uma
neblina chamava-a insistentemente. Mariazinha sentiu grande emoo. Olhou
para ele que lhe estendeu os braos, dizendo:
- No me abandone, pelo amor de Deus! Voc pode me ajudar! Por favor, no
me deixe! Preciso muito de voc. Est tudo errado, e eu sofro muito por isso.
S voc me escuta. Tem d de mim, ajude-me!
A moa trmula, surpreendida, respondeu:
- O que posso fazer? Voc est morto! Preciso esquecer.
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-  mentira! Eu no morri. Estou aqui. Eu a amo muito. No me
deixe. Ajude-me. Sofro muito!
Mariazinha horrorizada viu os ferimentos de bala em seu corpo e
sentiu-se mal.
- No tenha medo - pediu ele. - No vou fazer-lhe mal. S quero
ajuda. No me expulse do seu lado nem do seu corao. Deixe-me
ficar!
- No posso - balbuciou ela. - Estou doente. Preciso esquecer.
Ele aproximou-se, tentando abra-la, e Mariazinha chegou a ouvir a
respirao dele em seu rosto. Apavorada, acordou, corao batendo
descompassado, corpo coberto de suor frio e um tremor incontrolvel.
Assim que teve foras, gritou pela me que acudiu prontamente.
- Mame, eu vi o Alberto - disse ela nervosa. - Ele veio pedir para
que eu no o abandone! Quer ficar comigo.
D. Isabel sentiu um arrepio de medo mas reagiu.
- No vai ficar, no. Deus  grande. O lugar de quem j morreu 
no outro mundo. Que Deus o perdoe.
Mariazinha soluava, abraada  me.
- Ele disse que me ama! Que precisa de ajuda. Pediu para no o
esquecer.
Isabel alisava a cabea da filha e respondeu j mais calma:
- Foi apenas um sonho. Voc ainda est muito abalada. O mdico disse que
est com os nervos atacados. Um sonho no  verdade. 
uma fantasia. Voc diz que quer esquecer, mas no fundo ainda pensa
nele. Foi isso. S um pesadelo, nada mais.
- Ele estava vivo, falou comigo, vi os seus ferimentos. Ele tinha
um buraco na testa, do lado esquerdo. Oh! mame, foi horrvel! Estava
plido e pedia que o ajudasse.
- Foi pesadelo, repito. Voc nem sabe onde foram os tiros. No me
parece que tenham sido na testa. Depois, ele est morto, bem morto,
enterrado e tudo. Como poderia estar vivo? Os mortos no voltam,
infelizmente. No seja criana. Foi pesadelo, pode crer.
- Ele quis me abraar. Disse que me ama.
Isabel sorriu.
- Est vendo?  o que voc gostaria que fosse verdade. Que ele
estivesse vivo, que dissesse que a ama. No v que foi fruto da sua
fantasia?
- A impresso foi muito forte. Senti a respirao dele em meu rosto.
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Tive medo. Ele estava plido, sofrido, depois, eu sabia que ele estava morto e
que eu estava vendo um fantasma.
- Bobagem, filha. Acalme-se. Vou fazer um ch de cidreira. No
pense mais nisso. Foi s um pesadelo.
Mariazinha acalmou-se um pouco. Porm, no dia seguinte, a figura de Alberto,
conforme o tinha visto no sonho, no lhe saa do pensamento. Sua me tinha
razo - pensava. - Alberto estava morto e os
mortos no voltam. No acreditava que eles pudessem voltar.
Ainda assim, no conseguia tirar aquela cena dolorosa da mente.
Quando fechava os olhos, parecia-lhe ver Alberto estendendo-lhe os
braos pedindo ajuda, seus olhos sofridos, seu rosto plido e a ferida terrvel
em sua testa.
Ele lhe dissera estar tudo errado. Por qu? Seria errado ela tentar
esquecer? Sentia-se confusa. Todos lhe diziam para tirar Alberto da
lembrana. At o mdico. Por que sonhara com ele pedindo o contrrio?
Preocupada, sem conseguir entender, atendeu aos conselhos de
Isabel, procurou o padre.
Ouvida em confisso, Mariazinha abriu o corao e o padre depois de ouvi-la
atencioso respondeu:
- Minha filha, refugie-se na orao. Est muito nervosa. Em seu
subconsciente, isto , no ntimo do seu ser, voc queria que ele estivesse vivo
e a amasse. Por isso sonhou. O sonho  a realizao de um
desejo, disse um grande homem que estudou muito a mente humana.
Foi o que aconteceu.
- Mas padre, se eu queria, por que tive medo? Eu queria o Alberto
bonito, alegre, como ele era e no aquele moo ferido, plido parecendo um
fantasma.
- Voc queria mas sabia que ele estava morto e fora ferido. Voc
mesma criou tudo isso. Teve um pesadelo, criado por sua prpria mente.
- No consigo esquecer o sonho padre!
- Vamos orar. Nosso Senhor Jesus Cristo vai ajudar. No tem f?
- Sim, senhor.
- Ento no esquea. Vamos deixar os mortos em paz.  pecado
estar perturbando o sono deles. Vai rezar dez pais-nossos e dez ave-marias,
agora e todas as teras-feiras, durante nove semanas. Essa novena a ajudar
a esquecer. Tenha f.
A moa concordou. O padre devia estar certo. A um canto da igreja, rezou a
penitncia e depois voltou para casa, sentindo-se um pouco
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mais calma. Mas  noite, ao deitar-se, tinha receio de dormir. E se
tivesse outro pesadelo?
Tomou o calmante e lhe pareceu que agora ele j no fazia o mesmo efeito. A
partir daquela noite, seu estado agravou-se. Acordava assustada, tinha medo
de dormir, sonhar de novo. Comeou a emagrecer, e seu rosto abateu-se a
ponto de seu chefe na fbrica aconselh-la
a procurar tratar-se. Seu trabalho decaiu de produo e embora ela lutasse
para faz-lo melhor, no conseguia.
Foi o mdico da fbrica quem diagnosticou anemia e abalo nervoso e
conseguiu uma licena, antecipando suas frias. Insistiu para que
ela viajasse para a praia ou para o campo, como lhe fosse mais fcil e
procurasse no repouso e na boa alimentao, recuperar-se.
Mariazinha voltou para casa desolada. Ela no conhecia ningum
que pudesse emprestar-lhe uma casa nessas condies, ou convid-la
para isso e no tinha meios para gastar com uma viagem dessas. Seu
pai, preocupado, resolveu:
- Se voc precisa ir para fora, daremos um jeito. Sua sade est
em primeiro lugar. Tenho algumas economias e por certo cobriro as
despesas. Voc ir com sua me para a praia. Ficar o tempo que for
preciso.
Isabel concordou:
- D. Dulce conhece uma penso boa em S. Vicente.
- Voc vai tambm? - indagou Mariazinha.
- No, filha. Tenho que trabalhar.
- Voc nunca ficou s em casa. Quem vai cozinhar para voc?
- Eu me arranjo. No vou morrer de fome por isso.
Mariazinha comoveu-se. Abraou o pai, beijando-lhe o rosto bondoso. Animou-
se. Podia considerar-se uma moa feliz. Era muito amada pelos pais.
- Iremos. Adoro praia. Haveremos de aproveitar bastante. Hei de
melhorar com certeza.
Foi com certa euforia que a moa preparou-se para viajar. Precisava
comprar mai e algumas peas de roupa. Alegre, Mariazinha foi ao
centro da cidade para as compras.
Andou bastante, comprou o que precisava. Sentia-se melhor.
Tomou um sorvete e dirigiu-se ao ponto do bonde para voltar. Enquanto
esperava teve uma surpresa desagradvel. Rino tambm estava l.
Vendo-a aproximou-se imediatamente.
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- Mariazinha! Que bom encontr-la.
- Ol - disse ela procurando dissimular o desagrado.
- Estava louco de saudades! Voc sumiu. No tem ido mais ao clube,
nem ao cinema. Por onde tem andado?
- Em casa. No tenho me sentido bem.
Ele olhou-a um tanto desconfiado e concluiu:
- , voc emagreceu. O que tem?
- Nada srio. Anemia, cansao, s.
Rino pegou-a pelo brao.
- Precisa cuidar-se. No quero que nada de mal lhe acontea.
Mariazinha tentou soltar o brao que ele segurava.
- Deixe-me segurar seu brao, por favor - pediu ele com emoo
- sinto vontade de abra-la, beijar seus lbios, apert-la de encontro
ao peito, aqui mesmo.
Mariazinha assustou-se.
- Por favor, Rino. Contenha-se. Estamos na rua. No gosto de
cenas.
O moo, empolgado pelo encontro inesperado, no estava disposto a perder
aquela oportunidade.
- No vou fazer nada, - prometeu ele. - Quero passar o brao
pela sua cintura, segurar sua mo, nada mais.
A moa sentiu que ele passava um brao em sua cintura enquanto que com a
outra mo procurava a sua. Algumas pessoas comeavam
a olhar e ela corou de vergonha. Tentou desvencilhar-se sem conseguir.
- Solte-me - pediu ela. - No faa isso. No somos namorados,
nem nada.
- Porque voc no quer. Eu no consigo esquec-la. Sonho com
voc, com seus beijos, seu amor. Voc ainda ser minha! H de me
amar tanto quanto eu a amo.
- Nunca! - reagiu ela. - Eu no mudarei. Largue-me, por favor!
Rino, cego pela emoo, sentindo a proximidade dela, no parecia disposto a
solt-la. Ao contrrio, apertou-a ainda mais, encostando o rosto aos cabelos da
moa, enquanto dizia-lhe ao ouvido:
- Eu quero voc! Nunca a deixarei. Nunca ser de outro, no
permitirei!
Foi nessa hora que o rosto de Mariazinha se modificou. Sua expresso de
medo foi substituda pela firmeza enquanto que fixando os
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olhos de Rino, como se quisesse penetrar em seu ntimo, disse com voz
modificada:
- Assassino!
Rino estremeceu violentamente e soltou Mariazinha imediatamente enquanto
seu rosto refletia o terror que lhe ia na alma. Ela,
olhos muito abertos, continuava a olh-lo com severidade:
- Deixe-a em paz, covarde.  comigo que voc vai ajustar contas!
Ainda nos encontraremos face a face.
O Rino tremia e seu rosto estava plido. Mariazinha fechou os
olhos e teria cado se o moo no a houvesse amparado. Ele queria sair
dali, seu desejo era de correr, desaparecer, mas a moa parecia atordoada,
e ele no podia abandon-la.
Felizmente ela j parecia melhor, e as cores tinham voltado a seu
rosto.
- O que foi? - perguntou ela, vendo o rosto plido de Rino e
percebendo algumas pessoas ao redor, inclusive uma senhora que segurava
seus pacotes.
- Sentiu-se mal, quase desmaiou - respondeu ele com voz que
procurou tornar natural.
- Sinto muito - disse ela tentando sorrir. - Estou bem agora. Pode
me dar os pacotes. J passou. Tive uma tontura. Estou em tratamento
mdico. Anemia. Andei muito hoje... obrigada... j estou bem.
Rino olhava-a temeroso. O que a moa sabia? Agora mais do que
nunca precisava t-la por perto, vigiar-lhe os passos. E se ela comeasse
a falar?
- Ser bom tomar um caf - props ele. - Vai sentir-se melhor.
Mariazinha sentia as pernas bambas e certa fraqueza. Teve medo
de aceitar. Rino percebeu e prometeu:
- No vou abra-la de novo. Peo que me perdoe. Estava com
muitas saudades. Perdi a cabea. No vai acontecer outra vez.
- Est bem - disse ela. - Aceito.
Foram a uma leiteria onde se sentaram. Ele estava curioso, precisava saber a
verdade. Pediu caf com leite e torradas. Enquanto esperavam, perguntou:
- Sempre se sente mal como hoje?
A moa passou a mo pela testa num gesto preocupado.
- Estou adoentada. Tirei frias da fbrica e vou para a praia com
mame. O mdico mandou.
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- Essa tontura... d sempre?
- No. Assim, no. Sinto-me fraca, angustiada, por causa da anemia, mas a
tontura como a de hoje, s tive duas vezes. A outra vez at
desmaiei. Hoje no cheguei a tanto. Estou com esgotamento
nervoso.
- Eu no sabia. Sem querer, provoquei seu mal-estar. Disse algumas palavras
desconexas, lembra-se delas?
A moa sacudiu a cabea.
- No. O que foi que eu disse?
- Bobagens sem sentido.
- Senti muita raiva de voc, depois uma onda de calor, uma dor
aguda na cabea, um torpor, s me recordo de ver seu rosto aflito perto do
meu e depois tudo passou.
- De fato, precisa tratar-se. O mdico tem razo.
- No sei o que se passa comigo - tornou ela, triste. - Tenho pesadelos, no
consigo dormir.
O rosto de Rino estava mais tranqilo quando disse:
- Voc ainda no esqueceu aquele caso. Precisa cuidar de sua
vida, esquecer o passado.
Mariazinha suspirou triste:
- No consigo. A figura de Alberto no me sai do pensamento!
- Esquea essa iluso. Mesmo que voc no me ame, deve sair dessa
confuso. O que passou, passou. Ele est morto e nunca mais voltar.
Voc  jovem, precisa viver a sua vida.
- Eu sei. Mas no consigo. Ainda uma noite destas sonhei com ele,
estava plido e implorava que eu o ajudasse.
- Foi fantasia. O sonho  iluso. O desabafo faz bem. Conte-me
como foi. Analisando seu sonho, voc pode descobrir a causa de seus
problemas emocionais.
Mariazinha esperou que o garom colocasse as coisas na mesa e
os servisse. Quando ele se foi, ela disse:
- Todos me dizem isso, mas foi to real que at agora me parece
verdade. Senti sua respirao no meu rosto e vi seus ferimentos. Tinha
um buraco na testa e outro no peito. No sei onde foram os tiros que
o mataram, mas na hora tudo parecia to real que no duvidei. O
Alberto estava comigo.
Rino estava plido. Remexeu-se na cadeira e perguntou:
- O que mais ele lhe disse?
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- Que estava tudo errado e que eu precisava ajud-lo a colocar as
coisas no seu lugar.
Rino levou a xcara aos lbios, procurando dominar o tremor que
lhe percorria o corpo.
- Tem pesadelo que parece verdade, mas no passa de iluso.
Felizmente a gente acorda.
-  verdade. Sei que foi s um pesadelo, mas a impresso foi muito
forte. Ainda agora, falando nisso, parece-me v-lo de novo. Ele me
disse que est vivo.
Rino sorriu:
- Por a voc percebe o absurdo. Est morto e bem morto. E os mortos no
voltam.
- Eu sei.
-  melhor esquecer.
- Estou tentando. Vou descansar na praia, tratar-me direitinho e
voltarei boa. Estou disposta a esquecer e a recomear minha vida.
Rino sorriu de novo com satisfao. Fora estpido de sua parte forar
a situao. O melhor mesmo seria conquistar-lhe a confiana, a amizade,
para chegar onde queria.
Tomaram o bonde de volta, conversando naturalmente durante
o trajeto. Mariazinha achava que assim Rino acabaria compreendendo e
aceitando sua recusa. Ele descia primeiro, ela seguia mais adiante.
- Vou descer no prximo ponto. Est se sentindo bem? Permite que
a acompanhe at sua casa?
A moa sacudiu a cabea:
- Obrigada. No precisa. Estou muito bem.
Rino tomou a mo dela apertando-a com delicadeza.
- Desculpe o meu arrebatamento. No pude controlar-me. Amo-
a muito. Prometo ser mais discreto.
- Passou. Quero que compreenda. Eu no o amo. No quero que
se iluda.
- A esperana  a ltima que morre - volveu ele, srio. - No quero
mago-la. Aproveite bem suas frias. Adeus.
- Adeus - disse ela aliviada por ver-se livre dele.
Mesmo depois do que aconteceu, a moa estava animada com a
viagem. Ia voltar curada. O mdico estava certo. Ela estava mesmo
muito nervosa. A insistncia de Rino havia evidenciado seu mal-estar.
Seus nervos no suportaram. Estava resolvida a tratar-se e recomear
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a vida. Afinal, era jovem e o Alberto estava morto. Outro homem
haveria de aparecer e ela aprenderia a am-lo, seria feliz de novo e no
deixaria sua oportunidade escapar.
Nessa disposio, no dia seguinte, arrumou as malas, despediu-se
de Nair a quem abraou comovida e viajou para Santos.
O pai acompanhou-as at a estao e quando o trem apitou,
abraou-as com fora recomendando:
- Cuide-se bem. Boa viagem.
As duas, acomodadas no banco, viram-no descer do vago e permanecer em
frente  janela onde Mariazinha se acomodara, abrindo-
a para v-lo melhor. Mais um apito e eis que o trem partiu, enquanto
as duas acenavam comovidas.
Seu Jos procurou conter as lgrimas sem conseguir.
Apressadamente passou a mo nos olhos tentando disfarar e olhando para os
lados a verificar se algum havia percebido sua emoo. Era
a primeira vez em vinte anos que elas saam sem ele. Confiava que sua
Mariazinha pudesse voltar curada.
Era sua nica filha, nascida quase cinco anos depois do seu casamento e
muito esperada. Isabel sofrera uma gravidez difcil e um parto penoso, depois
do qual ficara impossibilitada de ter outros filhos.
Mariazinha era para eles todo seu tesouro. Fariam qualquer sacrifcio
para v-la saudvel e feliz. Sentia-se confiante. Com a ajuda de Deus,
ela voltaria boa.
Nos dias que se seguiram, procurou acostumar-se  nova rotina.
A vizinha cuidava da casa e deixava sempre um prato de comida no
fogo. Isabel s concordara em viajar depois de ter acomodado as coisas
para o marido. No era justo que ele chegasse com fome do trabalho e
no tivesse nada para comer.
Sua vizinha tambm precisara dela quando fora cuidar da me
doente, e ela cuidara de tudo, lavara a roupa de todos, cozinhara e
dera at banho no cachorro. Agora, era justo que a outra a socorresse
o que alis ela prontificou-se a fazer de corao.
Apesar disso, Jos sentia muito a falta da famlia. Sua casa estava
triste, e ele consolava-se pensando no bem-estar da filha. Isabel, por
sua vez, tambm merecia esse descanso.
Uma tarde, ao chegar em casa do trabalho, foi surpreendido por
uma moa que tocava a campainha da porta. Aproximou-se:
- Procura algum? - indagou.
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- Mariazinha. No  aqui que ela mora?
- . Sou o pai dela.
- Muito prazer. Meu nome  Magali. Ela me deu o endereo e eu
vim visit-la.
- Sinto muito. Ela est viajando. Est de frias.
- Ah! No sabia. Quando estar de volta?
- Dentro de duas semanas, dia vinte e seis.
- Est bem. Voltarei depois desse dia. Quando ela chegar, diga
que a Magali esteve aqui e deixou um abrao.
Jos olhava-a admirado. Conhecia as amigas da filha e nunca havia
visto essa moa. Era bonita e agradvel. Gostou dela.
- Direi, sim. No deixe de voltar. Ser muito bem-vinda. Venha
tomar um caf conosco. Isabel ter muito prazer em receb-la.
Magali sorriu.
- Obrigada. Virei mesmo. At logo. Passe muito bem.
Jos entrou em casa, e Magali afastou-se um pouco contrariada por
haver perdido a viagem. Ao dobrar a rua, deparou com Nair.
- Magali!
- Nair! Que bom encontr-la. Vim visitar Mariazinha, mas ela
est viajando.
- Est. As coisas no andam bem com ela.
- Por qu?
- Est doente. Venha at minha casa, vamos tomar um caf. L,
conversaremos melhor.
- Aceito. Obrigada.
As duas moas entraram em casa de Nair onde a me da moa serviu
caf com bolo.
- Vamos conversar no meu quarto. Ficaremos mais  vontade.
Sentadas na cama, Magali perguntou:
- O que Mariazinha tem?
-No sei explicar. Ela no esquece o Alberto, contudo, me parece
que h alguma coisa de sobrenatural.
- Por que diz isso?
- Por vrios motivos. Veja voc. No comeo, ela no queria esquecer
o Alberto, mas agora ela quer. No dorme bem, emagreceu, tem anemia. Vive
deprimida. O mdico receitou calmantes, disse que  do sistema nervoso, mas
ela no melhorou com o tratamento. Assustada
com o rumo que as coisas esto tomando, ela quer sair disso e tem se
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esforado. Houve poca em que ela parecia bem melhor. Foi quando
teve o pesadelo. O sonho com Alberto.
- O sonho? - fez Magali, curiosa.
- Sim. Ela disse que ele apareceu, pedindo que ela no o abandonasse, que
precisava de ajuda.
- O que ele disse mais?
- Que estava tudo errado e que ela precisava ajud-lo a pr tudo
em seu lugar.
- Ele disse isso?
- Sim. E disse que estava vivo. Mariazinha contou que tudo parecia to real que
ela sentiu a respirao dele e viu seus ferimentos.
Magali olhou-a sria.
- Ela no teria ficado impressionada com os jornais ou coisa assim?
- No. Ela ficou to chocada por ocasio do crime que nunca quis
saber dos detalhes. Sequer sabia onde foram os tiros e quantos foram.
- Tem certeza disso?
- Absoluta. Tenho acompanhado tudo de perto. Sou sua amiga ntima e
confidente. Ela realmente no sabia.
- E onde ela disse que foram os ferimentos?
- Na testa e no peito. Ela via do lado esquerdo da testa.
Magali levantou-se surpreendida.
- Realmente, foram dois tiros. Um na testa e outro no peito. S
que o ferimento foi do lado direito da testa.
- Esse  um detalhe. Eu procurei me informar e descobri sobre os
ferimentos. No contei a ela, para no impression-la ainda mais.
- Fez bem. Voc tem razo. Tem se passado coisas estranhas com
ela. Aquele dia em minha casa, ela me chamou pelo nome e disse que
sentia saudades.
- No dei importncia a isso. Estava preocupada com a situao,
o escndalo e com ela. Afinal, eu tinha lhe dado o endereo. Seu irmo no
quis nos ver.
- No ligue para o Rui. Ele  assim mesmo. Diga-me, ela sabia o
meu nome? O Alberto havia falado em mim?
- Se falou, eu nunca soube. Sabamos que ele tinha uma irm,
alm do Rui. Eu mesmo o ouvi mencionar voc uma vez, chamando-
a de irmzinha.
- Era assim que ele sempre me chamava.
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- Eu no sabia o seu nome e acredito que Mariazinha tambm
no. Nunca o mencionou.
- E como se explica o que aconteceu? Isso tem me intrigado muito.
- Pensando bem, voc tem razo. Ela disse mesmo o seu nome.
- Disse. Voc falou em sobrenatural, acha que o Alberto pode estar mesmo
perto dela?
Nair sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
- No sei. Ns fomos outro dia em uma cartomante, voc acredita nisso?
- Mais ou menos. s vezes acertam algumas coisas, s vezes, no.
- Mas essa, disse que Mariazinha tinha dois apaixonados. Um  o
Rino, mau-carter que est sempre atrs dela. Foi a turma dele que atacou
seus irmos uma vez. E o outro, ns no identificamos, porque o
Alberto est morto. Ela garantiu que seu esprito continua ao lado dela,
e que ela deveria benzer-se em um'Centro Esprita.
- E ela foi?
- Foi nada. Ela no acredita nessas coisas. Acha que os mortos no
voltam. Foi ao mdico, ao padre, mas no conseguiu melhorar. Eu acho
que  mesmo o Alberto. Voc acredita nisso?
Magali sacudiu a cabea.
- No sei. Pensando bem, acho que pode ser. Afinal, para algum
lugar devem ir os que morrem na Terra. Meu irmo era cheio de vida,
de projetos para o futuro. Era generoso,, no posso crer que tudo isso
tenha se acabado quando aquelas balas o mataram. O esprito existe,
eu sinto que isso  verdade.
- Voc acha ento que poderia ser ele?
- Sabemos to pouco sobre essas coisas, mas por que no? J li um
pouco sobre isso e h at gente de muita cultura que acredita nisso.
- Eu pensei sempre que fosse coisa de gente simples, ignorante.
- Engana-se. H cientistas muito interessados nesses assuntos. J
pensou se for verdade? J pensou, por exemplo, que Alberto estaria
vivo em algum lugar e que um dia poderamos estar com ele, abra-lo de
novo, matar as saudades?
Os olhos de Magali brilhavam expressivos, e Nair comoveu-se:
-  verdade. Seria bom reencontrar os que j morreram. Mas tenho medo de
cultivar uma iluso.
- Ns sabemos muito pouco sobre isso, porm se fosse verdade, explicaria
tudo. A dificuldade de Mariazinha esquecer, a vontade de entrar
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em nossa casa, suas palavras ao ver-me, o sonho no qual ele contou que est
vivo.
-  verdade. Estou toda arrepiada.
- S no explica suas palavras, dizendo que est tudo errado.
- Tenho pensado muito nisso. Voc tem certeza de que quem
atirou no Alberto foi mesmo o seu motorista?
- Foi difcil acreditar. O Jovino sempre foi nosso amigo, nasceu em
nossa casa, era tido como da famlia. As evidncias eram contra ele.
- Eu sei. O revlver, a echarpe, mas ele jamais confessou. Sempre
jurou inocncia.
-  verdade. Mas, se no foi ele, quem foi? Afinal no houve
roubo.
- Eu tenho minhas suspeitas. Mariazinha no acredita, mas eu
acho que o Rino teve alguma coisa a ver com isso.
- A polcia no deu ateno ao caso. Mariazinha sequer o mencionou. S o
Jovino aventou essa hiptese.
- Ela foi ameaada pelo Rino. Ele chegou a prometer dar uma surra no seu
Jos caso ela contasse a polcia sobre a briga, ou sobre a paixo
dele por ela.
- Ela concordou?
- Ficou apavorada. Tinha medo da polcia. Nunca havia entrado
em uma delegacia. Depois, adora o pai. No queria que ele sofresse.
- Que canalha!
- O Rino no presta. Continua perseguindo ela. Felizmente ela no
o aceita. Para mim, ele  sem-carter e capaz de tudo, at de matar! 
rancoroso, prepotente.
Magali sentou-se novamente na cama.
- Isso faz sentido. Se o Jovino for inocente, est mesmo tudo errado.  preciso
fazer alguma coisa, achar o verdadeiro culpado. A alma
de Alberto no pode ter sossego enquanto no desfazer essa injustia.
- Estou assustada. Voc juntou todas as peas desse quebra cabea.
E agora, o que vamos fazer?
- No sei... Tentar chegar  verdade. Voc me ajuda?
- Mariazinha  para mim como uma irm. Eu a estimo muito.
Farei tudo por ela. Depois, odeio injustias. Se esse moo est preso,
inocente, avalio sua dor, seu sofrimento.
-  verdade! Tremo s em pensar nisso. Deus vai nos ajudar.
Descobriremos tudo.
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- Como? Tem uma idia por onde comear?
- No sei. Poderemos insistir com Mariazinha para ir ao Centro
Esprita.  preciso escolher um bom lugar, srio, eficiente. Tentarei
descobrir um. Possuo amigas que entendem dessas coisas... perguntaremos
ao Alberto o que aconteceu. Se ele est mesmo querendo comunicar-
se conosco, vamos dar-lhe uma oportunidade.
Nair abanou a cabea pensativa:
- Mesmo que essa hiptese seja real, e ele se comunique contando a verdade,
ns vamos precisar de algo mais. A justia no vai aceitar
nossa verso. Precisaremos de provas concretas.
-  mesmo. Descobrir a verdade ser meio caminho andado, mas
ns teremos que provar na justia que o Jovino  inocente. Encontrar
o verdadeiro culpado, faz-lo confessar ou arranjar tantas provas que
ele no possa negar a verdade.
- Que loucura! Ser que estamos no caminho certo?
- Tudo leva a crer que sim. Porm, vamos investigar. Se o tal Rino
ameaou Mariazinha foi porque sua conscincia no est muito limpa.
- Que tal  esse Jovino?
- O Jovino sempre foi muito eficiente. Ponderado, lustrava tanto
o carro da famlia que ele parecia novo.
- Era invejoso, mau-carter, deixou transparecer algum desagrado alguma vez?
- Nunca e foi isso o que mais nos surpreendeu. Jovino foi nosso
companheiro nas brincadeiras da infncia. Foi sempre meu amigo, me
protegendo de tudo e de todos. Eu estava to acostumada com ele,
confiava tanto em suas palavras que jamais poderia acreditar que fosse capaz
de matar meu irmo. Foi um choque tremendo para todos ns.
- E se ele for inocente?
- Pensando bem, eu gostaria muito que isso fosse verdade. O
Jovino era como um irmo para mim.
- Imagino o que ele sofreu e deve estar sofrendo, acusado por um
crime que no cometeu...
- Tudo so hipteses. Podemos estar enganadas...
- Concordo. Contudo penso que  mais fcil um mau-carter
como o Rino cometer um crime do que um moo bom como o Jovino.
Foi ele quem defendeu seus irmos na noite da briga. Se ele quisesse,
naquela noite, poderia ter deixado as coisas como estavam. Se no
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gostasse de seus irmos teria feito de conta que no estava vendo e no
os teria defendido. Se o fez, foi porque os queria bem. Assim sendo, no
acho provvel que tenha matado o Alberto um ms depois. J experimentou
perguntar a ele o que realmente aconteceu naquela noite?
Magali abanou a cabea.
- Nunca mais conversei com o Jovino. Minha famlia ficou muito
revoltada contra ele.
- Se ele fosse culpado, seria o caso, mas se for inocente? Deram-
lhe chance de explicar-se?
- Na polcia. Ele prestou depoimento, disse que naquela noite saiu
preocupado com Alberto e no o encontrou. Voltou para casa de madrugada.
Foi isso que o condenou, quando ele foi visto perto do local onde
o corpo foi encontrado. A arma que ele portava, havia matado o Alberto.
Encontraram tambm o cachecol. Como duvidar?
- Foram muitas evidncias contra ele, s que o assassino bem pode
ter roubado a arma e o cachecol, ali mesmo, perto do local do crime.
Ser que ele no saiu do carro uma vez sequer?
-  mesmo, nunca pensei nisso...
- Mariazinha vai demorar a voltar. Que tal se ns fssemos visitar o Jovino,
falar com ele?
- No sei... nunca fui  penitenciria.
- Aos domingos eles recebem visitas. Podemos ir e falar com ele.
Magali olhou-a um pouco assustada.
- Tem que ser escondido. Se algum de casa souber, nem sei o que
pode me acontecer.
- Se voc no quer, posso compreender. Que seria til, isso seria...
Os olhos de Magali brilharam decididos.
- Mas talvez seja melhor esperar a volta de Mariazinha. Iremos ao
Centro Esprita para confirmarmos se  mesmo o Alberto que est com
ela.
- Voc est com medo. Deve reconhecer que a nica explicao
lgica que temos para os fatos estranhos que tm acontecido,  essa.
-  verdade. Tem razo. Vamos agir. Haveremos de descobrir o que
realmente aconteceu. Vou investigar algumas coisas e quando tiver as
informaes, voltarei para decidirmos o que fazer.
- timo. Estarei esperando. Pode contar comigo para o que for
preciso.
As duas despediram-se afetuosamente. Magali saiu pensativa e
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durante todo o trajeto de volta, quanto mais analisava os fatos, sentia
aumentar suas suspeitas e a vontade de buscar a verdade. Se o Jovino
fosse inocente, elas haveriam de descobrir.
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Captulo 5
Sentada na areia da praia, Mariazinha, pensativa,olhava o cu azul
e sem nuvens. Um domingo, havia sol e muita gente ao redor, uns estendidos
na areia, outros entretendo-se em jogos diversos e outros ainda entregando-se
ao banho de mar.
Mariazinha sentia-se bem. Estava mais disposta, alimentava-se
melhor e as cores haviam voltado ao seu rosto. Aqueles dez dias em
Santos fizeram-lhe muito bem e sua me estava radiante. Ela dormia
melhor e sem pesadelos, tanto que j acreditava haver recuperado a
sade.
De repente, foi arrancada de seus pensamentos. Uma bola atingiu-
a nas costas e ela soltou um grito, mais de susto do que de dor. Virou-
se e logo viu um par de pernas musculosas, mais atrs, um rosto moreno
que abaixou-se at ela dizendo:
- Desculpe. Machucou?
Mariazinha estava irritada.
- Deviam tomar mais cuidado. Afinal, h tanta gente hoje aqui.
Algum pode machucar-se.
- Sinto muito - respondeu ele. - Foi o Zezinho. Ele no fez por
mal.
Mariazinha olhou mais adiante e viu um menino de uns nove ou
dez anos esperando. Ela levantou-se.
Ele continuou:
- Est doendo muito?
- Um pouco.
- No vamos mais jogar. Voc tem razo, algum pode se
machucar.
- Pena que no tenha decidido antes...
Ele olhou-a e sorriu. Tinha belos dentes e uma covinha no queixo.
Mariazinha tambm sorriu.
- Posso resolver isso j. Deixe-me ver...
Pegou-a pelo brao, virando-a de costas. De fato, havia uma mancha vermelha
onde a bola batera. Antes que Mariazinha saisse da surpresa, ele friccionou o
lugar vrias vezes.
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-  para fazer o sangue circular, - disse.
- J estou bem - garantiu ela um pouco corada.
Ele chamou o Zezinho que se impacientava:
- Guarda a bola. No vamos jogar mais.
O menino olhou contrariado, mas apanhou a bola e saiu.
- Meu nome  Jlio e o seu?
- Mariazinha.
- Vamos fazer de conta que estamos nos encontrando agora. Que
o acidente com a bola no aconteceu.
- O que  fcil para voc.
- Faz-me sentir melhor.
- Est certo.
Mariazinha gostou do rosto franco do moo, sua naturalidade.
Teve a impresso de conhec-lo h muito tempo. Foi fcil conversar com
ele, o tempo passou com rapidez.
Ele morava em So Paulo e havia ido a Santos passar o fim de semana com os
dois irmos.
- Eu havia prometido ao Zezinho esse passeio se ele melhorasse
na escola.
- Pelo jeito, ele melhorou.
- Muito. E eu tive que cumprir. No vim com muita disposio,
mas agora, acho que valeu a pena.
- Est um lindo dia. A praia  uma beleza.
-  verdade. Ns iremos embora hoje  noite, o que  pena. Voc
vai ficar?
- Vou. Ainda tenho uma semana de frias.
- Quer dizer que estar aqui no prximo domingo?
- Estarei. Iremos embora na tera-feira da outra semana. Agora
devo ir. Mame me espera para o almoo.
- Onde voc est?
- Em uma penso aqui perto.
- Vamos at l.
Foram andando lentamente, conversando animadamente. Ao
chegarem  porta da penso ele perguntou:
- Vai sair a tarde?
- Geralmente fico por aqui mesmo. s vezes dou uma volta com
mame.
-  bom saber. At logo.
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Ele saiu acenando um adeus e Mariazinha entrou na penso.
Sentia-se contente. Jlio era um moo bonito e muito simptico.
Gostaria de voltar a v-lo. Naquele instante a lembrana de Alberto
estava muito distante.
- O ar da praia fez-lhe muito bem - comentou Isabel contente vendo a
disposio da filha.
-  verdade. Conheci um moo muito simptico.
- Daqui mesmo?
- No. Mora em So Paulo.
Isabel exultou. Rezava todas as noites pedindo a Deus que
Mariazinha conhecesse outro moo. Acreditava que se isso acontecesse ela
esqueceria o Alberto.
- Vai voltar a v-lo?
- No sei. Ele no disse nada.
As duas conversaram animadamente. Aps o almoo, deitaram-
se um pouco para descansar. Mariazinha dormiu com facilidade. Acordou
mais de uma hora depois, descansada e alegre.
Levantou-se, arrumou-se cuidadosamente. Isabel observava com
satisfao. Finalmente a filha estava curada.
- Onde vamos esta tarde? - perguntou.
- Dar uma volta, tomar um sorvete.
A me concordou. Saram. As ruas estavam movimentadas e alegres. Foram
andando lentamente pela avenida na beira da praia, conversando. Pararam em
frente ao Cassino Atlntico.
- Vamos entrar? - props Mariazinha. - Nunca entrei em um
cassino.
- No  lugar para ns.
- A porta est aberta e tem gente entrando. Vamos ver como .
Um pouco contrariada, Isabel seguiu a filha que decidida, entrou.
Havia muita gente e elas olharam o belssimo "show room", onde havia
uma orquestra tocando, e as mesas estavam repletas. Depois passaram
pelas salas de jogos, onde ainda se encontravam pessoas em trajes noturnos,
mulheres com muitas jias, ao redor das mesas, jogando.
Mariazinha se perguntava por que em plena tarde as pessoas estavam
vestidas assim. Havia muita fumaa de cigarros e a maioria jogava carteado
em silencio, enquanto a roleta girava, o nmero dito em
voz alta, o rudo das fichas e das vozes na torcida dos jogadores.
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Foi quando as duas saam do cassino que Mariazinha ouviu a voz
de Jlio:
- Voc gosta de cassinos?
Ela voltou-se.
- Ol! Entrei para conhecer. Nunca havia entrado num. Esta 
mame.
O moo apertou a mo de Isabel.
- Como vai?
- Bem - respondeu ela.
- Que tal o cassino?
- Lindo. Muita gente bem vestida, principalmente nas salas de
jogo, em plena tarde, vestidas com trajes de noite.
-  que elas esto jogando desde ontem. A paixo pelo jogo  tanta, que nem
vo embora. Emendam.
- Sem dormir?
- Muitos no sentem sono, alguns dormem algumas horas nas dependncias
do prprio cassino e voltam ao jogo. O cassino os trata
muito bem. D-lhes comida e bebida quase de graa. O jogo cobre
tudo.
- No  uma vida sadia - comentou Isabel.
O moo riu bem-humorado.
- No  mesmo.  ruim para a sade e para o bolso. Muitos perdem dinheiro
nesse vcio.
Foram andando e Jlio convidou:
- Vamos tomar sorvete? Conheo uma sorveteria tima.
Conversando agradavelmente, alcanaram a sorveteria onde se
sentaram. Jlio era um rapaz alegre, educado, fazia tudo com naturalidade.
Elas sentiam-se  vontade. As palavras fluam em conversa
animada.
Depois do sorvete, sentaram em um banco na beira da praia e na
hora de voltar  penso, Jlio acompanhou-as. L chegando, Isabel
despediu-se do moo e entrou. Vendo-se sozinho com Mariazinha, ele
estendeu a mo que a moa apertou, e ele conservou entre as suas.
- Vou voltar agora a So Paulo. No quero perder voc de vista.
Preciso do seu endereo.
Anotou tudo e voltou a segurar a mo dela.
- S estarei de volta na outra tera-feira.
- No esquecerei. At logo.
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- Boa viagem - desejou ela.
- At breve - disse ele, levando a mo dela aos lbios, beijando-a com
delicadeza.
- At breve - repetiu ela sentindo uma onda de alegria invadir seu
corao.
Quando entrou, Isabel comentou:
- Agradvel, esse moo. Educado, boa companhia.
- Tambm acho. Gostei dele.
Isabel abraou a filha com alegria.
- Estou feliz. Parece um bom moo.
- Por enquanto somos s amigos. No ponha fantasias em sua
cabea.
- Que ele est interessado em voc deu para notar. Isso no me
surpreende. O que me deixa feliz  que voc interessou-se por ele.
Mesmo que no acontea nada entre vocs, seu interesse demonstra
que voc est curada. Voltou ao normal.
Mariazinha sorriu animada.
- Tem razo, mame. Tudo passou e eu estou muito bem.
Os dias que se seguiram foram de calma e alegria. As cores voltaram
ao rosto jovem de Mariazinha, e Isabel escreveu uma carta ao marido
descrevendo a recuperao da filha. Queria que ele compartilhasse da
sua alegria.
Mariazinha sentia saudades do pai, da amiga, mas, ao mesmo tempo,
valorizava cada minuto de suas frias. A medida que o tempo passava e
aproximava-se o dia do regresso, a moa comentava:
- Os dias passam muito depressa! Dentro em pouco teremos que
voltar... Sentirei saudades destes momentos.
- Eu tambm. Tenho saudades de seu pai, de nossa casa. Voltar
tambm vai ser bom. Principalmente porque voc recuperou a sade.
- Vou trabalhar bastante, fazer horas extras para juntar dinheiro.
Faremos outras frias, viajaremos e traremos papai.
Isabel sorriu.
- Nossa alegria seria completa se ele estivesse aqui.
- Chegar o dia, se Deus quiser. Agora que j sentimos como nos
fez bem essa viagem, voltaremos outras vezes. Seria bom se papai pudesse
ter esse descanso. Ele merece.
Isabel sorriu feliz. Agora que Mariazinha estava bem, a alegria e
o otimismo haviam voltado.
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No domingo, Mariazinha foi  praia pensando no Jlio. O moo
no lhe prometera voltar, mas dera a entender essa inteno. Perscrutou
a praia com certa ansiedade. Jlio no estava.
Quando regressou  penso para o almoo, sentia-se um pouco
decepcionada.
- O Jlio no veio, mame - comentou ela.
Isabel balanou a cabea.
- Naturalmente no pde.
- Ou no quis. - disse ela pensativa.
- Ns no sabemos. Ele tem nosso endereo. Se estiver interessado, ir a sua
procura.
- Gostei dele. Mesmo como amigo, gostaria de v-lo.
Isabel sorriu.
- O que importa  que voc est bem, quer fazer amigos, interessa-se por
outros moos. Filha, estou muito contente. Voc  moa bonita, boa, honesta,
um dia aparecer algum que voc vai amar e que a
far feliz.
Mariazinha sorriu.
- Tambm acho, mame. Quero gostar de algum, esquecer as
coisas tristes e encontrar a felicidade.
Na tera-feira, foi com misto de tristeza e alegria que elas arrumaram
as malas para voltar.
A felicidade de Jos no tinha limites. Comprou guloseimas que
Isabel gostava, pediu  vizinha que arrumasse tudo. Gostaria de no
trabalhar nesse dia, poder ir esper-las na estao, mas no podia faltar
ao emprego.
Com impacincia, consultava o relgio imaginando o que elas estariam
fazendo. Quando deu o sinal, foi o primeiro a sair e o mais rpido que pde
correu para casa.
Elas j haviam chegado, abraaram-se comovidos. Fora duro para
ele aqueles dias de solido. No se queixava. Mariazinha estava bem.
Isso era o mais importante.
Conversaram animadamente. Estavam felizes. Nair foi abraar a
amiga e vendo-a to bem e alegre, no mencionou a visita de Magali,
nem as concluses a que haviam chegado. Temia que Mariazinha se
envolvesse de novo. Agora que tudo parecia esquecido, o melhor seria
silenciar. Fora difcil para Mariazinha superar aquele drama. No seria justo
faz-la voltar a ele.
66


Nair saiu da casa da amiga pensativa. Feliz pela melhora dela, vibrara ao saber
que ela havia se interessado por outro rapaz, ainda que
de maneira superficial. Ela estava voltando ao normal.
Contudo um pensamento a incomodava. Se o Jovino estava inocente, seria
justo no fazer nada para libert-lo?
- No tenho nada com isso - pensava ela tentando banir esse
pensamento. - Sequer posso fazer nada por ele!
Todavia, pensando no moo preso injustamente, no podia furtar-se a um
aperto no corao. E o esprito do Alberto, estaria mesmo interessado em
restabelecer a verdade? Ele existia mesmo ou tudo no
teria passado de iluso, sugesto?
Sentiu-se angustiada.
- No vou mais me envolver nessa histria - decidiu - Se
Mariazinha esqueceu, est bem, devo dar graas a Deus.
Mas a insatisfao, a preocupao no a deixavam. Naquela noite,
deitou-se, mas no conseguiu dormir.
- Vou rezar, - pensou.- Estou impressionada.
De fato, a conversa com Magali no lhe saa da lembrana e s quando o dia j
comeava a clarear foi que conseguiu adormecer.
Nos dias que se seguiram, Nair no falou com a amiga sobre o assunto, apesar
de no conseguir esquec-lo. Afinal, o que tinha com
isso? Mariazinha estava bem e ela no queria entristec-la. Precisava
apagar a preocupao da cabea definitivamente.
Magali voltou a procur-la em casa. Perguntou por Mariazinha.
- J voltou das frias?
- J. Ela agora est bem. Conseguiu superar os problemas. - suspirou fundo e
prosseguiu - no quero mais envolver-me com esse caso.
Voc sabe, Mariazinha pode piorar. No  justo.
Magali olhou-a nos olhos e disse com voz firme:
- Nair, eu preciso de voc! Eu tambm no quero prejudicar
Mariazinha. Porm, desde que conversamos naquele dia, no consegui
deixar de pensar no Jovino. Como poderemos esquecer? E se ele for
inocente? Ser justo deix-lo l, sem fazer nada, pagar por um crime
que no cometeu?
- Esta  s uma hiptese. No temos certeza de nada. Ele pode mesmo ser
culpado.
- Pode. Mas por que o Alberto disse que tudo estava errado? Por
que seu esprito no tem sossego no outro mundo?
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Nair permaneceu alguns segundos pensativa depois disse:
-Agora que tudo passou, pode ter sido alucinao de Mariazinha.
Ns podemos estar entrando em uma grande iluso.
- Quando sa daqui, ia disposta a descobrir os fatos. Fui procurar
a me de uma amiga, que  mdium esprita. Relatei tudo e ela aconselhou-me
a orar por ele. Queria que fssemos s sesses no Centro
Esprita.
- Por qu?
- Garantiu que Mariazinha tem mediunidade.
- O que  isso?
- Sensibilidade para perceber alm dos cinco sentidos fsicos. Ela
pode perceber coisas que acontecem em outras dimenses da vida, ver
pessoas que j se foram deste mundo, conversar com elas.
Nair sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
- Ser que ela viu o Alberto mesmo?
- Dona Dora diz que sim.
- Mesmo assim, no devemos envolv-la agora que est bem.
- Concordo. Mas ns duas podemos fazer alguma coisa.
- Era ela quem precisava ir ao Centro Esprita. Ns no temos
nada a fazer l.
- Se o Alberto quiser comunicar-se comigo, ter oportunidade. D.
Dora emprestou-me o Livro dos Espritos. Estou encantada. Esse livro
explica todas essas coisas com muita clareza. Lendo-o, estou convencida de
que era o Alberto mesmo que estava com Mariazinha. Quando
a gente morre, no acaba tudo. Ns continuamos a viver em outro
mundo. No  maravilhoso?
-  verdade.
- Agora, tudo ficou mais claro para mim. O Alberto continua
vivo, porm, no se conforma com a priso do Jovino. A cada dia que
passa, mais eu acredito em sua inocncia.
- Mesmo assim, o que ns podemos fazer? Quem acreditar em espritos?
Nada conseguiremos, pode crer.
Magali segurou o brao da amiga com fora enquanto dizia:
- Deus nos ajudar. No consigo tirar o Jovino da cabea. Pensando
bem, ele nunca cometeria tal crime. Era um moo bom, amigo.
- Agora  tarde para fazer qualquer coisa.
- Voc no se comove com a priso de um inocente?
- Claro. J passei noites sem dormir pensando nessa possibilidade. Porm,
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nada podemos fazer. Ele j foi julgado, condenado. No temos nenhuma prova
de sua inocncia. Como vamos ajudar?
- Resolvi visit-lo na penitenciria. Queria que fosse comigo.
- Sua famlia sabe?
- Claro que no. A visita  no domingo. Podemos ir at l tentar
falar com ele. Quero que nos conte como tudo aconteceu.
Nair sentiu um friozinho correr-lhe pelo corpo. Apesar do medo
que sentia resolveu:
- Irei com voc. Vamos deixar Mariazinha fora disto.
- Est bem. Farei o que voc quiser. Agradeo sua ajuda. Sozinha
eu teria medo de ir. Vamos rezar muito, pedir a ajuda de Deus nesses
dias que faltam.
- Est certo.
Passava um pouco das quatorze horas no domingo, quando as duas
moas deram entrada no presdio. Passaram pela revista, Nair abriu o
pacote com algumas frutas que trazia. Magali no comprara nada para
o Jovino, porm Nair pensava que devia levar alguma coisa.
Havia muita gente entrando e depois de passar pela revista, encaminharam-se
para outra sala onde davam o nome do preso que queriam visitar.
Magali deu o nome do Jovino e foi convidada a sentar-se e esperar.
Os minutos passavam e nada. Depois de quinze minutos, foi que o
encarregado chamou-as e esclareceu:
- O Jovino no quer receber visitas. Ele no vir.
As duas sentiram-se decepcionadas.
- Por favor, - pediu Magali -  muito importante. Eu preciso v-lo, falar-lhe. Diga
que  a Magali. Ele vir, tenho certeza. Por favor!
O encarregado, vendo a aflio dela, concordou.
- Est bem. Vou falar com ele de novo.
- Por favor! Ficarei muito grata.
Novamente sentaram-se a espera, quando, depois de certo tempo, ele voltou e
elas levantaram-se.
-  intil. Ele no quer v-las.
- Disse-lhe o meu nome?
- Disse. Mas no adiantou.
As duas sentiram-se desanimadas.
- Como est ele? - indagou Magali.
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- O Jovino  muito fechado. Arredio. No faz amizade com
ningum. Vive calado.  uma pessoa esquisita. No se interessa por nada.
- Ele no era assim - comentou Magali pensativa - era alegre, disposto,
animado.
- Pois no parece - tornou o funcionrio. - Aqui  calado, srio,
nunca sorri. Aceita tudo da disciplina, da direo da Casa, mas que
nenhum outro preso mexa com ele. Agride sem pena. Reage violentamente. No
comeo, andou surrando alguns mais abusados. Agora, os
outros tm medo dele. Ele no mexe com ningum mas no mexa com
ele.
- Ele mudou - disse Magali. - Estamos interessadas em ajud-lo.
Gostaramos muito de v-lo.
- Sinto muito. Se eles no querem ver as pessoas, no podemos
obrigar.  um direito deles.
- D-lhe estas frutas - pediu Nair.
- Vou escrever um bilhete, poder entregar-lhe por favor?
- Certamente. - ele pegou as frutas. - Quando estiver pronto,
avise-me.
Magali conseguiu uma folha de papel e escreveu: "Jovino, vim ver
voc. Tenho pensado muito em tudo quanto aconteceu. Agora, custa-
me a crer que voc tenha cometido esse crime. Inquieta-me pensar
que voc pode ser inocente. Desejo ouvir a verdade de seus lbios.
Gostaria que me contasse tudo. Voltarei no prximo domingo. No se
recuse a ver-me. Peo-lhe, por favor! Magali"
Mostrou a Nair, dobrou e entregou-o ao encarregado. Saram pensativas. Nair
objetou:
- Pensei encontrar o Jovino ansioso para ver voc. Ele no era to
seu amigo?
- Era. Custo a crer que ele seja esse que o guarda falou. Era calmo e bom.
Nunca agrediu ningum, mesmo quando Rui o provocava.
O Rui sempre foi briguento. Quando eram meninos, Rui sempre abusava do
Jovino. Escondia suas coisas, caoava quando ele olhava para alguma moa,
implicava com suas sadas,seus horrios, enfim, era difcil
de lidar.
- E ele nunca reagiu?
- Ele no era submisso, porm sempre conservava a calma. Jamais
foi violento.
- Pelo que ouvimos, ele mudou. Ser que estamos certas? Ser
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que ele  inocente mesmo? Se ele reage com violncia, pode bem ter
atirado no Alberto.
Magali guardou silncio por alguns instantes, depois disse:
- No creio. Se ele mudou foi agora, com a injustia, com a convivncia dos
outros presos. No deve ser fcil conviver com eles.
Contam-se coisas terrveis dentro dos presdios.
Nair sacudiu a cabea.
- No sei se estamos fazendo bem nos envolvendo neste caso. Ele
pode ser culpado mesmo.
- Pode. Mas enquanto houver uma possibilidade dele ser inocente,
no desistirei.  um caso de conscincia. Enquanto eu no tirar as
dvidas, no vou ter paz.
Combinaram voltar ao presdio no domingo seguinte. Contudo,
Jovino novamente recusou-se a receb-las. Magali deixou outro bilhete,
as frutas que Nair levara e retiraram-se decepcionadas.
- Ele no quer nada mesmo - concluiu Nair - melhor ser
desistirmos.
Magali abanou a cabea.
- Eu no vou desistir.
- O que vamos fazer? Ele no quer nos ver.
- No sei. Vou pensar. Hei de encontrar um jeito. Voc vai ver.
- O que voc decidir, eu aceito. J entrei nisso mesmo...
- Obrigada, Nair. Voc tem me ajudado muito.
Despediram-se. Magali sentia-se indecisa. No sabia como
prosseguir. Se Jovino no cooperasse, o que poderia fazer?
Chegou em casa preocupada, pensativa. Resolveu procurar a me
de sua amiga Dalva, D. Dora e pedir conselho.
Sentada em agradvel sala de estar, Magali contou o que lhe ia no
corao. Dora ouviu-a com interesse. Ela concluiu:
- Estou desorientada. No sei o que fazer. No tenho certeza da
inocncia do Jovino, contudo, a dvida me perturba, porque tambm
no tenho certeza da sua culpa. Estarei sendo precipitada?
- No, minha filha - respondeu Dora com calma. - A dvida justifica plenamente
seu desejo de saber a verdade. Se ele for inocente,
algo deve ser feito em seu favor.
-  isso! A senhora compreendeu meu ponto de vista. Em casa,
eles no querem sequer tocar neste assunto. No duvidam de que
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Jovino seja o culpado. Sozinha, est difcil conseguir saber a verdade,
provar o contrrio.
- Sozinha, seria mesmo difcil. Porm, voc no est s. Alm de
Nair, h o prprio Alberto, que me parece interessado em mostrar a
verdade.
- Mas ele est morto. No posso falar com ele.
- Se realmente ele deseja comunicar-se com voc, se o Jovino for
mesmo inocente, se ele puder libertar-se dessa prova dura a que foi
submetido, tudo se esclarecer. Deus nos ajudar.
Magali olhou-a admirada:
- Se ele puder libertar-se? Se ele for inocente, seria injusto permanecer preso.
Deus no haveria de permitir.
Dora fixou Magali com seriedade quando respondeu:
- Diante da justia de Deus, se ele fosse inocente, no teria sido
preso.
Magali arregalou os olhos.
- Tem certeza de que ele  culpado? E os erros judicirios? Quem
 preso sempre  culpado? Nunca leu nos jornais os enganos e as injustias
que se tm cometido neste mundo?
- Voc no me compreendeu. No disse que o Jovino  culpado
pela morte do Alberto. Estou mais inclinada a crer que ele esteja
inocente desse crime.
- E ento?
- Mas como ele foi preso, acusado, as evidncias eram contra ele,
sabendo que Deus  justo e no cai uma folha da rvore sem a sua permisso,
temos que convir que de alguma forma ele fez jus a lio que
est recebendo. Talvez em vidas passadas, esteja a resposta do que est
lhe acontecendo agora.
Magali estava admirada.
- No ser injusto sofrer agora por algo que aconteceu em outra
vida da qual agora ele no se lembra? Que vantagem teria? Deus seria
vingativo?
Dora sorriu. Gostava da franqueza de Magali que sempre ia direto ao ponto
sem importar-se com o convencional.
- Quando praticamos uma ao, adequada ou no, acionamos
energias, interferimos nos ciclos da vida, desorganizamos programas
alheios, colocamos nossa atuao, nossos atos, impondo aos outros
nossa forma de ser.  uma escolha nossa. E a vida responde, de acordo
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com as nossas crenas,  contribuio que lhe demos,  reao que
provocamos nos outros, daqueles que envolvemos diretamente, a fim
de educar-nos frente ao desenvolvimento de nossa responsabilidade
de espritos eternos, tornando-nos mais lcidos e conscientes. Essa
resposta nos chegar, seja onde for que estivermos e embora a bondade
divina tenha nos apagado da memria a recordao do passado, vivenciar
determinadas experincias, nos vai ensinar a perceber coisas que
ignorvamos e que permitiram ou contriburam para que ns praticssemos
aquelas aes que foram causa dos nossos sofrimentos.
-  difcil compreender...
- No . Se Jovino no matou Alberto, e ele foi julgado culpado,
preso, por certo deve estar sendo justiado por outro crime, cometido
em vidas passadas. Ningum vai preso inocente. Deus no permitiria.
 uma lio que  ministrada s a quem necessita aprender.
- Os erros judicirios esto certos? Neste caso, devemos deixar o
Jovino continuar preso?
- Se podemos compreender por que Deus permite que uma pessoa seja
punida, sendo inocente do crime pelo qual  acusada, no quer
dizer que devamos ser coniventes com o erro. Quem somos ns para
conhecer toda a verdade e julgar de fato a culpa de cada um? Nosso
papel ser sempre de buscar a verdade. De ajudar as pessoas. De coibir
os enganos, impedir os erros judicirios e de sempre que houver dvida, jamais
condenar. Nossa conscincia nos diz que essa  a atitude
correta.
- Ento, estou certa.
- Claro, minha filha! O que eu queria que entendesse  que o fato
do Jovino no haver matado seu irmo, no vai aparecer. Voc no vai
conseguir as provas materiais de que precisa para livr-lo da priso, se
ele no estiver liberto diante da justia de Deus. Se a lio que a vida
preparou para ele no houver sido assimilada, se seu esprito ainda necessitar
ficar ali, ns no vamos conseguir libert-lo.
- Nesse caso, sinto-me impotente. Como lutar contra foras to
desiguais?
- Ns no vamos lutar contra. Vamos a favor. Vamos nos unir
com Deus. Voc no tem nenhuma prova da inocncia dele para reabrir
o processo. Sequer sabe como encontr-la. Contudo, o esprito do
Alberto tem procurado ajudar.
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- Agora at ele parece que desistiu. Mariazinha no sentiu mais
nada.
- Isso pode ser temporrio. No momento voc quer ver Jovino, falar
com ele. Eu penso que esse seja o caminho certo. Ele est ferido, magoado,
precisamos tocar seu esprito.
- Como?
- Deus sabe. Gostaria que me acompanhasse ao Centro Esprita
que eu freqento. Buscaremos orientao e ajuda. Por certo encontraremos
recursos para chegar ao Jovino.
- Est bem. Irei. S que em casa ningum dever saber. A senhora sabe, eles
no gostam dessas coisas. Odeiam Jovino, no se pode tocar em seu nome.
- Infelizmente. Fique tranqila. Guardaremos segredo. Voc poder
ir na quinta-feira  tarde?
-Sim.
Quando saiu da casa de Dora, uma hora mais tarde, Magali sentia-se mais
calma. D. Dora tinha razo, era preciso esperar. Se Deus ajudasse, se Alberto
realmente estivesse interessado, ele teria ocasio de
se manifestar.
Magali chegou em casa passava das sete. Aurora esperava-a com
impacincia.
- At que enfim! Onde esteve at esta hora?
- Em casa de Dalva.
- Voc sabe que temos horrio. Atrasamos o lanche a sua espera.
Seu pai no tolera atrasos.
- Desculpe, mame. No precisavam esperar-me, no estou com
fome.
- Agora no vai fechar-se no quarto como sempre. Esperamos
para o lanche. Seja educada e pelo menos sente-se  mesa conosco. Nem
parecemos uma famlia. Agora, cada um vai para seu lado e eu fico s.
Seu pai, atendendo clientes fora de hora, no agento mais. No tempo do
Alberto, tudo era diferente.
Magali olhou a me sem comover-se. Estava habituada as suas
reclamaes. Teve vontade de dizer-lhe que era por isso que a famlia
no encontrava mais prazer em estar reunida. No havia alegria. S
queixas, acusaes, ressentimentos. Magali percebia que o pai entregara-se
mais ao trabalho para fugir daquele ambiente sempre triste e
desagradvel. Porm, no adiantava falar com Aurora, ela no
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aceitava. No percebia a verdade. Sempre que pretendia tocar no assunto com
ela, provocava uma avalanche de queixas, justificativas para o sofrimento,
acusaes para todos.
Olhando-a, Magali sentiu o quanto ela estava enganada. Como
faz-la enxergar?
Em outros tempos, teria argumentado, tentado dizer o que pensava, mas
naquela noite, estava cansada, interessada em pensar nos ltimos
acontecimentos. D. Dora havia lhe dado o livro "O Evangelho
Segundo o Espiritismo". Ela embrulhara-o cuidadosamente, colocando-o entre
os jornais para que ningum o percebesse. Estava ansiosa
para folhe-lo. Teve que concordar com a me. Se queria ficar sossegada,
seria melhor tomar o lanche.
- Est bem, mame. Vou lavar-me e j deso. Pode servir.
Aurora olhou a filha admirada. No esperava tanta passividade.
- Melhor assim - pensou.- Est na hora dela tornar-se mais comportada. Afinal,
j  uma moa.
Magali foi para o quarto, escondeu o livro embaixo do colcho, lavou
as mos e desceu para a copa onde os demais j haviam se sentado ao
redor da mesa.
Depois de um "boa noite papai" e um "ol, Rui", Magali sentou-se. O dr.
Homero resmungou um "boa-noite" e continuou a servir-se
em silncio. Aurora sentou-se, olhando-os com tristeza. Fundo suspiro
escapou-se-lhe do peito. Precisava conformar-se. Agora, as reunies de
famlia seriam sempre assim. Nunca mais a alegria voltaria a sua casa.
No conseguiu conter as lgrimas.
O dr. Homero baixou mais a cabea sobre o prato, Rui parecia interessado em
passar manteiga no po, e Magali procurou comer mais
depressa para poder ir para o quarto.
O silncio era opressivo. Aurora no suportou. Rompeu em soluos
e levantou-se da mesa, indo refugiar-se no quarto. Fundo suspiro escapou do
peito do dr. Homero.
Por que havia ficado em casa? No agentava mais aquele ambiente.
Ele era de carne e osso. Precisava esquecer a tragdia. Alberto era o
seu orgulho. Mais inteligente, mais bonito do que Rui. Sentia-se revoltado
com sua morte de forma to brutal. Porm, agora que tudo estava consumado,
o que poderia fazer? O culpado estava preso e nada que fizesse
poderia devolver a vida do filho.
A dor era grande, todavia ele sentia que precisava esquecer. Seus
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nervos no suportavam mais a lembrana do crime. Mergulhara no
trabalho para fugir a sua dor e isso o ajudara um pouco. Quando estava
trabalhando, esquecia suas preocupaes. Contudo, ao chegar em
casa, a revolta, a angstia, voltavam. Ele no acreditava mais em Deus.
Se ele existisse - pensava no auge de sua dor - no teria permitido que
seu filho morresse daquela forma.
O mundo era dos maus, dos perversos. Sentia-se agitado, nervoso,
insone, revolvia-se no leito sem poder conciliar o sono, percebendo
que Aurora tambm no tinha um sono tranqilo, apesar dos tranqilizantes
que a obrigava a tomar.
Havia momentos em que ele temia enlouquecer. No agentava
mais aquele ambiente triste, opressivo. Terminou de comer rapidamente e
levantou-se. Dentro de alguns minutos voltou  copa. Vestira
o palet e apanhara o chapu que mantinha entre os dedos.
- Preciso sair, - disse.
- Mame est em crise, - argumentou Rui um pouco irritado. - No
ser melhor socorr-la?
Homero abanou a cabea.
- No vai adiantar.  melhor deix-la desabafar. Sua dor  imensa, o que
poderemos fazer?
Magali nada disse. Se pudesse, tambm sairia dali, iria respirar um
outro ar. Compreendia o pai e percebia que ele estava chegando ao
limite do que podia suportar.
Vendo-o sair, Rui considerou:
- O lugar dele era ao lado dela, confortando-a. Ele no pode abandon-la nesta
hora.
- Mame precisa reagir. O Alberto morreu, todos sofremos muito
com essa tragdia. Papai adorava Alberto. Tinha orgulho dele. De certa forma,
era seu predileto. Est sofrendo muito tambm. Mame  que precisava
confort-lo.
Rui olhou-a admirado.
- Ela  mulher, frgil, a obrigao  dele. O homem precisa apoiar
a mulher.
- E a mulher ao marido. Mame est sendo egosta, pensa s na
sua dor e se esquece de todos ns.
- No seja injusta.
-  verdade. Todos sofremos, mas a vida continua e no h como
trazer o Alberto de volta. Por que agora infelicitar toda a famlia? Por
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que viver na tristeza, sem pensar que ns todos temos direito  felicidade, 
alegria e ao bem-estar?
- Voc  que  egosta. Como pode dizer uma coisa dessas? O
amor de me  sagrado!
- Eu sei. Mas de que adianta chorar por uma coisa que no tem
remdio e esquecer que ainda tem outros filhos que deve amar, um
marido que  um ser humano e tambm precisa de ateno e de amor?
- Mame no est em condies de entender isso.  preciso apoi-la.
- Ao contrrio. Se a apoiarmos, ela jamais sair dessa mgoa.
Jamais enxergar o quanto est errada e arriscando-se a perder o que
ainda lhe resta de afeto e que est em suas mos agora.
- Voc  criana e no entende dessas coisas. Mame nunca nos
vai perder.
Magali olhou-o sria.
- Se ela cultivar aqui esse ambiente de tristeza, papai  o primeiro
que se afastar. Ele no agenta mais. A cada dia fica menos em casa.
Eu, por minha vez, me isolo no quarto e espero encontrar um homem
para casar e sair daqui para sempre. Voc, eu percebo que tambm no
pra em casa. O ar est pesado e s nos sentimos bem fora.
Rui no se deu por achado.
- Esse clima vai passar. Tudo vai melhorar. No vai acontecer nada
disso.
- Se mame reagir, pode ser. O clima do lar depende quase sempre da me.
- Voc  muito fria - disse ele. - Vou ter com ela, confort-la.
- Faa como quiser.
Magali foi para o quarto. Deitada no leito, pensava. Sentia pena
do sofrimento da me, mas entendia que ela precisava sair daquela
posio. Muitas mes haviam passado por essa perda e conseguido refazer a
vida. A morte  lei da natureza e  irreversvel, ainda que seja
antes do que se espera.
Lembrou-se do livro. Fechou a porta  chave e apanhou-o. Deitou-
se e abriu-o ao acaso e leu: "Causas anteriores das aflies". Interessada,
mergulhou na leitura desse trecho.
Mil perguntas afluam-lhe  mente. Se Jovino, embora fosse inocente
desse crime, estava preso por atos cometidos em outra existncia que
teriam ficado impunes, por que o Alberto teria morrido daquela forma?
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Se Deus no erra, e se o Alberto nesta vida no havia cometido falta
grave, sua morte estaria ligada a problemas de vidas passadas? Sua
morte teria tido um motivo justo?
Ela no havia justiado apenas a ele. Toda a famlia sofria por isso.
Sua me sofria, no seu entender, at mais do que ele. Estariam todos
tambm respondendo por esses problemas de vidas anteriores? Estaria
l, a verdadeira causa de tantos sofrimentos do mundo, das tragdias,
das calamidades, das doenas que atingem a humanidade?
Magali sentou-se na cama admirada. Se isso fosse verdade, era
fenomenal! Conseguiria resolver todos os problemas e indagaes que
h sculos envolviam a humanidade e seu senso de justia.
Deus, dentro desse contexto, aparecia em toda sua glria dando
a cada um segundo suas obras, como dissera Jesus. Era extraordinrio!
Por que essa descoberta no era espalhada pelos quatro cantos da Terra?
Magali reabriu o livro, sentindo aumentar seu interesse. Quanto
mais lia, mais identificava-se com seus ensinamentos. Era dessa forma
que ela sempre havia pensado, embora de maneira pouco precisa.
Lgrimas apareceram em seus olhos, diante de certos conceitos que
lhe falavam ao corao. Sentia que acabava de encontrar Deus. No
um Deus distante e circunscrito a templos, religies, mas um Deus verdadeiro,
atuante, o Deus vivo que Jesus mencionara.
Apesar da euforia da descoberta, Magali sentiu descer sobre ela um
sentimento de paz. Guardou o livro no esconderijo e sentindo uma alegria nova
dentro do corao, adormeceu.
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Captulo 6
Foi com o corao aos saltos que Magali entrou no Centro Esprita,
ao lado de Dora e de Dalva. Apesar de desejar conhecer e dos motivos
que a levavam at l, estava um pouco receosa. Imaginava um lugar
misterioso, escuro, cheio de smbolos, como em certos filmes americanos
que havia assistido, onde os mdiuns apareciam vestidos de negro, falando
com voz cavernosa.
Surpreendeu-se ao entrar na sala agradvel, muito limpa, com as
paredes pintadas de azul-claro, tendo uma mesa grande rodeada de
cadeiras, onde havia j algumas pessoas sentadas e um pouco alm,
cadeiras dispostas em fileiras. Sobre a mesa, um vaso cheio de flores,
uma bandeja contendo uma jarra com gua e alguns copos.
O ambiente era alegre, acolhedor. As pessoas conversavam em
voz baixa e Dora a cada passo encontrava amigos a quem abraava
com prazer.
Magali sentiu-se bem ali. Onde estavam os "loucos" que sempre
ouvira sua me mencionar? Onde os charlates, os endemoninhados,
os ludibriados pelo esprito do demnio que freqentavam o Espiritismo?
Aquelas pessoas no se assemelhavam a nada disso. A grande
maioria trazia um sorriso nos lbios, olhos brilhantes de alegria e muito
carinho entre si.
Dora colocou as duas moas sentadas na primeira fileira de cadeiras
dizendo a Magali:
- No se preocupe com nada. Ore, pea a Deus que nos ajude.
Lembre-se de Alberto e de Jovino.
Magali concordou. Sentia-se emocionada. Percebia o ar diferente
ali dentro, como que uma brisa fresca, leve e gostosa.
Dora sentou-se  mesa e dentro de mais alguns instantes fez-se silncio e uma
senhora, que dirigia a reunio, levantou-se e fez sentida
prece.
Magali sentiu lgrimas virem-lhe aos olhos. Apesar da sala fechada e repleta,
ela sentia uma brisa leve, agradvel envolv-la e uma sensao de grande
bem-estar.
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Depois, foi aberto ao acaso o livro "O Evangelho Segundo o
Espiritismo", e ela leu: "Perda de pessoas amadas. Mortes prematuras".
Magali sentiu crescer sua emoo. Aquela pgina respondia a
muitas das indagaes que lhe iam na alma. Terminada a leitura, ela
fez curta explanao, depois passou a palavra para as outras pessoas
sentadas ao redor da mesa e algumas delas tambm, cada uma por sua vez,
comentou a lio da tarde. Depois a dirigente pediu prece e concentrao,
passando a palavra aos espritos presentes que quisessem manifestar-se
atravs dos mdiuns.
Magali sentiu aumentar a emoo. Alberto estaria ali? Iria reencontrar o irmo?
Um mdium comeou a falar sobre as dificuldades que logo aps
a morte, os espritos encontram para libertarem-se do magnetismo do
lar, dos familiares, dos amigos. Considerou que as lamentaes, as
queixas e o inconformismo dos familiares, so como polvos que em forma de
energias viscosas, tentam impedi-los de seguir o novo destino,
atraindo-os para o lar, onde prolongam indefinidamente seus sofrimentos,
atrasando sua libertao e seu equilbrio.
Magali pensava em seu prprio lar, sua me, seu pai e at o Rui,
conservando a mgoa, o pessimismo, a revolta. Estariam com isso
atormentando o esprito de Alberto? Estariam aumentando os seus
sofrimentos?
Quando a mdium acabou de falar, outro esprito manifestou-se
atravs de outra pessoa. Desta vez para falar sobre a justia dos homens
e a justia de Deus. Acabou pedindo a todos que se sentiam injustiados pelos
homens que se entregassem a Deus, e esperassem em sua
justia que nunca falha, embora muitos ainda no consigam perceb-
la de pronto, porquanto ela age no ntimo de cada ser,  medida em que
ele se encontra pronto para aprender a lio.
A confiana em Deus  fundamental, porquanto s ele tem poderes
para saber o que cada um precisa passar para aprender.
Mais alguns espritos se manifestaram e a sesso foi encerrada.
Apesar de sentir-se muito bem, Magali ficou um pouco decepcionada.
Esperava que Alberto se comunicasse. Se ele estava tentando h tanto tempo,
por que no o fizera ali, onde tudo era favorvel?
Dora abraou-a com carinho e considerou:
- Voc esperava que Alberto falasse, dissesse tudo sobre o crime,
confirmasse a inocncia de Jovino e indicasse os meios de libert-lo.
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-  verdade. Eu esperava.
Dora sorriu.
- Isso seria uma interferncia indevida nos fatos e jamais seria
permitido pelos espritos superiores.
- Por qu?
- Porque se a vida disps as coisas assim como esto, aproveitou
os acontecimentos para preparar lies a todos os envolvidos, anular
tudo isso seria prejudicial.  preciso que os fatos ocorram normalmente.
Que as situaes se transformem com aproveitamento de todos e a superao
de suas dificuldades.
- Quer dizer que no adianta fazer nada? Teremos que esperar?
Dora abanou a cabea.
- No disse isso. Ao contrrio. As mensagens de hoje deram a
voc preciosa orientao sobre as primeiras providncias a serem
tomadas no caso.
- Como assim?
- Em primeiro lugar, o Evangelho mostrou que a morte no  uma
desgraa irreparvel. Que quando ocorre prematuramente, pode ser
at uma libertao para aquele que no mais precisa estar recluso no
corpo de carne. Depois, os espritos nos mostraram as conseqncias
da falta de compreenso dos familiares. Pelo que sei, esse  um campo
em que voc vai precisar lutar muito para conseguir fazer alguma coisa.
-  verdade. Principalmente minha me. Ela no se conforma.
- Ela no sabe que a vida continua. Que Alberto est vivo.
- Meu pai, agora, sequer cr em Deus...
- Eis a um trabalho importante que voc pode desenvolver. A falta de f 
responsvel por grande parte dos sofrimentos humanos.
Magali suspirou.
- Eu no havia percebido tudo isso. Sei que  preciso fazer alguma coisa para
ajudar os meus. Mas no sei o que . Eles no aceitariam
o Espiritismo. Sequer posso contar que estive aqui.
Dora alisou os cabelos de Magali com carinho.
- No cultive a ansiedade. Ela sempre  prejudicial. Uma das mensagens nos
pediu para confiar na justia de Deus. Ore, envolva os seus
familiares em pensamentos de amor, f, esperana. Prontifique-se a ser
instrumento de Deus, dentro do seu lar, a favor do que ele determinar
e ver que as coisas comeam a acontecer para melhor.
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- A situao em casa est insustentvel. Ningum agenta mais
as lamentaes, a dor, a tristeza.
-  urgente quebrar esse crculo vicioso. Todos os dias, faa suas
preces, leia o Evangelho, medite, confie em Deus.
- Farei isso - concordou Magali. - Esperei tanto que Alberto
viesse!
- No  to simples como pode nos parecer. As comunicaes entre ns e eles
obedecem a determinadas condies fsicas, nem sempre
favorveis. Depois, ele pode no haver obtido permisso. Em sesses
organizadas, h muita disciplina. Cada Centro Esprita tem seus dirigentes
espirituais que com muito critrio conduzem os acontecimentos. Voc pode
perceber que, embora o Alberto no tenha se manifestado pessoalmente, suas
indagaes foram respondidas, seus problemas estudados e eles dispensaram
grande cota de tempo com seu caso.
- Isso  verdade. Seria muita coincidncia.
- Foi programado. Ningum a conhecia aqui, no avisei que viria,
no sabem dos seus problemas. Logo, foram os espritos que conhecem
o seu caso, que dispuseram tudo.
- E quanto ao Jovino? No disseram nada.
- Coloquei seu nome no caderno de preces. Ele est sendo atendido. Por que
no tenta visit-lo de novo?
- Acha que me receber?
- No sei. Vamos orar, pedir, quem sabe... tudo pode
acontecer.
Magali chegou em casa pensativa. Aquele mundo novo, empolgava-a. Sentia
vontade de contar a todos, de dizer  me que Alberto
estava vivo e que ela no devia chorar por ele.
A casa estava em penumbra e no havia ningum. Sua me estaria
no quarto com certeza. Recolheu-se. Estirou-se no leito. Precisava pensar!
Tantas coisas passavam pelo seu pensamento!
Alberto estava vivo, em outra dimenso da vida. Gostaria de v-lo feliz. Branda
sonolncia a envolveu, e Magali adormeceu.
Sonhou que estava sentada na sala de estar e que Alberto estava
junto a seu lado no sof. Tudo parecia-lhe natural e conversavam
animadamente. At que ela, de repente, se lembrou:
- Alberto, voc morreu!
-  mentira, eu estou aqui.
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Aproximou-se e beijou-a na face. Magali acordou sobressaltada,
sentindo ainda o beijo do irmo. Passou a mo pela face e disse:
- Que saudade!
Aquele beijo fora to real que ela instintivamente olhou ao redor
procurando pelo Alberto.
- Foi sonho - murmurou.
Sentiu viva emoo. Aquele havia sido um sonho diferente. Estaria
sugestionada? Teria mesmo estado com ele?
Levantou-se rpida, abriu a porta do quarto e desceu as escadas.
Aurora encontrava-se na cozinha.
- Mame, mame, estive com Alberto! - disse Magali com euforia.
Aurora olhou a filha assustada. Estaria em seu juzo perfeito?
- Estive com ele, mame. Ele disse que est aqui!
- No seja maluca. Seu irmo est morto e os mortos jamais voltam.
- Pois ele voltou. Ele no est morto, ele continua vivo!
- Voc sonhou. Teve uma alucinao.
Magali abanou a cabea:
- Ele estava sentado no sof da sala e eu tambm. Conversvamos
e eu no lembro sobre o que. De repente eu lembrei que ele havia morrido e
disse a ele: "Voc est morto", e ele respondeu: " mentira, eu
estou aqui", e deu-me um beijo no rosto. Acordei sentindo esse beijo.
Foi ele mesmo. Seu esprito veio aqui. Eu sei que  verdade.
Aurora estava boquiaberta. No sabia o que dizer. Vrias vezes
desejara sonhar com ele, v-lo ao menos, mas nunca conseguira.
- Os sonhos so produtos dos nossos desejos. Freud j disse isso.
Tanto desejamos uma coisa que sonhamos com ela.
Magali abanou a cabea.
- No  verdade. Eu estive com Alberto. Ele me beijou.
- Voc est impressionada.
- Estou porque senti sua presena. E se for verdade? E se a vida
continuar de alguma forma depois da morte? E se Alberto estiver vivo?
Aurora abanou a cabea negativamente.
- Deus sabe como eu daria minha vida para que isso fosse verdade.
Mas  impossvel! Quem morre jamais volta. Voc sonhou, nada mais.
Ponha na sua cabea que Alberto est morto, e nunca mais o veremos.
- Voc diz que tem f! No acredita que haja um outro mundo para
o qual vo todos os que morrem?
Aurora olhou-a triste.
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- Iluso. Alucinao. Vontade que isso seja verdade.  duro aceitar
o "nunca mais".
- E se for verdade? E se o esprito de Alberto estiver vivo depois
da morte? E se ele estiver aqui, vendo voc chorar e sofrer, acha que
no ficar infeliz com isso?
- Um filho jamais ficaria infeliz com o amor de sua me. O melhor  voc tirar
essas fantasias da cabea. Vo fazer-lhe mal.
- Seria bom que voc esquecesse um pouco a tragdia e melhorasse o
ambiente da nossa casa. O Alberto morreu e no h nada a fazer
quanto a isso, mas ns estamos aqui, vivos e precisamos esquecer.
Aurora olhou a filha revoltada.
- Jamais esquecerei o que aconteceu. Minha dor no cicatrizar
nunca. Ele era seu irmo, como pode ser to fria?
Magali abraou a me com carinho.
- Engana-se. Eu adoro o Alberto. Sofro sua ausncia, mas esta tristeza, este
clima de tragdia, est fazendo mal a todos ns, inclusive ao
Alberto. Dizem que chorar, lamentar-se causa sofrimento ao morto,
sem falar do mal que faz aos vivos.
Aurora indignou-se:
-  fcil falar quando no se viveu este drama. Meu consolo 
chorar. Jamais me conformarei. E voc, se amasse mesmo seu irmo, no
diria todas essas besteiras.
Magali desanimou. Tudo quanto pudesse dizer no iria modificar
o pensamento de sua me. Apesar disso, ainda afirmou:
- Seja como for, acredite ou no, foi ele quem me beijou. Ele est
aqui e eu sinto que isso  verdade.
Voltou as costas e afastou-se.
Aurora parou admirada, olhando-a afastar-se. Sentiu at uma
ponta de inveja. Gostaria de ser como ela. De poder acreditar que
Alberto, ou que alguma coisa do Alberto, estivesse ali. Mas ela precisava
manter o equilbrio, os ps no cho. O fato de querer o filho de volta,
no devia faz-la ter alucinaes e entrar pelos caminhos da loucura.
Tinha uma famlia para cuidar e precisava manter sua sanidade.
Contudo, sonhar com ele, como ela gostaria! Poder ver de novo
seu rosto bonito, seus olhos alegres, seu sorriso amigo! Sonhar com ele,
abra-lo de novo, como ela seria feliz!
Sentiu sua emoo aumentar e lgrimas vieram-lhe aos olhos. Ela
no percebeu que o esprito de Alberto estava ali, abraando-a
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comovido, tendo sua cabea inclinada em seu ombro, sem conter o pranto,
misturando suas lgrimas, aumentando a emoo dela e sua vontade de
chorar.
Foi para o quarto, estirou-se no leito desalentada. O que lhe restava na vida
seno chorar?
E o esprito de Alberto, vendo-a to triste, no resistiu ao desespero e deitado a
seu lado, desanimado, angustiado, no encontrou outra soluo seno chorar,
sem foras para sair dali, deixando-a em crise.
Muitas vezes j a havia abraado e tentado dizer-lhe que estava
vivo. Que a morte apenas lhe arrebatara o corpo. Tudo intil. Ela recusava-se a
ouvir. No acreditava que ele pudesse continuar vivo aps
a morte fsica. E ele, vendo-a sofrer, no tinha coragem de afastar-se,
permanecendo a seu lado, at que ela serenasse.
Nesses momentos, recordava a cena do crime, sua dor, sua tristeza,
sentia-se morrer novamente. Era-lhe muito penoso esse estado.
Ao lado de Magali, ficava muito melhor. Sua alegria, seus pensamentos,
faziam-lhe bem ao corao. Principalmente suas leituras sobre
a justia de Deus, sobre a morte e a continuidade da vida.
Comparecera  sesso esprita, acompanhando Magali, e l, fora
atendido por um assistente espiritual, que conversara com ele,
respondendo as indagaes que fizera e convidando-o a permanecer com eles.
Alberto no aceitara. Como deixar a famlia to sofrida? Como
deixar o Jovino preso inocente? Ele no queria ir. Preferia ficar at esclarecer
tudo.
Foi intil pedir que confiasse em Deus, que esperasse a manifestao de sua
justia. Ele no aceitou. Queria falar com Magali, contar
tudo, pedir que o ajudasse a desmascarar o verdadeiro assassino, mas
no pde. Os orientadores da reunio no permitiram, alegando que
isso iria conturbar ainda mais a situao. Que ele orasse, confiasse em
Deus e continuasse a esperar.
Como ele houvesse ficado muito decepcionado, concordaram em
ajud-lo a encontrar-se frente a frente com Magali, desde que ele omitisse
qualquer queixa e desse ao encontro um enfoque positivo.
Acompanharam-no a casa e aproximando-se de Magali, envolveram-na,
fazendo-a adormecer. Na sala, Alberto esperava ansioso.
- Aja com naturalidade - disseram-lhe - qualquer atitude mais
dramtica, poder lev-la de volta ao corpo.
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Magali, vendo-o, abraou-o com alegria e Alberto emocionado conversou com
ela como fazia anteriormente quando estava na Terra, esperando que ela
mencionasse a verdade. De repente, ela lembrou-se:
- Alberto, voc morreu!
Ele aproveitou esse instante para afirmar:
-  mentira, eu estou aqui!
Ela afastou-se surpreendida, procurando voltar ao corpo adormecido. Alberto
seguiu-a, abraou-a, beijando-a na face com muito amor.
Ela acordou sentindo esse beijo.
- Que saudade! - disse.
Quando ela correu contar para a me, ele exultou. Finalmente
sua me saberia a verdade. Aprenderia a conformar-se. Porm ela no
aceitou, preferiu no ver. Escolheu a dor, a mgoa, a tragdia.
Alberto decepcionou-se. Convidado a partir com os assistentes que
o haviam auxiliado, no aceitou. Recusou-se a deixar sua me naquele estado.
Vendo que ela no cedia, afastaram-se e ento Alberto, longe da
influncia positiva desses amigos, deu largas ao sofrimento, mergulhando
tambm na depresso e na dor.
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Captulo 7
Sentadas na sala em meio a outros visitantes, Magali e Nair esperavam
ansiosas. Teriam sucesso dessa vez?
Conforme Dora pedira, as moas haviam feito uma prece ao sair
para o presdio, pedindo a Deus pelo xito da visita. Enquanto Nair carregava
um pacote com frutas e chocolate, Magali levava num embrulho,
cuidadosamente preparado, um exemplar do Evangelho Segundo o
Espiritismo. Naquele livro, ela havia encontrado muitas respostas As
indagaes que a afligiam. Confortara-a e dera-lhe paz.
Por certo, se Jovino o lesse, poderia tambm encontrar esclarecimento e
conforto.
O encarregado voltou, dizendo a Magali:
- Vocs conseguiram. Ele vem a. Podem entrar para a sala do
lado.
As moas entraram, sentindo o corao bater forte. Em frente a
divisria, pararam. Vrias pessoas conversavam pelos guichs com os
presos e Magali emocionada procurou pelo Jovino.
Por trs da tela, frente a um guich aberto, ele estava l. Magro,
rosto endurecido, olhos frios, srio, ele esperava de cabea erguida.
Magali aproximou-se. Seus olhos se encontraram. Os dele frios,
indiferentes, os dela, brilhando pelas lgrimas que a emoo justificava.
- Jovino, - disse Magali
 por fim - vim v-lo porque preciso conversar com voc. Quero ouvir de seus
lbios a verdade. Custa-me crer que voc tenha cometido esse crime. Tenho
pensado muito e alimento srias suspeitas de que todos cometemos tremenda
injustia com voc.
Ele olhou-a firme. Por seus olhos passaram um brilho de emoo
que ele logo dominou. Ela prosseguiu:
- Preciso conhecer a verdade. Voc pode ajudar-me. Juntos, haveremos de
provar sua inocncia e encontrar o verdadeiro culpado.
Jovino olhou-a srio e respondeu:
- Gritei minha inocncia o quanto pude. Tudo quanto sei, contei
 justia. Ningum acreditou. Agora, tudo est consumado. S reabriro o
processo se aparecer uma prova convincente, um fato novo.
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No sei quem cometeu esse crime, embora tenha suspeitas, mas como
provar? Como?
- Conte-me o que aconteceu naquela noite.
- Para qu? Ningum acreditou. Preferiram pensar que eu fosse capaz de
matar uma pessoa, e o que  pior, meu prprio irmo. No vai
adiantar. Seu pai, sua me, o Rui, todos me condenaram, acreditaram
que eu fosse capaz de tal crime.
A voz de Jovino tinha um tom amargurado embora ele lutasse por
dissimular. A moa aproximou o rosto do guich e segurou a mo dele
apertando-a com fora.
- Compreendo sua mgoa. A tragdia nos envolveu e at agora
l em casa, ningum encontrou a paz. Procura perdoar. As evidncias
eram contra voc. A polcia afirmou. Todos estvamos perturbados.
Jovino retirou a mo com raiva:
- E agora, o que mudou? Por que me procura se ainda pensam que fui eu?
- Comearam a acontecer coisas. Comeo a crer que a morte seja
uma iluso. O Alberto continua vivo. Isto , seu corpo morreu, mas seu
esprito continua a viver em outro mundo.
Jovino olhou-a admirado. Nunca havia pensado nisso. Ela
continuou:
- Ele tem nos chamado ateno de vrias formas. Tenho motivos
para afirmar que ele est interessado em provar sua inocncia e em esclarecer
tudo.
Jovino no sabia o que dizer. O que ela dizia parecia-lhe fantstico, mas por
outro lado, se fosse verdade, se o Alberto estivesse vivo no outro mundo, sabia
que ele era inocente.
Emocionou-se. Todo sofrimento represado, toda mgoa acumulada durante
aquele tempo de sofrimento aflorou de repente e o Jovino no conseguiu mais
deter o pranto, que curvou ainda mais seus ombros
magros, sacudidos pelos soluos.
As duas moas deixaram as lgrimas correr pelas faces, envolvidas pela
emoo. Quando ele se acalmou, Magali segurou sua mo, apertando-a com
carinho.
- Jovino, precisamos nos unir. Deus nos ajudar. Haveremos de
descobrir a verdade, provar sua inocncia. Eu acredito em voc. Voc
 meu irmo, sempre amigo, velando pelo nosso bem-estar. Jamais seria
capaz de tal crime. Eu sei.
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No ser fcil provar - disse ele.
- Para ns, talvez - considerou Magali - para Deus, no. Voc est
magoado, revoltado, sofrido, porm eu tenho f. Deus tudo pode e nos
ajudar. Gostaria que todos os dias voc pensasse em Deus, rezasse.
Eu trouxe este livro para voc. Leia-o com ateno. Tenho certeza de que
encontrar nele muitas respostas para explicar o que nos aconteceu.
Pense em tudo, pea a ajuda de Deus. Voltaremos aqui no prximo
domingo. Analise bem os fatos daquela noite. Procure lembrar-se nos
mnimos detalhes. Hoje, estamos muito emocionados.
Jovino apanhou o pacote que ela lhe estendia e concordou com a
cabea. Magali continuou:
- Esta  a Nair. Ela sabe de tudo e quer nos ajudar.  amiga de
Mariazinha, a moa que Alberto namorou. Mora perto da casa dela e
conheceu o Alberto.
Jovino fitou-a.
- Eu estava com Mariazinha no clube quando ela conheceu Alberto.
Samos juntas naquela noite. Farei o que puder para ajud-lo.
- Obrigado.
Magali aproximou-se do guich e disse com carinho:
- Fique com Deus, Jovino. Eu gosto muito de voc. Sinto-me feliz por t-lo
encontrado hoje.
Jovino no encontrou palavras para responder. Seus olhos brilharam. Apertou
a mo que elas lhe estendiam e pegou os pacotes de Nair. No disse nada,
mas pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu um brando calor no peito e
uma agradvel sensao de paz.
Quando elas se foram, sobraando os pacotes, pensativo, saiu da
sala. Em sua cela, estirado na cama, ele sentia-se emocionado. O rosto
comovido de Magali, suas palavras haviam conseguido quebrar a camada de
indiferena com a qual ele tentara proteger-se frente aos acontecimentos.
Sentia-se sensibilizado. Magali acreditava nele. Estava do seu lado.
Confiava em sua inocncia. Pretendia ajud-lo.
Jovino no tinha iluses quanto ao seu caso. Achava difcil conseguir provas da
sua inocncia. Magali era jovem, inexperiente e no dispunha de meios para
enfrentar a ao da justia. Ele no acreditava que ela conseguisse provar a
verdade.
Entretanto, seu apoio e sua amizade sincera tiveram o dom de
despertar nele o desejo de reabilitar-se. Podia ter esperanas. No estava
89


s. Sentia-se confortado. O interesse de Magali pelo seu destino
despertara nele funda emoo. No futuro, quem sabe, o Rui, o dr.
Homero, D. Aurora, reconheceriam tambm sua inocncia.
Sabia que Magali tinha idias prprias. Alberto costumava dizer
que ela era a mais inteligente e a mais lcida da famlia. Enxergava longe.
Estava certo. Magali fora a primeira a perceber a verdade.
No tinha religio. Fora sempre um indiferente. Depois do que lhe
acontecera, tornara-se descrente. Se Deus existisse, se fosse bom como
diziam, perfeito e justo, no teria permitido tanta injustia. Nada fizera
para ajud-lo.
Magali pedira-lhe para rezar. No sentia vontade. No acreditava que
adiantasse. Mesmo assim, o interesse dela comovia-o. Recordou-se da
infncia, do convvio amoroso, da famlia, das brigas do Rui, das peraltices do
Alberto, das escapadas de Magali, dos cuidados de D.
Aurora, da vontade que sentia de abra-la como os meninos faziam
sem nunca haver tido coragem.
Como ela estaria? Pela primeira vez comeou a pensar na dor de
D. Aurora. Sabia que ela adorava o filho. Percebera o brilho de seus olhos
sempre que o fitava, a luz que ela refletia quando falava nele. Muitas
vezes sentira-se enciumado desse afeto. No que ela deixasse de gostar
do Alberto, mas que viesse a sentir por ele, tambm o mesmo sentimento.
Pobre D. Aurora, to boa!
Um arrepio de horror percorreu-lhe o corpo. Ela pensava que ele
houvesse matado Alberto. Devia odi-lo com certeza.
Lgrimas desceram-lhe pelas faces, funda amargura o acometeu.
- Um dia ela saber a verdade - pensou - e como Magali, acreditar em mim.
Sentiu-se mais calmo depois disso. Sentou-se no leito, abriu o pacote e comeu
um pedao de chocolate. H quanto tempo no experimentava um? H quanto
tempo no sentia o gosto dos alimentos?
Depois de comer, abriu o pacote que Magali lhe dera. Olhou a
capa do livro sem muito interesse. "O Evangelho Segundo o Espiritismo",
leu. Admirou-se. Magali nunca fora adepta de nenhuma religio.
Freqentava a igreja por imposio dos pais e escapava sempre que podia. O
que teria mudado? Depois, Espiritismo era coisa de gente ignorante. Magali era
uma moa instruda. Sentiu certa curiosidade.
Ela lhe dissera que Alberto continuava a existir no outro mundo. Como podia
saber disso? O Alberto sabia a verdade. Queria ajudar a
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desmascarar o verdadeiro assassino. Seria possvel? Jovino duvidava
disso.
No entanto, quando tudo estava contra ele, todos acreditando
em sua culpa, quem convencera Magali da sua inocncia? Como acontecera?
Quando ela voltasse, ele poderia perguntar.
Lembrou-se das palavras dela:
- Leia esse livro, tenho certeza de que encontrar nele muitas
respostas ao que nos aconteceu.
O moo folheou-o, enquanto pensava:
- O que poderei encontrar em um livro?
Deteve-se em uma pgina e leu: "A eficcia da prece. Por isso
digo: todas as coisas que vos pedirdes orando, crede que as haveis de
ter e que assim vos sucedero". (Marcos XL24)
- Mentira, - pensou. - Muita gente reza e no acontece nada.
Aqui mesmo, quantos vivem de tero na mo?
Baixou os olhos novamente para o livro e leu: "H pessoas que contestam a
eficcia da prece".
Crtico, descrente, Jovino prosseguiu lendo. Aqueles argumentos
comearam a interess-lo. Colocavam a prece como elemento de ajuda
espiritual, oferecendo coragem, conforto, pacincia, inspirao, sem isentar
quem ora de fazer a parte que lhe cabe, na soluo dos problemas da sua vida.
Pensou no seu caso. H muito que se entregara ao desnimo, sem
coragem para defender seus direitos. Curvara a fronte diante dos golpes
do destino. Sabia que possua inteligncia. Estudara. Fizera at o curso
ginasial com muita facilidade. Contudo, no procurara utiliz-la para conseguir
provar sua inocncia. Conforme dizia o livro, preferira
esperar por um milagre sem nada fazer, aceitando a sentena injusta e
cruel, como fatalidade sem apelao. Abatera-se diante dos acontecimentos.
Um vulto luminoso de mulher, aproximou-se de Jovino, colocando a mo sobre
sua testa, dizendo-lhe ao ouvido:
- Reze, meu filho. Busca Deus, ns vamos ajud-lo.
Jovino nada viu nem ouviu, mas, de repente, sentiu uma fora nova brotar
dentro dele e pensou:
- Eu no sou fraco nem estou sozinho. Tenho a fora da verdade.
Sou inocente deste crime! Posso lutar, gritar minha inocncia. Magali
me ajudar. Hei de vencer o destino!
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Fechou o livro pensativo. Pelo menos agora sentia vontade de lutar. E se
Alberto estivesse mesmo vivo no outro mundo, querendo ajud-lo? At que
ponto ele teria influenciado Magali?
Sentiu um arrepio. Nunca havia pensado muito nessas coisas de
espritos. O que o impressionava era o fato de que se tudo fosse verdade,
Alberto sabia da sua inocncia. Sabia tambm quem fora o verdadeiro
assassino.
Os fatos daquela noite voltaram-lhe  memria com nitidez.
Deixara o carro perto do clube e circulara ao redor para verificar se havia
gente l dentro, se o Alberto estava. Como no vira nada alm dos
funcionrios, ele voltara ao carro onde permanecera ora parado ora circulando
pelas ruas adjacentes. No vira nada de anormal.
No possua elementos para esclarecer Magali. Suspeitava dos rapazes que
haviam brigado com Alberto. Seu corpo fora encontrado por aqueles lados.
Quem, seno eles poderia t-lo assassinado? Com seu
prprio revlver, seu cachecol. Teriam roubado o revlver do carro
quando saiu a p? E o cachecol? Ele no estava no carro. Como fora
parar l?
Precisava descobrir a verdade. Se Alberto estava interessado em
ajudar, que aparecesse, contasse como aconteceu, s ele conhecia realmente.
Para conseguir isso o que ele deveria fazer? Magali pedira-lhe para rezar,
Deus o ouviria?
Deus! Seu relacionamento com ele no era dos melhores. Afinal,
onde estava ele quando permitiu a sua condenao? Sabia que ele era
inocente.
Abriu novamente o livro. Fixou os olhos e leu: 'As vicissitudes da
vida tm pois, uma causa, e como Deus  justo, essa causa deve ser justa".
No concordou. Fora preso inocente enquanto o verdadeiro culpado
permanecia impune. Como aceitar tanta injustia? Como aceitar que Deus
pudesse permitir tanta maldade como as que tomava
conhecimento dentro do presdio? Seu sofrimento era injusto e ele no
encontrava uma causa.
Fechou o livro pensativo. Como aceitar sua priso como uma causa
justa? S para poder afirmar que Deus era perfeito?
Uma onda de revolta envolveu seu corao. As pessoas costumam torcer as
coisas conforme seus interesses. Os padres faziam isso, os religiosos em geral
tambm. Tentar explicar o inexplicvel s para
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que Deus continuasse em seu trono de perfeio, era uma acomodao
ingnua.
Colocou o livro de lado. Ele no conseguiria rezar. Se Deus existisse, por certo
estava longe e desinteressado deste mundo, porquanto o que mais via ao seu
redor eram as injustias. A crueldade triunfante sobre a bondade, a
ingenuidade. O mundo era dos poderosos, dos que tinham dinheiro.
"Rico no vai pra cadeia" era uma frase comum ali. Ele mesmo no passava de
um pobre diabo, criado de favor, sem ter recursos nem nome. Se ffosse rico,
filho de gente importante, por certo acreditariam em suas palavras. Nem teria
sido preso. Estava ali porque era um joo-ningum, pobre, apagado.
Jovino sentiu-se desanimado e muito s. Lembrou-se do rosto
emocionado de Magali. Ela acreditava nele. Tivera coragem de ir ao
presdio, sem que os pais soubessem, incentiv-lo a lutar pela sua liberdade.
No estava s como pensava.
Um sentimento de ternura pela moa o acometeu e pensou:
- No posso decepcion-la nem parecer covarde.
Apesar de tentar encorajar-se, Jovino sentia-se intil e impotente
para enfrentar a justia dos homens que o esmagara com tanto rigor.
Quem iria descobrir a verdade? Ele, preso, estava de mos amarradas. Magali,
moa, inexperiente, o que poderia fazer?
- "Eu tenho f. Deus tudo pode e nos ajudar".
As palavras convictas de Magali acudiam-lhe  memria. De novo
Deus! Como rezar se ele estava magoado, ferido? Se Deus permitira seu
castigo injusto, como pedir-lhe ajuda?
Sentiu inveja de Magali que se confortava na orao. Ele no possua esse
conforto. Reconhecia que mesmo sem ser atendido, a prece poderia
representar um ponto de apoio, uma maneira de aliviar o
corao, de varrer o desespero e agentar a situao difcil.
Ah! Se ele pudesse rezar! Se ele conseguisse um pouco de f, talvez
encontrasse mais coragem.
Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito. Apanhou o livro novamente, abriu-o e
leu: "As vicissitudes da vida so de duas espcies; tm duas origens bem
diversas que importa distinguir. Umas tm causa na
vida presente, outras, fora desta vida."
Surpreendeu-se. Estava inocente, seus problemas no tinham explicao
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na vida presente, como teriam origem fora desta vida se ele
no existia? Interessado, continuou a leitura.
Achava justo que os faltosos, os culpados, fossem punidos pela
sociedade, mas e os inocentes?
"Mas se h males nesta vida dos quais o homem  a prpria causa,
h tambm outros que, pelo menos em aparncia, so estranhos  sua
vontade e parecem golpe-lo por fatalidade".
Era o seu caso. Jovino bebia as palavras com ansiedade, sua cabea
trabalhava reagindo a cada frase que lia, criando argumentos, indagaes,
porm, prosseguindo a leitura, as respostas se sucediam, como se quem
escreveu o livro estivesse ali, ao vivo, dialogando com ele.
Mil pensamentos acudiam-lhe a mente. Uma vida anterior! Seria
possvel? Por que ele nascera sem pai e fora atirado a orfandade, en-
quanto outros tinham me, famlia, dinheiro? Muitas vezes se perguntara o
porqu dessa discriminao injusta. Agora, pela primeira vez, algum lhe
oferecia uma explicao lgica.
Tratava-se de uma teoria um tanto fantstica, mas capaz de fazer
compreender melhor as desigualdades sociais.
A cabea de Jovino fervilhava. Esqueceu onde estava. O tempo,
a hora e continuou lendo com avidez. S largou o livro quando o sono o
impediu de continuar.
Fechou os olhos e pensou: abenoada a hora em que Magali aparecera. Sentia
que daquele dia em diante, sua vida mudaria. Talvez Deus no houvesse
esquecido dele, como havia pensado, mas fora ele que no
tivera condies de perceber Deus.
Sentindo um brando calor envolvendo seu corao, finalmente
adormeceu.
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Captulo 8
Sentadas na varanda da casa de Mariazinha, as duas amigas conversavam.
Nair dizia com energia:
Voc faz muito bem. Um dia ele vai desistir.
Assim espero. Fui clara mais uma vez. No gosto dele. No adianta ir me
esperar na fbrica, nem dizer que no pode viver sem mim.
Conversa fiada. O Rino  caprichoso. No se conforma de ser recusado. 
vaidoso.  at um homem bonito. Mesmo sem carter, tem muitas moas que
so caidinhas por ele.
Pois que fique com elas - frisou Mariazinha com raiva. - No
quero nada com ele.
- Faz bem. Ele no serve.
- Ele queria ir ao cinema hoje. Prefiro ficar este sbado em casa do que ir com
ele.
- Se quiser ir ao cinema, poderemos ir juntas na primeira sesso. E o moo da
praia, no apareceu?
Mariazinha suspirou.
- No. Esses moos so todos falsos. Ficou de voltar a Santos no domingo
seguinte e no apareceu. Por certo nunca mais o verei.
- Voc deu o endereo. Qualquer dia, ele aparece.
- No creio.
- Voc gostou dele. Era bonito?
- Gostei. Era bonito, simptico. At mame gostou. Educado, gentil. Mas de
que adianta isso agora?
- Voc gostaria que ele viesse...
- Gostaria. Porm, no quero me iludir. Nunca mais o verei.
Nair sacudiu os ombros.
- Pena. Vamos mesmo ao cinema?
- Vamos. So seis horas. Espera eu me arrumar e vou com voc at sua casa.
- Est bem.
As duas entraram. Mariazinha aprontou-se e as duas saram exatamente no
momento em que algum se aproximava do porto.
Mariazinha parou assustada.
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-Jlio!
- Ol! Pensei que j no se lembrasse de mim! Como vai?
A moa apertou a mo que ele lhe estendia, apresentando-o  amiga. Depois
dos cumprimentos, ele esclareceu:
- No pude voltar a Santos naquele fim de semana. Alguns problemas de
famlia.
- Espero que nada grave - respondeu a moa com delicadeza.
Ele sorriu.
- Agora est tudo bem. Vocs iam a algum lugar?
- At minha casa - disse Nair - eu moro ali do outro lado da rua.
- Posso roubar Mariazinha um pouqinho? Faz trs semanas que no nos
vemos.
- Ia mesmo para casa. Minha me est esperando. Foi um prazer conhec-lo.
Quando se viram a ss, ele olhou-a nos olhos dizendo:
- Vamos dar uma volta?
- Vamos.
- Eu temia que voc me houvesse esquecido.
- No esperava mais tornar a v-lo.
- No pense que sou sem palavra. Geralmente fao o que digo, contudo, no
pude vir antes, infelizmente.
- Alguma namorada?
Ele riu divertido.
- Voc  ciumenta?
Mariazinha enrubesceu.
- Desculpe. Minha pergunta foi indelicada. Simples curiosidade.
- No respondeu a minha pergunta. Voc  ciumenta?
- Por que quer saber?
- Quero conhec-la melhor. Um pouquinho de cime  bom,
muito,  desagradvel.
- Tambm acho. No tenho nenhum motivo para ter cimes de voc. Afinal,
mal nos conhecemos.
- Estou aqui para remediar isso. Gostaria que voc me apreciasse.
Segurou a mo dela, levando-a aos lbios com carinho. Mariazinha sentiu seu
corao bater mais forte. Teria encontrado de novo o amor?
Nair ficara bem impressionada com Jlio. Bonito, bem vestido, fino, educado,
tinha um jeito de olhar nos olhos das pessoas que lhe
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agradava. Sentia-se feliz pela amiga. Mariazinha merecia esquecer e encontrar
a felicidade.
                Pensou no Jovino. Seu rosto no lhe sara da mente durante a
semana toda. No dia seguinte, voltariam a v-lo. Como as receberia?
Magali pedira-lhe para rezar. Ela o fazia de corao. Ia  igreja e pedia
a Deus por ele, mas ao mesmo tempo, sentia-se impotente. Reconhecia que s
Deus poderia libert-lo. Acreditava em sua inocncia.
Que injustia! Enquanto o moo sofria inocente, o verdadeiro assassino estava
livre para cometer outras maldades. Lembrou-se de Rino.
Teria sido ele? Tinha srias suspeitas, mas como descobrir?
A arma, o cachecol, eram provas difceis de serem recusadas.
Depois, o Rino era filho de gente rica. O pai era comerciante e metido em
poltica. Quem se atreveria a suspeitar dele?
De repente, Nair sobressaltou-se. Se Rino visse Mariazinha com Jlio, poderia
fazer alguma coisa. No era bom eles ficarem andando pelas ruas do bairro.
Se algum da turma dele os visse, poderia contar-lhe.
Ficou angustiada. Mariazinha tinha o direito de escolher o namorado e ele no
podia impedi-la. Entretanto, ele era alm de ciumento, vingativo. Sua paixo
era perigosa.
Ao chegar em casa, foi para o quarto e orou pedindo a nossa senhora proteo
para o jovem casal. Depois disso, sentiu-se mais calma, porm, a cada pouco,
ia espiar pela veneziana, olhando a esquina por
onde eles deveriam passar ao regressar. S se acalmou quando os viu
atravessar a rua de mos dadas, conversando tranqilamente.
- Graas a Deus - pensou e recolheu-se para dormir.
O casal parou frente ao porto.
- Chegamos!
- Precisa entrar?
- J  tarde. Quase dez horas.
-J? Passou rpido. No vai convidar-me a entrar?
- A estas horas? J pensou no que diria papai?
- Amanh virei mais cedo. Quero cumprimentar sua me.
- Fazer mdia.
- Claro. Tem todo jeito de uma grande me.
- Ela  a melhor me deste mundo.
- Sabia que voc ia dizer isso!
Continuaram conversando e quando Mariazinha entrou em casa,
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seu corao cantava de alegria. Jlio era encantador. Apreciava cada
frase do moo, seu jeito franco, seu sorriso alegre e bonito.
Sua me j se recolhera, e ela, procurando no fazer rudo, foi
para o quarto e deitou-se.
Sentia-se feliz! Naquela hora, a lembrana de Alberto estava distante,
substituda pelo rosto bonito de Jlio, seu jeito afetuoso, seu ar encantador.
Entusiasmada, Mariazinha rememorava cada palavra, cada gesto,
cada momento daquele encontro, sentindo prazer de viver. Embalada
por novos sonhos de felicidade, adormeceu.
No dia seguinte, logo aps o almoo, Nair foi ver a amiga.
- Pelo seu rosto j sei que tudo foi muito bom.
Mariazinha sorriu:
- Acertou. Ele apareceu assim, quando nem eu esperava mais!
- Ele  encantador.
- Voc notou?
- Sim. E alm de tudo pareceu-me um bom moo.
Mariazinha no escondeu seu entusiasmo.
- Tambm acho. Vai vir mais cedo hoje para cumprimentar mame.
- Nota-se que  um moo decente.
- Voc simpatizou mesmo com ele!
- Muito. Desejo de corao que d tudo certo. Voc merece!
- Voc  minha amiga. Torce por mim. Gosto dele, vamos nos
conhecer melhor, quem sabe...
- Voc encontrou um novo amor. Seria prudente no andar muito
pelo bairro com ele. Rino  mau-carter. No desejo preocup-la, mas
tenha cautela. Nunca  demais.
Mariazinha permaneceu pensativa alguns segundos, seu rosto estava srio.
- No havia pensado nisso. Voc acha que ele poderia tentar alguma coisa
contra o Jlio?
- No sei. Ele  louco por voc. No vai gostar do seu namoro.
- Isto fez-me pensar no Alberto. Ele teria alguma coisa a ver com o crime? O
culpado est preso.
- No sei.
Vendo a palidez da amiga, Nair no teve coragem de contar-lhe
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sobre o Jovino. Ela poderia ter uma recada. No desejava impression-la. Por
isso, sorriu tentando desviar o assunto.
- Ningum sabe bem como aconteceu. Eu s disse para tomar cuidado, porque
Rino  bem capaz de provocar briga. Briguento, ciumento, isso ele .
-  mesmo. Foi bom voc lembrar. Seria muito desagradvel se ele aparecesse
para provocar o Jlio.
- Evite os lugares onde ele costuma estar e pronto. Nada acontecer.
- Tem razo. Fez bem em me alertar.
Nair mudou de assunto e logo Mariazinha voltou a sorrir. Despediu-se da amiga
e saiu, sem contar onde iria naquela tarde. Emocionava-se ao pensar em rever
o Jovino. Como estaria?
Foi ao encontro de Magali com ansiedade. Abraaram-se com alegria.
- Tenho esperana de encontr-lo mais animado -disse Magali.
- Alguma novidade?
Magali abanou a cabea.
- Nada. Tudo na mesma. Fui ao Centro Esprita e as mensagens
(oram para ter pacincia, confiar em Deus e esperar sem desanimar.
- No temos outro remdio.
No presdio, as duas aguardaram ansiosas. Desta vez no tiveram
que esperar muito. Jovino estava to ansioso quanto elas.
Apertando a mo de Magali, ele disse com emoo:
- Temia que no viesse. Que se arrependesse. Fui muito rude.
Magali sorriu.
- Voc foi, porm ns compreendemos.
- O que vocs esto fazendo por mim, jamais esquecerei.
- Voc  inocente - disse Nair olhando-o firme. - A verdade h
de aparecer.
- Eu acredito nisso - ajuntou Magali - o que fizeram com voc no
tem cabimento.
Jovino olhou-as dizendo com voz embargada:
- Ouvir isso faz-me um grande bem. At agora, eu estava sozinho
carregando o peso do meu drama. Desacreditado, sem esperana.
Conforta-me saber que vocs acreditam em mim, em minha inocncia.
- No descansaremos enquanto no conseguirmos provas para
libert-lo - disse Magali.
Jovino suspirou triste.
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- O que vocs esto fazendo, est me ajudando muito. Com vocs
do meu lado, sinto-me mais calmo, mais conformado. Pensei muito
recordei tudo como aconteceu e no vejo meios de provar minha
inocncia. No h testemunhas. Ningum viu nada a no ser eu mesmo
circulando prximo ao local onde o corpo foi encontrado. Nem eu posso
explicar como meu cachecol foi parar l, nas mos de Alberto.
Onde encontrar as provas? A justia no aceita hipteses, quer fatos.
- Eu tambm tenho pensado muito.  capaz de contar-me minuciosamente
tudo quanto aconteceu naquela noite?
- Posso. O Alberto estava no quarto, se aprontando para sair. Vi
quando o Rui o interpelou e ele respondeu que ia a procura de
Mariazinha. Entrei na conversa e tanto eu, como o Rui, tentamos convenc-lo a
no ir. Relutando, ele por fim concordou. Rui convidou-o para ir ao cinema, ele
no aceitou. Disse que preferia ir dormir. Rui saiu
sozinho. Alberto fechou a porta do quarto, e eu fui para o meu quarto. Porm,
meu corao estava oprimido. Alberto nunca desistia com facilidade. No meu
quarto, por mais de uma hora, fiquei atento ao
menor rudo. No ouvi nada. Deitei-me e passei por um sono rpido,
acordei sobressaltado. Levantei-me angustiado. Voc sabe que eu me
preocupava muito quando eles saam e voltavam tarde. O Rui porque brigava,
e o Alberto porque sempre se metia em confuso.
Magali assentiu com a cabea, e o Jovino prosseguiu:
- P ante p, fui ao quarto de Alberto ver se ele estava dormindo. Abri a porta
de leve e na obscuridade olhei a cama vazia. Nem fora desfeita. Ele mentira.
Fiquei irritado. Se ele insistisse em ver a moa eu
o teria acompanhado. O carro estava disponvel. Mas ele preferira ir
s. E se aquela turma o agredisse de novo? Ningum estaria a seu lado
para defend-lo. Fui para o quarto, vesti-me rpido e sa procurando
no acordar ningum. Pretendia encontr-lo e de longe ficar vigiando.
Quando se despedisse da moa, voltaria comigo. Eu sabia onde ela morava e
o clube onde eles se conheceram.
- Viu que horas eram quando saiu de casa? - perguntou Magali.
- Vi. Faltavam dez minutos para as dez. Circulei perto do clube,
depois passei pela casa dela, estava s escuras. Voltei ao clube, parei o carro
e desci. Circulei a p por ali, havia luz mas no parecia noite de baile. Voltei
para o carro e fiquei ali, sem saber onde procurar. Vrias vezes andei por ali,
pelas ruas prximas da casa de Mariazinha. No vi nada. J era muito tarde, o
clube j estava fechado, e eu comecei a
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Pensar que meus temores eram infundados. O Alberto no teria ido ao
encontro da moa. Sara para outro local, eu estava fazendo papel de bobo.
Por aqueles lados, ele no estivera. Voltei para casa, guardei o carro e fui ver o
quarto, continuava vazio. Intrigado, sem saber o que fazer, deitei-me. Estava
cansado. Procurei dormir. O resto voc j sabe.
- Sei, - disse Magali pensativa. - Lembra-se que horas se deitou?
- Passava das duas.
- Em nenhum momento percebeu que o revlver no estava no carro?-
perguntou Nair.
- Ele estava sempre l. Eu no o tirava para nada. Mantinha o porta-luvas
fechado  chave. No olhei quando sa. No abri o porta-luvas. No sei como
ele poderia ter sido tirado de l. A chave estava
comigo, no chaveiro do carro.
- Quando voc desceu do carro, perto do clube, deixou a chave
dentro? - perguntou Nair.
- , eu pensei na hiptese de algum t-lo roubado quando voc
circulou a p - considerou Magali.
Jovino abanou a cabea.
- No poderia. No me recordo desse detalhe, mas no creio que
tenha deixado a chave no carro.  automtico. Qualquer motorista
sabe, a primeira coisa que se faz ao sair do carro  pegar a chave.
- Ento, como o revlver poderia ter sado de l?
- Isso me intriga. No consigo entender.
Magali suspirou pensativa.
- Tem de haver uma explicao. De alguma forma a arma foi parar
l. Notou se o porta-luvas foi forado? Para uma pessoa habilidosa, no
seria difcil abri-lo. Os ladres abrem fechaduras e at cofres com
facilidade...
Jovino sacudiu a cabea.
- No notei nada de anormal. Se a fechadura houvesse sido forada, eu
perceberia. Teria sido um bom argumento em meu favor.
- S o Alberto poderia esclarecer o que de fato aconteceu.
Jovino no se conteve:
- Acredita mesmo que ele esteja vivo? Isto , que exista mesmo
esse outro mundo dos espritos?
- Acredito, Jovino. Mariazinha o viu vrias vezes. Eu sonhei com
ele e no foi um sonho comum.
As duas relataram tudo quanto sabiam a respeito, como haviam
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se conhecido, os esclarecimentos de D. Dora, os problemas de -
Mariazinha.
-  incrvel - disse ele - mas eu acredito! O Alberto foi sempre
bondoso, justo. Ele sabe que sou inocente. Que fiz tudo para proteg-lo e evitar
a tragdia. Deve reconhecer que foi imprudente e por isso perdeu a vida, me
envolveu nessa situao. Seria justo ele desejar restabelecer a verdade.
Esclarecer os fatos, ver o verdadeiro culpado punido.
- Confio na ajuda dele - tornou Magali.
- Se ele pensa assim, no poderia relatar como foi? Se seu esprito est vivo e
interessado, por que no aparece e conta tudo?
- No  to fcil assim - esclareceu Magali. - Eles no podem
tudo. Sozinho, ele no saberia como fazer isso e os que dirigem as
comunicaes nos Centros Espritas no permitem uma interferncia direta nos
acontecimentos.
- Por qu? - indagou Jovino.
- Porque tudo quanto acontece obedece s leis da vida, a prpria
fora das coisas. Ns escolhemos livremente este ou aquele caminho
e isso determina esta ou aquela experincia. S a sabedoria divina conhece
quando o melhor momento para recolocar tudo nos devidos lugares e
naturalmente o far, porquanto Deus s faz o bem, e o mal 
iluso passageira.  compreender, crer na ao do bem e esperar.
Jovino abanou a cabea.
- No escolhi este caminho. Nunca roubei, nem matei ningum
e estou aqui preso por um crime que no pratiquei.
A voz de Magali estava um tanto diferenciada quando disse:
- Voc no era violento por ndole,mas sempre acreditou na violncia. Via
perigo em tudo. Estava sempre querendo nos proteger. No acreditava que
Deus tinha poderes para isso e o que  mais grave, acreditava na fora do mal,
confiava mais na arma que guardava no carro do que na providncia divina.
Jovino olhava-a admirado. O que ela dizia era verdade, porm no se deu por
achado:
- No sou religioso, mas o mal no  iluso. Este presdio est
cheio de gente ruim, que matou, roubou, traiu, odeia, grita por vingana.
Eu mesmo nunca fiz mal a ningum, mas fizeram comigo esta maldade.
- Pensando dessa forma, ser difcil restabelecer a verdade. Voc acredita no
mal e o alimenta com a fora da sua mente. Para perceber o que  verdadeiro,
 preciso compreender que Deus s faz o bem, que
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Ele quer o bem e que s existe o bem. O homem acredita no mal e o
alimenta, mas dia vir em que ter que perceber que est destinado  luz, ao
amor,  alegria e que tudo o mais vai acabar. Que a programao divina nos
criou para sermos felizes.
Os olhos de Magali brilhavam iluminados por um magnetismo
diferente e tanto Nair quanto Jovino, envolvidos, no conseguiam desviar os
olhos dela.
- Voc acredita no mal, agora no cometeu nenhum crime, mas
pode t-lo feito em encarnaes passadas, quando escolheu a violncia como
soluo dos seus problemas. O que est acontecendo com voc  para que
compreenda que a violncia no s agrava ainda mais uma situao, como
atrai a lio que precisamos aprender. Entretanto, como Deus  justo, amoroso
e nunca pune ningum, se voc modificar sua
Crena, deixar de dar fora para o mal em sua vida, os fatos que o envolvem
tambm se modificaro. Percebendo que s o bem existe e  a nica fora
verdadeira da vida, comear a dar um espao a que ele possa atuar em voc.
Jovino ficou impressionado:
- Desse jeito, voc diz que de certa forma eu contribu para o que aconteceu.
- Voc  o nico responsvel pelo que acontece em sua vida.
- Nunca me acreditei culpado. Os outros  que me envolveram nesta situao.
- Engano. Os outros foram envolvidos pela fora das coisas que voc
desencadeou. Obedeceram. A responsabilidade  sua. Pense nisso. Percebe
como voc deu guarida ao medo da violncia, como voc
sempre se colocou como vtima social, como sempre esperou tudo dos outros.
Jovino fitava-a assustado. Ela prosseguiu:
- Pense e modifique seus pensamentos. S Deus tem poder. S o bem existe
realmente. Quando acreditar nisso, toda sua situao se modificar.
Experimente e ver.
Magali calou-se. Suspirou, passou a mo pela testa.
-Voc disse coisas estranhas. Acredita mesmo nisso?
- Falou como se estivesse vendo o futuro - ajuntou Nair.
-No havia pensado nisso antes, dessa forma. Mas sinto que estes
pensamentos que me ocorreram so verdadeiros. Acredito neles. No fundo da
minha alma, sei que so reais.
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- Quisera possuir a sua f - disse Jovino pensativo. - Custa-me pensar que eu
possa ter ocasionado estes fatos. Parece-me absurdo.
- Voc no o fez conscientemente, por ignorar certas coisas. Mas experimente
acreditar no bem, no alimente o medo, o pessimismo, o mal. Cultive
pensamentos bons. Deus o ama muito e vai por certo dar-lhe o melhor e vamos
esperar os resultados.
Quando elas se foram, Jovino de volta a cela, estendido no leito, rememorou
toda a conversa.
Magali era ingnua, sonhadora. S o fato dele acreditar no mal ou no bem, no
iria modificar os fatos. Ele precisava de provas que o inocentassem, de
encontrar o verdadeiro assassino, e ela lhe oferecia palavras, conceitos,
procurando justificar os fatos com a iluso.
Um sentimento de ternura o acometeu. Magali queria anim-lo, erguer sua
moral. Como no dispunha de recursos mais objetivos, estimulava sua f, seu
otimismo.
Jovino remexeu-se no leito. Podia compreender a inteno dela.
A vida o ensinara que era preciso no sonhar. A realidade era bem outra.
"Voc acreditava na violncia, vivia querendo nos proteger".
- Claro - pensou ele. - A maldade do mundo  uma constante.
H mais pessoas ruins do que boas. A vida para ele fora sempre de sofrimento,
dor e dificuldade. Magali estava enganada. Ele no se sentia responsvel pelo
prprio destino.
No escolhera nascer sem pai, nem perder a me de forma to dolorosa, em
uma idade em que sequer sabia pensar por si.
Lembrou-se da reencarnao. Teria mesmo tido uma vida anterior?
Considerava injusto ter que responder por uma vida da qual sequer lembrava.
Visualizou o rosto de Magali, enquanto dizia:
- Voc acredita no mal. Agora no cometeu nenhum crime, mas pode t-lo feito
em encarnaes passadas. - Teria sido um assassino?
Estremeceu. Se fosse verdade, ele estaria agora respondendo pelo seu crime.
Como saber? Existiria mesmo a justia divina? Ele temia a violncia, mas seria
capaz de matar?
Teve que reconhecer que sim. Se tivesse visto Alberto ferido ou em perigo, se
houvesse surpreendido seu assassino, no teria hesitado em atirar. Quem no
o faria? A defesa era legtima.
Suspirou fundo. Era difcil julgar. As pessoas agrediam, matavam
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e havia necessidade de defesa. Deus estava distante e no aparecia para
defender ningum.
H momentos em que  preciso defender-se. Ali no presdio, se ele
no houvesse sido duro, mostrado sua fora, por certo teria sido submetido a
todos os vexames.
Ele no era agressivo, porm, quando agredido, sabia defender-se.
Novamente o rosto expressivo de Magali, acudiu-lhe  memria enquanto dizia:
- Perceba como voc deu guarida ao medo, a violncia, como voc sempre se
colocou como vtima social, como sempre esperou tudo dos outros.
- Eu no me coloquei
- reagiu ele
- foi a vida. Eu tinha que esperar tudo dos outros, fui criado de favor. Jamais
tive autonomia.
"S Deus tem poder. S o bem existe realmente. Quando acreditar nisso, toda
sua situao se modificar. Experimente e ver".
Acreditar no bem? Como?! A vida para ele s oferecera orfandade e tristezas.
Como acreditar em uma fora que nunca vira?
Lgrimas assomaram-lhe aos olhos e ele deixou-as correr livremente.
- Se ele pudesse crer na existncia do bem - pensou - poderia cultivar a
esperana e sofrer menos. Nesse ponto, Magali estava certa. Se pudesse ter
f, enfrentaria a vida com mais coragem.
Pensou em Deus e pediu:
- Eu quero ter f, mostra-me o caminho!
Uma brisa leve o envolveu, e ele sentiu-se mais calmo. No viu o vulto de
mulher que, aproximando-se com carinho, beijou-lhe a testa, afagou-lhe os
cabelos com amor. Sem perceber a amorosa presena, Jovino adormeceu.
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Captulo 9
 Mariazinha saiu da fbrica e caminhou rapidamente para o ponto do bonde.
Estava com pressa de voltar para casa. Ao atravessar a rua, algum a segurou
pelo brao enquanto dizia:
 -  sempre assim to apressada?
 Ela parou agradavelmente surpreendida:
 -Jlio! No esperava v-lo por aqui!
 - Hoje no era dia de ir a sua casa, mas senti saudade!
 Mariazinha corou de prazer. H dois meses eles estavam namorando. Jlio
freqentava sua casa regularmente trs vezes por semana e Mariazinha sentia
que estava apaixonada por ele. Seus pais, felizes com o namoro, apreciavam
Jlio e a cada dia reconheciam nele melhores condies de tornar Mariazinha
feliz.
 - Queria ver onde voc trabalha!
 - Devia ter me avisado. Eu teria me arrumado melhor.
 Ele riu enquanto dizia:
 - Isso no. Eu queria ver como voc  sem artifcios.
 - E ento? - perguntou ela em tom de desafio.
 Ele olhou-a srio e havia algo em seus olhos que fez o corao de Mariazinha
bater mais depressa.
 - O que eu queria mesmo  v-la, estar com voc. No agentei
pensar que hoje no iria encontr-la.
 - Estou feliz que tenha vindo. Eu tambm sentia muita vontade de estar com
voc.
 Jlio levantou delicadamente o queixo da moa e beijou-lhe os lbios com
carinho. Ela sentiu um calor agradvel percorrer seu corpo e no disse nada.
 O bonde estava cheio e Mariazinha ficou em p entre os bancos, enquanto
Jlio pendurava-se no estribo. Logo algum desceu e a moa sentou-se. Sara
cansada do trabalho mas nem se lembrava mais disso.
Estava feliz. Algum mais desceu e Jlio pde sentar-se a seu lado.
Passou o brao sobre seus ombros e apertou-a de encontro ao peito. Suas
cabeas encostaram-se enquanto conversavam baixinho.
 De repente, Mariazinha sentiu um arrepio e levantou os olhos.
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encontrou os olhos fuzilantes de Rino que no estribo do bonde, bem no banco
onde eles estavam, os fixavam rancorosos. Mariazinha estremeceu.
 O que foi? - perguntou Jlio, surpreendido.
 Seguiu o olhar dela e seus olhos se encontraram com os de Rino.
Havia tanto dio neles que ele inquietou-se.
 - Voc o conhece? Quem ?
 Mariazinha desviou os olhos com o corao descompassado. Temia que Rino
provocasse uma cena. Fingiu ignor-lo, respondeu baixinho:
 - Depois eu explico. Melhor ignor-lo.
 Afortunadamente, estavam no ponto da casa de Rino e foi com grande alvio
que Mariazinha o viu descer.
 Durante seu namoro com Jlio, nunca eles haviam se encontrado. Alis o
moo desaparecera do bairro, estivera viajando. Metera-se em uma encrenca e
seu pai o mandara passar algum tempo fora.
 -Voc ficou tensa por causa daquele sujeito. No gostei da forma como ele
nos olhava. Estava louco de dio.
 - Voc sentiu?
 - Claro. Pensei que ele fosse me agredir.
 Mariazinha suspirou fundo. Estava na hora de descer. Enquanto caminhavam
para a casa dela, Jlio considerou:
 - Quero que me conte o que h com ele. Seja sincera. Eu gosto de voc de
verdade. No pode haver segredos entre ns.
 - Certamente. Vamos at em casa. Mame se preocupa quando no chego no
horrio. Aviso-a que cheguei e continuaremos nossa conversa.
 Depois de conversar com Isabel, sentaram-se na varanda. Jlio esperou que
ela falasse.
 - Contei a voc que tive um namorado, a quem vi poucas vezes e que foi
encontrado morto com dois tiros aqui perto, em um terreno baldio atrs do
clube.
 Jlio assentiu, e ela prosseguiu:
 - Voc sabe como fiquei impressionada com isso e at adoeci, razo pela qual
tive as frias em Santos.
 - Sim, continue.
 - Porm, no contei os detalhes. Agora,  melhor que saiba para prevenir-se
contra o Rino. Ele meteu na cabea que eu tenho que ser
dele e jurou que no serei de mais ningum.
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 - Voc j o namorou? Deu-lhe esperanas?
 - Quando o conheci, ele interessou-se por mim. Encontrei-me com ele algumas
vezes. Logo percebi que no o apreciava e que jamais
iria aceit-lo. Fui franca. Com educao e respeito, disse-lhe a verdade. Jamais
dei esperanas. Isso parece haver aumentado seu interesse. Na noite em que
conheci o Alberto...
 Mariazinha contou minuciosamente tudo quanto acontecera e ao final ele
disse:
 - Se o assassino do Alberto no estivesse preso e condenado, eu seria capaz
de dizer que esse Rino teve a ver com esse crime.
 - Voc fala como Nair. Ela suspeita dele. Principalmente por ele me haver
ameaado e proibido de contar  polcia sobre a briga.
 - Voc acompanhou o caso. Quem est preso e por que cometeu
o crime?
 - O motorista da casa, um moo que foi criado pela famlia. Era estimado e
ningum suspeitava que ele pudesse matar. Dizem que foi por inveja.
 - E ele, o que disse?
 -Jura inocncia. Jamais admitiu o crime. Mas as provas eram todas contra ele.
O revlver era o que ele guardava no porta-luvas do carro e seu cachecol
estava nas mos do morto. Depois, ele foi visto rondando o clube naquela
noite. Disse que estava preocupado com o Alberto e procurava por ele.
 -Acha que foi ele?
 A moa fitou-o interdita. Omitira seus sonhos com Alberto, sua ida 
cartomante. Tinha receio de parecer ignorante. Vencendo a vergonha, acabou
por relatar o resto, inclusive sua ida  casa de Alberto,
onde no se lembrava de haver chamado a irm dele pelo nome e acordara
surpreendida e envergonhada, na sala de estar da famlia.
 Jlio ouviu-a srio e opinou:
 - Naturalmente, o esprito de Alberto est interessado e envolveu voc.
 - Acredita nisso?
 - Por que no? A morte no  o fim de tudo. O esprito continua vivo em outro
mundo e conserva os mesmos afetos, problemas, desejos, a mesma
personalidade que tinha no corpo.
 - Acredita nessas coisas?
 - Acredito. Por certo, voc  mdium.
108


 Mariazinha segurou a mo do Jlio temerosa.
 - Por favor, no diga isso. Eu no quero. Custei muito a encontrar equilbrio.
No desejo voltar a sentir aquelas coisas de novo.
- No sonhou mais com Alberto? No soube nada dele?
 - Felizmente, no. Naturalmente foi iluso. Se fosse verdade, ele no teria
desistido. Eu estava impressionada, s isso.
 > A Nair estava com voc quando foi a casa dele. O que ela acha?
 - Que o moo que est preso pode ser inocente e que por isso o Alberto disse
que tudo est errado. Certamente ela exagera. Suspeita do Rino, ela no gosta
dele. Ele no presta, contudo chegar ao crime, no o acredito capaz.
 - Eu no diria isso. Gostaria de conversar com a Nair sobre isso.
 - Acha bom? Receio envolver-me novamente...
 Jlio apertou sua mo com fora enquanto dizia:
 - Seja o que for que tememos, sempre ser melhor enfrentar do que fugir.
Depois, ser mdium  uma condio natural. Tudo quanto Deus faz  certo. Se
ele nos fez mais sensveis a ponto de percebermos coisas que a maioria das
pessoas no percebem,  para o nosso bem. O melhor  aprendermos a usar
esse potencial do nosso esprito, comandando-o da maneira adequada do que
sermos,  nossa revelia, conduzidos a contragosto por espritos nem sempre
equilibrados a situaes
dolorosas e enfermias.
 - Voc entende dessas coisas.
 - Sou estudioso desses assuntos. A vida me colocou em situaes que me
mostraram esse caminho. Acredite, precisa vencer o medo,
confiar em Deus, porque ele nunca erra.
 - Eu confio em Deus!
 - Quem confia no sente medo. O medo est sempre onde no existe f.
 - Ainda assim, estes assuntos me causam arrepios. Veja como estou
arrepiada.
 -  seu corpo querendo chamar sua ateno para as energias que circulam ao
seu redor. S isso.
 Ela sorriu mais calma:
 - Voc diz as coisas de um jeito!
 - Coloco as coisas como elas so, de forma natural. Todas essas coisas so
naturais. Pertencem  vida. Chega um tempo na existncia de cada
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um, que no se pode ignorar mais essa realidade. Ento, coisas comeam a
acontecer para demonstrar isso.
 Isabel apareceu na porta da varanda com um sorriso nos lbios.
 - Vocs esto conversando e ainda no comeram nada. Preparei um lanche
para ns.
 Jlio levantou-se:
 - Desculpe, D. Isabel, por eu haver aparecido fora de hora. No desejo abusar.
No queria que se incomodasse.
 - Nossa casa est sempre aberta para voc. Deve aparecer sempre que sentir
vontade.
 - Obrigado. Eu queria ver Mariazinha, senti saudades. Pretendia traz-la em
casa e ir me embora. Ficamos conversando e o tempo passou.
 Isabel sorriu. A alegria que via no rosto da filha tornava-a muito feliz.
 - Alegro-me que esteja aqui. Entre, vamos ao nosso lanche.
 Mariazinha no estava com fome, porm no quis desagradar a me.
A mesa estava posta com carinho e tanto Isabel como Jos procuraram deixar
o moo  vontade, conversaram com ele alegremente.
 O ambiente carinhoso que reinava naquele lar, agradava Jlio que sentia-se
muito bem ali.
 Quando voltaram  varanda depois de comer, Jlio retornou ao assunto.
 - Ainda estou pensando no que me contou.
 Foi nesse instante que Nair apareceu no porto. Entrou, quando os viu na
varanda, hesitou. Levantaram-se ambos.
 - Entre, Nair.
 A moa abraou a amiga, cumprimentou Jlio, depois disse:
 - Desculpe. No sabia que voc estava aqui.
 - Foi meu pensamento que a atraiu para c - disse Jlio.
 - Por qu?
 - Estivemos conversando. Mariazinha me contou tudo sobre Alberto e Rino.
 - Jlio foi esperar-me na sada da fbrica, voltamos juntos. Rino estava no
bonde, olhou-nos com tanto dio que cheguei a pensar que nos fosse agredir.
 Nair no ocultou a preocupao.
 - Sempre tive medo que ele os visse.
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 - O que ele pode fazer? - indagou Jlio. - Mariazinha no o quer.
Dever conformar-se.
 - No ele.  vingativo, teimoso. Cuidado quando sair daqui  noite, ande
prevenido. Poder encontr-lo com sua turma em alguma esquina.
 - No tenho medo.
 - Cautela no faz mal a ningum.
 Mariazinha foi buscar mais uma cadeira.
 - No vou demorar...
 - Fique - pediu Jlio. - Eu queria mesmo lhe falar, ouvir sua verso dos fatos.
 - Que fatos?
 - A morte do Alberto, o envolvimento de Mariazinha, tudo.
 Nair olhou a amiga sem saber o que dizer. Mariazinha pediu:
 - Conte tudo, Nair. J contei a ele o que passei, no temos segredos.
 Concordando, Nair contou ao moo tudo quanto Mariazinha j sabia e
terminou um pouco hesitante:
 - Estou contente por Mariazinha haver conhecido voc e estar bem agora.
Receio que este assunto possa perturb-la novamente.
 Jlio retrucou:
 - O medo sempre  prejudicial. Em qualquer situao o melhor ser enfrent-
la, compreend-la. Se o esprito de Alberto deseja esclarecer alguma coisa, ele
voltar.
 Mariazinha arrepiou-se:
 - No acredito nisso. Ele no teria ido embora sem conseguir o que desejava.
 - Ele pode estar tentando agir de outra forma, atravs de outras pessoas para
no perturb-la.
 Nair admirou-se:
 -Voc entende desse assunto!
 - Um pouco. O suficiente para perceber isso.
 - Falar sobre isso no vai prejudicar Mariazinha?
 - Nesses casos,  sempre melhor conhecer do que ignorar. Diga-me com
sinceridade, voc acha que esse motorista  mesmo o assassino?
 Nair remexeu-se na cadeira, tomou coragem e respondeu com voz firme:
 - Jovino  inocente. No matou Alberto.
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 - Como sabe? - tornou Mariazinha. - Como pode afirmar isso?
 - Porque eu o conheo. Sei que  inocente. Acredito que esteja dizendo a
verdade.
 Mariazinha olhava entre surpreendida e assustada; Jlio interessou-se ainda
mais:
 - Como assim?
 Nair contou tudo. Sua amizade com Magali, suas dvidas, a ida ao presdio e
as mensagens no Centro Esprita.
 Mariazinha no saa da surpresa:
 - Voc no me disse nada! Como pde ocultar tudo isso?
 Nair abanou a cabea.
 - Desculpe. No fiz por mal. Temia perturb-la. Voc est to bem! Agora, com
o Jlio, ganhei coragem. Mesmo porque tenho a certeza da inocncia de
Jovino e o verdadeiro assassino est solto por a. E se houver sido o Rino?
Vocs precisam estar prevenidos.
 - Que horror! - Mariazinha encolheu-se, apertando fortemente as mos que
Jlio retinha entre as suas.
 - Terei feito mal em contar?
 - Nem pense nisso. Como voc diz, o melhor  estar prevenido.
 - E se foi mesmo o Rino? - Mariazinha estava plida. - Ele poder tentar algo
contra voc!
 - Calma - disse Jlio. - Por enquanto  apenas uma suspeita. No sabemos
nada. Pode no ter sido ele.
 - Nesse caso... - comeou Nair.
 - Nesse caso, o melhor ser investigar. Tentar descobrir a verdade.
 - Vai ser difcil. O Jovino no esclareceu nada. No sabe nem como a arma
sumiu do porta-luvas.
 - Vocs sabem o nome completo e o endereo do Rino?
 - Sei - disse Mariazinha.
 - Eu quero por escrito. Vamos colher informaes sobre ele. H pessoas que
trabalham nesse setor.
 - Um detetive? Isso custa muito dinheiro!
 Jlio sorriu.
 - Tenho um amigo que far isso por mim, de graa. Vamos saber o que esse
moo faz na vida, como age ou pensa.
 Nair suspirou:
 - Sinto-me aliviada por haver contado. Eu e Magali temos estado sozinhas.
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 - Tm tido a ajuda de Deus e dos amigos espirituais, e at do maior
interessado que  o Alberto. Como acham que conseguiram vencer a
resistncia do Jovino?
 -  verdade. Foi surpreendente e emocionante. Confesso que no contive as
lgrimas. Estou animada com seu interesse.
 - Pois pode contar comigo. Mariazinha  livre para escolher seu caminho. Esse
moo no tem o direito de perturb-la.
 - Tenho medo dele! No o desafie! - ponderou Mariazinha.
 - No sou de briga. Porm no gosto de imposies nem de injustias. Vamos
procurar a verdade. Parece-me que Deus est conosco e deseja restabelecer
as coisas. Podemos nos tornar instrumentos dele. Quando estamos com Deus,
tudo se resolve com facilidade.
 - Que alvio! - desabafou Nair radiante. - Dividir esse problema fez-me bem.
Magali gostar de saber que contamos com aliados.
 - Gostaria de conhecer o Jovino. Como  ele?
 Nair permaneceu pensativa durante alguns segundos depois disse:
 - No incio, ele pareceu-me revoltado, descrente, negou at a existncia de
Deus... Agora, percebo que  apenas um menino assustado. De qualquer
forma, nosso apoio fez-lhe bem. Pude notar que tem muito carinho por Magali e
mostra-se atencioso comigo. No sei explicar por que, mas acredito que esteja
dizendo a verdade. H algo em seus olhos que me diz que Jovino no seria
capaz de haver cometido esse crime. Fala das pessoas da famlia e do prprio
Alberto com muito afeto.
 Jlio ouvia atento, ao final disse:
 - Vocs se incomodariam se eu as acompanhasse ao presdio?
 Nair deu de ombros.
 - Da minha parte, acho bom. Falarei com Magali.
 - Faa isso. Quando pretendem ir visit-lo?
 - Sem ser no prximo domingo, no outro.
 - Quer ir tambm? - indagou Jlio a Mariazinha.
 - No sei. Nunca fui a um presdio. Vou pensar...
 Jlio assentiu.
 - Pense. Se quiser, iremos juntos. Lembre-se, Mariazinha, que o medo distorce
a verdade e tumultua nossa vida. Quando Deus nos coloca em determinadas
situaes, precisamos estar preparados para
vivenci-las sem receio, porque vencendo-as, desenvolveremos nossos
potenciais, melhoramos nossa vida. Depois, agindo no bem, acreditando
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no bem, contamos com a ajuda de Deus. Quando estamos com Deus, quem
nos prejudicar?
 Mariazinha considerou:
 - Quando voc fala, meu medo desaparece. Minha me no vai gostar, mas
irei com vocs se Magali concordar.
 - Conversarei com D. Isabel. Ela vai compreender.
 Continuaram conversando animadamente. Quando Nair retirou-se estava feliz.
Jlio revelava-se um moo srio, bom, interessado em fazer o bem. Parecia
gostar de Mariazinha de verdade. Aquele namoro tinha tudo para dar certo.
Desejava  amiga toda a felicidade do mundo. O nico problema era o Rino,
mas Jlio estava prevenido. Rino no seria to louco a ponto de agredi-lo e de
despertar suspeitas.
 A esse pensamento, Nair sentiu um aperto no corao. Ele poderia mandar
outra pessoa, no aparecer. Era vingativo, e seu louco amor por Mariazinha,
um motivo muito forte.
 - Devo confiar em Deus - pensou, tentando acalmar-se. Estamos fazendo o
bem e ajudando um inocente. Ele h de nos mostrar a verdade.  s o que
desejamos, descobrir a verdade.
 No dia seguinte, telefonou a Magali, colocando-a a par de tudo.
Ela ficou radiante. Finalmente aparecera algum interessado em ajud-las. J
no sbado, encontrou-se com Nair e juntas foram  casa de Mariazinha onde
Jlio as esperava.
 Isabel estava nervosa. A presena da irm do moo assassinado poderia
transtornar Mariazinha. Preferia que ela esquecesse Alberto.
Era loucura pretender envolver-se nesse caso. Contudo, Jlio estava decidido
a convenc-la do contrrio. Isabel relutava.
 -  uma temeridade. Nada temos com o caso. O moo morreu mesmo e nada
podemos fazer em seu favor. Mariazinha sofreu muito j por causa disso.
 - Compreendo sua preocupao. Entretanto h um moo que est preso
inocente.
 - No temos certeza - argumentou ela.
 - A senhora diz bem, no temos certeza. Por isso mesmo  preciso descobrir a
verdade. E se ele for inocente mesmo? J pensou a tremenda injustia? E se
esse moo fosse seu filho, como a senhora estaria?
 Isabel ficou pensativa por alguns segundos, depois disse:
 - Pensa que podero descobrir alguma coisa?
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 - Tentaremos. Tudo indica que o prprio Alberto esteja interessado em
esclarecer as coisas.
 - Cruz-credo! Voc fala dele como se estivesse vivo!
 Jlio sorriu alegre:
 - Ele est vivo! O corpo morre, mas a alma, o esprito sobrevive.
 - No creio - respondeu ela.
 - Ele j deu inmeras provas de que est vivo e preocupado com o erro
judicirio que foi cometido contra o Jovino.
 - Voc diz isso de um jeito! Parece verdade.
 - E  D. Isabel. A morte  apenas uma mudana de estado, de lugar.
 - No gosto de falar nesses assuntos. Tenho medo.
 - No precisa preocupar-se. O Alberto no deseja fazer nenhum mal. No
deve tem-lo.
 - Ainda penso que vocs deveriam esquecer esse caso... Trazer essa moa
logo aqui em casa...
 Jlio levantou-se, dizendo:
 - No sabia que a senhora no ia gostar. Ela desejou nos falar, e Mariazinha
convidou-a a vir aqui. Contudo, se a senhora no concorda, iremos esper-la l
fora, conversaremos em outro local. Desculpe, no desejo aborrec-la.
 O rosto de Isabel distendeu-se. A cada dia gostava mais de Jlio.
Sua delicadeza e educao, seu carinho com Mariazinha tocavam fundo seu
corao. No queria desgost-lo. Depois, ele entendia desses assuntos,
confiava nele.
 - De forma alguma, - respondeu. - voc sabe qual  minha preocupao.
Quanto ao resto, concordo plenamente. Se esse moo for inocente, algum
deve tentar ajud-lo. Segundo sei, ele no tem famlia.
Se fosse meu filho, eu estaria desesperada. Podem receber a moa aqui
em casa. No tem cabimento agora vocs conversarem l fora. S peo para
terem cuidado com Mariazinha.
 Jlio colocou delicadamente a mo sobre o brao de Isabel ao responder:
 - No tema. Mariazinha  mdium e por isso fugir no vai resolver seu
problema. Ao contrrio.  enfrentando, compreendendo, estudando, que ela
poder ficar bem.
 - Ela est bem. Por isso  que eu no queria voltar a esse assunto que ela
custou tanto a superar.
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 - Ela ainda no o superou. Tanto que quando falamos sobre isso,
ela se ressente. Se houvesse superado, no sentiria mais nada.
 - Nesse caso, como ela melhorou?
 - O Alberto afastou-se temporariamente. Magali procurou um Centro Esprita,
isso deve t-lo ajudado. Principalmente, conseguiu que sua irm se
interessasse pelo Jovino e tentasse libert-lo. Foi isso que o acalmou e o fez
deixar Mariazinha em paz. Porm, ele pode voltar,
se julgar necessrio, no se esquea disso.
 - Deus me livre!
 - Ele  um moo bom, no h o que temer.
 - Voc fala dos mortos com uma calma!
 - No h motivo para temer. No cai uma folha da rvore sem a vontade de
Deus.
 Isabel abanou a cabea:
 - No sei no... Mariazinha  todo nosso tesouro. Cuide bem dela.
 - Obrigado por confiar em mim. Velarei por ela com todo carinho.
Pode ter a certeza de que se eu suspeitasse que isso iria prejudic-la, seria o
primeiro a evitar.
 Mariazinha apareceu na porta da sala:
 - Elas esto chegando.
 Magali emocionou-se. Abraou Mariazinha com carinho. Apertou
a mo do Jlio e de Isabel. Quando se acomodaram na sala, Magali
considerou:
 - Fiquei feliz por contar com vocs. No sabia que atitude tomar e estava
desanimada.
 - Sua famlia, o que pensa?
 - Com eles, no podemos contar. Mame est muito revoltada. No se
conformou com a morte do Alberto. Meu pai mergulhou no trabalho e mal o
vemos em casa, meu irmo Rui pensa como eles. Ningum duvida da
culpabilidade do Jovino.
 -E voc?
 - Eu sei que ele no matou meu irmo. No sei explicar por que. No comeo
eu duvidava, mas agora, depois de t-lo visto, olhado em seus olhos, no o
julgo capaz de ter feito esse crime.
 - Como era esse Jovino? Ele foi criado em sua casa.
 - Foi. Odete veio trabalhar em nossa casa antes do meu nascimento,
o Jovino tinha meses. Mame conta que gostava muito dela. Quando ela
morreu, atropelada por um automvel, Jovino ficou s no mundo.
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 A Odete era me solteira e no gostava dos parentes aos quais nunca
procurava. Mame nem pde avis-los de sua morte porque sequer sabia onde
encontr-los. Jovino a esse tempo estava com quatro ou cinco anos. Meus pais
resolveram adot-lo. Era um menino obediente e nunca deu trabalho. Adorava
o carro de papai e ficou muito feliz por cuidar dele e preparar-se para ser nosso
motorista. Estudou, fez o ginsio e depois no quis continuar.
 - Como ele era com vocs em casa? - indagou Jlio.
 - Ele era como um irmo mais velho, embora fosse mais novo do que meus
irmos. Tinha muito cuidado comigo, ia levar-me e buscar-me no colgio, todos
os dias. Alberto era distrado, e ele vivia cuidando para ele no esquecer dos
compromissos importantes. O Rui era briguento e metia-se em encrencas, e
ele sempre procurava acalmar os nimos. Jovino nunca deu nenhum problema.
Quando foi preso, todos ficamos muito chocados.
 - Ningum aventou a hiptese dele ser inocente?
 Magali deu de ombros.
 - Estvamos todos muito abatidos. Ningum tinha condies de pensar
claramente. A polcia concluiu, e ns no duvidamos. As provas apresentadas
pareciam concludentes.
 - Por que mudou de opinio? - quis saber Jlio.
 - Por causa dos acontecimentos. No conhecia Mariazinha e quando a vi no
porto de minha casa, fui ver o que estava acontecendo. Voc j sabe da
histria. Ela olhou-me fixamente, eu vi amor em seus olhos quando disse:
"Magali, que saudade!"
 - No me lembro de nada disso. Vocs falam, porm custa-me a crer que eu
tenha dito isso!
 - Pois disse! - afirmou Magali. - Chamou-me pelo nome sem nunca me ter visto
antes. Fiquei intrigada porque depois, quando voc voltou ao normal, no sabia
onde estava, nem quem eu era. Como explicar isso?
 - A forma mais plausvel  a de que Alberto tenha envolvido Mariazinha e
tenha falado com voc atravs dela. Isso  fato comum na mediunidade -
esclareceu Jlio.
 - Eu no entendia nada desses assuntos. Contudo, no pude esquecer o
episdio e desejei aproximar-me de Mariazinha para tentar descobrir o que
acontecera. Vim procur-la, mas ela havia viajado.
Conversei com Nair e fiquei sabendo dos problemas de Mariazinha. O
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resto vocs j sabem. Fui procurar a me de uma amiga que  esprita e
iniciou-me nesses assuntos. Agora sei que Alberto continua vivo, vivendo em
outra dimenso, deseja ajudar o Jovino porque sabe que ele  inocente. Quer
contar  minha famlia, principalmente a minha me,
que ele continua vivo, que a separao  temporria. Porm, ela no aceita.
Vive em desespero. Sua revolta transformou nossa casa em um lugar triste,
desagradvel. Ningum pode sorrir mais, esquecer, viver.
Meu pai, meu irmo, eu, permanecemos em casa o mnimo possvel.
Desse jeito, ela acabar destruindo todas as nossas possibilidades de alguma
alegria nesta vida!
 - Ela passa por uma grande dor - considerou Isabel.
 -  verdade - ajuntou Jlio. - Deus deve estar muito errado.
 Todos olharam-no admirados. Ele prosseguiu:
 - J que ele permitiu que esse crime acontecesse!
 Isabel encorajou-se a dizer reticenciosa:
 - Mas Deus  perfeito! Voc no pode dizer isso!
 - Sim. Ele  perfeito! Logo ele no erra. Se ele permitiu esse acontecimento
to doloroso,  porque ter suas razes, seus motivos que ns
desconhecemos. Reconhecer isso poderia confortar a dor dos envolvidos. A f
restabelece a harmonia e transforma acontecimentos desagradveis em lies
proveitosas de amadurecimento. Um dia, todos saberemos as causas que
provocaram esse triste acontecimento e ento poderemos compreender
melhor. Cultivar revolta, ressentimentos,
mgoas, no vai melhorar os fatos passados, que fogem ao nosso controle,
nem devolver a vida de quem partiu. Mas, certamente aumentar a
infelicidade alimentando-a, atraindo doenas, afastando todas as possibilidades
de quem est aqui agora, precisa e pode ser feliz.
 -  assim que eu penso - disse Magali, comovida. - Nada devolver a vida do
Alberto. O melhor agora, ser esquecer e procurarmos aproveitar a
oportunidade de viver aqui, de aprender.
 Jlio sorriu.
 - Vejo que tem aproveitado suas leituras.
 - Tenho, sim. Mame diz que eu sou fria porque no alimento sua depresso.
 - Dramatizar exageradamente uma situao, s prejudicar ainda mais.
Infelizmente, muitas pessoas tm tendncia de exagerar as coisas
desagradveis que lhe acontecem. Assim, ampliam sua cota de sofrimento, ao
mesmo tempo que enfraquecem seu esprito. Acabam
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quase sempre dominados por entidades desencarnadas que as subjugam e
conduzem.
 - Meu Deus! - disse Nair. - Isso pode acontecer?
 - Pode - respondeu Jlio. - Cada um escolhe o caminho que deseja seguir.
Quem prefere a dor, o sofrimento, a revolta, no se alimenta de f, no reage,
torna-se vulnervel  energia doentia desses espritos com os quais se afina.
 - Isso pode acontecer com mame? - perguntou Magali.
 - Pode. Mas voc pode ajud-la a sair dessa situao, tentando esclarec-la
sobre a vida espiritual.
 - Ela no acredita! - desabafou Magali.
 - Agora. Com o tempo, a prpria vida se encarregar de mostrar-lhe a
verdade.
 -  isso que o Alberto quer - tornou Magali. - Eu sei que ele deseja isso.
 - Ele tambm precisa de nossas preces, de nossos pensamentos otimistas. 
difcil para ele desligar-se do lar, dos amigos, da vida na Terra.
Foi arrancado do corpo em plena mocidade, quando estava cheio de sonhos e
projetos. Ele precisa de pensamentos calmos e compreensivos. A atitude
mental de sua me deve faz-lo sofrer. Por certo, ele deseja que ela se acalme
e procure compreender, para que ele possa seguir seu caminho.
 - De todas as formas, eu acho que se mame reagisse um pouco e aceitasse
o que ela no pode mudar, tudo melhoraria e aos poucos, ns poderamos
voltar a viver uma vida normal.
 Isabel baixou a cabea comovida. Podia compreender o sofrimento dessa
me, mas tambm reconhecia que de nada valia revoltar-se.
 - Foi muito proveitosa nossa conversa - disse Jlio. - Temos j alguns
objetivos a atender: descobrir e provar a inocncia de Jovino.
Ajudar sua famlia a encontrar a f e a serenidade. Assim, estaremos por certo
atendendo ao esprito de Alberto, que por sua vez poder seguir em paz.
 Mariazinha olhou Jlio com carinho. Sentiu brotar dentro de si um profundo
respeito e admirao para com ele, um misto de confiana e de amor, uma
agradvel sensao de paz.
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Captulo 10
 Faltavam dez minutos para as quatorze horas quando o grupo deu entrada no
presdio. Magali, Nair, Jlio e Mariazinha. Isabel dera permisso para a filha ir e
condoda pela situao de Jovino, preparara algumas guloseimas que eles
levavam de boa vontade.
 Desta vez, foram conduzidos a uma sala onde poderiam conversar mais 
vontade sem o incmodo guich. Jovino apareceu e havia ansiedade em seus
olhos que brilharam de satisfao vendo as duas
moas. Aps cumpriment-las, Magali apresentou os companheiros:
 - Esta  Mariazinha, lembra-se dela? Este  o Jlio.
 Jovino olhou-a curioso. Por causa dela as coisas haviam acontecido.
Reconhecia que ela no tivera nenhuma culpa, porm, vendo-a,
seu rosto tornou-se srio e a ansiedade reapareceu.
 Constrangida, Mariazinha disse:
 - Voc deve pensar que eu tenha sido o motivo da tragdia. J sofri muito por
isso, mas o que aconteceu, ningum poderia prever.
 - Eles acreditam em voc. Vieram porque querem ajudar-nos a encontrar a
verdade!- disse Magali.
 Jovino respirou fundo. Jlio esclareceu:
 - Sentimos muito o que lhe aconteceu e viemos dizer-lhe que vamos
investigar. Haveremos de descobrir o verdadeiro culpado e fazer justia.
 Estendeu a mo para Jovino que a apertou.
 - Desculpe. Ultimamente eu no tenho conhecido gente boa.
Obrigado por desejarem ajudar-me.
 Estendeu a mo para Mariazinha.
 - Sei que no tem culpa.
 A moa apertou sua mo comovida. Avaliava o que ele estava passando.
 - Vamos nos sentar - convidou Jovino indicando o banco vazio a um canto da
sala.
 Acomodaram-se. Foi Magali quem falou primeiro.
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 - O Jlio conhece todo o caso e entende muito dessas coisas de espritos.
- Sou apenas um estudioso do assunto. Sei o bastante para afirmar que o
Alberto continua vivo em outra dimenso e que deseja provar sua inocncia.
 Jovino admirou-se:
 - Acredita seriamente nisso?
 - Acredito. Os fatos esto mostrando essa verdade. Ele sabe que no foi voc
quem o matou.
 Os olhos de Jovino encheram-se de lgrimas que ele lutou para reprimir. Foi
com suavidade que respondeu:
 - O Alberto era meu irmo. Crescemos juntos, ele me ensinava
quando eu estava na escola, eu fazia tudo quando ele me pedia. Era meu
dolo. Eu gostaria de ser como ele, bonito, bom, inteligente. Tinha muita estima
por ele. Jamais levantaria uma palha contra ele. Logo eu...
 Parou engasgado. No sabia por que estava to emocionado.
Geralmente, conseguia controlar-se, porm, naquela tarde, uma comoo
diferente o envolvia tornando-o sensvel e perturbado.
 Magali abraou-o com carinho e Jovino, no podendo conter-se mais, chorou
comovido. Apoiado no ombro de Magali, sentindo a amizade dela, soluou
durante alguns instantes.
 Mariazinha levantou-se e puxando Jovino pelo brao, f-lo voltar-se para ela e
abraou-o dizendo com voz embargada:
 -Eu tambm gosto muito de voc. Vou tir-lo daqui! Tenha f em Deus!
 Jovino tremia, sentindo arrepios pelo corpo, enquanto Mariazinha,
olhos fixos em um ponto indefinido continuava:
 - Tenha esperana, companheiro, o que  esse problema para um crnio como
voc? Tudo vai dar certo.
 Jovino abriu os olhos assustado e empalideceu. Jlio levantara-se e postara-
se atrs de Mariazinha enquanto as duas moas olhavam admiradas.
 Mariazinha soltou Jovino e teria cado se Jlio no a houvesse amparado.
 - Tudo est bem - disse Jlio com voz calma - no foi nada. Passou.
Sente-se aqui.
 Mariazinha olhava, parecendo no entender. Jlio continuou:
 - Respire fundo. Passou.

 121

 A moa suspirou.
 - O que aconteceu? Tive outra crise?
 - No se assuste. Tudo  natural, no tenha medo.
 Jovino plido, olhava Mariazinha com fundo respeito.
 - Quem me abraou no foi ela - disse - foi o Alberto! Agora eu sei que ele est
vivo. Acredito em tudo que vocs me disseram.
 Mariazinha segurou a mo de Jlio com fora.
 - Como pode ter certeza? - perguntou Magali emocionada.
 - Porque ele falou como quando eu lhe pedia para me ensinar matemtica: "O
que  esse problema para um crnio como voc?" Ele sempre me dizia isso,
todas as vezes, eu at j sabia e chegava a falar ao mesmo tempo que ele. Era
ele mesmo, tenho certeza. Depois, eu estou muito comovido. No consegui
chorar nem quando fui condenado. Eu creio, agora eu creio!
 - Ele deseja que voc nos ajude, cultivando a esperana e tendo
f em Deus.
 - Talvez agora ele possa dizer o nome do verdadeiro culpado! - desejou
Jovino.
 - No sei se ele ter permisso para fazer isso. Os acontecimentos da vida
obedecem a uma necessidade de esclarecimento e de desenvolvimento dos
envolvidos. Os espritos desencarnados no tm permisso para precipitar as
coisas. Tudo acontecer pelas vias naturais, quando chegar a hora e for
oportuno.
 - Nesse caso, tudo ficar como estava antes - disse Nair. - Ele no esclareceu
nada.
 - Engana-se - respondeu Jlio. - Ele nos deu a certeza de que estamos no
caminho certo. A cada um de ns, deu alguma coisa nova.
Ao Jovino, a certeza da imortalidade e a esperana no futuro. A Magali,
a certeza de que ele continua vivo e consciente da situao. A mim, a certeza
da inocncia do Jovino e de que estamos sendo ajudados em nossos
propsitos. A Mariazinha, a comprovao de uma mediunidade preciosa e
muito bem sintonizada, que permitiu ao Alberto expressar-se fielmente. Todos
ganhamos muito hoje com o que aconteceu.
 - Tem razo - reconheceu Magali - A prova foi muito convincente.
Eu mesma no me recordava desse hbito do Alberto de fazer frases jocosas.
 - Estou lendo o livro que Magali me deu sobre Espiritismo.
Encontrei ali muitas explicaes sobre as possveis causas do que me
122


aconteceu. Contudo,eu duvidava. Parecia-me fantasia demais. Viver depois da
morte! Reencarnar!Sinceramente, eu temia estar entrando em uma iluso que
me levaria no fim a um desnimo maior. Agora tudo ficou diferente. Vou
estudar melhor e com mais ateno. Percebi que de fato, eles esto certos. Os
espritos existem e podem comunicar-se conosco.
- Vou trazer outros livros sobre o assunto. Tenho a certeza de que o
esclarecero. Agora vamos estudar as providncias prticas. Tenho um amigo
que est investigando o caso. Ele foi detetive particular e no est cobrando
nada para fazer isso.
 - No posso pagar. Nem para um advogado tenho dinheiro. Se ao menos eu
pudesse trabalhar!
 - Agora no pode. No se preocupe. Vamos nos empenhar em descobrir
alguma coisa. No momento, ele est colhendo informaes sobre o Rino. O
moo que brigou com o Alberto.
 - Boa idia, Jlio. Sempre desconfiei dele!
 - Logo teremos informaes.
 - No h testemunhas do crime e se as houver, no desejam falar
- disse o Jovino.
 - Vamos manter o pensamento positivo. No entre no pessimismo. Ao
contrrio. Pense sempre que a polcia vai encontrar o verdadeiro culpado, que
pode no ser esse moo. No sabemos ainda se foi ele realmente.
 - Est bem. Obrigado por terem vindo. Mariazinha, de agora em diante ter em
mim um amigo agradecido. Deus lhe pague o que fez por mim!
 - Eu no fiz nada! - respondeu ela, um pouco perturbada.
 Jlio abraou-a carinhosamente:
 - A mediunidade, quando bem sintonizada, pode fazer muitos benefcios s
pessoas.  uma bno de Deus.
 Mariazinha no respondeu, havia em seus olhos o brilho de uma lgrima e em
seu corao, um sentimento de alegria gratificante. Sentia-se serena, feliz. Por
fim, disse:
 - Jlio, eu no sabia que podia acontecer dessa forma. Estou comovida. Era
como se Jovino fosse meu irmo, e eu lhe quisesse muito bem. Ainda estou
sentindo essa sensao!
 -  o Alberto quem est sentindo isso. Voc est registrando os sentimentos
dele.
123


 -  incrvel! - comentou Nair, admirada.
 -  natural - esclareceu Jlio. - A mediunidade  isso. A pessoa pode perceber
alm dos cinco sentidos fsicos e registrar pensamentos, emoes,
sentimentos, idias, dos seres que vivem em outras dimenses. Acontece mais
vezes do que supomos.
 A conversa seguiu animada por mais meia hora, quando esgotou o tempo
permitido para visita. Despediram-se. Jovino abraou-os comovido. No estava
mais s. Sentia que esses amigos o encorajavam a ter esperanas em
melhores dias para o futuro.
 Saram e tomaram o bonde para o centro da cidade. Jlio convidou-as para
tomar sorvete.
 Sentados na sorveteria, conversavam animadamente. A certa altura,
Mariazinha calou-se pensativa, alheando-se do ambiente. Os trs notaram e
Jlio perguntou:
 - O que aconteceu?
 - Estou pensando em uma coisa...
 - Em qu? - perguntou Nair.
 - No que aconteceu no dia em que encontrei o Rino. Foi muito estranho.
 - O que foi?- indagou Jlio - Conte tudo.
 Mariazinha balanou a cabea afirmativamente:
 - Est bem. Foi na vspera da minha viagem a Santos. Vim  cidade para
algumas compras e na volta, no ponto do bonde, Rino apareceu. Veio logo
falando que estava com saudades, que me amava
e que eu ainda o aceitaria.
 - E voc? - inquiriu Jlio.
 - Fui franca, como sempre que ele insistia. Disse que no o amava, que ele
desistisse. Porm, ele no se conteve e tentou beijar-me. De repente, senti
uma raiva muito grande. Tive vontade de esmurr-lo.  s o que me lembro.
Tive uma crise. Quando dei por mim, estava sentada no cho e o rosto plido e
preocupado de Rino debruado sobre mim. Fiquei envergonhada. Procurei
levantar-me, ele me ajudou. Uma senhora segurava meus pacotes. Sentia-me
atordoada, fraca, meu peito doa. Rino estava modificado. Respeitoso, amvel,
desculpando-se.
Levou-me at uma leiteria onde insistiu para que eu tomasse caf.
 - No se lembra de nada do que aconteceu depois que sentiu raiva? -
perguntou Jlio.
124


 - Nada. Fiquei assustada, nervosa. Agora, estou pensando que talvez tenha
sido o esprito de Alberto.
 -  muito provvel - concordou Jlio. - O Rino no comentou nada?
 - Ele estava preocupado. Disse que eu pronunciara palavras desconexas.
Infelizmente, no consigo lembrar-me. Foi como hoje. S me lembro que de
repente, olhei para Jovino e senti muita emoo, muita amizade, vontade de
abra-lo. Depois, mais nada. Quando voltei,
sentia certa fraqueza e no me lembrava de haver dito nada.
 - Mas voc disse - esclareceu Nair. - Todos ouvimos. At sua voz ficou um
pouco diferente.
 - Se foi o Alberto - tornou Magali - o que ele teria dito ao Rino?
 - Uma coisa  certa. O Alberto sentia raiva dele. Essa emoo, quem sentia
era ele - considerou Jlio.
 - Eu tambm sinto raiva quando ele insiste em me namorar. A raiva poderia
ser minha. Ele estava tentando me abraar contra a minha vontade.
 - Sua raiva iria a ponto de querer esmurr-lo? Geralmente  o homem quem
briga aos murros.  claro que se o esprito de Alberto estava perto, deve ter
ficado zangado com a atitude dele e  provvel que tenha querido defend-la.
 - O Alberto era muito cavalheiro. Seria incapaz de abraar uma moa contra a
vontade dela. Se ele estivesse aqui, por certo a defenderia - opinou Magali.
 - Fale mais da atitude de Rino. Ele voltou a insistir em namor-la?
 - No. Ao contrrio. Ele estava modificado. Tratou-me com amabilidade.
Desculpou-se. Disse que respeitava minha vontade. Foi muito delicado.
 - A tem coisa - ajuntou Nair. - Rino jamais seria delicado.  alterado, briguento
e quer que sua vontade prevalea.
 - Acha que me enganei? - perguntou Mariazinha.
 - No  isso. Acho que ele deve ter ficado muito assustado.
 - Ele nunca me viu desmaiar. Pode ser que no tenha acontecido nada de
mais.  que foi igualzinho ao que aconteceu hoje. S que naquele dia senti
raiva e a sensao foi muito desagradvel, enquanto que hoje, ao contrrio,
senti amor, amizade, foi muito bom.
 - De qualquer forma, voc deve ter sido envolvida por algum esprito.
125


 Foi ele quem sentiu raiva. Tem certeza de que no o agrediu? -
perguntou Jlio.
 - No sei. No consigo lembrar-me.  isso que me assusta. Como posso falar,
fazer coisas das quais no me lembro depois?
 - Voc tem um tipo de mediunidade pouco comum. Precisa estudar o assunto
para compreender de que forma dever educ-la para que se apure a cada dia
e possa cumprir sua finalidade. Creia Mariazinha, que no corre nenhum risco,
ao contrrio, trata-se de uma capacidade que pode beneficiar pessoas. Voc 
um canal de Deus atravs do qual a revelao divina se faz presente para
mostrar aos homens a verdade.
A maioria das pessoas no tem essa possibilidade.
 Mariazinha apertou a mo que Jlio retinha entre as suas, segurando as dele
com fora.
 - Eu no quero ser nada disso. Desejo levar vida comum, como as outras
pessoas.
 - Nada a impedir - respondeu Jlio, calmo. - O mdium  pessoa como
qualquer outra, com os mesmos defeitos e qualidades comuns. Apenas tem
habilidade para registrar e transmitir coisas de outras dimenses da vida, alm
dos nossos cinco sentidos.  s isso.
 - Eu queria lembrar o que foi que eu disse - reclamou Mariazinha.
 - O mdium inconsciente interfere menos na comunicao dos espritos. Se
voc fosse consciente, talvez no tivesse permitido ao Alberto se expressar
com tanta fidelidade. O mdium consciente tambm pode transmitir fielmente
uma comunicao, sem interferir, permitindo ao esprito que o envolve
manifestar-se livremente,mas para isso precisa educar convenientemente sua
sensibilidade. Conhecer muito bem a interferncia dos espritos e os
mecanismos dessas comunicaes. Isso leva tempo e exige experimentao
adequada. Depois, voc est desenvolvendo agora. Com o tempo pode
acontecer at que voc se recorde das comunicaes. Quando estiver mais
calma, mais preparada emocionalmente.
 - Que bom! - exclamou Nair. - Deus faz tudo certo!
 - Por qu? - indagou Mariazinha.
 - Voc arranjou o namorado que lhe convinha. O Jlio entende desse assunto.
No podia haver melhor combinao - finalizou ela.
 - Sem falar da ajuda que est prestando a todos ns, que no entendemos
nada sobre isso - considerou Magali.
126


 Mariazinha sorriu. Confiava no Jlio e mais do que isso, comeava a am-lo
de verdade.
 - Eu tambm agradeo a Deus t-lo colocado em meu caminho - disse com
suavidade.
 Jlio olhou-a nos olhos enquanto dizia srio:
 - Pois pode preparar-se para aturar-me durante muito tempo. No pretendo
deix-la escapar. Comigo, no precisa ter medo de nada. Vamos aprender
juntos e perceber as coisas do esprito. Vai ser uma viagem maravilhosa!
 Conversaram durante alguns minutos mais e quando saram, Magali
despediu-se dizendo:
 - Obrigada por tudo.
 Abraaram-se, trocando poucas palavras, porm, todos sabiam que naquela
tarde uma grande e verdadeira amizade havia se estabelecido entre eles.
Magali chegou em casa pensativa. A cada dia mais suas dvidas se
dissipavam. Acreditava que Alberto continuava vivo em outro lugar e que
estava perto deles tentando comunicar-se. Gostaria de ser mdium para poder
sentir-lhe a presena, v-lo, talvez ouvir telepaticamente suas palavras.
 Entrou e encontrou a me sentada na sala. Vendo-a, perguntou:
 - Onde esteve a tarde inteira?
 - Com alguns amigos, mame.
 - Demorou!
 - Fomos tomar sorvete e a conversa estava muito agradvel. E o resto do
pessoal?
 - Todos saram. Seu pai, como sempre trabalhando. As pessoas no
tm nenhuma considerao. Chamam-no aos domingos e fora de hora.
Ele nunca diz no, nem impe horrio. Afinal, ele  um ser humano, tem direito
ao descanso. Depois, ele tem famlia. No temos condies nem de conversar.
 Magali no soube o que responder. Percebia que o pai procurava sair de casa
sempre que podia, permanecendo ali o menos possvel.
 Aurora prosseguiu amargurada:
 - Voc tambm no liga mais para mim, para minha solido. O Rui nem
almoou em casa hoje.
 Em outros tempos, Magali teria dado uma desculpa e se recolhido ao quarto.
Porm, naquela tarde, vendo a me to sofrida, to alheia
127


a tantas coisas que ela estava descobrindo, sentiu vontade de conversar.
Sentou-se a seu lado no sof e disse calma:
 - Estou aqui, mame. Posso fazer-lhe companhia.
 Aurora olhou-a surpreendida.
 - Esta casa ficou muito triste depois da tragdia - disse.
 - Mame, h muitas coisas neste mundo que no temos condies de
compreender. O que nos aconteceu foi terrvel, mas Deus no impediu. Ele
deve ter uma razo boa. Deus faz tudo certo, voc no acha?
 Aurora abanou a cabea desalentada. Muitas vezes havia se perguntado por
que Deus permitira essa desgraa. Nunca encontrara resposta.
 - No sei - disse com tristeza. - At hoje no entendi por qu.
 -  difcil, mame, por causa da perda sofrida. Contudo, neste mundo muitas
pessoas passam por provas difceis e dolorosas. Ns no somos os nicos.
Deve haver uma razo para isso. Deus  bom e justo.
Se permite a dor e o sofrimento  porque isso nos vai ajudar a perceber certas
coisas, sensibilizar nossa alma, amadurecer nosso esprito.
 - No posso aceitar - retrucou Aurora sacudindo a cabea - um moo bom,
nobre, belo, inteligente, morto brutalmente pela inveja de um menino que comia
em nossa mesa, que aqui s recebeu amparo e amizade.
 Magali retrucou com firmeza:
 - Voc sofreu duas perdas. A do Alberto e a do Jovino a quem estimava
verdadeiramente. Sofre pela morte do Alberto, mas sofre muito tambm pela
ingratido do Jovino. Voc o queria bem. Orgulhava-se dele.
 Aurora levantou o rosto e em seus olhos brilhava o rancor:
 - Isso  verdade. Fui enganada. Alimentei a mo que matou meu filho. Deus
h de castig-lo por isso. O remorso h de tortur-lo enquanto viver!
 - Me, no posso devolver a vida do Alberto, isso  impossvel, mas posso
aliviar seu corao de um grande peso.
 Aurora olhava-a sem compreender. Magali prosseguiu:
 - Sei que no foi Jovino quem matou Alberto. Tenho a certeza disso.
 Aurora arregalou os olhos:
 - Como?! Ficou provado que foi ele. O ingrato! Depois de tudo quanto fizemos
por ele!
 - Me, pense um pouco. E se ele for inocente? E se as provas foram
128


forjadas contra ele? J pensou que injustia? Pode imaginar o que ele estaria
sofrendo?
 Aurora balanou a cabea negativamente.
 - Isso  impossvel! Foi ele mesmo.
 - A polcia pode ter se enganado. Nunca ouviu falar dos erros judicirios? Eu
tenho a certeza de que ele  inocente!
 - Como pode afirmar isso? Que provas tem do que est dizendo?
 Magali respirou fundo, tomou coragem e respondeu:
 - Algumas coisas aconteceram que mudaram minha forma de pensar. Hoje
tenho a certeza absoluta de que Jovino  inocente. Tenho algumas provas,
mas ainda insuficientes para reabrir o processo na justia. Alguns amigos meus
esto investigando. Todos temos certeza da inocncia do Jovino. Vamos
conseguir as provas para restabelecer a verdade e libert-lo.
 Aurora agitou-se:
 - Voc enlouqueceu! Quer libertar aquele assassino?
 - Ele no matou o Alberto!
 - Voc mesmo disse que no tem provas suficientes. Acha que sabe mais do
que a polcia?
 - Ainda provarei o que estou dizendo. J pensou que enquanto o
Jovino jura inocncia e est preso por um crime que no cometeu, o verdadeiro
assassino est impune, livre, sem responder pelo que fez?
 Aurora no soube o que dizer. Pela primeira vez pensou nessa possibilidade.
Queria que o assassino fosse justiado. A morte do Alberto no podia ficar
impune.
 - Voc me assusta. Por que est me dizendo tudo isso? Como chegou a essa
concluso?
 - Como eu disse, vrias coisas aconteceram que me levaram a descobrir que o
Jovino est inocente.
 - Que coisas foram estas?
 - Por enquanto, prefiro no revelar. S quero que voc comece a pensar na
possibilidade de termos todos nos enganado e cometido com
Jovino uma terrvel injustia. Ele foi sempre bom, amigo, amoroso,
companheiro. Gostava do Alberto, admirava-o.
 - Invejava-o. Essa foi a razo do crime.
 -No creio. O Alberto sabe a verdade. Ele sabe que no foi Jovino
e est interessado em provar isso.
 - Voc enlouqueceu? O Alberto no sabe de nada. Est morto!
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 - Est vivo! Mame, o nosso mundo no  o nico no universo.
De onde vm os espritos que nascem e para onde vo os que morrem?
Acredita que Deus seja to pobre que s tenha criado seres vivos na nossa
insignificante Terra? Me, o nosso esprito  eterno, nunca morre.
Mudamos de estado, mas continuamos a viver. A morte  iluso, aparncia,
transformao!
 Aurora olhava-a boquiaberta sem encontrar palavras para responder.
Magali falava com alma e sua voz vibrava com uma fora diferente.
 - Voc no acredita que Alberto esteja noutro mundo, em outra vida, de onde
deseja comunicar-se conosco?
 Aurora suspirou triste:
 - Quem dera que isso fosse verdade!
 -  verdade, me. Se voc desejar procurar, encontrar provas do que afirmo.
Eu as tive.
 -Como?!
 - Acreditaria se eu lhe contasse?
 - No sei. Parece to fantstico! Seria bom demais para ser verdade.
 - Voc est sendo materialista.  triste pensar que a vida termina com a
morte. Todos ns vamos morrer um dia. Afinal, para que lutar se todos
acabaremos no nada, sem apelao? Me, voc est negando
Deus! No percebe isso?
 - A dor transtorna o corao, mata a f.
 - No  verdade. A f aceita as determinaes da vida, compreende e confia.
 - Sempre fui pessoa de f.
 - No  verdade. Se tivesse f, saberia que Deus age sempre para o nosso
bem e no estaria to revoltada. Sei que no  fcil passar pelo que nos
aconteceu. Todos sofremos a saudade, a ausncia do Alberto.
Eu o amo muito! Mas, se aconteceu, foi porque a vida no podia evitar e a vida
 Deus em ao, age sempre em nosso favor. Deus  perfeito e escreve direito
por linhas tortas. Um dia ainda teremos condies de compreender isso.
 Aurora respondeu com voz triste:
 - Reconheo que voc tem mais f do que eu. Devo admitir que Deus sabe o
que faz. Mas, di muito. Meu corao ainda sangra vendo meu menino morto
por um assassino cruel!
 - Um infeliz que certamente ajustar contas com Deus. Pelo seu
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ato cruel, far jus a uma lio dolorosa que o ensine a respeitar a vida.
Ouso afirmar que  prefervel ser a vtima do que o algoz.
 Aurora admirou-se:
 - Por qu?
 - Porque a vtima, se aproveitar a lio, amadurecer, poder libertar-se de
muitos sofrimentos em razo disso, enquanto que o algoz
est atraindo para si mesmo experincias dolorosas. Um j sabe que a
violncia no  soluo para nada, o outro ter que descobrir isso.
 - Voc diz coisas estranhas! O Alberto era um moo bom de bons costumes.
Ele no cultivava a violncia. J o Rui  mais belicoso.
 Magali passou a mo pelo brao da me em meiga carcia. Depois disse:
 - Me. Tenho estudado muito certos problemas da vida. Voc sabe como eu
sou. Nunca aceito nada sem questionar, indagar, pesquisar. Tenho amor 
verdade e por causa disso, muitas vezes temos discutido. Voc contemporiza,
ajeita, eu no. Vou direto ao ponto, sem importar-me com a opinio dos outros.
 - Isso  verdade - concordou Aurora.
 Magali prosseguiu:
 - Voc diz que tenho mais f em Deus do que voc. Hoje, pode ser. Porm,
quando Alberto morreu, fiquei abalada. Se Deus existe e  perfeito, bom, tudo
sabe e v, e no cai uma folha da rvore sem sua permisso, por que teria
permitido a morte do Alberto? Por que permitiria que os maus agissem e
ferissem os bons? Por que a vilania, a safadeza, o roubo, o crime, existiriam no
mundo? Das duas uma: ou Deus no  to perfeito como se diz e no tem
poder para vencer o mal, ou
o mal teria tanto poder quanto ele.
 Aurora olhava-a pensativa. Nunca havia pensado dessa forma.
Magali continuou:
 - Nesse ponto, minha f j havia sido abalada. Foi quando aconteceu o
incidente com Mariazinha...
 - Aquela histria?
 - Pense bem, me. O Alberto s viu essa moa duas ou trs vezes.
Ela no me conhecia. Foi to inesperado! Elas no tocaram a campainha. Eu
as vi no porto. Uma, agarrada nele, e a outra, tentando tir-la de l. Fui ver o
que era. Quando cheguei, ela olhou-me e disse emocionada: "Magali! Que
saudade!"
131


 - Pensando bem,  estranho mesmo. Vai ver, essa moa  desequilibrada.
 - Por mais que fosse, como poderia ter-me reconhecido? Eu nunca a havia
visto antes!
 -  mesmo!
 - Depois ela desmaiou. Quando acordou, nem sabia o meu nome.
Fiquei intrigada e resolvi descobrir a verdade.
 - O que foi que voc fez?
 - Fui procur-la algum tempo depois.
 - Que loucura!
 - Voc sabe que quando eu quero, descubro as coisas.
 -E a?
 - Ela estava de frias, havia viajado, mas encontrei sua amiga Nair,
que me contou coisas muito interessantes...
 Vendo que a me ouvia interessada, Magali foi aos poucos relatando os
acontecimentos. Quando disse que fora ao Centro Esprita, Aurora
reagiu:
 - Voc ousou? Isso  um perigo! Espiritismo leva as pessoas  loucura!
 - Engana-se, mame. D. Dora, me da Dalva,  esprita h muitos anos e 
muito equilibrada. A senhora a conhece!
 - Ela nunca me falou sobre o assunto.
 - Porque  delicada. Sabe que voc no pensa como ela. Respeita sua forma
de ser.
 - Seja como for, no quero voc metida com essa gente, indo a esses lugares.
 - Voc est muito enganada.  um lugar tranqilo, de oraes, aberto aos que
sofrem e esto desesperados.
 - Voc est sugestionada.
 - Voc sabe muito bem que no sou pessoa sugestionvel. Ao contrrio, s
aceito uma coisa depois de entend-la bem.
 Aurora sabia que era verdade, mas a palavra Espiritismo assustava-a.
 - Seja como for, no quero que v mais a esses lugares.
 - Mame, no seja preconceituosa! Se queremos descobrir a verdade, no
podemos condicionar as coisas.  preciso abrir nossa cabea
para analisar todas as hipteses. No se preocupe, sei o que estoufazendo!
132.


 - Voc  uma criana. Pode ser iludida.
 - Se no quer ouvir, paramos por aqui.  pena. Tenho outras coisas para
contar, mas comeo a pensar que voc talvez no esteja preparada para
saber. Jesus disse: "Quem tem ouvidos, oua." Voc certamente no est
nesse grupo.
 Aurora admirou-se, nunca a vira citar Jesus. Alm disso, Magali
parecia-lhe diferente. Apesar do medo, estava curiosa. Desejava saber.
 -J que voc estava l, o que aconteceu? Falaram no Alberto?
 Magali respondeu com voz firme:
 - Se voc quer saber mesmo contarei tudo. Mas antes, vai esforar-se e
prometer: seja o que for que eu disser, no vai recriminar-me.
 - J vi que voc deve ter feito coisas que eu no aprovaria.
 -  melhor no dizer nada. Um dia, talvez, possamos falar disso livremente.
 Aurora segurou o brao da filha, enquanto dizia:
 - No, Magali. Quero saber. Agora preciso saber. Pode falar. No vou
recrimin-la.
 - Est bem, mame. Vou falar porque desejo que voc enxergue a verdade e
possa conformar-se com os desgnios de Deus. Desejo que voc acalme seu
corao e que a esperana possa voltar, fazendo-a acreditar em dias melhores.
 Aurora suspirou. Apesar da sua descrena, as palavras de Magali faziam-lhe
muito bem. Vendo que a me ouvia-a atentamente, Magali continuou seu
relato. Contou tudo minuciosamente.
 Aurora surpreendeu-se. No possua a coragem da filha. Suas mos estavam
frias e trmulas. Magali fora ao presdio! Que horror!
 - Voc abusou. Que temeridade! Se seu pai souber..
 - Me, no h perigo.  um lugar triste, cheio de gente sofrida, revoltada,
alguns arrependidos, outros cheios de dio. As famlias vo visit-los, h
crianas, muita disciplina.
 Magali prosseguiu contando tudo, e Aurora  medida que ouvia, pensou pela
primeira vez na hiptese de Jovino ser inocente. A filha falava com tanta
certeza, dizia que a alma de Alberto queria ajudar
Jovino. Ela pensava: e se todos estivessem mesmo enganados? E se
Jovino fosse inocente?
 Lembrou o rosto do rapaz, seus cuidados com Magali, com os meninos, a
ateno com Homero, a diligncia em atender o que ela pedia
133


e sentiu um aperto no corao. Teriam cometido com ele tal injustia?
Magali teria razo?
 - Para mim, ele  inocente. Voc vai ver. O verdadeiro culpado vai ser
encontrado.
 - Voc no tem provas.
 -Materiais, no. Mas o Jlio est investigando. Deus nos ajudar.
Depois o Alberto quer libertar o Jovino. Pense bem, me, ele sabe quem o
vitimou.
 - Esse segredo morreu com ele.
 - Ele no morreu. Continua vivo em outra dimenso da vida.  um lugar para
onde todos ns iremos ao deixar a Terra. O Alberto ainda se comunicar
conosco, tenho certeza.
 Os olhos de Aurora brilharam.
 - Ser mesmo? Eu poderia falar com ele, v-lo ou sentir sua presena?
 - Poderia. Contudo esse fenmeno obedece a determinadas condies. 
preciso que Deus permita. E sempre acontece espontaneamente, como hoje no
presdio.
 - O que foi?
 - Ainda no contei o que aconteceu hoje.
 Magali relatou as palavras de Mariazinha para Jovino. Aurora assustou-se:
 -  estranho!
 - O qu?
 - Como essa moa podia saber que o Alberto sempre dizia isso ao
Jovino? Eu mesma ouvi muitas vezes.
 - A est mame. Ela nunca conviveu conosco aqui em casa. S podia mesmo
ser o Alberto. O Jovino ficou muito comovido. At chorou. Disse que vai ler o
"Evangelho Segundo o Espiritismo" que eu lhe levei.
 - Jovino nunca foi religioso.
 - Foi o que ele disse. Acreditou que o esprito do Alberto estava ali de verdade.
 Aurora baixou a cabea pensativa. Depois de alguns segundos disse:
 - Tudo que me contou  muito estranho. Tenho medo de estar entrando em
uma iluso. Alimentando esperanas vs.
 - Me, pense bem! Deus  pai bom e justo. Acha que faria o universo
134


to pequeno que s existiria vida aqui na Terra? Olhou o cu, as estrelas, a
imensido dos planetas? Me, abra o seu pensamento rumo ao infinito. No
mundo nada acaba, apenas se transforma. A morte  uma transformao.
Deixamos o corpo material da Terra e vamos com
o corpo espiritual viver em mundos cheios de beleza e luz. Deus  grandeza,
bondade, amor e alegria.
 Magali falava com voz serena, e Aurora sentiu descer sobre ela um novo
sentimento de paz que nunca experimentara antes. Abraou a filha e no
reteve as lgrimas. Deixou-as correr livremente. Quando elas terminaram,
Aurora deixou-se ficar, abraada  filha, sentindo-se calma. Toda a amargura
que feria seu corao, havia desaparecido.
 Abraado s duas, com emoo e alegria, Alberto agradeceu a Deus porque
sua me, naquela tarde de domingo, comeara a ouvir.
135


Captulo 11
 Jlio e Mariazinha chegaram em casa dela ao anoitecer, alegres e
esperanosos quanto a soluo do caso do Jovino. Ao mesmo tempo,
 medida em que as coisas aconteciam, eles sentiam-se mais unidos e
apaixonados. Jlio desejava lev-la a conhecer sua famlia, e a moa sentia-se
confiante e feliz.
 Conversaram com os pais dela sobre os acontecimentos da tarde,
tomaram lanche e sentaram-se na varanda, abraados em doce harmonia.
Passava das dez quando Jlio despediu-se:
 - No sinto vontade de ir - reclamou - dia vir em que estaremos sempre
juntos.
 Ela sorriu com prazer.
 - Desejo que seja logo - respondeu.
 Jlio beijou-lhe os lbios com delicadeza e carinho vrias vezes.
 - At amanh - disse. - Se eu puder irei busc-la na fbrica.
 - Durma bem e sonhe comigo.
 Ele afastou-se e aps o adeus costumeiro, com o corao cantando de alegria,
Mariazinha entrou em casa.
 Jlio distanciou-se, sentindo ainda a emoo dos beijos que trocaram. Estava
amando Mariazinha, como nunca havia amado outra mulher. Desejava mais do
que nunca estabilizar sua situao financeira e casar-se com ela.
 - Casar-se! - Nunca havia pensado nisso antes.
 Caminhava devagar para o ponto do bonde. Ao dobrar uma esquina, trs
vultos caram sobre ele, dominando-o. Traziam chapu
desabado sobre os olhos e leno escuro sob o nariz, no lhe permitindo ver
suas fisionomias.
 Assustado pelo imprevisto, Jlio perguntou:
 - O que foi? O que querem?
 - Dar-lhe uma lio.
 - Ele bem que precisa!
 -  um assalto! - disse um.
 Falavam e o arrastavam para um terreno baldio no muito distante.
136


 No tenho muito dinheiro, mas podemos conversar. No precisam usar
violncia!
 Vejam o Romeu! - ironizou um deles. - Est com medo! - riu sadicamente.
Jlio pressentiu que estava em perigo. Viu a arma na mo de um
Deles. Se gritasse, no tinha dvida que ele atiraria.
 No vamos mat-lo! Somos benevolentes - disse outro. - Dar-lhe-emos uma
chance!
 Um deles agarrou-o pelo colarinho, enquanto os outros dois seguravam-no por
trs.
 Jlio podia sentir o dio contido em seu rosto apesar do leno que o cobria.
 - Nunca mais queremos v-lo por aqui. Nunca, entendeu?
 Jlio pensou em Mariazinha. Teria entendido bem?
 - Por qu? - arriscou.
 - Porque ns queremos. Se tem amor  pele, afaste-se destes lados...
 - E de Mariazinha - completou Jlio.
 Sentiu que a mo que o segurava crispou-se com fora.
 - Voc ouviu - repetiu - e pelo que disse, sabe entender as coisas.
 - E se eu no quiser?
 Jlio sentiu-se levantado no ar pela mo que, como garra de ferro, o sustinha.
 - Tenho vontade de acabar com voc agora! Veja, est em minhas mos.
Atrevido!
 Aproveitando-se de que os outros dois o seguravam, deu-lhe violentos socos.
Jlio sentiu dor aguda, percebeu que estava prestes a perder os sentidos. Eles
realmente podiam mat-lo. Seu pensamento aflito procurou Deus numa splica
muda e sincera, em seguida, perdeu os sentidos.
 O homem continuou a bater numa fria incontrolvel.
 - Ele desmaiou - disse um.
 - Voc vai mat-lo - disse outro.
 - Ele merece. Tem que sair do meu caminho!
 Um deles procurou impedi-lo de continuar.
 - Chega.  o bastante. Quer despertar suspeitas? Esse nunca mais voltar
aqui. Pode estar certo!
 Ambos largaram o corpo de Jlio que, sangrando pelo nariz, caiu ao cho
pesadamente e tentaram conter a fria do companheiro.
137


 - Ela  minha - dizia ele entre dentes. - Ningum vai tir-la de mim. Eu o mato!
Cachorro!
 - Vamos, chega. Um crime agora no seria bom para ns. Voc est louco?
Acalme-se. Esse est liqidado. Foi uma boa lio.
 Mais calmo, ele parou um pouco e os outros dois o arrastaram para longe do
local e logo sumiram na rua deserta.
 Jlio acordou sentindo algo quente no rosto. Abriu os olhos e viu a cabea de
um co que lhe lambia o rosto. O que acontecera?
 Estava no cho, no meio do mato. Tentou erguer-se. Seu corpo doa
terrivelmente, ento, lembrou-se do que lhe acontecera.
 Olhou ao redor, o dia j estava clareando.
 - Calma, - pensou. - Estou vivo. Agradeo a Deus!
 O co, alegre, olhava-o abanando a cauda. A custo, Jlio levantou o brao
acariciando-lhe a cabea.
 - Obrigado, amigo! Sei que quer ajudar-me.
 Aos poucos, ele foi se movimentando e, apesar das dores que sentia, procurou
perceber se haviam quebrado seus membros. O rosto inchado, a lngua grossa,
os lbios ardendo, mas ele precisava reagir, buscar socorro.
 Conseguiu levantar-se a custo e chegar  calada. A casa de Mariazinha,
apenas a trs quadras, parecia-lhe muito distante. A rua ainda estava deserta.
Sua aparncia deveria estar horrvel, e ele no desejava assustar Mariazinha.
 Um homem vinha vindo, provavelmente um trabalhador comeando seu dia.
Jlio chamou-o:
 - Senhor, por favor.
 O homem olhou-o assustado, receoso de aproximar-se.
 - No tema - disse ele - fui assaltado ontem  noite. Por pouco no me
mataram.
 O homem aproximou-se admirado.
 - Voc est mal - disse srio.
 - Tenho amigos aqui perto. Por favor, quer avis-los para mim? No estou
podendo andar muito...
 Vendo que Jlio mal se sustinha nas pernas, disse prestativo:
 - Conheo todo mundo aqui, pode falar.
 - Conhece Nair que mora nessa primeira rua?
 - A filha de D. Lusa?
 -  alta, morena, tem um sorriso simptico.
138


 -  ela. Mas  melhor chamar a me dela. A esta hora!
 Jlio respirou fundo para ganhar foras:
 - Sou o noivo de Mariazinha, filha do sr. Jos e de D. Isabel. No desejo
assust-los. Por isso, pensei em Nair.  muito amiga deles.
 - Por que no disse logo? Agora estou reconhecendo voc. Que barbaridade!
 caso de polcia.
 - Veremos isso depois. O que eu preciso  de mdico.
 - Pode andar, ainda que devagar?
 - No sei. Sinto-me mal.
 - Segure-se em mim. Vamos, eu o apoiarei. Calma. Cuidaremos de tudo.
 Condodo, o homem f-lo apoiar-se em seu brao e lentamente comearam a
andar.
 - Meu nome  Joo - disse ele.
 - Eu sou Jlio.
 Nunca um caminho lhe pareceu to longo. Parados em frente  casa de Nair,
Joo tocou a campainha com insistmncia. Logo as luzes se acenderam e uma
voz de mulher perguntou:
 - Quem ? - notava-se-lhe a preocupao.
 - Sou eu, D. Lusa, o Joo. Abra, por favor!
 - J vai.
 Um minuto depois ela apareceu na soleira. Vendo Jlio,
assustou-se:
 - Meu Deus! O que aconteceu?
 - Preciso de ajuda, D. Lusa. Por favor!
 Suas foras estavam esgotadas e teria cado pesadamente se ambos no o
tivessem segurado.
 - Ele foi assaltado D. Lusa. Ontem a noite. Ficou desmaiado no mato. Est
mal. Precisa de um mdico.
 - Que horror! Pobre moo. Vamos coloc-lo no sof. Venha.
 - Vamos chamar o dr. Matoso - sugeriu Joo.
 - Bem lembrado. Mas o senhor vai perder o dia de servio. Se precisa ir, pode
deixar que eu mando o Zequinha at l.
 - Obrigado, eu aceito. Se eu andar depressa, ainda pego o bonde das seis e
vinte.
 Ele saiu apressado, e Lusa chamou o filho, ele s iria para o trabalho as oito.
 - Zequinha, acorda. Vai chamar o dr. Matoso, depressa.
139


 O rapaz remexeu-se no leito preguiosamente, mas, diante da insistncia da
me, no teve outro remdio seno levantar-se correndo.
Inteirado do ocorrido, saiu rpido em busca do mdico.
 Nair acordara com o barulho e levantou-se para ver o que estava
acontecendo. Deparou com Jlio no sof e levou tremendo susto.
 - Me,  o Jlio! O que foi?
 - Um assalto. Ontem  noite, decerto quando ele saiu da casa de Mariazinha.
 Nair ouviu a me contar o que sabia.
 - Quero ver o que ele vai dizer. Assalto aqui?!
 Condoda, Lusa afrouxou a roupa do moo, esquentou gua e delicadamente
com algodo molhado comeou a limpar-lhe o rosto inchado.
 O dr. Matoso chegou e, ao par do acontecido comeou a examin-lo.
 - Parece que no houve fratura. Porm a pegada foi dura. Muita crueldade. Eu
diria mesmo, dio.
 Nair estremeceu. Tinha uma suspeita, mas nada disse.
 - Acho melhor no remov-lo para o hospital. Preciso examin-lo melhor. A
senhora poderia coloc-lo em uma cama, em melhores condies?
 - Por certo, doutor. No quarto de Zequinha temos duas camas. Vou prepar-
la.
 Saiu e voltou pouco depois.
 - Trouxe um pijama. Era do meu marido. Est limpinho. Suas roupas esto
sujas.
 - timo. Com licena dos jovens, ns vamos acomod-lo.
 O doutor tirou as roupas de Jlio e, ajudado por Lusa, limpou os
ferimentos, vestiu-o com o pijama limpo.
 Em seguida, o mdico colocou-lhe um frasco sob as narinas, e Jlio moveu a
cabea, abriu os olhos. Vendo Lusa debruada sobre ele, disse baixinho:
 - Obrigado. Desculpe o trabalho.
 - Esse  o doutor Matoso. Veio atend-lo.
 - Estou mal, no , doutor?
 - Foi uma boa pegada, no resta dvida. Mas no o suficiente para derrub-lo.
Dentro de alguns dias, tudo estar bem.
 - Folgo em saber.
140


 - Vamos, meu rapaz - disse o mdico - pode levantar-se. Queremos lev-lo
para o quarto.
 Jlio olhou para Lusa.
 - Quanto transtorno! Desculpe vir incomod-la. No quis assustar Mariazinha.
Ela  muito sensvel, a senhora sabe. Lembrei-me de Nair, to amiga dela.
 - Fez bem. No se preocupe. Mariazinha no andou bem de sade.
Precisamos ter cuidado com ela. Poder ajudar  um bem do qual no abro
mo. Agradeo sua confiana nos procurando em uma hora to difcil.
 Jlio tentou levantar-se.
 - Tudo di - disse. - Tenho medo de fazer qualquer movimento.
 O mdico tirou da sua maleta um frasco e pediu um clice de gua. Colocou
algumas gotas e deu-o a Jlio.
 - Beba isto. Vai sentir-se melhor.
 O moo obedeceu prontamente. Levantou-se com dificuldade e,
amparado pelo mdico e Lusa, conseguiu ir at o quarto. Deitou-se na cama
asseada e sentiu-se comovido.
 - Deus lhe pague pela ajuda e pelo carinho - agradeceu.
 - Vou preparar uma receita, a senhora mande aviar imediatamente. Se a
farmcia estiver fechada, bata na casa do sr. Nicanor,  ao lado. Pea-lhe
urgncia. Com a medicao, ele vai sentir-se aliviado.
 Nair entrou no quarto.
 - Est melhor?
 - Agora, estou. Pode fazer-me um favor?
 - Claro.
 - No bolso do meu palet, minha carteira. Pode apanh-la para mim?
 - Certamente.
 Nair saiu e voltou em seguida com a carteira. Jlio abriu-a e l estava intacto
todo seu dinheiro e ele entregou-o a Lusa.
 - Por favor, para as despesas, se no der, mandarei buscar mais em casa.
 - Voc disse que foi um assalto, mas eles no levaram seu dinheiro!
Foi briga?
 -No.
 Em poucas palavras, Jlio contou como lhe acontecera.
 - Parece vingana - considerou o mdico. - Aconselho-o a dar
141


parte  polcia. Para sua segurana e quem sabe at de outras pessoas.
 preciso prender os responsveis.
 - Concordo - respondeu Jlio - mas no lhes vi o rosto. Como identific-los?
 - Est claro que foi algum que deseja afast-lo de Mariazinha -
interveio Nair. - No  difcil saber quem.
 - No posso provar. Preciso pensar melhor. Garanto que no me pegar de
novo.
 - Quer que avise Mariazinha?
 - No. A estas horas ela j foi trabalhar. No quero preocup-la.
Logo mais,  tarde, quando ela chegar, voc vai e avisa. Gostaria de avisar em
casa. Mame deve estar preocupada. No tenho o hbito de dormir fora...
 - Por certo - disse Lusa. - Nair pode ir at l. O Zequinha precisa ir para o
escritrio.
 - No ser preciso tanto. Temos telefone em casa. Se o Zequinha puder fazer
o favor,  s ligar e contar o que aconteceu, sem assustar.
Diga que estou bem.
 - Vou anotar o nome e o nmero. Fique tranqilo. Eu mesma vou ligar da
padaria - disse Nair. - Acha que  muito cedo?
 - No. Pode ser que ela esteja preocupada. Melhor ligar agora.
 Ele deu as informaes e Nair anotou.
 - Agora, tudo est em ordem - disse o mdico. - Assim que o remdio chegar,
tome uma poro e procure dormir. Far-lhe- bem.
 - Pode deixar, doutor - observou Lusa. - Vou tomar conta dele.
 - Agora preciso ir. Passarei ao anoitecer para ver como est.
 O mdico despediu-se, Lusa acompanhou-o at a porta. Vendo-se sozinho no
quarto, Jlio fechou os olhos, tentando relaxar.
 Estava claro que no fora um assalto. Mariazinha havia sido o mvel do
atentado. A ameaa no dava margem a dvida. Pensou em
Rino. Apesar de no reconhecer ningum, sabia que ele deveria ser o
responsvel. Eles eram capazes de tudo. Teriam assassinado Alberto?
Era muito provvel, uma vez que o mvel do crime no fora roubo. Que outra
razo poderia haver determinado esse crime? O amor de Mariazinha. Alberto
interessara-se por ela e no fizera caso da ameaa que recebera. O cime 
fora perigosa.
 Comeava a acreditar que Rino estava por trs de tudo. Ele era o
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culpado. Porm, como provar? A justia age baseada em fatos, provas,
e ele nada tinha seno suspeitas.
 O que fazer. No pretendia desistir de Mariazinha. Amava-a e no queria
perd-la. Depois, havia o Jovino preso, inocente. Como deix-lo l sem fazer
nada para ajud-lo?
 Sua cabea doa, e ele agitou-se no leito. Nair entrou, dando-lhes notcias da
me. D. Ester estava nervosa, e Nair fez o possvel para acalm-la.
 - Ela disse que viria imediatamente. Ia tomar um txi - finalizou Nair.
 - Eu esperava isso. Ela  muito preocupada. Logo estar aqui.
 - Eu tambm ficaria com uma notcia dessas - considerou Lusa.
- Seu remdio ficar pronto daqui a uma hora, Nair vai pegar depois.
 - Obrigado. Nunca esquecerei o que esto fazendo por mim.
 - Procure descansar. Trarei o remdio quando chegar.
 - No consigo relaxar. Minha cabea di, pensamentos agitados impedem-me
de descansar.
 - Depois do que passou,  natural. Ningum me tira da cabea que foi o Rino -
disse Nair.
 - No diga isso, filha. Pode estar sendo injusta. Afinal, o Jlio no viu quem foi.
 - Eles me ameaaram. Mandaram eu sumir. Que nunca mais aparea por
estes lados. Percebi que falavam de Mariazinha.
 - O que vai fazer? - indagou Lusa.
 - Ainda no sei. Amo Mariazinha e no vou perder seu amor por causa disso.
 - V  polcia. Eles podem voltar - sugeriu Lusa.
 - Talvez eu v.
 Jlio fechou os olhos procurando acalmar seus pensamentos.
Quando sua me chegou, ele estava mais calmo. Confortou-a porm ocultou o
verdadeiro mvel da agresso. Para que agravar-lhe a preocupao?
 Aos poucos, ela foi se acalmando, aceitou de bom grado o caf que Lusa lhe
ofereceu. Agradeceu muito os cuidados com o filho e s na hora do almoo
concordou em ir embora. Precisava ir para a repartio trabalhar. Jlio no via
razo para que ela faltasse ao emprego.
 Era uma mulher elegante, beirando os cinqenta, simptica e bem- educada.
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 - V, mame. Estou melhor. O remdio fez-me bem. Preciso ficar porque o
mdico mandou. Amanh, por certo, me mandar para casa.
 - Espero que seja assim.
 Depois de agradecer vrias vezes a Lusa e a Nair, abraou-as com muito
carinho e despediu-se. Lusa acompanhou-a at a porta.
 - Agora Jlio, procure dormir - aconselhou Nair. - Fique calmo.
Quando Mariazinha chegar, falarei com ela.
 Ele obedeceu, cerrou os olhos e afinal conseguiu adormecer.
 Quando Mariazinha soube de tudo, ficou assustadssima. Correu  casa de
Nair e vendo o rosto intumescido de Jlio empalideceu ainda mais.
 - Meu bem, o que lhe fizeram?
 Lusa deu-lhe gua com acar, e Jlio procurou atenuar o choque.
 - No se preocupe. Estou inteiro. Logo estarei bom.
 - Por que no me procurou? Meu Deus! Eu fui trabalhar sem saber de nada e
voc aqui...
 - Fui muito bem tratado. Depois eu no queria que voc me visse to feio!
 - Bobo! - disse ela, tentando reter as lgrimas.
 - Voc podia me dar o fora!
 Mariazinha segurou a mo dele apertando-a carinhosamente.
 - Agora no tem mais remdio - disse. - Terei que agent-lo assim mesmo.
 Trocaram idias sobre o atentado, Mariazinha tambm suspeitava de Rino.
Era muita audcia! Que crueldade!
 - No terei mais sossego de agora em diante. Melhor voc no vir me ver
durante algum tempo. Podemos nos encontrar na cidade...
 -  cedo para preocupar-se - disse ele. - Uma coisa  certa: continuaremos a
nos ver.
 Quando o mdico passou para v-lo, apesar do seu otimismo, no permitiu
que ele fosse para casa. Jlio teve que ficar, e Mariazinha fez-lhe companhia,
s se recolhendo quando os pais foram ver Jlio e a levaram para casa,.
 No dia seguinte, Mariazinha no quis ir trabalhar. Preferiu ir  casa de Nair e
ficar com Jlio. No havia dormido bem aquela noite.
Sonhara com Alberto ferido, pedindo justia e, de repente, seu rosto
transformava-se no de Jlio e ela, vendo-o desfalecer gritara apavorada:
 - Jlio, voc no vai morrer!
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 Acordara suando, aflita e no conseguira mais dormir o resto da noite. Seria o
Rino assassino de Alberto? Poderia matar o Jlio tambm?
A paixo de Rino a atemorizava e sufocava.
 - Por que ele no me esquece? - pensava temerosa.
 - Voc precisa ir  polcia - disse ao Jlio horas mais tarde. - Quem sabe eles
prendem o Rino.
 - No tenho provas para acus-lo.
 - Precisa de garantia de vida, de proteo - tornou Nair.
 - Eu sei. Mas a polcia no pode fazer nada agora, s registrar os fatos e eles
no esclarecem nada. Vou chamar o Vanderlei.
 - Quem? - indagou Mariazinha.
 - Meu amigo que foi detetive. Alis ele j est investigando o
Rino.
 - Vamos avis-lo - sugeriu Mariazinha.
 - Certo. Voc telefona e pede para ele vir at aqui.
 - Eu fao isso - decidiu Nair. - Vou avisar Magali. Ela tambm precisa saber.
 - Concordo.
 Nair pegou o nmero e foi telefonar. Vanderlei chegou  tarde e ao entrar no
quarto de Jlio, ele conversava com Magali, Nair e Mariazinha. Moo de
estatura mdia, olhos e cabelos escuros, moreno,
vestia-se com elegncia e apuro. Cumprimentou as moas e apertou a mo do
amigo.
 - Tentaram apagar voc? - perguntou sorrindo, mostrando dentes alvos e bem
alinhados.
 - Tentaram. Mas eu sou duro. Vaso ruim no quebra.
 - Estou vendo. Como foi?
 Jlio contou tudo, ao final:
 - Suspeito daquele sujeito que eu pedi para voc levantar a ficha dele.
 Vanderlei sacudiu a cabea afirmativamente:
 - Eu sei. Como sou prevenido, trouxe j alguma coisa. Ele no  flor que se
cheire.
 - Isso eu j sabia. O que descobriu?
 Vanderlei tirou do bolso do palet um papel cuidadosamente dobrado.
 - Arruaceiro, desordeiro. Foi expulso de dois colgios durante a
adolescncia. Formou um grupinho o qual lidera e todos o obedecem.
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Todos o temem. Os outros grupos de jovens do bairro fogem sempre de um
confronto com eles. Meteram-se em muitas brigas e quebra-quebras, mas
nunca ficou nada provado contra eles. Sua ficha policial  limpa.
No estuda, no trabalha. Perdeu muito dinheiro no jogo e o pai pagou.
 - No  muito - comentou Jlio.
 - O bastante para saber que se trata de um elemento perigoso e esperto.
 - Tenho razes para pensar que foram ele e seu bando que me agrediram.
 - Tambm acho provvel. Se ao menos voc pudesse reconhec-los na
delegacia!
 - Isso no seria possvel. No lhes vi o rosto.
 - Depois, sua suspeita sobre aquele crime. Eu tambm acho que  vlida.
Principalmente agora, depois do que lhe fizeram.
 - Era meu irmo - disse Magali sria. - Queremos descobrir a verdade. Um
inocente est preso, e o assassino, impune. Sem falar que ele pode tirar a vida
de outra pessoa.
 - Eu temo pelo Jlio - ajuntou Mariazinha.
 - Calma - pediu Vanderlei. - Precisamos pensar. Eu j estava interessado
no caso, mas agora, depois do que aconteceu, vou descobrir a verdade de
qualquer jeito. Vamos trabalhar com inteligncia. Todas as suspeitas recaem
sobre o Rino. S ele teria interesse no desaparecimento do Alberto e do Jlio.
Amor no correspondido justifica sua atitude. Acostumado a ser obedecido, ele
no aceita a recusa de Mariazinha. Seu orgulho est ferido. Isso, na cabea de
um tipo como ele, assume grandes propores.
 - Seria prudente o Jlio afastar-se daqui por algum tempo - tornou Mariazinha
preocupada.
 - No farei isso - retrucou Jlio.
 - No precisa - garantiu Vanderlei. - Ser at melhor que ele se sinta
desafiado. Poderemos peg-lo.
 - No h perigo? - perguntou Magali.
 - O perigo existe enquanto esse moo estiver em liberdade. A experincia tem
me ensinado que  melhor preparar-se e enfrentar o perigo. Claro que de
maneira inteligente. Colocarei dois homens para segui-lo por toda parte, sem
que ele desconfie. Estaro sempre alerta a qualquer suspeita.
146


 - Boa idia, Vanderlei
- concordou Jlio.
- Eu sabia que voc encontraria soluo.
 - Vocs todos vo fazer o que eu disser. Quero detalhes do crime.
 Vou ver o processo e falar com o Jovino.
 - Vou ao Centro pedir ajuda - props Magali.
 Vanderlei olhou-a pensativo, depois disse:
 - Faa isso.
 - O esprito de meu irmo est interessado em nos fazer encontrar a verdade.
Por certo nos ajudar.
 Vanderlei sorriu:
 - Ele sabe quem foi e como foi. Se pudesse nos contar, tornaria as coisas mais
fceis.
 - Voc brinca, mas sabe que  verdade. Ele j nos tem ajudado e quando for o
momento, tudo se esclarecer.
 Continuaram conversando animadamente, saborearam o gostoso caf com
bolo de Lusa, depois Magali despediu-se:
 - Preciso ir - disse. - Meu pai no sabe que estou aqui.
 - Eu tambm vou - tornou Vanderlei. - Posso lev-la. Para que lado vai?
 - Aclimao.
 - Vou para Vila Mariana. Deixo-a em casa.
 - Aceito, obrigada.
 Saram e acomodaram-se no carro, e a conversa durante o trajeto foi
espontnea e agradvel.
 - Para a famlia  sempre difcil enfrentar um crime.  chocante.
 - Ns ainda no nos recuperamos. Meu pai acabrunhado, enterrou-se no
trabalho, minha me est descontrolada e chora a qualquer pretexto. Meu
irmo era um tanto arredio e inconformado, ficou insuportvel.
 - E voc?
 - Eu? Agora estou melhor. Depois que descobri que a morte no  o fim de
tudo, que tudo quanto Deus faz  justo e que o Jovino  inocente.
 - Vocs gostavam do Jovino?
 - Muito. Era como um irmo, amigo e dedicado. Pensar que ele nos tivesse
enganado nos machucou muito.
 - Certamente. E o que a fez acreditar em sua inocncia? Afinal, ele foi
condenado pela justia.
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 - A princpio, acreditei em culpa, mas depois, tantas coisas aconteceram!
 Aos poucos Magali foi contando como tudo havia acontecido.
Falava de maneira clara e Vanderlei conseguiu compreender melhor os fatos.
Ao final, considerou pensativo:
 - No possumos provas que justifiquem um pedido de reabertura do processo.
Se o Rino estiver envolvido, conforme suspeitamos,
como provar? Ningum viu o crime, a arma era do Jovino e por certo no foram
encontradas impresses digitais.
 - O que pretende fazer?
 - Ver o processo. Trabalho com meu tio que  advogado criminal e posso
conseguir isso. Depois, falar com o Jovino, pensar, encontrar uma pista, uma
sada para descobrir a verdade.
 - No  um caso simples. Confio que com a ajuda de Deus, haveremos de
conseguir.
 Vanderlei concordou.
 - Por que no? Onde ns no penetramos e no sabemos o que se passa,
Deus v. Seu irmo, morto to jovem, por certo no est satisfeito com a
impunidade do criminoso e muito menos com a priso de um inocente.
 - Logo ele. Sempre to nobre nos sentimentos, to a favor da justia e to
amigo do Jovino.
 - Esperamos que ele nos ajude. Em nossa profisso, muitas vezes somos
favorecidos com o que alguns chamam de "sorte" ou de "acaso". Eu
pessoalmente acredito em uma interveno espiritual. Um caso difcil, quase
insolvel, sem pistas, de repente aparece um fato novo, inesperado que muda
os fatores e soluciona toda a questo.
 Magali animou-se.
 - Quem estaria por trs disso? Amigos espirituais comuns, interessados em
ajudar, ou seriam como no caso de Alberto, os espritos das vtimas, tentando
fazer justia?
 - Quem pode saber?  por esta razo que tanto os meus amigos policiais,
como at os prprios marginais, so muito supersticiosos.
 - Eu prefiro aceitar que quando uma coisa chega na hora de ser esclarecida,
ningum conseguir mant-la oculta.
 - E o que determina essa hora?
 Magali deu de ombros:
 - No saberia dizer. Talvez a necessidade emocional e espiritual dos
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envolvidos, seu amadurecimento, sua viso da vida e dos seus mecanismos.
 - Acredita que essas sejam as determinantes?
 - Sim. Sei que Deus  justo e sempre faz o bem. Por isso, tudo quanto
aconteceu, obedeceu a uma necessidade nossa de sensibilizao e
amadurecimento. A maneira como os fatos se deram tambm tem a ver com
essa situao. E ela vai ser mantida enquanto ns precisarmos dela. Enquanto
nossos espritos no assimilarem os resultados dessa experincia. Quando
conseguirmos isso, ela terminar e tudo se modificar para novos rumos do
conhecimento e da nossa evoluo.
 Vanderlei ficou calado por alguns momentos. Muitas vezes havia conversado
com Jlio a respeito desses assuntos, lera alguns livros e at freqentara
algumas sesses espritas. Porm, nunca analisara as coisas dessa forma.
 - Do jeito que voc coloca, no podemos fazer nada seno esperar.
 Magali sacudiu energicamente a cabea.
 - Absolutamente. O que eu sinto  que mesmo procurando de todas as formas
solucionar nossos assuntos, eles s iro resolver-se quando a vida julgar
oportuno e adequado. Como no sabemos o momento que isso vai ocorrer, se
o caso for difcil no devemos perder a esperana e continuar trabalhando.
Afinal, sempre poderemos ajudar um pouquinho, tentando entender por que
estamos passando por determinadas coisas e o que elas esto querendo nos
ensinar.
 Vanderlei sorriu:
 - No resta dvida que voc  otimista. Isso  muito bom. A propsito, estou
morrendo de fome. Aceitaria jantar comigo?
 Magali consultou o relgio.
 - No posso demorar-me.  um pouco cedo para jantar, mas um pouco tarde
para chegar em casa. Depois, comemos bolo, tomamos caf. Estou sem fome.
 - Para ser sincero, eu tambm. O que eu quero  conversar mais,
nosso assunto est muito interessante. Se no quiser jantar, poderemos tomar
um sorvete, qualquer coisa e prolongarmos nossa conversa.
Afinal, voc ganhou tempo vindo de carro.
 Magali sorriu alegre. Vanderlei possua um jeito cativante de falar e um sorriso
muito agradvel.
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 - Voc pensa em tudo - disse. - Est bem. Vira a prxima rua  direita. Tem
um timo lugar para o nosso sorvete.
 O moo obedeceu prontamente. Havia nos olhos de Magali uma chama que
ele ainda no havia visto em ningum e que comeava a interess-lo.
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Captulo 12
 Uma manh, depois que o dr. Homero saiu e o Rui ainda dormia,
Aurora aproximou-se de Magali que na copa tomava seu caf.
 - Magali
- disse
- estive pensando. Se  verdade que a morte no  o fim de tudo, e o Alberto
deve estar vivo no outro mundo, eu quero v-lo. Preciso encontr-lo, falar com
ele. Quero ir a uma sesso esprita.
 Magali olhou-a sria:
 - Podemos ir ao centro onde vai D. Dora.
 - Seu pai no precisa saber. Por certo no aprovaria.
 - Como quiser, mame. Poderemos ir amanh  tarde.  o dia em que eu
costumo ir.
 Aurora suspirou pensativa, depois perguntou:
 - Ser que ele ir?
 - No sei. Pelo que tenho estudado desse assunto, no  fcil para o esprito
comunicar-se conosco.
 - Por qu? Se h os mdiuns e vontade de conversarmos. Voc afirmou que
o Alberto deseja falar conosco. Esclarecer o mistrio de sua morte. Sendo
assim, no h melhor ocasio.
 Magali fixou o rosto ansioso da me e esclareceu:
 - Quem deixa a Terra passa a viver em uma dimenso diferente de vida,
onde h leis e regras que eles precisam obedecer. Para que se expressem em
nosso meio, alm do mdium com o qual precisaro obter sintonia,  preciso
uma permisso dos chefes espirituais. Eles s permitem em casos que eles
acham necessrio.
 - Trata-se de fazer justia. Acha pouco prender uma pessoa por um crime que
no cometeu? Voc disse que o Jovino pode estar inocente. S o Alberto pode
esclarecer a verdade.
 - As coisas no so to simples assim. Mesmo que ele viesse atravs de um
mdium e contasse a verdade, como poderamos provar? Como conseguir
elementos para reabrir o processo?
 - Ns saberamos tudo e iramos  polcia testemunhar.
 - As coisas no acontecem assim. Deus sempre faz tudo certo. Ele no erra.
 Aurora revoltou-se:
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 - Isso  que no consigo aceitar! No sei como voc pode pensar assim.
Como pode achar certo um assassino cruel matar seu irmo?
 - Me, estou tentando compreender! Pense um pouco. Deus  perfeito. Ele
no erra nunca. Quando a dor nos fere o corao, no encontramos
justificativa, preferimos pensar na fatalidade, na crueldade, na injustia. Como
conciliar isso com a bondade de Deus? Eu prefiro aceitar que ns ainda no
temos a verdade total. Que ainda no conseguimos penetrar nas profundezas
da nossa alma para perceber por que somos submetidos a experincias to
rudes. Dentro desse pensamento, posso entender que essas experincias
modificam nossas vidas, amadurecem nossos espritos, nos fazem crescer,
evoluir.
 - Para qu? Nossa evoluo  custa da vida do Alberto truncada to cedo?
 - Um dia compreenderemos as verdadeiras causas de tudo isso. O que eu
quero dizer  que se Deus, sendo bom e justo, permitiu que tudo acontecesse,
foi porque ns tnhamos que passar por isso. Era uma experincia necessria,
tanto para ns quanto para ele.
 Aurora balanou a cabea:
 - No posso aceitar isso. A infelicidade mora em nossa casa desde aquele dia.
 - A felicidade  conquista nossa. Podemos escolher entre a alegria e a tristeza.
Voc escolheu ser infeliz.
 - Como pode dizer isso? Como posso estar alegre depois do que aconteceu?
 Magali levantou-se e colocou as mos nos ombros da me, dizendo:
 - Mame, no estou desrespeitando sua dor. Sei como di. Mas no adianta
cultiv-la. As coisas no vo melhorar por isso, ao contrrio.
Precisamos aceitar a vontade de Deus que tem nas mos o poder da vida e da
morte. Depois, pelo que sei, nossa tristeza preocupa Alberto, faz-lhe mal. No
devemos prejudic-lo.
 - Acha isto?
 - Certamente. Ele fica inquieto, angustiado vendo sua revolta sem poder fazer
nada. Pense um pouco, se voc estivesse no lugar dele. Se tivesse morrido e
vendo-nos chorar angustiados, sem que pudesse falar conosco ou aparecer
para ns. Como ficaria?
 - Desesperada.
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 - Ele, por certo, estar assim por sua causa, Faa um esforo. Pense que ele
viajou, est bem e merece ser feliz.
 - Gostaria muito que fosse assim!
 - Ento, pense nisso.
 - Ele ir a sesso?
 - No sei. Pode ser. Mas tenha calma, as coisas s acontecem na hora
adequada. Vamos pedir com f e esperar. Tambm gostaria que ele viesse e
nos esclarecesse tudo. S no quero que voc espere demais e se decepcione
caso no acontea.
 - Se tudo isso  verdade, ele dar um jeito de me avisar de alguma forma.  o
que eu procuraria fazer se estivesse l.
 Magali concordou com a cabea.
 Meia hora antes do incio da sesso, as duas j se encontravam na sala. Dora
abraou-as carinhosamente, mostrando-se feliz em v-las.
 Aurora sentia-se pouco  vontade, embora o ambiente fosse alegre e as
pessoas agradveis, estava constrangida. Nunca pusera os ps em um Centro
Esprita. - Que loucuras se faz por amor aos filhos - pensava ela.
 Cumprimentou Dora, respondendo com voz baixa suas palavras.
 - Fez bem em vir - disse Dora com naturalidade. - Deus acalmar seu esprito
e balsamizar suas feridas. Voc ver.
 - Assim espero - respondeu ela, acanhada.
 Dora acomodou-se, a sesso ia comear.
 - Pense em Deus, mame - recomendou Magali - reze.
 Aurora fechou os olhos e rezou uma prece ansiosa e dolorida. Sentia-se
angustiada, aturdida. Seus pensamentos estavam confusos, tumultuados.
Mesmo assim, implorou a Deus que a ajudasse, que a fizesse conhecer a
verdade.
 A sesso estava em meio, quando, quebrando o silncio da sala, uma mdium
agitou-se e disse com voz triste:
 - Toda me que sofre  digna de respeito. Por que acha que sofre mais do que
as outras? Por que se coloca como vtima e no percebe o quanto tem sido
cruel?
 Aurora abriu os olhos e segurou o brao de Magali presa de viva comoo. A
mdium prosseguiu:
 - Voc s pensa na sua dor! Sequer percebe quantas pessoas sofrem ao seu
redor.
153


 Dora levantou-se, aproximou-se da mdium, dizendo com voz calma:
 - Acalme-se. Todos temos dificuldades a enfrentar, no  acusando que
conseguiremos viver melhor.
 - Vim para dizer a verdade. Ela quer saber, mas se esconde no egosmo.
Julga-se vtima, mas tem sido muito cruel. Vim para dizer-lhe que, se ela quer
justia, eu tambm quero. Tambm sou me! Tive que partir, meu filho ficou
com ela. Fiquei desesperada. No esperava o acidente nem a morte!
 - Precisa conformar-se com a vontade de Deus - disse Dora.
 - Eu me conformei. Meu filho estava bem, e eu fiquei grata. Mas agora no
posso me calar. Por que ela no o defendeu? Por que deixou que o atirassem
 priso sem esperanas, como um assassino cruel? No sabe que ele 
inocente? Por que permitiu isso? - sua voz tornou-se grave - ela s pensa em
sua dor. E eu? No sou me tambm? Tenho assistido a dor do meu amado
filho sem poder fazer nada. Voc quer a verdade, a a tem. Espero que me
ajude. Que cuide do meu filho, conforme prometeu. Se fizer isso, vou ajud-la
como puder.
 Aurora soluava sem poder conter-se. Magali abraava-a emocionada.
 - Preciso ir - continuou a mdium.- Meu tempo acabou. Obrigada por haverem
me atendido. Sou Odete.
 Dora pediu a todos uma prece em favor daquela me aflita. Quando a sesso
acabou, Aurora ainda chorava nos braos da filha. Dora abraou-a com
carinho, levando-lhe um pouco de gua que ela bebeu, tentando conter a
emoo.
 Estava estupefata. Ningum ali conhecia o nome da me de Jovino. No
possua nenhuma dvida de que o esprito de Odete estivera ali, para falar dos
seus sofrimentos. Ela acusara-a. Pedira-lhe contas. Chamara-a de egosta.
Pela primeira vez pensou na dor que sentiria se seu filho estivesse preso. Ela
aceitara a culpa de Jovino. A polcia chegara a essa concluso, condenara-o.
Ela sentia-se a maior vtima. Perdera o filho barbaramente. Odete estava sendo
injusta.
 - Acalme-se - aconselhou Dora com suavidade. - Tudo vai passar.
 Aos poucos Aurora foi conseguindo dominar-se, envergonhada por no haver
conseguido conter o pranto.
 - Vamos embora - disse  Magali. - Sinto ter dado esse vexame.
Ainda estou descontrolada. No deveria ter sado.
154


 - No se preocupe, Aurora. Esta  uma casa onde se fala com o corao e as
emoes afluem naturalmente. Acontece com freqncia. Comigo tambm j
aconteceu.
 - Ela veio pensando no Alberto. Guardvamos a esperana de que ele
pudesse comunicar-se - esclareceu Magali.
 - Quem veio foi a Odete. Jamais pensei que ela estivesse vigiando nossos
atos. Sempre ouvi dizer que quem morre nunca mais volta.
 -J deve ter percebido seu engano, o que, em seu caso, representa muito
conforto.
 Aurora suspirou, ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
 - No esperava a Odete, nem suas duras palavras que considero injustas,
mas, se ela continua viva e sabe de tudo quanto aconteceu, Alberto tambm o
estar e um dia poder vir e falar conosco.
 - Deus no atendeu seu pedido sobre o Alberto, mas permitiu um fato que
despertou sua f - considerou Magali, confortada.
 - Estou admirada. Queria acreditar, temia iludir-me, agora tenho que
reconhecer: foi a Odete! Ela falou comigo quase vinte anos depois de sua
morte. O que ela disse pode ser injusto para mim, mas os fatos a que se
referiu, so verdadeiros. Ningum,  exceo de voc, me conhecia aqui e nem
Magali se recordava da me do Jovino. Foi um milagre. Um verdadeiro milagre.
 - No se trata de milagre - interveio Dora, atenciosa. - Fatos como esses vm
ocorrendo aqui com certa freqncia. As pessoas que morreram, continuam
vivas no outro plano da vida e quando podem, comunicam-se com os que
ficaram.  natural e simples.
 - Para mim foi um milagre. Meu filho vive e agora tenho esperanas de
encontr-lo de novo. Virei aqui todas as semanas. Quero notcias.
 Dora sorriu, compreensiva:
 -  justo que deseje uma comunicao dele. Ficamos radiantes quando
recebemos notcias dos que se foram. Porm, sei que o ama muito e que a
felicidade dele est em primeiro lugar em seu corao.
 -  verdade - concordou ela.
 - Sendo assim, deve pensar um pouco nele. Em suas necessidades e seus
problemas.
 - Como assim?
 - Ele foi arrancado da Terra de forma inesperada em plena juventude. Sente-
se preso  famlia que amava, aos amigos, aos hbitos. Ter que distanciar-se
de tudo isso para viver uma vida nova, diferente,
155
em outro lugar. Sente-se inseguro. Assiste  dor, ao inconformismo das
pessoas que ama, que o julgam morto para sempre. V o Jovino, preso
inocente. Como poder deixar tudo e ter serenidade para seguir seu novo
caminho? Deseja ficar, contar a verdade, dizer que est bem, mas, ao mesmo
tempo, sofre frente  prpria impotncia em realizar o que pretende e a
necessidade de seguir seu novo destino.
 - Pobre filho. Estaria nessa triste situao?
 - Acredito que sim. Est tentando comunicar-se, porm, as dificuldades fsicas
que separam os dois planos nem sempre podem ser vencidas.
 Aurora ficou alguns instantes pensativa, depois disse:
 - No quero que ele sofra. Fico horrorizada s em pensar como ele morreu. Se
ficou ferido, atirado ao mato sem que ningum o socorresse.
 - Se quer ajudar seu filho, essa  uma cena que deve esquecer - disse Dora
com firmeza. - De nada adiantar remexer o passado e sofrer por ele. Nada
mudar por causa disso.  preciso pensar no presente.
 - Agora, o que posso fazer?
 - Pensar nele sem tristeza. Imagin-lo em seus melhores dias, bem- disposto,
alegre, saudvel, feliz. No guardar ressentimentos nem mgoas do passado.
Ter pacincia com a separao. Vir  sesso todas as semanas, guardar a
esperana de receber uma mensagem dele, mas no insistir nisso chamando-
o em todos os instantes.
 - Por que no posso fazer isso?
 - Porque aumentar sua angstia, caso ele no possa vir. O mant-lo-
prisioneiro a seu lado, ansioso e triste.
 - Deus me livre. No quero perturb-lo.
 - Entendo seu corao amoroso de me. Ajudaria muito se pensasse nele
como sendo livre e dono dos seus atos. Mande-lhe pensamentos de amor, de
f, de esperana e de alegria. Anime-o a seguir seu caminho, mostre-lhe que
seu amor  forte e verdadeiro. Que sua f a fez esperar com serenidade a hora
em que ele puder comunicar-se de alguma forma. Mande-lhe pensamentos de
paz.
 O rosto de Aurora distendeu-se em brando sorriso:
 - Vou tentar - disse. - Obrigada por me contar essas coisas.
 As duas despediram-se e saram. Aurora no falou durante a volta. Estava
pensativa. Uma vez em casa, Magali perguntou:
 - Como se sente?
156


 Melhor. Preciso pensar no que aconteceu. Na injustia de Odete me
acusando.
 Pense, mame. Talvez a possa compreender.
 Nada posso fazer pelo Jovino. No tenho culpa de nada. No o acusei.

 Mas como todos ns, aceitou sua culpa sem tentar descobrir se ele falava a
verdade. Ele sempre pretextou inocncia. No acreditamos nele.
- Tudo estava contra ele.
- Ns o conhecamos desde criana. Sempre foi bom, dedicado, obediente,
srio. Jamais deu motivos a menor desconfiana. Ns ramos sua famlia. Na
hora em que precisou, o abandonamos.
 Por que diz isso? E seu irmo morto, cruelmente? Depois, at agora tenho
dvidas. Pode ter sido ele mesmo. No houve roubo. A polcia tem as provas.
No estar sendo muito ingnua?
 No, mame. Tenho a certeza de que  inocente. Posso compreender a dor
de Odete, vendo o sofrimento do filho. Sente-se impotente para ajud-lo.
Espera que ns o faamos.
 - De que forma? Se no foi ele, quem foi e por qu?
 - Temos nossas desconfianas. H o Vanderlei, que foi policial, e est
investigando.
 - Se a polcia toda no descobriu ningum mais, acredita que ele possa
conseguir?
 - Acredito. Sei que quando for oportuno, a verdade aparecer. O verdadeiro
culpado responder pelo crime, o Jovino estar livre.
 - Isso  muito vago. Voc  muito otimista.
 -Tenho f, mame. Os espritos bons, o Alberto e hoje a Odete, esto nos
ajudando. Tudo se esclarecer.
 - Vamos ver.
 - Voc ver mesmo.
 Magali afirmava convicta. Aurora olhou-a com admirao. Gostaria de ser
como ela. De ter sua f e confiana. Apesar dos conhecimentos novos,
conservava muitas dvidas no corao.
 Se fosse mesmo verdade? Se o Alberto estivesse vivo e bem em outro mundo,
ela sofreria menos. Se ao menos pudesse v-lo, um instante que fosse, para
certificar-se, acalmar seu corao, tudo estaria bem. Porm, ela no
conseguia.
 E a presena de Odete? Como explic-la? Naquele lugar estranho
157
onde ningum a conhecia? Quando se lembrava dela, apesar de sentir-se
injustiada, suas dvidas desapareciam. Se ela estava viva e viera,
Alberto tambm o estaria e poderia vir.
 - Voc precisa pensar com calma - aconselhou Magali, vendo-a calada. - Ore,
pea a Deus para mostrar-lhe a verdade. Ele tem meios para isso.
 Aurora olhou a filha e disse com carinho:
 - Farei isso. Obrigada, filha. Na hora da necessidade  que se conhece as
pessoas. Estou comeando a perceber como voc vale ouro. Eu no sabia.
 Magali sorriu alegre:
 - No acredite nisso! Poder mudar de idia logo mais.
 Aurora beijou-lhe a testa com afeto.
 - Voc fala coisas que s vezes no gosto de ouvir, mas em alguns casos,
pode at ter razo.
 - Me, precisamos melhorar o ambiente aqui em casa. Somos mulheres, a
tarefa  nossa. Papai e Rui merecem nossa ateno e afeto.
 - Sinto, mas no tenho nimo para pensar em coisas to corriqueiras. Tenho
um problema doloroso na alma, no sinto vontade de fazer nada. Se pudesse,
no saa da cama.
 - Precisa reagir a essa depresso. Pense na tristeza do Alberto vendo-a
nesse estado. Pense no papai que passou pela mesma dor e agora
ainda precisa viver em um lugar triste, sem que ningum o conforte. J reparou
como ele est abatido, cansado?
 -J. Eu sempre disse que ele trabalha demais, tem exagerado.
 - Sente-se melhor afundando no trabalho do que ficar aqui, vendo-a chorosa e
abatida, a relembrar a tragdia a todo o instante.
 - No posso ser diferente.
 - Pode e deve. Agora j sabe que Alberto continua vivo, est bem. Que ele
precisa de alegria, conforto, serenidade, que nossa tristeza o perturba e
incomoda. Precisa transformar nosso lar em um lugar sereno
onde ele possa vir buscar foras e renovao. Onde ele possa permanecer
sem sofrer, sentindo nosso amor por ele, mas tambm nossa alegria de viver,
nossa f em Deus e em sua justia. Isso o ajudaria e a ns tambm, tenho a
certeza, a superar nossa angstia e viver melhor.
 Aurora suspirou pensativa e no respondeu. Magali continuou:
 - Pense na dor de papai. O Alberto era para ele o filho preferido.
 Aurora fez um gesto negativo.
158


 - No adianta negar, mame. Todos sabemos o quanto papai orgulhava-se
dele, da sua inteligncia brilhante, seu porte bonito, seu carter. Pense como
ele deve sentir-se. Ele no cr na sobrevivncia da alma aps a morte. Nunca
o vi expressar esse pensamento. A idia do "nunca mais" deve estar
amargurando seu corao. No tem o consolo que ns agora temos, nem a
esperana do reencontro.
 - No podemos contar-lhe. Ele no acreditaria. No permitiria que fosse ao
Centro Esprita.
 - Me, a verdade  como o sol, ningum consegue impedi-lo de nascer todas
as manhs. Um dia, ele tambm brilhar para ele.
 - No sei, no. Ele sempre combateu esses casos de Espiritismo. Diz que
levam as pessoas  loucura.
 - No diremos nada por agora, mesmo porque, quando ele estiver pronto
para entender, maduro para saber, a vida tem seus mtodos prprios para
mostrar-lhe. No  com isso que precisamos nos preocupar. Devemos
confort-lo, envolvendo-o com nosso afeto e melhorando nossas atenes.
 Apesar das restries e das negativas, a partir daquele dia, Aurora foi pouco a
pouco saindo do estado de depresso doentia em que mergulhara. Voltou a
interessar-se pela casa, pelas plantas e at cuidava um pouco melhor da
aparncia. Era com ansiedade que esperava o dia de
ir  sesso e, embora a comunicao do Alberto no acontecesse, ela sentia-
se mais calma, dormia melhor.
 Interessara-se vivamente pelos livros espiritualistas e os lia com ateno,
trocando idias com a filha.
 Fizera l, muitas amizades. Pessoas sofridas que naquela casa haviam
encontrado amparo e conforto, muitas havendo solucionado angustiantes
problemas. Algumas havia que, como ela, tinham perdido um ente querido e l
obtiveram notcias.
 Aurora foi se sentindo mais animada. O dr. Homero observava-a admirado. Ela
agora parecia-lhe modificada. No voltara a ser como antes da tragdia, ele
sabia que isso nunca aconteceria, contudo, ela mostrava-se mais ponderada,
mais serena e at mais interessada nos problemas humanos, coisa que nunca
fizera.
 Uma noite, Aurora sentia-se particularmente saudosa do filho. Estivera
arrumando algumas gavetas onde havia fotografias e vendo-as, no pudera
conter as lembranas.
 Deitou-se pensativa. Fazia dois meses que ia s sesses espritas,
159

 sem obter notcia. Nem a Odete voltara a comunicar-se. Por qu?
 Quanto mais pensava e tomava conhecimento dos livros, dos estudiosos e at
dos cientistas comprovando a sobrevivncia do esprito aps a morte e a
possibilidade da sua comunicao com os vivos, sentia desvanecer as dvidas.
Agora, era-lhe natural aceitar que Alberto continuava vivo em outro mundo. Ah!
Se ela pudesse v-lo! Era s o que pedia a Deus.
 Fez sua orao e adormeceu. De repente, viu-se em um jardim muito bonito e
cheio de flores, verdes gramados. Havia uma claridade diferente, o sol brilhava,
mas o ar era leve e a brisa, agradvel.
 Aurora sentiu uma alegria nova e percebeu que algum a abraava e
conduzia. Era uma mulher. Vendo-a, Aurora sorriu. Ela lhe disse:
 - Prepare-se para o encontro.
 Aurora olhou em frente e viu Alberto, aproximando-se. Ele estava belo e sorria
feliz.
 -Alberto!
 -Me!
 Abraaram-se com fora, misturando suas lgrimas de alegria.
 - E voc, meu filho! Mal posso crer. Est mesmo vivo!
 - Estou, me. Vivo e feliz. Vem, vamos conversar, aproveitar este momento.
Sente-se aqui, a meu lado.
 Segurando suas mos, Aurora obedeceu. Em seu peito cantava a felicidade.
 - Meu filho, que saudade! Quase enlouquecemos com o que aconteceu.
 -No falemos de coisas tristes. Conseguimos este encontro graas  bondade
de Deus e de alguns amigos, e tambm porque voc modificou o teor dos seus
pensamentos.
 - No est sendo fcil - queixou-se ela.
 - No diga isso. Ser cada dia mais fcil. Continue se esforando para
aprender a verdade. No tema. Deus nos ajudar. Voc vai indo muito bem,
agradea a Magali. Ela  um esprito lcido. Confie nela.
 - Ela tem me ajudado. Mas fale-me de voc, como est?
 - Melhor agora que vejo vocs mais calmos. Estou conformado. Um dia ainda
saberemos por que nos aconteceu tudo isto.
 - E o Jovino?
 - Lastimo-o. Pobre amigo.
 - inocente?
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 - No foi ele quem me matou, se quer saber.
 - Diga-me, quem foi?
 - Me, para que lembrar fatos que nos fazem sofrer? Disseram-me que
deveramos s falar no bem em nosso encontro, se quisermos nos ver de novo.
 - No me deixe - pediu ela. - Quero ficar com voc.
 - No pode ainda. Sua misso na Terra no acabou. Voc tem uma famlia
para amar e ser feliz. Vem, me, quero que conhea como  belo este lugar.
Agradeamos a Deus tanta bondade!
 Os olhos de Alberto luziam de emoo e Aurora, fascinada, segurando sua
mo, acompanhou-o por entre as alias floridas, as colinas verdejantes e
perfumadas, sentindo uma imensa satisfao interior, uma alegria intraduzvel.
 - Lembre-se, me, eu estou muito bem. Confie em Deus e cultive a alegria.
Tudo se resolver a seu tempo, no tema.
 Aurora acordou em sua cama, sentindo ainda dentro do peito a emoo
daqueles instantes.
 - Meu Deus! - disse - Que alegria!
 Homero remexeu-se no leito:
 - O que foi? - indagou.
 - Homero, estive com o Alberto! Ele est vivo e muito bem.
 - Voc sonhou, Aurora. S isso.
 - Eu o vi, abracei, conversamos muito. Homero, ele estava lindo e feliz!
 - Foi alucinao. Tanto pensou nele que at sonhou.
 Aurora no se deixou convencer.
 - Era ele! Sinto ainda o calor de sua mo na minha, seu abrao saudoso onde
misturamos nossas lgrimas. Ah! Eu nem queria voltar.
 um lugar lindo, cheio de flores. Ele afirmou que o Jovino  inocente. Homero,
precisamos fazer algo por ele. No podemos deix-lo na priso por um crime
que no cometeu.
 - Voc no sabe o que diz. Vou buscar um calmante, vai tomar e dormir.
 - No preciso de calmantes. Homero, agora que tive a prova de que o Alberto
vive, que posso aceitar que a morte no  o fim de tudo, que finalmente sinto
brotar dentro do meu corao a alegria e a compreenso, voc quer impedir-
me?
161

- Voc est exaltada.  natural. Entrou em fantasia. No aceita a perda do seu
filho.
 Aurora sentou-se na cama, acendeu o abajur e olhou firme o rosto do marido.
 - Tenho pena de voc, porque sua incredulidade s lhe oferece o vazio, a
morte, a dor, o nunca mais. Eu prefiro a f, a crena em Deus
que  to grande e sbio, poderoso e justo, que est me mostrando que existe
um outro mundo para onde vo as almas que deixam a Terra e que um dia nos
reuniremos de novo quando a morte nos chamar.
 Homero olhava-a admirado. Ela continuou:
 - Voc fala da morte, eu sinto a vida! Alberto vive e um dia voc ainda
perceber isso! De hoje em diante Homero, nunca mais me ver chorar pelo
Alberto. Ele est muito mais feliz do que ns, em um belssimo lugar. Quero
agradecer a Deus por isso.
 Ali mesmo, diante do olhar aparvalhado do marido, Aurora ajoelhou-se e
proferiu comovida prece de gratido.
 Depois, deitou-se, apagou a luz e logo adormeceu. Homero, ouvindo-lhe a
respirao calma e cadenciada, no conseguiu mais conciliar o sono e s fazia
pensar, pensar, pensar.
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Captulo 13
 Rui chegou em casa muito irritado. Procurou Magali, no a encontrando, foi
falar com a me.
 - Papai j chegou?
 -No.
 - Precisamos conversar - disse ele, parando em frente da me, cenho franzido.
 Aurora suspendeu um pouco seus afazeres na cozinha e olhou-o sem muito
interesse. Estava em uma fase em que procurava melhorar seus pensamentos,
reencontrar a alegria de outros tempos, sabia que Rui agastava-se por coisas
pequenas. No queria perder o bom humor.
 - Logo mais ele estar em casa para jantar. Acha necessrio levar-lhe
problemas? Ele tem estado to abatido ultimamente!
 - No falaria com ele se o caso no fosse extremamente grave.
 - O que ? - perguntou Aurora mais interessada em poupar o marido do que em
conhecer do que se tratava.
 -  a Magali. Anda saindo em m companhia, freqentando lugares perigosos.
 - Magali? No acredito nisso. Ela tem mais juzo do que todos ns.
 Rui irritou-se ainda mais.
 - O que deu em voc? Ultimamente tomou-se de amores por ela e aceita tudo
quanto ela diz ou faz.
 - No fale assim de sua irm. Ela no merece.
 - Pois  com papai que eu vou me entender. Ele precisa tomar providncias.
 Voltou as costas e ia saindo, Aurora segurou-o pelo brao.
 - Afinal, o que vai contar a seu pai?
 Havia um ar triunfante no rosto dele ao responder:
 - Ela anda saindo com um reles investigador de polcia, e sabe onde ele a
levou? Ao presdio, visitar aquele assassino.
 Aurora suspirou aborrecida.
 - Como soube disso?
163


 - Um amigo meu, advogado, os viu l. No  uma loucura? Magali 
inconseqente. No deve mais sair sozinha.
 - Deixe sua irm em paz - tornou Aurora com firmeza. - E no v perturbar seu
pai com esse assunto.
 -  isso que voc diz? Quer proteg-lo apesar de tudo?
 - No se trata disso. Sua irm nada fez de mal.
 - Como no? Acha pouco? Ir escondido visitar aquele assassino?
Papai ficar to indignado quanto eu e tomar suas providncias.
 - Ela no foi escondido. Eu sabia que ela havia ido l. Depois, ao que sei, o
Vanderlei  um moo decente que est investigando o caso. O Jovino  inocente.
No foi ele quem matou o Alberto.
 Rui olhou-a boquiaberto.
 - A coisa  pior do que supunha. Quer dizer que voc sabia e nada fez para
impedi-la? Desde quando tomou a defesa daquele marginal?
 Aurora entristeceu-se. Doa-lhe ver o Rui to agressivo. Com voz grave
tornou:
 - Filho! No seja to intransigente. Um dia ainda se arrepender dessa
atitude. Eu sei que o Jovino  inocente.
 Rui riu com sarcasmo:
 -Voc? Desde quando? Que eu saiba a justia condenou-o e at agora nada prova
o contrrio. Ele continua cumprindo pena, como merece.
 - No foi ele. Hoje eu sei.
 - Como?
 - O Alberto me disse pessoalmente que no foi o Jovino quem o matou.
 Ele olhou-a admirado a princpio, depois desatou a rir. Aurora sentiu
aumentar sua tristeza. Quando ele parou de rir, assumiu um ar condescendente:
 - Vamos, me. Voc tem pensado muito nele, estado muito depressiva, papai
poder dar-lhe um remdio que a ajudar.
 Aurora sacudiu a cabea:
 -No estou doente. Ao contrrio, comeo a viver novamente, estou muito bem.
 - Essa sua exaltao, suas idias, essas fantasias, podem ter conseqncias
mais graves. Papai sabe?
 - Sabe. J lhe contei meu encontro com o Alberto. Ele est muito
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bem no outro mundo, to lindo, num jardim cheio de flores. No gostaria de v-
lo to rancoroso como agora.
 Rui olhava com ar de comiserao.
 - Est bem, me - concordou. - Deixemos esse assunto para mais tarde.
 Preferia falar com o pai. Sua me no estava regulando bem. Foi para o quarto
disposto a resolver a questo a seu modo. Ouviu quando o pai chegou e
procurou-o imediatamente.
 Homero colocara o chapu no cabide e pretendia ir ao escritrio guardar a
valise quando foi abordado pelo Rui:
 - Pai, preciso falar-lhe com urgncia. Trata-se de assunto srio.
 Homero olhou-o um pouco aborrecido. Tivera um dia exaustivo, um dos seus
pacientes passava mal, no tinha certeza de conseguir cur-lo.
 - Venha ao escritrio - disse.
 Entraram. Rui fechou a porta, enquanto o pai colocava a valise sobre a
mesinha, sentando-se frente  escrivaninha lavrada.
 - O que h?
 - Coisas graves esto acontecendo nesta casa - disse Rui. Diante do silncio
paterno, prosseguiu: - Magali tem sado em m companhia
e sabe onde foram?
 Homero sacudiu a cabea negativamente. Rui continuou:
 - Ao presdio. Visitar aquele assassino.
 Homero franziu o cenho:
 - Tem certeza?
 - Tenho. O Juc  advogado e viu-os l, falando com ele.
 Homero passou a mo pelos cabelos, contrariado.
 - No  lugar para uma moa - considerou pensativo. - Com quem ela estava?
Que m companhia era essa?
 - Um detetive.
 - Por que faria isso sem nos dizer?
 - No sei. Falei com mame e fiquei assustado. Ela sabia de tudo. At o nome
do investigador. Pai, voc deve fazer alguma coisa. Mame est dizendo coisas
estranhas, tendo alucinaes. Precisa de tratamento. Afirma ter visto o
Alberto, falado com ele. Isso  grave.
 - Diz que o Jovino  inocente. Acredita firmemente nisso.
 - Ah! Voc sabia! Mame est desequilibrada. Voc no fez nada?
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 Homero permaneceu silencioso durante alguns instantes, depois disse:
 -No.
 -No vai dizer que acredita no que disse - tornou Rui, com ironia.
 - No. No acredito. Mas tenho notado que essa fantasia fez-lhe bem. Est
mais animada, voltando a interessar-se pela vida. Nunca mais teve aquelas
crises de depresso.
 Rui admirou-se:
 - No ser perigoso deix-la cultivar uma iluso?
 - Tenho pensado muito e resolvi no interferir enquanto ela estiver
melhorando. Para ser franco, eu tambm gostaria de acreditar nisso. Diminuiria
meu sofrimento.
 Rui no soube o que responder. De repente, o pai pareceu-lhe envelhecido e
cansado. Calou-se durante alguns instantes, depois perguntou:
 - E Magali? Precisa impedi-la de freqentar esses lugares.  perigoso.
 Homero fixou-o srio:
 - Resolverei esse assunto. Prefiro que no interfira.
 Rui concordou e saiu. Ao passar pela sala viu Magali que estava chegando.
Antegozando a reprimenda que o pai deveria dar-lhe disse-lhe:
 - Magali, chegou bem na hora. Papai quer falar-lhe urgente no escritrio.
 Pelo ar do irmo, Magali desconfiou que algo no estava bem.
Aurora, que esperava a filha com ansiedade, apareceu na soleira e ouviu as
palavras do filho. Aproximou-se de Magali:
 - Seu pai sabe que voc esteve com o Vanderlei, visitando o Jovino.
 - Quando vi o Juc l, compreendi o que ia acontecer.
 Rui olhava-a desafiador. Magali desviou os olhos e beijou a face da me
carinhosamente.
 - No se preocupe, me. No vai acontecer nada. S vou lavar as mos e irei
ter com ele.
 Magali fechou-se no lavabo. Seu pai era muito severo. Dali para frente, no
poderia mais sair com a mesma facilidade. O que fazer?
Sentiu vontade de rezar, pedir ajuda aos espritos que a protegiam. Ali mesmo,
fechou os olhos e pensou em Deus, pedindo inspirao para falar com o pai.
 Sentiu-se mais calma. Nada havia feito de mal, no precisava
166


temer. Quando se sentiu segura de si, foi  procura dele. Bateu ligeiramente
na porta e entrou.
 Homero estava sentado ainda em frente a escrivaninha e segurava a cabea
entre as mos. Seu olhar era triste e cansado. Vendo-o Magali enterneceu-se.
Aproximou-se, beijou-o na face, coisa que no fazia desde a infncia. Pareceu-
lhe vislumbrar uma lgrima em seus olhos.
 Homero pigarreou e tentou endurecer a voz ao dizer:
 - Magali, o que voc fez  grave. O que foi fazer no presdio? No  lugar
para uma moa!
 - Pai, gostaria que me ouvisse. Que me compreendesse.
 - Compreender o qu? Vai explicar o que foi fazer l.
 - Nada de mais. O Vanderlei  um policial amigo que est investigando a morte
do Alberto. Queria falar com o Jovino e fomos com ele. Estava com alguns
amigos meus, e nada fizemos de mal.
 Homero levantou-se, enquanto dizia:
 - O que vocs querem fazer? A polcia j investigou tudo minuciosamente. Voc
e sua me esto criando uma fantasia. Esse detetive, por certo, as est
explorando. Um caso resolvido! Vocs so sentimentais.
 Magali sacudiu a cabea negativamente, dizendo com firmeza:
 - Engana-se, papai. Ele no est cobrando nada por isso.
 - Isso  ainda pior. Que interesse teria? Ningum faz nada de graa a no
ser...
 - O qu?
 - Que esteja interessado em voc!
 - Engana-se novamente. O Vanderlei est fazendo isso por causa de um amigo
dele. Nos conhecemos agora. H duas semanas apenas.
 - Sua histria no est clara.
 - Se se dispusesse a ouvir-me, compreenderia.
 - Nada justificaria a ida de uma moa como voc, num lugar daqueles.
 - Pai. Se em vez de Jovino fosse o Rui quem estivesse l, preso - inocente,
voc no iria socorr-lo?
 - No  a mesma coisa. O Rui no cometeria um crime desses.
 - O Jovino tambm no.
 - Por que afirma isso? Baseada em qu? No v dizer-me que a alma do Alberto
apareceu e disse!
 Magali olhou-o firme nos olhos e respondeu com suavidade:
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- Pai, por que voc  to incrdulo? Um mdico, dedicado e bondoso como voc, como ainda no
conseguiu enxergar a verdade? Voc tem assistido pessoas que morrem, observado esses processos,
forosamente ter passado por experincias reveladoras, da fora do impondervel que atua permitindo a
morte ou restabelecendo a vida. Quando percebe que a sua medicina  impotente para salvar o doente,
nunca pensou no poder superior ao seu que restabelece o equilbrio e transforma todas as coisas? Nunca
pensou que, um dia, ns tambm cruzaremos o vale da morte e o que nos acontecer depois? Nunca se
perguntou de onde trazemos idias inatas, aptides especiais; por que em certos momentos sentimos como
se estivssemos repetindo cenas j vividas? Ter se perguntado o porqu da desigualdade fsica, social e
emocional das pessoas?
Homero olhava-a admirado. Os olhos de Magali brilhavam iluminados e havia certeza em suas palavras.
- O que tem isso a ver com o nosso assunto?
- Tudo, pai. Hoje, no mais devemos aceitar os mistrios da vida. Precisamos encontrar a chave que
solucionar nossos problemas. Deixar de passar pela Terra como mortos vivos, sem ver nada, saber nada,
indiferentes.  preciso questionar, pensar, investigar. Procurar a verdade, onde ela estiver, encontrar
explicaes satisfatrias para as nossas dvidas. Se acreditamos em Deus, ele que criou tudo, cuida do
universo, s pode ser perfeito e capaz. Assim sendo, tudo que ele fez s pode estar certo. O que nos
parece errado no mundo, vem da nossa viso parcial e obtusa. A vida  rica e tem todas as respostas.
Precisamos encontr-las.
- Por que est dizendo tudo isso? De onde tirou essas idias?
- Porque  muito triste ver algum sedento, rodeado de gua lmpida e pura, no conseguir saciar sua
sede.
Homero admirou-se. Magali nunca lhe falara assim. Suas palavras pareciam responder s indagaes que
fizera naquele dia. Emocionou-se:
- Estou ficando velho - pensou.
Sentou-se novamente, colocando a cabea entre as mos. Magali guardou silncio. Depois de alguns
instantes, ele levantou a cabea e fitou-a:
- Por que acha que  isso? Julga-me incapaz de perceber as coisas?
- No, papai. Mas d para sentir que voc est prestes a explodir.
168


Que no agenta mais a presso de seus prprios conceitos. A morte de Alberto tocou fundo nossa alma.
Todos mudamos a partir desse dia. Fica difcil para voc pensar que no existe nada para quem morre.
Que tudo acabou para sempre. No agenta mais ver o sofrimento humano, sem que nenhuma esperana
possa balsamizar suas indagaes. Trabalha demais para no ficar em casa, onde a presena de Alberto
ainda permanece no vazio triste e sem remdio. Mas, no trabalho, ainda a morte, a dor, o sofrimento das
pessoas, tudo parece convid-lo a pensar, perguntar e tentar descobrir o que h alm de tudo isso. Voc
est exausto e no limite de sua resistncia. Agora, ou d um passo a frente, ousadamente, tentando
penetrar o desconhecido, ou se petrifica na negao e na incredulidade e a no haver mais esperana
para voc.
Magali estava transfigurada. Seus olhos brilhantes e abertos fixavam-no penetrantes, e sua voz tinha
modulaes que ele nunca ouvira.
Homero lutava para conter as lgrimas, envergonhado de fraquejar diante da filha, mas no conseguindo,
elas desciam-lhe pelas faces qual catadupas longamente represadas que ele no conseguia mais conter.
Baixou a cabea numa tentativa de esconder a emoo.
Magali aproximou-se e colocou a mo sobre seu ombro com carinho. Com voz carinhosa, continuou:
- Voc pode chorar a morte do Alberto, a sua decepo pelo que aconteceu, mas no negue seu direito a
ser feliz e ter esperana. As coisas no so to tristes como imagina. Um dia, perceber isso. Acalme-se.
Deus nos vai ajudar e voc no est sozinho. Todos o amamos muito, mame, eu, o Rui. Vamos nos
ajudar e reconstruir nossa paz.
As palavras de Magali eram como calmantes para Homero. Ele suspirou fundo. Depois de alguns
minutos, sentiu-se melhor.
- Vamos orar juntos, papai. Vamos pedir a Deus que nos mostre tudo quanto precisamos enxergar,
aprender. O Alberto est vivo no outro mundo, onde vo todos os que morrem e para onde iremos um dia.
Ele mesmo o ajudar a compreender a verdade.
Homero no saberia explicar o que lhe estava acontecendo. Mas sentia imensa saudade do filho. Como
gostaria que isso fosse verdade! Estava cansado. Tantos sofrimentos, tanta dor, para qu? De que lhe
adiantava curar um doente para que ele vivesse alguns anos mais e morresse depois inapelavelmente?
Era uma luta desigual e injusta, na qual ele sempre perderia. Sentia vontade de abandonar tudo e sumir.
169
Magali passou o brao pelos seus ombros e orou com comovente sinceridade. Pediu a Deus que lhes
permitisse enxergar a verdade, agradeceu todas as bnos que possuam.
Homero, cabea baixa, aos poucos foi se acalmando. Comovia-se diante das palavras singelas de Magali e
do seu interesse em confort-lo. Sentia que ela o amava, e isso fazia bem ao seu corao sofrido. Quando
ela se calou, ele permaneceu pensativo durante algum tempo. Sentia vergonha de haver sido apanhado em
um momento de crise. Logo ele, um mdico, e diante da filha.
- Pai, posso compreender como se sente, - disse Magali com suavidade. - Respeito seus sentimentos.
No se constranja por causa deles. Um homem tambm pode sentir, amar, sofrer.  natural.
Ele admirou-se de novo. Ela parecia ler seus pensamentos. Fez o possvel para imprimir um ar de
tranqilidade em seu semblante e disse com gravidade:
- Voc disse bem. Desde a morte de Alberto, no somos os mesmos. Mas, nada que possamos fazer nos
vai devolver sua vida.  preciso aceitar o que aconteceu.
- Sim. Mas  preciso compreender. Aceitar no  conservar o ressentimento, a amargura e a mgoa no
corao.  muito mais,  lutar para encontrar novamente na vida razes que nos permitam refazer nossas
horas e aproveitar bem nosso tempo. Reencontrar a felicidade.
- Voc  jovem. Tem um futuro pela frente. Pode ter esperanas.
- Voc tambm. A felicidade no depende da idade. Podemos conquist-la em qualquer tempo e lugar.
Basta querer.
Homero olhou-a como se ela estivesse narrando um conto de fadas. Naquele momento de sua vida, o que
ele menos acreditava era em felicidade. Parecia-lhe um sonho distante e impossvel. Contudo, a f
ingnua de Magali fazia-lhe bem. No desejava destruir-lhe os sonhos.
- Gostaria de ser como voc
- disse
- poder acreditar novamente.
- Poder, papai. Voc  inteligente. No vai ficar muito tempo nessa descrena.
Homero sacudiu a cabea:
- Mas eu no sou descrente.  a segunda vez que fala nisso.
-Voc cr socialmente. Aceita a religio, e at freqenta a igreja de vez em quando. No  disso que eu
falo.
170


-No?
- No. Eu era como voc. A religio consistia em cumprir determinadas frmulas, rituais e pronto. Era
uma coisa  parte do meu dia-a-dia. No me refiro a isso. F  muito mais.  perceber a fora de Deus
atuando em tudo e em todos, fora e dentro de ns, que responde indagaes, ajuda-nos a desenvolver
nossa prpria capacidade, permite-nos sentir, compreender, crescer.
- Onde aprendeu essa filosofia? No sabia que gostava desses assuntos.
- Pai, meu interesse no  filosfico ou intelectual,  o de aprender a viver melhor. Isso  o que me tem
levado a questionar os padres estabelecidos pelos homens, pela sociedade e at pelas religies.
- Voc? Uma moa interessada em assuntos to ridos?
- Como pode dizer isso? Em>nossas universidades, aprendemos muitas coisas as quais jamais
utilizaremos na vida prtica. No seria mais til olhar para dentro de ns mesmos e procurar descobrir o
porqu da vida, o que ela significa, para que vivemos no mundo, e a clebre pergunta, para onde vamos?
- Voc tem idias originais. Quem poderia responder tudo isso?
- H muita gente pesquisando esses assuntos, inclusive em medicina. E, nesses livros, podemos encontrar
explicaes e provas que desenvolvem nossa f. So pessoas que estudam fenmenos naturais e que
podem nos mostrar outros aspectos da vida que respondem muitas das nossas indagaes.
- Fala dos cientistas?
- Sim. Observadores da natureza, sem preconceito, sem julgamento, estudando fatos, aventando hipteses
bastante esclarecedoras.
- A que se refere?
- Aos estudantes do comportamento humano, dos fenmenos espritas que tm ocorrido desde tempos
remotos e continuam acontecendo at hoje.
- No pode acreditar nessas fantasias! Com certeza anda lendo livros imprprios.
- Afirmo que no. Ouviu falar em Sir William Crooks?
- O grande cientista ingls?
- Sim. H um livro de pesquisas que eu li em que ele relata suas experincias com uma mdium. Ele
obteve provas indiscutveis da
171


sobrevivncia do esprito aps a morte. Chegou a fotografar um esprito materializado.
Homero surpreendeu-se. Para ele, Espiritismo era coisa de pessoas crdulas e ignorantes.
- No pode ser - disse. - Um cientista jamais se prestaria a uma coisa dessas. Preciso ver que livros voc
anda lendo.
- Vou busc-lo para voc.
Ela saiu, foi ao quarto e apanhou o livro "Fatos Espritas" e sem fazer caso do Rui que na sala a olhara
com curiosidade, e do ar preocupado de sua me, entrou de novo no gabinete do pai, fechou a porta e
entregou-lhe o livro.
Homero revirou-o entre as mos admirado. Folheou-o, examinando as fotos, os dizeres. No sabia o que
pensar.
- Gostaria que o lesse, depois trocaremos opinies.
- Estou vendo, mas no posso acreditar! Um cientista to famoso! Por que teria se metido nisso?
- Porque  um dos problemas mais angustiantes da humanidade. A morte tem sido uma realidade nossa
ainda pouco investigada. Depois pai, no  to impossvel assim compreender que a vida continua depois
da morte do nosso corpo fsico. Para algum lugar tero que ir as pessoas depois que morrem. Este
universo imenso, to pouco conhecido, certamente guardar outros mundos, outras possibilidades de vida,
fora deste pequeno planeta. Depois, uma prova dessas, mostra que nossos entes queridos que j morreram,
continuam vivendo em outro lugar, e um dia a eles nos reuniremos, quando chegar a nossa vez. A morte
significa apenas uma viagem, uma separao temporria, provocada apenas pela pobreza dos nossos cinco
sentidos que nos impedem de perceber-lhes a presena.
Homero respirou fundo:
- Que bom se fosse verdade!
- Eu creio sinceramente. Leia esse livro. Reflita, observe na vida prtica, procure comprovar se isso 
verdade. Tenho certeza de que a prpria vida lhe dar as provas que necessita para enxergar. Se quiser,
posso emprestar-lhe outros livros.
- De cientistas?
- De pesquisadores. Verificar surpreendido que h nomes consagrados e famosos entre eles.
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- Voc conseguiu distrair-me, mas no posso permitir que v ao presdio. Uma moa no pode freqentar
um lugar desses.
- Um dia compreender que Jovino no cometeu crime algum. Enquanto ele est l, preso injustamente, o
verdadeiro assassino anda em liberdade. Isso pode at ser um perigo para outras pessoas.
- Por que diz isso? O que sabe? Que detetive  esse que foi com voc?
- Tive provas de que ele  inocente. Contudo, elas ainda so insuficientes para libert-lo. Vanderlei quer
ajudar a descobrir a verdade.
- Seja como for, no quero v-la envolvida nisso.
- Pai, Jovino viveu aqui em casa. Foi sempre um menino bom, obediente, amoroso e dedicado. Mostrava-
se mais ponderado do que o Rui e at do que o Alberto. Ningum muda to de repente. Depois, ele no
tinha motivos.
- O corao humano  ihsondvel. A polcia descobriu tudo.
- Ele jamais confessou. Tem sofrido muito com a idia de que aceitamos sua culpa.
Homero baixou a cabea. Cada vez que recordava o assassinato do filho, sentia vontade de destruir o seu
assassino.
- Quando lembro do crime, fico indignado. No consigo pensar como voc.
- E se ele for inocente realmente? Alguma vez j lhe ocorreu essa possibilidade?
- Nunca.
- Pense nisso. Muitos erros judicirios j foram cometidos no mundo. Jovino pode ser um caso desse.
-  uma possibilidade remota.
- Que se for verdadeira, nos colocaria na posio de criminosos, coniventes com essa injustia.
- Fala com muita certeza. Afinal, que provas so essas que possui?
- Posso falar sinceramente? No colocar sua autoridade de pai, ante sua vontade de descobrir a verdade?
- O que voc fez? Por certo coisas que eu no aprovaria.
- Nada fiz de errado, papai. Mas se pretende ser severo comigo, nada direi. Talvez seja melhor. No sei se
j est maduro para compreender.
Homero estava curioso. Sua filha parecia-lhe mudada, falava com segurana. No lembrava a menina
chorosa e irreverente de tempos atrs.
173


Agora, impunha respeito pela maneira digna de colocar suas idias. Depois de haver se mostrado to
deprimido, no estava disposto a impor severidade. Seu papel de pai severo estava comeando a cans-lo.
Magali sentara-se do outro lado da escrivaninha e olhava-o com seriedade.
- Pode falar Magali. No vou criticar. Farei o possvel para entender. Magali comeou a contar tudo
quanto sabia. Desde o dia em que Mariazinha estivera em sua casa pela primeira vez. A medida em que
falava, Homero interessava-se pelo assunto, e reflexes nas quais ele nunca se detivera, acudiam-lhe 
mente, como que inspiradas por algum interessado em mostrar-lhe os fatos.
Na verdade, Alberto estava l. Desde o momento em que Magali, fechada no lavabo, pedira ajuda, ele
aproximara-se acompanhado de uma assistente a que fora permitido cooperar.
Alberto, desde a tarde em que Magali havia comparecido ao Centro Esprita pela primeira vez,
compreendera sua verdadeira situao e concordara em abrigar-se em um local de recuperao e socorro.
Pelo seu excelente comportamento e dedicao, estava em condies de continuar visitando a famlia, no
seu desejo legtimo de aliviar-lhes os sofrimentos, mostrando-lhes a verdade. Abraara o pai, procurando
faz-lo esquecer os preconceitos e aceitar melhor o que Magali dizia.
Ela no omitiu nada. Homero, admirado, procurava atentamente no perder nenhum detalhe. Quando ela
acabou, ele estava alarmado:
- Voc acha que esse moo, o Rino, poderia haver sido o verdadeiro assassino do Alberto?
- No sei, papai. Ele estava com medo, ameaou Mariazinha para encobrir a briga. O que posso afirmar 
que se trata de um elemento perigoso. A surra que deu no Jlio, deixou-o de cama alguns dias.
Homero passou a mo pelos cabelos, pensativo.
- Estou perplexo - disse. - Se as coisas se passaram como me contou, realmente,  preciso investigar.
Tem certeza de que no esqueceu nada?
- Tenho, papai. Sinto-me aliviada. Sua compreenso nos ser de grande valia.
- Sua me j sabe de tudo isso?
- Sabe. Quando ela resolveu ir ao Centro Esprita, j sabia.
- Hum! Agora entendo certas coisas que ela dizia. Sua me melhorou, devo reconhecer, tem estado mais
calma.
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- Conforta o corao saber que o Alberto vive e que o Jovino  inocente.
- Quanto a isso, ainda veremos. Vou ler esse livro hoje mesmo. Estou muito interessado em verificar esse
assunto. Mas prometa que no ir mais ao presdio.
- Pai, por favor! Deixe-me confortar jovino. No me impea de v-lo. No irei sozinha, meus amigos so
pessoas de carter e qualidades de corao. Voc pode ir comigo. Eu posso trazer esses amigos aqui, para
que os conhea. So pessoas de bem. Tm me ajudado muito. Sou-lhes muito grata.
- Est bem, Magali, vou pensar no assunto, mas gostaria que no fosse l sem eu saber.
- Est bem, papai. No h mais motivo para ir escondido. Agora, vamos comer. H horas que estamos
aqui. Deve estar com fome.
Homero sorriu. Seu mau humor havia passado. Abraado  filha, saiu do gabinete e dirigiram-se  sala de
estar.
Rui olhou-os ironicamente, ia falar alguma coisa, mas Homero no lhe deu tempo:
- Aurora, estamos com fome. Podemos jantar?
Olhando a fisionomia distendida do marido e o brilho dos olhos de Magali, sentiu-se alegre e calma.
- Claro. Est tudo pronto. Vou mandar servir. Voc vai sair?
- No. Esta noite eu pretendo ficar em casa. Se ningum me chamar,  claro.
O Rui olhava sem entender. Todos pareciam muito bem e ele sentiu-se insatisfeito e enraivecido. O
Alberto sempre fora o preferido dos pais, agora que ele se fora, eles apegavam-se a Magali. Ele, como
sempre, ficava em ltimo lugar. Teve vontade de criticar o pai por no haver dado a Magali o castigo que
merecia.
- Vejo que foi mole com ela - disse ferino. - Nesta casa agora, ela faz e desfaz.  a queridinha.
- No  verdade, meu filho - respondeu Homero, calmo. - Estou cansado e desejo paz. Espero que
compreenda isso e respeite.
- Mas ela est proibida de ir ao presdio, no ?
- Como eu j disse,  melhor no se envolver nisso. Eu posso cuidar desse assunto.
Vendo a me e Magali que voltavam da cozinha, levantou-se e disse irritado:
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- Se  assim, faam bom proveito. No quero jantar.
Saiu rpido batendo a porta. Alberto que o abraara tentando inspirar-lhe bons pensamentos, quis segui-
lo, mas sua companheira no permitiu:
- Deixe-o - disse. - No poder fazer nada por agora. Somos mais teis aqui, para manter a calma do
ambiente.
Olhando as duas que se preocupavam com a atitude do Rui, Homero disse com voz firme:
- Ele se acalmar. No posso permitir que ele interfira em minhas decises. Vamos jantar. Quero agora
ouvir a verso de Aurora. Vai contar-me suas impresses.
Jantaram tranqilos e acomodaram-se confortavelmente na sala de estar, onde Homero quis ouvir Aurora,
e eles conversaram durante muito tempo.
Alberto retirou-se satisfeito. Pela primeira vez depois que ele partira, a serenidade, a harmonia, a
compreenso, voltaram quele lar.
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Captulo 14
j passava muito da meia-noite, e o presdio estava s escuras. O Jovino, deitado em sua cama na cela,
no conseguia conciliar o sono. Pensava em sua vida, tentando encontrar as causas que justificassem o
que lhe acontecera.
No sentia revolta. Essa fase havia passado. Agora, pensava de forma diferente. Desde o dia em que
Magali o visitara, tudo se transformara. Os livros que lera e continuava lendo, fizeram-no olhar os fatos
atravs de uma tica mais ampla, espiritual.
Era incrvel como os problemas, observados diante do conceito de eternidade, da reencarnao, da
continuidade da vida aps a morte, modificavam-se.
O que ele teria feito em outras vidas para estar ali agora? Por que nascera rfo de pai e perdera a me to
cedo? Por que fora criado de favor em uma famlia estranha? Que ligaes teria tido com eles em vidas
passadas?
Era inegvel que os estimava. Durante sua permanncia com eles, muitas vezes desejara haver nascido
ali, como verdadeiro filho.
Aprendera a enxergar Deus como sendo perfeito e bom. Assim sendo, tudo quanto acontece tem uma
causa justa e reflete essa bondade.
Era preciso partir desse pensamento claro e objetivo para tentar entender os fatos, da forma como
aconteceram. Ah! Se ele pudesse saber por qu! Se pudesse voltar a viver em casa do dr. Homero, ser
respeitado por eles, estar ali! Como fora bom o tempo em que estivera l! Como gostaria de deitar no seu
pequeno quarto, olhando aquelas paredes amigas e acertando o despertador para o trabalho do dia
seguinte.
Lgrimas de saudade vieram-lhe aos olhos e ele limpou-as com as costas da mo. A ferida ainda estava
aberta. Sentia-se muito s. Voltaria algum dia ao antigo quarto? Ele era inocente daquele crime, o que
teria feito em vidas passadas?
Remexeu-se no leito ansioso. E se descobrissem o verdadeiro assassino? Ele ganharia de novo a
liberdade. Para onde iria? D. Aurora o receberia de volta? E o Rui, o dr. Homero, aceitariam?
177


Jovino sentiu profunda emoo. Apesar da angstia que sentia, pensou com firmeza:
- Deus  bom e justo. Da mesma forma que ningum fica sem responder pelo que fez, ele conduz todas as
coisas de forma mais certa. Se algum dia, em outra vida, cometi algum crime, agora, no me lembro dele.
S sei que no matei o Alberto e Deus por certo mostrar isso. A verdade aparecer e eu confio. Entrego
em suas mos o meu problema. Aceito o que a vida decidir. Se eu tiver que cumprir minha pena at o fim,
 porque  melhor assim. Deus me dar a resposta. Se eu puder sair, tudo acontecer para isso.
Jovino sentou-se no leito e sentiu vibrar dentro do seu corao sincera emoo.
- Deus, - pediu - mostra-me o caminho da minha libertao, mesmo que ele seja o destas grades que me
oprimem, eu aceito, porque reconheo haver aprendido muito nesta situao. No entanto, aguardo
confiante meu momento, quando todas as coisas sero esclarecidas. Diante da sua justia, eu sei que ser
assim. Obrigado meu Deus, por restabelecer a verdade. Ensina-me a enxerg-la e a esperar.
Mais calmo, Jovino sentiu que sua angstia desaparecera e deitando-se novamente, logo adormeceu.
Alberto comovera-se. Ficara ao lado de Jovino, observara-lhe os pensamentos corajosos. Com carinho
alisou-lhe a cabea adormecida.
- Pobre amigo - disse. - Tem sofrido muito. Mercedes aproximou-se.
- No se deixe envolver pela emoo. Reconhea como ele tem amadurecido. Isso  muito bom.
Ela acompanhava Alberto em suas visitas e fora designada para prestar auxlio em seu caso.
-  verdade. Como eu gostaria de intervir, revelar a verdade, libert-lo!
- Calma. Tudo acontecer na hora certa, quando Deus determinar. Jovino confia, ns tambm. A ajuda,
para ser efetiva, no pode pensar apenas em uma parte. Dever resolver todos os ngulos da questo,
desenvolvendo, beneficiando a todos.
- Isso j me foi explicado. Agora, o Jovino dorme, mas seu esprito no se afastou desta cela. Ele no est
nos vendo, eu gostaria de um encontro direto entre ns, como tive com Magali ou com mame.
Mercedes abanou a cabea.
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- Hoje no ser possvel. Quem sabe outro dia. Precisamos voltar. Est na hora.
Uma onda de tristeza passou pelo rosto de Alberto.
- Sinto deix-lo aqui, desta forma.
-  preciso - tornou ela com energia - Sua tristeza poder envolv-lo e piorar as coisas, voc j sabe disto.
Jovino est num processo de amadurecimento interior, qualquer interferncia agora s o prejudicaria. O
que ele precisa receber de ns so energias positivas e harmoniosas.
Alberto baixou os olhos envergonhado.
- Tem razo Mercedes. Desculpe-me. Prometo controlar as emoes. O Jovino precisa de amor e eu
quero-lhe muito bem.
Mercedes sorriu satisfeita.
-  melhor assim. Vamos embora.
- Sinto-me angustiado quando venho a este lugar.
-  natural. A densidade de pensamentos negativos aqui  sufocante.  prudente isolar-se deles tanto
quanto possvel.
Uma vez na rua, respiraram profundamente procurando receber novas energias.
- Vamos passar para ver a Odete. Prometi levar-lhe notcias. Alberto concordou e dentro de meia hora
alcanaram um Posto de Socorro perto da Terra. Mercedes identificou-se ,e os pesados portes abriram-se
para dar-lhes passagem.
Entraram em um ptio, rodeado de pavimentos, cercado por extensos jardins. Mercedes procurou um dos
alojamentos e entrou seguida pelo Alberto. Sem hesitao, seguiram pelo corredor at o quarto de Odete.
Mercedes bateu delicadamente. Foi Odete quem abriu a porta, vendo-os, disse com emoo:
- Ainda bem que vieram. Sinto-me preocupada, ansiosa. Entrem. O quarto era simples, mas confortvel.
- Sentem-se, por favor - continuou Odete designando o sof e as poltronas a um lado do aposento.
Vendo-os acomodados, sentou-se por sua vez, indagando:
- E ento? Como est ele?
- Muito bem - respondeu Mercedes. - Sem revolta e procurando melhorar seus padres mentais.
- No me conformo com o que lhe fizeram - disse ela com certa amargura. - Foi uma grande injustia.
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- Acalme-se, - respondeu Mercedes - o Jovino est progredindo muito, amadurecendo. Temos esperanas,
se ele continuar reagindo, de poder libert-lo.
- Um menino bom como aquele, puro, eu diria at ingnuo, ser acusado por um crime que no cometeu!
Voc sabe que no foi ele! Tem obrigao moral de ajud-lo.
- Tenho feito tudo para isso - tornou Alberto com ar preocupado. - Infelizmente no sei como fazer isso.
Meus orientadores aconselharam-me a ser paciente e a confiar em Deus que quando for oportuno, agir de
forma adequada.
Odete levantou-se inquieta:
- A mim dizem a mesma coisa. Mas at quando teremos que esperar? At quando deixar o meu menino
no meio daqueles assassinos e ladres, sofrendo maus-tratos e privaes, humilhaes e angstia? Ele no
 um deles. No cometeu nenhum crime.
- No julgue ningum - retrucou Mercedes com firmeza. - Lembre-se que os outros que esto naquele
presdio, tm famlia que os ama e sofrem duplamente por v-los reclusos ali e por saberem que so
culpados. Voc no carrega esse peso. Jovino no cometeu nenhum crime. Nada tem a lamentar quanto a
isso. Est l, cumprindo uma experincia necessria ao seu aperfeioamento. Devia sentir-se feliz porque
ele tem aprendido a enxergar as coisas do esprito. Colocado na prova dura, est sabendo lev-la a bom
termo, sem revolta ou ressentimentos.
Odete baixou a cabea pensativa. Depois disse:
- Quisera compreender. Foi duro deixar o mundo em plena mocidade, abandonar meu filho na casa de
estranhos. Lutei muito para conformar-me. Ele era bem tratado, vivia bem e eu acabei por aceitar. Mas,
quando o acusaram, fiquei revoltada. Esperava que Aurora, o dr. Homero o defendessem. Mas no. Eles
no s o abandonaram como passaram a odi-lo.
Odete chorava desconsolada.
-  justo isso? - perguntou com amargura.
Mercedes levantou-se e parou diante dela, olhando-a com firmeza:
- Odete, se continuar a lamentar-se, iremos embora. Pensei em alegr-la com as boas notcias que
trouxemos, mas se prefere fixar-se no negativismo e na queixa, no voltaremos mais.
- No, por favor, no me deixem! - gemeu ela assustada.
- Todos ns sabemos como Deus  justo e bondoso. Que nada
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acontece sem motivo. Que ningum  vtima e sofre sem necessidade. Se tudo tem acontecido dessa
forma  porque no momento era o melhor para todos. Voc fala como se ainda vivesse na Terra, na faixa
estreita da carne. Onde est sua f? Onde est sua compreenso?
Odete no encontrou palavras para responder, e Mercedes indagou:
- Voc ama seu filho, quer ajud-lo, no  mesmo?
-  o que mais quero na vida.
-Nesse caso, expulse da mente esses pensamentos negativos. No alimente a mgoa, a depresso, a
revolta. Quer passar para ele esses sentimentos?
-No.
- Ele precisa receber afeto, pensamentos harmoniosos de paz e de alegria, de esperana e de f. Isso  que
pode enviar-lhe.
- No me permitem v-lo.
- Seu descontrole o prejudicaria com certeza. O Alberto passou por uma prova difcil, porm, j tem
permisso para algumas visitas, desde que contenha suas emoes.
- Estou tentando, Odete, e tenho conseguido. Tenho visto minha me, meu pai, a famlia. Hoje estive com
Jovino, abracei-o e procurei transmitir-lhe foras. No  fcil porque, as emoes brotam espontneas
dentro de ns. Mas a vontade de no perturbar, de ajudar, nos permite um domnio maior. Tente mudar
seus pensamentos e por certo conseguir permisso para v-lo.
- Ah! Como seria bom!
-Tente, Odete. Comece agora. Sinta a alegria da libertao dele. Pense no restabelecimento da verdade,
agradea a Deus por isso tudo, todos os dias e um dia, isso acontecer realmente.
- Tentarei - tornou ela, humilde. - Se ao menos eu soubesse por que tudo nos aconteceu! Sei que h um
bom motivo, voc disse e  verdade, mas no consigo ainda lembrar-me de minhas vidas passadas.  l
com certeza que se encontra a chave para nossos problemas.
Mercedes passou a mo acariciando os cabelos de Odete.
- Tem razo. Os motivos existem, mas se ainda no consegue record-los, torna-se necessrio esperar.
- Voc poderia ajudar-me. Sei que existem recursos para nos ativar a memria. Se eu pudesse lembrar!
- Acha que seria bom?
- Sim. Compreender ajuda a suportar.
181


- Verei o que posso fazer. Consultarei meus superiores. Agora precisamos ir. Se quer melhorar sua vida e
conseguir ajudar seu filho, no permita que nenhum pensamento negativo a domine. Cada vez que ele
vier, no lhe d ateno. Procura pensar s no bem, na alegria, na harmonia. Ver que as coisas mudaro
a sua volta, para melhor. Comece agora. Sorria com coragem e confiana.
Odete esforou-se por atender. Se era bom para Jovino, ela o faria.
- Est melhor assim. Confie em Deus. Voltarei assim que puder trazer novas notcias.
- Obrigada. Deus os abenoe. Sinto-me melhor. Alberto abraou-a carinhosamente.
- Isso, Odete. Haveremos de vencer. Deus nos ajudar.
- Obrigada, meu filho.
Saram e puseram-se a caminho do local onde viviam. Alberto seguia calado, imerso nos prprios
pensamentos. Chegaram ao prdio onde Alberto residia e  porta, antes da despedida, ele considerou:
- Eu tambm no me recordo das encarnaes anteriores. Por qu?
- A energia do mundo terreno  muito forte. Seu magnetismo, em alguns casos, demora para sair, retendo
o esprito sob o esquecimento, principalmente quando ele no desejava deixar o corpo e possui interesses
na Terra.
- No meu caso, seria isso?
- Voc deixou o corpo a contragosto, em pleno vigor fsico. Esperava desfrutar da experincia terrena e
no conseguiu. Sente-se responsvel pelo sofrimento dos seus, deseja restabelecer a verdade. Est
preocupado com os que ficaram. Isso o prende ao magnetismo terreno e retarda sua reintegrao no
passado.
- Contudo, muitas vezes tenho me perguntado o porqu de tudo isso. Se eu soubesse, talvez
compreendesse melhor os fatos. O que a Odete disse  verdade? H alguma forma de apressar essa
conscientizao?
- H e, em alguns casos, essa ajuda  at recomendada.
- Como  feito isso? Hipnose?
-No. Projeo astral. Rememorao atravs dos registros aksicos. Ouviu falar deles?
Alberto sacudiu a cabea negativamente: -No.
- Tudo quanto acontece no universo fica gravado no ter. Nossos
182


especialistas conseguem transferir esses registros para um visor, e voc pode assistir como no cinema, ao
que desejar.
-  extraordinrio! No pensei que existisse essa possibilidade.
- Contudo, esse processo s  utilizado com permisso dos nossos orientadores e apenas daquilo que ser
til ao nosso aproveitamento. A curiosidade sem utilidade no  permitida.
- Quer dizer que eu poderia rever minhas vidas passadas?
- No s as anteriores como a ltima.
- Pode arranjar isso para mim?
- No sei. Deve convir que nem sempre estamos preparados para a verdade.
- Seja o que for,  melhor saber.
- Se isso fosse verdade, ningum esqueceria o passado ao reencarnar. O esquecimento  uma pausa, um
alvio, uma bno.
- Pode ser. Mas eu desejo muito recordar o passado. Pode ajudar-me?
- Falarei com meu superior, verei o que ser possvel fazer. Alberto estendeu-lhe a mo com entusiasmo.
- Obrigado, Mercedes. Voc tem me ajudado muito. Ela sorriu alegre.
- Pode contar comigo. Farei o que puder.
Despediu-se com um sorriso, e Alberto entrou no prdio. Olhando o quarto simples porm aconchegante e
agradvel, pensou:
- Se os meus pudessem ver-me agora, que bom seria! Por outro lado, lembrar das outras vidas, poder
conhecer o passado, compreender as causas dos problemas dolorosos, conseguir a chave daquele quebra-
cabea que tantas vezes o atormentava, excitando sua imaginao, como seria bom!
Pela primeira vez desde que deixara a Terra, comeou a perceber o quanto estivera distanciado da
realidade, procurando inutilmente reatar o fio de sua vida fsica, quando havia tanto para conhecer e
objetivos maiores e mais belos a atingir.
- A vida - pensou ele - no se restringia  superfcie do pequeno mundo onde estivera durante sua curta
existncia. Guardava segredos e possibilidades inesperadas.
Ele, que estivera sempre com o pensamento ligado a Terra, naquele instante comeou a sentir vontade de
conhecer o novo mundo para o qual fora arremessado e onde passara a viver. Que maravilhas guardaria?
183


Que conhecimentos poderia usufruir? Existiriam outras cidades, outros mundos que ele pudesse visitar?
Teria em alguma parte amigos de outras vidas?
De repente uma onda de alegria o envolveu. Alguma coisa muito familiar que no saberia explicar. Era
como se estivesse voltando para casa depois de longa ausncia.
Embora fosse apenas uma sensao, sentiu-se reconfortado e em paz. Teve vontade de orar. Pensou em
Deus com emoo e ajoelhan-do-se ao lado da cama, conversou com ele, sobre o que lhe ia na alma,
expressando sua gratido. Depois, estendeu-se no leito e adormeceu.
Quando acordou j era dia claro. Levantou-se apressado e parou em frente a um espelho. Admirado,
notou que estava um pouco diferente. Seus cabelos haviam escurecido, seu rosto, modificado um pouco.
Sentia-se diferente tambm. Mais amadurecido, mais experiente. O que teria ocasionado essa
transformao?
Abriu a janela e seus olhos percorreram o pedao do imenso jardim que circundava o edifcio. Tudo era-
lhe extremamente familiar. Havia estado ali antes, podia lembrar-se.
Passou a mo pela testa pensativo. Sim, ele comeava a lembrar-se. Sentou-se em confortvel poltrona ao
lado da janela e fechou os -olhos. Seu pensamento voltava no tempo.
A casa solarenga e bela onde vivera com os pais e seus dois irmos mais velhos. Via-se jovem, belo,
cavalgando pelos bosques, sentindo-se o dono do mundo. O pai, poltico influente, coronel, como era
chamado, comandava a cidade com mos de ferro, colocando e tirando homens nos cargos pblicos a seu
bel prazer.
A me ocupava-se com saraus e coisas da moda, sempre s voltas com revistas europias e obras de arte.
Os dois irmos, um, o mais velho, Antnio, era calado e estudioso. Vivia s voltas com os livros, poesias,
literatura. Joo, o do meio, no. Era seu amigo e companheiro preferido. Apesar de ser mais jovem do que
os irmos, Joo o seguia por toda parte. Divertia-se com suas diabruras de rapaz rico, vibrava com suas
conquistas, defendia-se sempre.
Perdido em suas lembranas, Alberto continuava recordando. Tempo bom aquele. A vida lhe sorria e era
feliz.
Um dia, Antnio apaixonou-se. Fez versos, serenatas. Andava mais circunspecto do que o costume.
Alberto recordou-se o quanto o ridicularizara. Antero, era esse o seu nome naquele tempo, tudo fez para
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conhecer a musa do irmo o que finalmente aconteceu quando ele ficou noivo.
Maria era moa simples, de famlia pobre, sem cultura nem tradio. Muito bonita, graciosa e delicada,
possua bom gosto e finura inatos.
A princpio, seus pais no queriam o casamento com uma moa pobre e sem projeo, mas Antnio foi
to dramtico e decidido que por fim eles aceitaram. O Coronel Teotnio considerou afinal que a moa
era bonita, distinta e de famlia honesta.
Casaram-se com todas as pompas e costumes da poca e foram residir junto com os pais dele, na casa da
famlia. Contudo, Antnio, apaixonado, perdia-se de cimes pela jovem esposa, seguindo-a por toda
parte, no lhe oferecendo nenhum momento de liberdade.
Joo, por sua vez, apaixonou-se pela filha de um poltico e casou-se, indo morar na casa paterna, como
era costume na poca.
Se Maria era discreta e fina, Amlia era extrovertida, gostava de chamar a ateno sobre si, de ir a festas e
manter intensa vida social. Joo no era ciumento. Sentia-se orgulhoso ao ver a esposa brilhando e sendo
requestada.
Entretanto, ao chegar em casa uma noite, Antero viu um vulto no jardim. P ante p, seguiu-o e viu
quando uma janela abriu-se, uma figura de mulher apareceu. Abraaram-se, beijaram-se e antes que ele
pudesse sair da surpresa, o homem saltou para dentro e a janela fechou-se rapidamente.
Antero ficou intrigado. Estava escuro e ele no pudera reconhecer ningum. A janela dava para um
corredor dos quartos que tanto poderia ir para a ala do Joo como do Antnio. Seria uma criada? No
teria tanta ousadia. O pior  que tanto Joo como Antnio no estavam, haviam viajado com o pai. Qual
das duas cunhadas teria um amante?
Sentiu revolta e repulsa. Teve vontade de dar alarme, vasculhar a casa, surpreender os tratantes.
Entrou decidido, e bateu na porta do quarto do Joo. Logo em seguida bateu na porta do Antnio. Maria
apareceu assustada e Antero entrou pelo quarto vasculhando tudo, sem encontrar nada. Procurou no
quarto de Amlia e tambm nada viu.
No entanto, ele jurava ter visto o homem entrar. Acordaram a me, os criados, vasculharam tudo, nada
encontraram. Antero no se deu por satisfeito. Haveria de descobrir a verdade.
Quando os irmos voltaram, contou-lhes tudo. Para Antnio, foi
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como se ele j tivesse a verdade. Tornou a vida de Maria um verdadeiro inferno. Sua imaginao doentia
o atormentava.
Antero contudo, observava as duas cunhadas e chegara a concluso que Maria jamais teria coragem de
cometer adultrio. Pela sua formao, sua maneira de pensar, o estoicismo com que suportava as
desconfianas do marido, vivendo enclausurada, ele no a acreditava capaz da traio. J Amlia, sim.
Flertava abertamente e Joo nem percebia. Era fogosa e ardente e ele pensava que talvez Joo, pouco
afeito s conquistas e aos jogos do amor, no fosse bastante para satisfaz-la.
Disfaradamente passou a vigi-la. Astuta, ela percebeu e um dia o interpelou:
- Voc tem se ocupado muito comigo - disse. Se no fosse meu cunhado, poderia at pensar que se
interessa por mim.
Antero riu divertido. Ela era esperta, e ele abriu o jogo:
- Ainda hei de provar quem estava com o homem naquela noite. Tenho a certeza que Maria nunca seria
capaz disso.
- Quer dizer que desconfia de mim?
- Que eu saiba, eram as nicas moas daquela ala, e os maridos estavam fora.
- No pensei que fosse to antiquado. Por que sou expansiva, gosto de ser admirada, concluiu que tenho
um amante? Se fosse verdade acha que eu seria to ingnua a ponto de traz-lo a esta casa? Quando uma
mulher quer trair, sempre consegue um lugar seguro.
Antero olhou-a admirado. Sabia que ela tinha razo. Ele deduzira sem nenhuma prova.
- Voc saberia como fazer isso, tenho certeza.
- No me agrada que desconfie de mim. Seu pai olha-me com desconfiana, sua me e at os criados. O
Joo pensa, mas no se atreve a dizer. Esta situao  insustentvel. Vou esclarecer tudo. Descobrirei a
verdade. Provarei que estou inocente.
Antero curvou-se, dizendo:
- Se puder, ser timo. No pretendo deixar um irmo ser enganado. Nenhuma adltera usar o nome de
nossa famlia. Com provas, agirei rigorosamente e garanto-lhe que quem prevaricou, cedo se arrepender
de t-lo feito.
Os olhos dela faiscaram rancorosos.
- Voc ver
- disse.
Alberto passou a mo pela testa pensativo. Agora, parecia-lhe
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natural recordar-se. Fechou os olhos novamente procurando o que aconteceu depois.
Na semana seguinte, colocando a mo no bolso, encontrou um envelope. Curioso, abriu-o e retirou um
bilhete que dizia:
"Se quer saber a verdade, v quinta-feira, s sete horas da noite,  tapera do engenho. No conte a
ningum e ter boa surpresa."
No estava assinado e a letra de frma no deixava perceber quem o escrevera.
Antero ficou revoltado. A pouca vergonha j estava na boca do povo. Com certeza, algum dos pees
resolvera preveni-lo. Haveria de punir os adlteros.
Chamou os dois irmos e mostrou-lhes o bilhete revelador. Antnio empalideceu, e Joo apertou os
dentes com fora. A raiva os descontrolava. Antero props:
- Calma. Vamos todos verificar. Se for verdade, surpreenderemos os culpados. Iremos armados.
Lavaremos nossa honra.
Faltavam dois dias para quinta-feira e eles dissimularam com naturalidade. As duas nada notaram.
No dia aprazado, os trs saram s cinco horas, dizendo que pretendiam ir  cidade a negcios e s
voltariam muito tarde.
Tomaram o caminho da vila e s seis horas voltaram pela picada e esconderam-se perto da tapera.
Esperaram durante certo tempo, silenciosos. Viram um vulto de homem aproximar-se, envolto em uma
capa, chapu enterrado na cabea. Vinha a p e com cuidado, olhando para os lados, entrou na cabana.
Os trs, tensos, seguravam o cabo da arma com fora. A noite estava escura, mas eles viram perfeitamente
um vulto de mulher, andando cautelosa , entrar na cabana.
- Viu quem era? - indagou Antnio, baixinho.
- No - respondeu Antero. - Vamos dar alguns minutos e surpreend-los.
Pelas frestas da tapera, puderam perceber que eles haviam acendido uma vela.
- Quando eu der o sinal, correremos para l e abriremos a porta - disse Antero. - Um, dois, trs, j.
Saram correndo, entraram na tapera. Dentro, assustados, estavam o administrador da fazenda e Maria,
um na frente do outro. Antnio sentiu-se desfalecer de raiva.
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- Bandidos, traidores - disse. - Vou acabar com vocs! Eu sabia que voc me traa!
Maria olhava-os apavorada. Antero disse com raiva:
- Ele  seu, Antnio. Acabe com esse bandido. um direito que voc tem.
- Esperem - dizia o homem apavorado. - Esto enganados... Antnio apontou a arma, sua mo tremia e
ele no conseguiu
puxar o gatilho. Antero apontou e atirou duas vezes no administrador, prostrando-o. Joo disse com
rancor:
- Ela tambm deve pagar pelo seu erro. A honra de nossa casa deve ser vingada!
Maria queria gritar, mas no conseguiu emitir nenhum som. Joo deu no gatilho e ela tombou ali mesmo
numa poa de sangue. Antnio desesperado torcia as mos e perdeu os sentidos.
Alberto levantou-se angustiado. Aquela tragdia no terminara ali. Os crimes foram abafados pelo
coronel, mas Antnio nunca se recuperou. Vivia chorando pelos cantos, deu para beber e um dia foi
encontrado morto em seu quarto. Enforcara-se.
Joo viveu muitos anos com a esposa. Antero casou-se e teve filhos, substituiu o pai na chefia da famlia
quando ele morreu. No sentia remorso pelo crime que praticara. Seu irmo era um fraco, acabou com a
vida. No lhe cabia culpa pela traio de Maria. Haviam feito o que qualquer pessoa de honra faria num
caso desses.
Quando morreu, Antero custou para compreender que deixara a Terra. Aparecia-lhe a figura do Antunes,
o administrador assassinado, querendo conversar com ele.
Crendo-se vtima de alucinaes, Antero fugia espavorido. Um dia, finalmente, foi auxiliado, conduzido a
uma colnia no mundo espiritual onde recebeu esclarecimentos. Melhorou, equilibrou-se mais, contudo a
figura do Antunes no o deixava em paz.
Preocupado, conversou com seu assistente que disse:
- Voc perguntou-lhe o que deseja? Por que o procura com tanta insistncia?
- No. Ele queria pedir-me contas. Eu atirei nele. A causa era justa. Nossa honra precisava ser vingada.
O assistente olhou-o srio e sugeriu:
- O melhor ser conversar com ele, saber o que deseja. Sem isso ele no o deixar em paz.


Antero, contudo, no quis fazer isso.
- Ele vai culpar-me - pensava. - Vai desejar punir-me. Quer vingar-se com certeza.
Interessado em melhorar, Antero atendia as orientaes que lhe eram dadas, mas recusava-se a tocar no
assunto do Antunes.
Quando Joo morreu, Antero pde esper-lo e assisti-lo nos primeiros tempos. Joo chegava triste. No
queria deixar a Terra. Amlia no estava bem. Fora atacada por estranha doena. Perdera o juzo. Falava
obcenidades diante das pessoas, levantava a roupa querendo desnudar-se, colocava as coisas em lugares
imprprios. As duas filhas envergonhavam-se dela e no sabiam o que fazer para cont-la.
Joo era paciente e cuidava dela com dedicao. Deix-la na Terra fora-lhe penoso esforo. Ele queria de
qualquer forma ficar a seu lado. A custo, Antero o convenceu de que o melhor seria confiar em Deus. Ele
cuidaria dela melhor do que eles. Enquanto isso, ele deveria tratar-se, ficar bem para poder voltar e ajud-
la. Finalmente, ele aceitou, dedicando-se ao esforo de equilibrar-se.
Depois de certo tempo, finalmente conseguiram permisso para v-la. Foram acompanhados por um
assistente espiritual e a encontraram em lastimvel estado. Sem poder cont-la, as filhas a trancaram em
um quarto que ela transformara em reduto imundo.
Estirada no leito, dementada e enferma, Amlia vivia toda a pungncia do seu drama. Sombras escuras a
cercavam, emanando energias erticas de pesado teor.
- No se deixem envolver por essas energias - disse o assistente com firmeza. - So formas pensamentos
dela. Se os pegar, ficaro enredados. Precisamos de equilbrio e paz. Nada de pieguismo. Seno, no
poderemos prosseguir.
Os dois esforaram-se para atender essa observao. Sabiam que ( udio entendia do assunto.
- Vamos mentalizar luz - continuou ele - e orar para arejar o ambiente.
Com o corao confiante, os dois obedeceram. Nesse momento viram chegar o Antunes. Ambos fizeram
um gesto de surpresa:
- Continuemos orando - pediu Cludio. - Ele no pode nos ver. Tentando vencer a emoo, continuaram
em orao. Antunes aproximara-se de Amlia e chamava-a em altos brados.
- Amlia, estou esperando. Agora eu sei de tudo! Maldita traidora!
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Amlia arregalou os olhos e seu semblante modificou-se:
- Vai embora, maldito. Vou acabar com voc de novo! Desta vez, ser para sempre!
- Eu a amava como louco. Voc me provocava. Divertia-se comigo! Acha que eu podia suportar? At
quando um homem pode agentar?
- Eu no o quero, - disse ela com raiva. - Eu o odeio!
- Naquela noite, quando abriu a janela e fui a seu quarto, voc gostou. Vibrou nos meus braos. Voc
tambm me queria.
-  mentira - disse ela com raiva. - S o aceitei porque voc me seguiu, sabia do Amrico e ameaou
contar tudo. Eu cedi s por isso.
Antero olhou assustado para Joo que teria cado ali mesmo se Cludio no o tivesse amparado. O que
estavam dizendo? Amlia e Antunes? Como? E Maria? Tambm fora amante dele?
- Eu estava louco, s via voc em toda parte. No dormia, no tinha paz. Eu a amava!
Amlia riu desdenhosa.
- Pretensioso! Como pensou que eu pudesse am-lo? No se enxerga?
- Voc me tentava. No podia suportar mais. Pensei que a paixo se acalmasse quando a possusse, mas
foi pior. Seu amor queimava como fogo. Eu no sabia que podia ser to cruel. Posso compreender que me
odiasse, mas no consigo aceitar o que fez com D. Maria. A pobre nada lhe fez. Voc foi perversa. Ela
encontrou-se comigo atendendo a um pedido seu, para pedir-me que a deixasse em paz. Era uma boa e
honesta criatura. Como pde ser to cruel?
- Cale-se. No lhe dou o direito de pedir-me contas. No mundo, quem no  esperto no sobrevive.
Aquela sonsa no via um palmo diante do nariz. Depois, eu estava em perigo. Antero desconfiava de
mim. Tinha que defender-me.
- Louca! Como pode ser to egosta? Olhe para voc, veja a que ficou reduzida. A uma prisioneira da
prpria maldade. Nem precisei vingar-me. A vida j a est punindo. Pensou ter acabado comigo, mas eu
estou aqui, vivo, para ver sua decadncia, sua runa, sua loucura, sua morte. Quero rir de voc, do seu
orgulho, da sua iluso. Olhe-se. Veja como est feia, nenhum homem a deseja mais.
Amlia levantou-se furiosa.
- Sai daqui, bandido, - gritava - vou acabar com voc. Desta vez no voltar a atormentar-me.
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Olhos arregalados, comeou a apanhar os objetos e a atirar sobre o esprito do Antunes que rindo,
deslizava pelo quarto sem que ela lograsse atingi-lo.
Amparados por Cludio, Joo e Antero, arrasados, davam livre curso s lgrimas, soluando em
desespero.
- Acalmem-se - disse Cludio com firmeza. - Todos nos enganamos e  duro enfrentar a hora da
verdade.
- Matei uma mulher inocente! - considerou Joo. No a deixei explicar-se sequer! Sou um assassino
miservel. Jamais me perdoarei. Matei em defesa da prpria honra, mas a pessoa errada! Meu Deus, que
loucura!
- Matei um homem enlouquecido por uma mulher leviana e perversa. No h honra a defender. Ela era
mais culpada do que ele - disse Antero.
- No podemos julgar ningum - considerou Cludio. - A verdade chega para ajudar-nos a compreender
nossas prprias necessidades. O julgamento, a violncia, trazem sempre junto o arrependimento. S a
compreenso, o perdo, podem aliviar nossas almas e nos dar serenidade. Temos diante de ns dois
infelizes, absorvidos pelas prprias iluses. Vamos orar por eles, porquanto ns tambm nos enganamos
muitas vezes em nossas escolhas, preferindo o mal ao invs de cultivar o bem. Nesta hora, s Deus tem o
poder de nos conceder a paz.
Enquanto Antero e Joo abaixavam a cabea pensativos, Cludio proferiu confortadora prece.
Antunes aquietou-se. Exasperar Amlia era sua ocupao predileta. Contudo, naquele instante, sbita
tristeza o acometeu. Sentia-se cansado de sofrer e se havia momentos em que se vingava de Amlia,
outros havia em que pensava na famlia.
Embora abafado o escndalo, o caso chegara ao conhecimento de sua esposa. O coronel e os filhos no
permitiram mais sua presena em seus domnios, e ela se vira em grandes dificuldades. Fora para a vila,
trabalhara duro, fazendo doces que os filhos iam vender na porta da igreja e nas casas. Lavara roupas para
fora. Conseguira criar os cinco filhos com dignidade em sua pobreza. Mas, no perdoara o Antunes.
Ensinara os filhos a desprez-lo. Quando ela morreu, ele fora a seu encontro. Todavia ela no o aceitou
mais. Perdoou-o finalmente, mas no lhe tinha amor.
Antunes sentia-se s e triste. Por causa daquela mulher estragara
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sua vida. Essa certeza o levara a continuar atormentando-a. A cada acesso de Amlia, as filhas pensavam
em intern-la em um manicmio. No tinham nenhuma esperana de cura e estavam cansadas de cuidar
dela.
Cludio aproximou-se de Antunes, olhando-o com firmeza. Ento, ele os viu.
- O que querem? - indagou assustado.
- Ajud-lo - respondeu Cludio.
- Eles me odeiam! - volveu ele apontando os dois irmos que o olhavam calados.
- No estamos aqui para julgar ningum - disse Cludio. - Hoje eles souberam toda a verdade.
- Eles mataram uma inocente, devem estar arrependidos. Mas eu... sou culpado. No devia ter me
apaixonado.
- Voc est cansado, triste, precisando de ajuda. Estamos dispostos a lev-lo conosco. Em nossa cidade,
poder tratar-se, recompor sua vida, equilibrar-se.
- Sou um perdido. No tenho perdo - disse em desespero. -No seja to severo. O passado j acabou.
Voc enganou-se ao escolher seus caminhos. Contudo, hoje, Deus lhe concede a oportunidade de mudar,
de procurar viver melhor e mais adequadamente. De nada vale chorar e lamentar os erros passados que
no podem ser remediados. Bom e til  realizar agora sua renovao ntima, procurando entender a vida,
cultivando s o bem, compreendendo que Deus est em tudo e em todos e vive em ns.
Antunes soluava comovido. Antero e Joo calados, no sabiam o que dizer. Ambos compreendiam que
haviam sido precipitados e arrastado pessoas inocentes na tragdia.
Amlia acalmara-se e estirada na cama, olhos muito abertos, continuava perdida em seus pensamentos
ntimos. No via a cena que se desenrolava a seu lado.
- Eu quero ir. Farei o que quiserem. Desejo sair deste inferno.
A um sinal de Cludio, os dois irmos os acompanharam silenciosos.
Alberto com emoo continuava a recordar. Antunes, levado ao tratamento, fora aos poucos se
recuperando. Amlia morrera e perambulava pelas zonas inferiores, envolvida com espritos
desequilibrados sem querer atender ningum.
Passados os primeiros dias, Antero e Joo lembraram-se de Antnio.
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Sabiam que ele, aps alguns anos de sofrimento, renascera na Terra em tristes condies de sade, tendo
vivido l durante vinte anos. Desencarnara novamente. Tendo-o procurado, demoraram algum tempo para
encontr-lo. Ele j sabia a verdade. Contara seus sofrimentos aps haver se suicidado. O horror de
perceber a inutilidade de seu gesto extremado de rebeldia e desafio, no querendo aceitar a vida.
Foi Maria quem o visitou e socorreu. Ele estava magoado, enciumado e no compreendeu porque ela
estava to cheia de luz. Maria contou-lhe a verdade e ele finalmente percebeu o quanto estivera enganado.
Choraram juntos.
Ele queria ficar com ela. Contudo, no era possvel. Tinham caminhos diferentes. A custo Antnio
aceitou a separao. Sua sade estava abalada. Ele tinha crises de asfixia que o prostravam. Por isso
decidiu reencarnar para atravs da matria densa transferir essas energias e libertar-se. Maria prometeu
ajud-lo e cumpriu a promessa. Durante os vinte anos em que esteve reencarnado, ela o ajudou, visitando-
o com freqncia, acalmando-o quando se rebelava com seu precrio estado fsico.
O tempo foi passando e com ele todos foram se transformando. Joo pedira perdo a Maria, ajoelhando-se
a seus ps. Ela ouvira calada, depois dissera com simplicidade:
- Nada tenho a perdoar. Se essas experincias no me fossem necessrias, Deus as teria evitado.
- Eu no me perdo. Fui cego e precipitado.
- O que voc quer dizer  que a intransigncia, o orgulho, s nos levam a atitudes desastrosas. A falsa
noo de honra, os papis a que nos impomos na famlia e queremos representar a todo custo, nos
impedem de enxergar a verdade e de compreender os outros. Pense nisso e no se atormente mais com o
que j passou. O importante  agir corretamente agora.
- Voc  muito nobre. Agora posso ver isso. Fomos enganados covardemente e a culpada expia seu crime
na loucura.
Maria olhou-o com olhos muito lcidos e brilhantes ao dizer:
- Amlia escolheu o sofrimento, acreditando encontrar o prazer e o amor. Prefere no olhar esse fato,
mergulhando mais na fantasia. Quando se cansar e desejar perceber a realidade, estar ainda no mesmo
ponto e deplorar o tempo perdido.
- Voc tambm a perdoou?
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- Nunca a acusei de nada. Acreditar que ela pudesse ter me ferido, seria outorgar-lhe um poder sobre
mim que ela no possui.
- No entendo - disse Joo, admirado.
-  simples. S Deus tem fora para atuar sobre ns. Se eu no necessitasse passar por aqueles fatos, ele
os teria evitado facilmente. Se no o fez, foi porque, para mim, o melhor era viver essa experincia.
Gostaria que entendessem a verdade. Podemos estar rodeados de pessoas desequilibradas que agem
cruelmente, sem que nada nos acontea, se essa for a vontade de Deus porque ele  o nico poder
determinante de todas as coisas.
- Isso no anula a traio de Amlia. Ela merece punio. Maria sacudiu a cabea negativamente:
- Ela sequer percebeu o alcance de seus desacertos. Eu diria que foi a forma que encontrou para
defender-se. No desejava ser descoberta.
- Quisera ser to nobre quanto voc. Quando penso que fui enganado, trado, sinto vontade de castig-la.
Nunca desconfiei dela! Por sua causa tornei-me um assassino.
- Diga antes que seu orgulho o instigou a matar.
- Chega j a culpa que carrego! Apesar de que tentando lavar a honra do Antnio, era a minha que eu
lavava.
- Seja como for, todos compreendemos que nos enganamos. Tenho meditado, trabalhado, estudado e
recebido orientaes de planos mais altos. Assim sendo cheguei a concluso que no adianta nada remoer
o passado, cultivar a culpa, o remorso, o ressentimento. O melhor, agora que estamos aqui, que
conhecemos mais sobre a vida e reconhecemos nossa necessidade de progresso, nosso desejo de
felicidade, de amor, de paz e de alegria,  no perdermos tempo com iluses ou desentendimentos
desnecessrios. Uma coisa  certa: para alcanarmos todas essas coisas boas, precisaremos proceder de
maneira adequada. Nossa maneira de agir e de pensar provocou acontecimentos desagradveis e muitos
sofrimentos. Est na hora de mudar. De no julgar, de tentar compreender, de sermos bons e sinceros.
Qual de ns pode atirar a primeira pedra? Se somos benevolentes com os nossos enganos, por que sermos
rigorosos com os outros, se estamos longe de saber o que se passa dentro de suas almas?
Os trs irmos no conseguiram responder, permaneceram pensativos calados. Maria os concitou a orar
por Amlia. Sob o imprio daquele exemplo de bondade, eles acabaram concordando. Oraram
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por ela e vendo-a dementada e sofredora, acabaram por penalizarem-se do seu estado.
S Antnio resistia, e Maria pacientemente tentava mostrar-lhe 1 verdade e concit-lo ao perdo.
Foi preciso largo espao de tempo para que Amlia reequilibrasse um pouco. Aps sofrimentos e lutas,
finalmente ela comeou a recuperar-se. Porm, quanto mais ela se tornava consciente e a bondade de
Maria a envolvia, mais deprimida ela ficava. O remorso amargurou sua alma.
Ningum a acusava e no precisando defender-se, sua culpa agigantava-se. Ento, ela acusava-se e caa
em crise.
A me dos trs, ligada a eles por laos de amor, desejava ardentemente ajud-los. Havia sofrido
duramente a tragdia que enlutara a famlia, juntara-se a Maria, a quem aprendera a amar e a respeitar e
nutria o desejo intenso e sincero de trabalhar em favor da recuperao dos seus filhos amados.
Sofreu, lutou, esforou-se por vencer sua animosidade contra Amlia, tendo por fim entendido que ela
no possua ainda conhecimento para proceder de forma diferente do que fora.
Finalmente, chegou a concluso que o seu grupo familiar estava ligado emocionalmente e que para ajudar
a um, seria necessrio ajudar os outros.
Sob a proteo e o carinho de orientadores capacitados, reuniram-se para tentar resolver seus problemas.
Emocionaram-se, choraram, desabafaram, trocaram justificativas e reconheceram seus enganos. Todavia,
Antero estava desiludido, abatido, triste, arrependido. No conseguia esquecer a noite fatdica, e os olhos
apavorados e splices de Maria o acompanhavam por toda parte.
Antnio entregava-se  tristeza, querendo que Maria ficasse a seu lado. Amlia era constantemente
envolvida por entidades viciadas, tendo crises de erotismo e obsesso sexual. Nos momentos de prece e
de lucidez, todos queriam esquecer.
Por fim, a soluo surgiu: o melhor seria reencarnar. O corpo novo na Terra representa um osis de paz
interior, uma oportunidade de esquecer, uma trgua para a recuperao, uma mudana que lhes permitiria
recomear, fazer novos relacionamentos, novas escolhas, novas chances.
Aceitaram aliviados. Homero e Aurora uniram-se a eles, reencarnando primeiro, devendo novamente
receber Antero e Antnio
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como filhos. Maria tambm renasceria como irm deles, para sustent-los nas lutas. Joo estabelecera
laos muito fortes com Amlia. Ela fora participante ativa daquela tragdia, recebera dele amor,
dedicao e sentia-se arrasada vendo-o sofrido e ralado de remorsos.
Ela gostava dele, no desejava prejudic-lo. Fora para poup-lo que planejara tudo. Ele no merecia ser
enganado, contudo, ela sentia o fogo das paixes e entregava-se descontroladamente. No o traa para
causar-lhe sofrimento. Dava vazo as suas emoes descontroladas. V-lo sofrer, era-lhe penoso. Por
isso, concordou em renascer e receb-lo como filho.
Sabiam que a vida os reuniria na Terra e que seus problemas emocionais escondidos no subconsciente,
atrairiam lutas e situaes na tentativa de mostrar-lhes os valores reais que precisavam aprender.
Alberto levantou-se e passou a mo pelos cabelos, perdido ainda em suas recordaes. Agora lembrava-
se: Magali era Maria. Odete era Amlia que, em plena juventude, no controlando suas paixes, tornara-
se me solteira do Jovino. Jovino era seu irmo Joo! Por isso, o consultava antes de tomar qualquer
atitude. Por isso, ele cuidava do seu bem-estar e do Rui, que era o Antnio!
Tudo ficou claro em sua cabea. Ele ceifara a vida do Antunes, acreditara na violncia como soluo dos
problemas humanos, e a violncia o alcanara ceifando-lhe a vida em plena juventude. Meu Deus!
Quando entenderia que a violncia apenas agrava qualquer situao, desequilibrando a alma, anulando
sua defesa natural, atraindo para si a ira alheia?
Pensou no Jovino, preso inocente. Ningum quisera ouvi-lo no julgamento. Ele no acreditava na palavra
dos outros. No deixara Maria falar, explicar-se, matara uma inocente. Certamente, na priso, estava
tendo condies de meditar como o nosso julgamento  falho e passvel de erro.
Experimentara na carne a dor de ver-se punido injustamente. Agora, por certo, estaria abrindo seu corao
para uma compreenso maior dos sentimentos humanos.
Alberto no se conteve. Chorou sentidamente. Finalmente ele entendia o que lhe acontecera! Havia uma
razo boa para tudo.
Quando se acalmou, sentiu brotar dentro do corao, profundo sentimento de gratido e paz. Uma fora
nova, mais vigorosa o animou e ele sentiu que dali para frente tudo em sua vida iria mudar.
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Captulo 15
Mariazinha estugou o passo. Queria chegar em casa cedo. Jlio iria falar com seu pai naquela noite e
pedir-lhe permisso para a oficializao do noivado.
Dirigia-se ao ponto do bonde quando sentiu que a agarravam pelo brao.
- Onde vai com tanta pressa?
A moa puxou o brao, olhando-o contrariada. Depois do que acontecera com Jlio, Rino desaparecera de
sua vida.
- Deixe-me em paz - respondeu, continuando a andar.
De um salto ele agarrou seu brao de novo obrigando-a a parar.
- Preciso falar com voc - disse ele, srio.
- No temos nada para conversar. Tenho pressa. Preciso chegar cedo em casa. Largue meu brao.
- Largarei se me escutar. No suporto esse seu ar de desprezo. Ainda h de me valorizar.
- Rino, realmente no tenho nada a lhe dizer. Por favor, deixe-me em paz.
- Voc me deixa louco. Continua saindo com aquele palhao. Mariazinha irritou-se:
- Aquele palhao  meu namorado.  o homem que eu amo. Vamos nos casar. Desista de uma vez por
todas.
Ele apertou o brao que segurava, fazendo-a soltar pequeno grito de dor.
- No permitirei. Voc no se casar com ele nem com ningum. Eu juro! Se ele no sair do meu
caminho, se arrepender. No estou brincando!
- Largue meu brao. Voc enlouqueceu!
- Voc ser minha ou de ningum mais.
- Eu no gosto de voc. Nunca o aceitarei. Desista.
- Est com pressa porque vai se encontrar com ele.
- Estou cansada. Trabalhei o dia inteiro. Quero ir logo para casa. A moa estava plida. Ele largou o brao
dizendo com raiva:
- Diga quele palhao que pense bem no que est fazendo. Meus
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amigos, vendo-me nervoso, pretendem defender meus interesses. Se eles o encontrarem por l, no me
responsabilizo. Mariazinha estremeceu.
- No se atreva - disse com raiva. - Se tentar alguma coisa, irei a polcia e desta vez, contarei tudo.
Antes que ele respondesse, a moa afastou-se rapidamente percebendo que o bonde se aproximava. Subiu
no coletivo, mas ainda teve tempo de ver o olhar rancoroso do Rino fixo nela. Seu corao batia
descompassado e seu corpo tremia.
O bonde estava cheio. Em p, procurou segurar firme tentando acalmar-se. Pensamentos agitados a
envolviam. Por que Rino a perseguia? No acreditava que a amasse. Quem ama no procede como ele.
Era capricho, orgulho de menino mimado. Teimava s porque ela o recusara.
Seria s isso? Ele ameaara Jlio. E se ele o agredisse de novo? Lembrou-se de Alberto e seu corao
bateu mais forte. Talvez Nair tivesse razo. Teria sido Rino? Jovino era inocente. E se tivesse mesmo sido
o Rino? E se ele matasse o Jlio?
Sentiu sua ansiedade aumentar. Talvez fosse melhor dar um tempo, acabar com o namoro, esperar que o
Rino esquecesse.
Quando Mariazinha entrou em casa, Isabel assustou-se:
- Voc est plida! Sente-se mal? O que aconteceu?
A moa tremia e sentia dificuldade em falar. Isabel deu-lhe um copo com gua.
- Fale, filha.
- Foi o Rino, me.
- De novo?
Mariazinha contou-lhe tudo.
- Sinto medo, me. O Jlio vem aqui hoje, conversar com papai sobre nosso noivado. No sei o que fazer.
Talvez seja melhor acabar com tudo at que ele esquea.
- Calma filha. De nada adianta ficar deste jeito. Conversaremos com o Jlio e encontraremos uma boa
soluo. Vanderlei nos ajudar. No fique assim. Logo hoje que voc precisa ficar bem bonita! Afinal,
vamos tratar do seu futuro.
- Tenho tanto medo, me!
- Deus nos ajudar. Por que no vamos ao Centro Esprita com Magali?
- Me! Voc tambm!
198


- Claro. Ela tem alcanado tantas graas! Ns podemos pedir proteo. Voc tem direito  felicidade. Sua
amiga Nair tem ido sempre l, nos acompanhar por certo.
- No sei o que dizer. E papai?
- Tudo que for para seu bem ele far de boa vontade.
- Acha que podem nos ajudar?
- Por que no? Quem sabe eles influenciam o Rino para que desista. No custa tentar. Agora v preparar-
se. Tenho f que nada acontecer ao Jlio.
- Voc acha?
- Tenho certeza. Agora v. Precisa ficar muito bonita esta noite. Mariazinha sentiu-se melhor. Procurou
dominar o receio. Sentir-se-ia mais segura se Jlio trouxesse o Vanderlei. Esforou-se para esquecer o
incidente.
Apesar disso, quando Jlio chegou, logo notou sua preocupao. Ela no pde ocultar a verdade,
finalizando:
- Sinto medo! No seria melhor nos afastarmos por algum tempo? Jlio tomou a mo dela apertando-a
carinhosamente.
- Eu no tenho medo. Agora, estou prevenido.
- No me agrada v-lo armado. Pode acabar mal. Chega o que houve com o Alberto. No quero que nada
lhe acontea.
- Temos que enfrent-lo. Quando ele perceber que no consegue nada, desistir. Se nos afastarmos,
estaremos fortalecendo seus intentes. Depois, no suportaria ficar sem v-la e  por isso, por desejar estar
sempre a seu lado que pretendo conversar com seu pai. Anseio pelo dia em que ficaremos juntos para
sempre.
Mariazinha olhou-o comovida, abraaram-se e beijaram-se com amor.
Naquela noite mesmo, Jlio conversou com os pais dela, pedindo permisso para ficarem noivos. Com
simplicidade, tirou do bolso uma caixinha com as alianas. Um colocou na mo do outro. Estavam
noivos.
Jos, feliz, abriu uma garrafa de champanhe, e Isabel trouxe o bolo que havia preparado para a ocasio.
- Gostaria de convidar sua famlia para um almoo no prximo domingo - disse.
- Obrigado, D. Isabel - respondeu Jlio. - No vai lhe dar muito trabalho?
199


Isabel sacudiu a cabea.
- Ser um prazer. Precisamos comemorar.
- Est bem. Falarei com mame.
Jlio saiu da casa da noiva, passava das doze. Mariazinha abraou-o na varanda, dizendo:
- Tome cuidado. V pelo meio da rua.
- No se preocupe. Estou atento.
Ela ficou parada na varanda at v-lo dobrar a esquina. Entrou em casa inquieta, pensativa. Contemplou
com enlevo a aliana que reluzia no anular de sua mo direita. Amava o Jlio profundamente. Ningum
haveria de interpor-se entre eles.
No quarto, estendida no leito, recordou-se de Rino e sentiu um aperto no corao. Por que ele a
perseguia? O que deveria fazer para libertar-se dessa obsesso?
Tentou conciliar o sono, no conseguiu. Lutava para apagar os acontecimentos da tarde, inutilmente, e
quanto mais os recordava, mais sentia que o Rino poderia estar envolvido na morte do Alberto.
Nair poderia estar certa nessa suspeita e nesse caso a vida do Jlio estaria em srio perigo. Apavorada,
Mariazinha levantou-se e ajoelhou-se ao lado da cama. Rezou de todo corao pedindo a Deus que
protegesse Jlio e evitasse nova tragdia.
Deitou-se novamente, mas o sono no vinha. Na manh seguinte, levantou-se abatida e nervosa. Notando-
lhe a indisposio, Isabel, preocupada, no a deixou ir para o trabalho. Mariazinha protestou:
- No  nada. Isso passa. Dormi mal.
- No gosto nada dessas olheiras. No quero que adoea novamente. Fique em casa hoje. Conversaremos
com Nair e iremos procurar aquele Centro Esprita.
- No  preciso.
-  sim. Olhe no espelho. Depois, tenho pensado muito. Essa perseguio do Rino, tudo quanto nos tem
acontecido, no tem uma explicao lgica. A Nair sente-se bem indo a esse Centro, e a D. Lusa me
disse que ela melhorou muito. No se queixa mais de nada, vive alegre, resolveu at aprender corte e
costura. Falaremos com ela e iremos at l.
- Faria isso por mim?
- Claro. Eles entendem de espritos. O Alberto pode se comunicar, nos orientar.
200


- O Jlio acredita nisso. Para ele, o Alberto j se comunicou atravs de mim.
-J?! Por que no me disse nada? O que foi que ele falou?
- No comentei porque no tenho certeza de nada. O Jlio afirmou, o Jovino, a Nair e at a Magali, mas
eu no me lembro de nada. Por mais que eles meream crdito, no consigo aceitar. Eles podem estar
enganados.
Isabel olhou a filha procurando esconder a preocupao.
- Est decidido. Voc no ir trabalhar. Precisa refazer-se. Descansar. Hoje  um dia de alegria. Voc est
noiva de um moo bom e o ama. Iremos ao Centro Esprita o quanto antes.
Mariazinha concordou. Sentia-se cansada, oprimida. Nair, colocada a par da situao, telefonou a Magali
e combinaram de ir ao Centro Esprita naquela mesma noite. Mariazinha telefonou ao Jlio que prometeu
acompanh-las.
Magali preparou-se para sair, e Rui inquiriu-a srio:
- Vai sair agora? -Vou.
- Com quem?
- Com algumas amigas. Por que pergunta?
- Porque no  adequado uma moa sair  noite desacompanhada. Onde vai?
Magali, embora contrariada, tentou ser delicada:
- No se preocupe comigo. Sei preservar-me.
- Isso no  resposta. Onde vai?
- Por que deveria dizer-lhe?
- Porque sou seu irmo e papai est viajando.
- Voc no manda em mim.
- Veremos isso. Aurora aproximou-se:
- O que est havendo?
- Magali est me desafiando, como sempre. Quer sair sozinha numa hora dessas e sequer diz onde vai.
- Ele no  meu pai para mandar em mim.
- Calem-se os dois. Ainda estou aqui e posso decidir quem deve fazer o qu dentro desta casa. Pode
deixar, Rui, que eu resolvo com Magali.
- Vai proteg-la como sempre.  a filhinha predileta.
201


-Vamos, Magali. Venha comigo e explique-me o que pretende fazer. As duas foram para o quarto
procurando ignorar a carranca ofendida do Rui.
- Deve evitar discusses com o Rui, sabe como ele  - advertiu Aurora logo que fechou a porta.
- Ele est sempre me vigiando, querendo controlar minha vida. Quando o Alberto estava aqui, no era
tanto, mas agora no me larga. Implica com tudo.
-Tenho notado. Sente cimes. Ficou apegado depois do que aconteceu. Tem medo de perder voc depois
que os dois no esto mais aqui.
- Seja como for, ele me oprime. Quando papai est, ele no fala, mas me persegue assim mesmo. Implica
com o Vanderlei.
-  porque ele no conhece bem o moo. A profisso dele tambm  assustadora.
- No  isso, no. O Vanderlei  um moo excelente, bem empregado,  estudante de direito e trabalha no
escritrio de advocacia do tio dele. Como j trabalhou na polcia, tem l muitos amigos, procura ajudar
seu amigo Jlio. O Rui sempre implicou com todos os meus amigos.  um bicho do mato. No gosta de
ningum. No quer que eu namore.
Aurora suspirou:
- Sei que ele tem gnio e  difcil, mas voc que tem mais compreenso  quem precisa contornar as
coisas. Afinal, por que a discusso?
- Vou com D. Dora ao Centro Esprita esta noite. A Mariazinha vai estar l, senti vontade de ir. O Alberto
 muito ligado a ela. Pode ser que tenhamos notcias dele. No queria que o Rui soubesse.
- Fez bem. Ele no compreenderia. Nesse caso, vou junto. Ele no dir nada. Tambm desejo estar l, ver
o que acontecer.
Quinze minutos antes do incio da reunio, as duas chegaram com Dora. Mariazinha, Jlio, Isabel, j se
encontravam na sala. Magali aproximou-se e depois dos cumprimentos apresentou a me.
Mariazinha apertou a mo de Aurora, mas no teve tempo para conversar, porque as luzes foram
parcialmente apagadas, indicando que a sesso iria comear.
Dora foi chamada para tomar assento ao redor da mesa, conduziu Mariazinha, Isabel e Jlio para a
primeira fila de cadeiras. Magali e a me acomodaram-se mais atrs.
202


Mariazinha sentia-se angustiada, aflita, respirao difcil. Teve mpetos de sair dali, fugir, seu corpo
tremia como se estivesse com frio, e ela segurou a mo do Jlio apertando-a com fora.
- Jlio, vamos embora. No quero ficar aqui.
- Acalme-se. No tenha medo. No vai lhe acontecer nada. Relaxe. Respire fundo.
Mariazinha suspirou e tentou obedecer. A mo de Jlio na sua e seu brao sobre seus ombros deram-lhe
uma sensao de proteo. Algum proferiu uma prece, mas ela nem conseguiu entender as palavras.
Sentia enorme opresso e controlava-se com dificuldade. De repente, empurrou Jlio violentamente e
levantou-se de um salto, dizendo com voz diferenciada:
- Finalmente! Finalmente posso falar! Posso cantar, danar, viver como antes. Estou viva! Estou aqui.
A um sinal da dirigente, Dora levantou-se e pegando Mariazinha pela mo, f-la sentar-se em seu lugar,
ao redor da mesa.
- Vem, vamos conversar - disse.
- Quem  voc? O que quer?
- Uma pessoa amiga. J que veio nos visitar, podemos nos conhecer.
- No quero falar. Quero msica para danar. Tenho saudades! Bons tempos aqueles!
- Pode ser, mas j passou. Hoje tudo  diferente. Deve olhar o presente.
- No quero! Chega de tristezas. Eu quero alegria. S alegria!
- Tudo  alegria. Tudo est muito bem. S que voc precisa afastar-se desta moa, deix-la em paz.
- No posso. Eu preciso dela. E agora que consegui domin-la, o resto ser fcil.
- Seu domnio  passageiro. Aproveite estes instantes para perceber a verdade e se ajudar.
- Estou cuidando da minha felicidade. Ela me separou dele, ela nos deve unir!
- No se pode forar uma situao. No dar certo. Pense bem. Deixe-a em paz!
- No. Quando ela nos separou, no pensou em meus sofrimentos. Agora decidi. Vou separ-la do seu
amor, voc ver!
- O que lucrar com isso?
- Ela nasceu, eu no. Colei-me a ela. Quando ele a olha,  a mim
203


que v.  minha energia que ele sente. Ele se arrependeu do passado, mas de que me adianta agora?
Tenho o direito de ser feliz. Chega de sofrer! Por isso, ficarei com ele atravs dela. No tenho corpo de
carne, usarei o dela!
- Isso no  possvel! Deus no permitir. Desista dessa idia.
- No posso! Deve preveni-los. Ai de quem se interpuser em meu caminho. Destruirei!
- No conseguir. Deus  grande.
- Duvida? Um j foi e o outro logo mais ser afastado. Ela no o quer, mas acabar cedendo. Far o que
eu quiser! S assim pagar o que me deve.
- Pense bem, est procurando mais sofrimento.
- No adianta. Ningum me demover. Irei at o fim. Vim avisar. Saiam do meu caminho. Ela que me
atenda se quiser evitar problemas. Acabar por reconhecer que ele  o nico homem que ela pode aceitar.
Agora, j vou. Falei demais.
-Espere. Gostaria que nos contasse mais sobre voc, no sabemos a quem se refere.
- Ela sabe. Pergunte-lhe. Ela ainda o odeia por causa do passado. Mas isso passar, eu prometo.
- Agindo assim, voc aumentar sua infelicidade! Deixe a cada um a liberdade de escolher o prprio
caminho.
- No adianta. Jamais mudarei. Adeus.
Antes que Dora respondesse, Mariazinha estremeceu e sua cabea pendeu sobre a mesa. Isabel chorava
assustada, e Jlio tentava acalm-la dizendo-lhe ao ouvido que confiasse em Deus.
Dora pediu aos presentes oraes para esse esprito e todos silenciosamente obedeceram. Mariazinha
continuava com a cabea e os braos sobre a mesa. Outros espritos manifestaram-se atravs dos mdiuns,
e o ltimo deu belssima mensagem, cheia de espiritualidade, exortando a necessidade de cultivar
pensamentos positivos e confiar em Deus.
Quando as luzes se acenderam, Mariazinha estava bem. Quando ela se aproximou, Isabel no se conteve:
- Voc est bem?
- Muito bem. Achei linda essa mensagem final. Conseguiu me acalmar.
204


Isabel, apesar de preocupada, no comentou nada. Dora aproximou-se ao mesmo tempo que Magali com
a me.
- Voc est bem agora? - indagou dirigindo-se a Mariazinha.
- Estou.
- Precisamos conversar - continuou Dora. - Aqui h muito rudo. Venham comigo. Podem vir todos.
Conduziu-os a pequena sala onde os convidou a sentar. Assim que se acomodou por sua vez, pediu a
Mariazinha:
- Conte-me o que sentiu desde que chegou aqui.
- Eu no cheguei bem. Esta noite dormi mal, senti-me inquieta, nervosa, o dia inteiro. Quando cheguei
aqui o desconforto aumentou. Suei frio, passei mal, a respirao curta e uma vontade enorme de sair,
fugir. Se o Jlio no me segurasse, eu teria ido embora.
-E depois?
- Depois, chegou um momento em que no suportei mais, cheguei a sufocar, acho que gritei. Fiquei tonta,
no sei bem. No vi nada. Acordei e estava com a cabea na mesa. No me lembro de ter ido l.
- E agora?
- Sinto-me calma. Aquela mensagem deu-me muita paz.
- Como se sentiu logo ao acordar, qual a primeira emoo?
- No me lembrava onde estava, mas senti-me aliviada, leve. Logo a memria voltou e vi que estava
melhor.
Dora tomou a mo de Mariazinha segurando-a com carinho:
- Voc possui muita sensibilidade.  mdium. Sabe disso, no ?
- Sei. O Jlio tem me explicado. Mas eu no quero ser, sinto medo. Vim aqui pensando em me libertar
dos meus problemas. Minha vida est muito complicada.
- O Jlio j deve ter-lhe dito que a mediunidade  natural no ser humano. Quando ela aparece, ningum a
poder anular. Faz parte do progresso do ser e  uma janela a mais para enxergar a vida, as coisas. O mais
adequado  estudar como ela funciona em voc e aprender as Leis naturais que a regem. Agindo assim,
perceber que ela  um bem e pode desenvolver muito seu esprito.
- Senti-me muito mal. No quero sofrer essas coisas.
- Voc estava mal, antes de vir aqui. Como se sente agora?
- Muito bem. Voltei ao normal.
-Justamente. Voc estava assediada por um esprito que estava com medo de vir aqui, porque sentia que
seria pressionado a deix-la em paz.
205


- E agora, ele se foi?
- Sim. Afastou-se. Ainda no deseja esclarecer-se.
- E se ele voltar?
- No s ele poder voltar, como voc poder atrair outros. Por isso, desejo recomendar-lhe que venha ao
Centro, freqente, no s para que esse esprito se esclarea como para que voc aprenda a defender-se
desses assdios.
- Acha que conseguirei?
- Se perseverar, tenho certeza que conseguir. Voc  dona do seu corpo e da sua vontade. Ningum a
usar se voc no permitir.
- Mas eu nunca quis ou permiti que eles me usassem.
- No falo do consentimento verbal. Falo da utilizao da fora do seu esprito no uso das energias que
nos rodeiam.
- Se ela freqentar as sesses, ficar boa? - indagou Isabel no ocultando a preocupao.
- Ela no  uma pessoa doente. Simplesmente ainda no aprendeu a disciplinar sua sensibilidade.  s
questo de tempo.
- Quase me arrependi de ter vindo aqui. Pensei que ela houvesse piorado. Sempre ouvi dizer que
espiritismo pode deixar a pessoa variada. Entretanto, percebo que agora ela est melhor. As olheiras
sumiram e as cores voltaram a seu rosto.
- Quem no conhece o assunto pode dizer o que quiser. As pessoas se envolvem com problemas
emocionais, escolhem mal o seu caminho, abrem campo para as intervenes de espritos em
desequilbrio, recusam o auxlio da espiritualidade superior, teimam em cultivar suas iluses, perseveram
nos enganos, pem f em pensamentos negativos, alardeiam sua dor, acreditam-se vtimas da fatalidade.
Vm ao Centro Esprita como vo a outra religio qualquer em busca de um alvio, um milagre que lhes
permita continuar com as mesmas idias, sem as conseqncias de seus desacertos. Ignoram que Deus
ajuda a quem se ajuda, age dentro e atravs do prprio indivduo e nunca esteve omisso. Quando no
conseguem o que pretendiam, ou descobrem que tero que mudar, esforar-se para obter, afastam-se
decepcionados, qual crianas caprichosas, continuando em seus enganos. A mediunidade no equilibrada,
aberta aos pensamentos descontrolados e s emoes exacerbadas, pode levar  loucura. O Centro
Esprita existe exatamente para evitar esse mal.  remdio, no causa.  escola para os que desejam
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realmente aprender, crescer, no para servir aos interesses subalternos do ser humano.
Dora calou-se e o silncio se fez por alguns instantes. Foi Mariazinha quem falou:
- Nunca pensei que fosse uma coisa to sria. Suas palavras fizeram-me compreender que vindo aqui
estarei protegida. Tudo quanto me aconteceu, desde a morte do Alberto, deixou-me muito insegura. Estou
aliviada. Quero vir aqui. Seja o que Deus quiser.
-  uma deciso sbia - concordou Jlio, emocionado. -Muito bem - concluiu Dora com suavidade. - s
quintas-feiras  noite voc poder vir. Eu estarei aqui para encaminh-la.
- A senhora acha que ela ficar boa? - indagou Isabel novamente. Dora sorriu.
- Sua filha no est doente. Aprender a usar a sensibilidade que tem e a harmonizar-se interiormente.
Despediram-se todos e no caminho de volta Mariazinha estava pensativa. Conversaram pouco. Foi na
hora de despedir-se do noivo, a ss na varanda de sua casa que Mariazinha mencionou o assunto.
-Jlio, sinto-me insegura como das outras vezes. Compreenda. No consigo lembrar-me de nada. Por
favor, conte-me exatamente o que aconteceu, o que eu disse.
Jlio tentou desviar o assunto:
- Bobagem. Era um esprito em desequilbrio.  melhor no falar sobre isso.
-Porqu?
- Por nada. Que utilidade teria?
- Poderia esclarecer-me em relao a certos problemas de minha vida. Sinto que o que aconteceu tem
muito a ver comigo.
- De que forma?
- No sei. H momentos em que sinto uma espcie de raiva de mim mesma,  difcil explicar, como se eu
quisesse me punir por alguma coisa. Uma dualidade de sentimentos que me confunde.
Jlio segurou a mo dela com carinho:
-  natural. Voc est captando a energia de outra pessoa.
- No posso tirar o rosto do Rino da minha frente. O que ele tem com isso? Sinto medo.
Jlio abraou-a, beijando seus cabelos com carinho. Suspirou fundo, depois decidiu:
207


- Est bem.  melhor que saiba. No tenho certeza de nada, mas pelo que houve esta noite, vocs foram
ligados em vidas passadas.
Jlio contou tudo quanto ouvira, finalizando:
- Ela quer usar voc para se aproximar dele a quem pretende envolver.
- Por que ela no o procura diretamente?
- Porque no pode. Ele por certo no sente sua influncia. Por isso, ela quer servir-se de voc.
- Que horror!
- Isso talvez explique a obstinao do Rino. Ele sente a presena dela, com voc. Claro que no est
consciente disso, mas de certa forma, sem saber, ele quer fazer o mesmo.
-Jlio, sinto medo!
- Faz mal. As coisas no so do jeito que eles pensam. S vo conseguir se voc permitir.
- Isso nunca!
-  preciso estar consciente dos fatos e no se deixar envolver. No se esquea de que ela ama o Rino e
pode confundir os seus sentimentos. Isso  comum na captao de energia.
- Estarei alerta, jamais verei o Rino de outra forma.
- O que  preciso  ir ao Centro e receber ajuda.
- Irei. Voc me acompanha?
- Claro.
Os dois conversaram um pouco mais e quando se despediram, Mariazinha sentia-se mais calma e
confiante.
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Captulo 16
Na manh do dia seguinte, Rino levantou-se mais cedo do que o costume, sentindo-se indisposto. Tivera
uma noite mal dormida, cheia de pesadelos onde a figura de Mariazinha aparecia dizendo que o amava e
beijando-o com paixo, para depois repudi-lo friamente. Ele sentira acender seu desejo com redobrada
violncia.
Amava aquela mulher e haveria de t-la. Atribua sua indisposio ao amor no correspondido. Quando a
tivesse entre os braos, ela acabaria por render-se ao seu amor. As mulheres resistem at serem vencidas.
Sentia que era atraente. Inmeras moas disputavam sua preferncia e bastaria ligeiro aceno e viriam
correndo para seus braos.
Contudo, Mariazinha era seu desespero. O clmax do pesadelo era quando ele a beijava no auge da
emoo, ela o empurrava e saia levada por outro homem. Ele esforava-se para segui-la, mas o outro
colocava-se entre os dois e o impedia de chegar a ela. Por mais fora que fizesse, no conseguia
aproximar-se. Rugindo de dio, via os dois afastarem-se abraados.
Nervoso, andando de um lado a outro do quarto, ele pensava:
- Vou perd-la para sempre. Esse sonho  um aviso. Com certeza ela vai casar-se com aquele idiota.
Preciso fazer alguma coisa. No posso ficar de braos cruzados enquanto ele a rouba de mim!
Fora ingnuo acreditando que a surra o afastaria dela para sempre. Arrependia-se de no haver acabado
com ele de uma vez. Fora prudente demais. Afinal, sara-se bem da outra vez, por que temer?
Talvez, se idealizasse um bom plano, poderia fazer o servio agora. Era verdade que ele andara assustado.
Teria o Jlio dado queixa a polcia? Precisava idealizar um plano perfeito que o pusesse a salvo de
quaisquer suspeitas.
Vrias idias sinistras passavam por sua mente sem perceber que um vulto de mulher o abraava, dizendo
ao seu ouvido com paixo:
- Eu te amo! Se voc no o tirar do caminho, jamais estaremos juntos de novo. Vem para mim, meu amor!
Rino no registrou aquela presena, mas sentiu uma onda
209
apaixonada envolv-lo, e em sua mente o rosto de Mariazinha aparecia como causa dessa paixo.
- Preciso controlar-me - pensou ele lutando com a emoo. -No posso cometer uma loucura. Tenho que
usar a cabea. Alguma coisa me diz que disponho de pouco tempo. Vou tomar um calmante, dormir um
pouco e depois, mais calmo, resolverei o que fazer.
-Nervosamente, apanhou o vidro de comprimidos que tomava para dormir e ingeriu seis deles de uma
vez. Sabia que se no aumentasse a dosagem, no faria efeito. Deitou-se novamente pensando decidido:
- Quando acordar, terei a idia certa.
Suspirou fundo, remexeu-se um pouco no leito, mas em pouco tempo mergulhou em sono profundo.
Quando Magali sentou-se  mesa para o caf da manh, Aurora foi logo dizendo:
- Filha, at agora no entendi bem o que aconteceu ontem. Esperava notcias do Alberto e ao invs disso,
aconteceu aquilo. Por que ser?
Magali balanou a cabea:
- No sei, me. Tenho aprendido que esses fenmenos no so como a gente quer. Isto , no ocorrem
como desejamos.
- Fiquei um pouco decepcionada.
-No deve. Mariazinha resolveu freqentar o Centro, veremos o que acontecer. D. Dora sempre diz que
Deus age de maneira diferente da que esperamos, mas sempre para o melhor.
Aurora suspirou:
- Tenho tanta saudade! Gostaria de saber como ele est, se j aceitou a morte to trgica e quem sabe,
dizer-nos quem o matou. Quero crer na inocncia do Jovino, mas as provas... s vezes chego a duvidar. 
uma tortura. O receio de estar cometendo uma injustia com nosso menino e por outro lado, se houver
sido ele?
Magali encarou a me com energia:
- Ns j falamos sobre isso e no tenho nenhuma dvida. Voc no deve abrigar esses pensamentos no
corao. Ele  inocente, tenho a certeza. Um dia teremos provas disso.
- Ah! Se isso fosse verdade!
- Claro que . O que todos deveramos fazer  tentar tirar o Jovino da priso. Enquanto ficamos
titubeantes, ele est l, preso, pagando por um crime que no cometeu.
210


Aurora no conteve as lgrimas:
- Meu Deus! Se isso for verdade, que crueldade! Mas o que poderemos fazer? Ele j foi julgado e
condenado. Para reabrir o processo  preciso existir uma prova aceita pela justia que o inocente.
- Eu sei, mame. E  por isso que at agora ele continua l. Mas o Vanderlei tem trabalhado no caso,
investigando os suspeitos possveis.
Aurora suspirou fundo:
- Mesmo assim. Acho difcil conseguir alguma prova agora. O tempo passou, tudo mudou.
- Eu tenho esperana. Deus sabe que ele no cometeu esse crime e sabe tambm quem foi. Quando julgar
conveniente, as provas aparecero.
- Nesse caso, por que Deus permite que uma injustia dessas acontea?
- Deus jamais permite a injustia. Tenho aprendido que todos os acontecimentos da vida tm uma causa
justa.
- No consigo concordar.
- Pense bem, me. Deus  s bondade. Se passamos por determinadas situaes, elas tm sempre a
finalidade de nos mostrar algo, de nos ensinar. No fundo, ns  que, com o nosso pensamento, atramos
isso ou aquilo em nossas vidas.
- O Alberto era bom e o Jovino, pelo menos, parecia bom. Por que a tragdia?
- J falamos sobre isso, mame. Claro que eram bons, mas por certo, em suas atitudes, havia a crena de
que a violncia pode resolver os problemas.
- Seu irmo no era violento.
- No parecia ser. Mas quem pode saber o que lhe ia no corao? Uma coisa  certa, tanto ele quanto o
Jovino receberam o que necessitavam. Deus jamais seria injusto.
- Nesse caso, no h esperanas.
- No  assim. Eles amadureceram e todos ns mudamos muito com o que aconteceu. Mexeu com todos
ns. Fomos forados a olhar a dor, a morte, a separao, a vida.
- Tem sido duro.
- , tem sido. O que me consola  que a vida no acaba com a morte e, por isso, todas essas coisas, agora
to dolorosas, passaro e ns, um
211


dia, reunidos com o Alberto, faremos a avaliao do que aprendemos agora.
- Voc  muito otimista. E se nada disso for verdade? E se nunca mais estivermos com ele?
- Nesse caso, a vida no passaria de um momento infeliz sem justificativa nem objetivo. Me, jogue fora
seu materialismo. Isso  justamente o que a vida quer nos ensinar. Mostrar a espiritualidade. Aprenda a
lio para no nos acontecer coisa pior.
Aurora fez um gesto de horror:
- Acha que poderia acontecer algo mais? Magali balanou a cabea.
- No sei. S sei que se uma no foi suficiente o bastante para nos despertar, outras viro.
-Deus nos livre!!
-  a nossa necessidade que atrai. A vida s responde ao que precisamos, dando sempre o melhor para
nosso progresso.
Aurora baixou a cabea pensativa. Magali saiu apressada. Vanderlei a esperava. Ele lhe telefonara
marcando o encontro.
- Alguma novidade? - quis saber Magali assim que se encontraram.
- Nada muito especial
-  desanimador.
- Nem tanto. Tenho um plano e quero saber sua opinio. Vanderlei abriu a porta do carro e pediu a Magali
que se acomodasse. Sentou-se a seu lado e continuou:
- Tenho pensado muito. Amigos meus da polcia destacaram investigador para seguir o Rino. Temos
inclusive uma foto do grupo dele, e o Jlio reconhece um apesar de estarem com o rosto encoberto
naquela noite. Pelo corpo, o tipo, etc. Por isso, no temos dvidas, foram eles que o agrediram.
- No h como provar.
- Por causa disso, vamos criar uma armadilha. Anunciar o casamento de Mariazinha. Isso o far revelar-
se.
-  perigoso.
- Estaremos vigilantes.
- Mariazinha no aceitar. Teme pelo Jlio.
-  um risco que precisamos correr se quisermos resolver o caso. Vigiaremos o Jlio vinte e quatro horas
por dia. E assim, faremos o flagrante.
212


Da, teremos provas, argumentos para reabrir o processo. O que acha?
- Sinto um frio no estmago! Por outro lado, penso que tem razo. Vanderlei tomou a mo dela e olhou-a
nos olhos ao dizer:
- Seu apoio  muito importante para mim. No farei nada sem sua aprovao. Confio na sua intuio.
Magali sorriu e sentiu o corao acelerar suas batidas.
- Obrigada - disse - Voc tem nos ajudado muito. Jamais esquecerei.
- No se preocupe. O Jlio  meu melhor amigo. Depois, sempre tive uma queda para colocar os patifes
fora de circulao. E ento?
- Est certo. Se acha que poder controlar a situao, resta saber se os outros concordaro.
- Hoje mesmo falaremos com eles. Quando eu sair do escritrio, virei busc-la e juntos iremos  casa de
Mariazinha. Jlio estar l e Nair tambm. Ver que dentro de pouco tempo, resolveremos o caso.
- Assim espero.
A noite, na varanda da casa de Mariazinha, Vanderlei exps sua idia. Nair daria um jeito de aproximar-
se do Rino e contar-lhe que o casamento da amiga seria dentro de um ms.
Mariazinha relutava em concordar, porm Jlio convenceu-a.
-  preciso acabar com essa situao. No podemos continuar vivendo sob ameaa.
- Tenho medo.
- Estaremos atentos - interveio Vanderlei. - No descuidaremos um minuto.
- Est certo - disse Mariazinha por fim - se voc tem certeza...
- Uma vigilncia dessas ficar muito caro. Onde arranjaremos dinheiro? - considerou Jlio.
- Darei um jeito - ajuntou Vanderlei. - Usarei meu tempo livre para ajudar e tenho amigos que me
devem alguns favores. Por certo faro o trabalho por preo acessvel.
- O dinheiro no ser problema. Eu tenho algum, e mame por certo desejar ajudar - tornou Magali.
- Nesse caso, tenho algumas economias que darei de bom grado para resolver essa histria - concluiu
Jlio.
- Garanto que no precisaremos muito. Vero. Agora, vamos aos detalhes.
A idia era simples. Esperavam que ao saber do prximo
213


casamento de Mariazinha, Rino tentasse impedi-lo de forma violenta. Ento seria apanhado. Tanto Rino
como Jlio seriam seguidos o tempo todo.
Quando se separaram, havia ansiedade e esperana em cada um. No dia seguinte, Nair, como que por
acaso, passou pelos locais onde Rino costumava ficar com um ou outro amigo. Parou, olhando a vitrine
de uma sapataria, bem prxima de onde ele estava.
Rino aproximou-se imediatamente. Havia dois dias que se sentia angustiado e preocupado.
- Nair, como vai? Preciso falar com voc.
- Ol. Eu vou bem. O que quer?
- Saber de Mariazinha. Como est ela?
- Muito bem, obrigada.
Ele hesitou um pouco, depois continuou:
- Ela sumiu. No a tenho visto.
- Continua trabalhando no mesmo lugar.
- Tenho circulado  noite e nunca mais a vi.
- Agora, ela quase no sai  noite.
- Por qu? Aquele palhao ainda anda por l?
- No fale assim do Jlio.  um moo muito bom. Eles vo se casar logo.
Rino empalideceu:
- Casar? Com aquele pateta?
- Ela gosta dele. Acho bom voc no se meter nisso. Aceite a idia, ser melhor para voc.
- Mariazinha  minha e nunca se casar com ele!
Nair sentiu um arrepio pelo corpo, percebendo o dio com que ele dissera essas palavras.
- Melhor se conformar. Dentro de um ms estaro casados. Rino apertou os lbios com raiva, fazendo
evidente esforo para controlar-se. Seu sonho fora um aviso. Precisava agir o quanto antes! No devia
demonstrar sua revolta. Precisava evitar suspeitas. Por isso disse com voz que procurou tornar firme:
- Se ela de fato fizer isso, nunca mais quero v-la. Odi-la-ei para sempre.
Nair no sabia se sentia mais receio quando ele demonstrava ser violento ou quando tentava controlar-se.
Movida por sincero impulso, disse-lhe com suavidade:
- Rino, esquea Mariazinha! Ela no o ama. Por que insistir se isso
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o torna infeliz? Por que no tenta encontrar outra pessoa que possa am-lo verdadeiramente? Forar uma
situao nunca daria certo. Deixe disso enquanto  tempo!
- Ela ainda no se casou! As coisas podem mudar...
- Ser difcil. Eles se amam e tudo j est preparado. -Veremos!
- O que vai fazer?
- Eu?! Nada. Tenho esperanas, s isso.
Mais tarde, quando relatou o encontro ao resto do grupo, ao final Nair aduziu:
- Apesar de nervoso, ele fez tudo para controlar-se. Mas eu senti que ficou muito abalado.
- Ser que engoliu a isca? - perguntou Jlio.
- Por certo - aduziu Vanderlei. - Agora vocs devem agir como se fossem mesmo se casar logo. Sabe
como so essas coisas. Compras, igreja, etc. Ns faremos o resto.
Nos dias que se seguiram, nada aconteceu. Uma semana antes do dia em que eles haviam marcado para o
falso casamento, tudo seguia como sempre. -Mariazinha e Nair comearam a desanimar. Estariam mesmo
na pista certa? E se o Rino fosse inocente?
Quatro dias antes do prazo, Vanderlei procurou o grupo.
- Tenho novidades! Comeo a achar que ele desistiu.
- Por qu?- quis saber Jlio.
- Comprou passagem para o exterior e embarca para Nova York.
- Ter desistido? - inquiriu Nair.
- Parece. Em todo caso, o Mendes no o perde de vista. Vamos ver se embarca mesmo - informou
Vanderlei.
- Nesse caso, o que faremos? - quis saber Magali.
- Continuaremos vigilantes. Ele pode ter deixado com outra pessoa a incumbncia.
- Talvez estejamos todos enganados - tornou Mariazinha.
- Pode ser. Mas no convm facilitar.
- Se no houver sido ele, voltamos  estaca zero - comentou Magali. - O Jovino est to esperanoso!
- O que no podemos  desanimar. Seja como for, continuaremos investigando.
- E se houver sido um ladro comum? E se a turma do Rino nada tiver com o crime? - perguntou
Mariazinha.
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- A veremos. Eu porm no creio nisso. Alguma coisa me diz que eles mataram Alberto. Seja como for,
no descansarei enquanto no descobrir a verdade - disse Jlio.
- Concordo - ajuntou Vanderlei.
Entretanto, nos dias subseqentes nada aconteceu. Rino embarcara na noite marcada, e eles foram
forados a admitir que o plano no surtira efeito. Chegaram a desanimar. No havia nenhuma outra pista
que eles pudessem seguir. Como descobrir a verdade?
Magali pensava no Alberto. Ele podia ajudar. Se ao menos ele aparecesse para dar uma pista! Todas as
noites, ao se deitar pensava nele e pedia-lhe auxlio.
Nesses momentos, muitas vezes o esprito de Alberto fora atrado ao local. Quando isso ocorria, tentava
confortar Magali, abraando-a, sugerindo-lhe pacincia e calma.
Ele tambm pensava no Jovino preso. Porm, mais lcido e amadurecido, compreendia que libert-lo no
estava em suas possibilidades. Havendo recordado o passado, conhecendo as necessidades de cada um,
percebia que apesar de tudo, Jovino estava aprendendo valiosa lio que muito o auxiliaria no
desenvolvimento de sua maturidade.
Apesar disso, desejava muito poder libert-lo. Havia consultado especialistas do comportamento, e o lder
espiritual da sua cidade. Todos foram unnimes em afirmar que no seria possvel ajudar um elemento em
separado. Era preciso beneficiar todos os envolvidos.
A princpio, ele discordara. No seria justo. O Jovino estava indo bem. Por que teria de esperar que os
outros tambm melhorassem?
Cludio, seu assistente espiritual, explicou com simplicidade:
- Ele melhorou, progrediu, mas no o bastante.  preciso entender que ns no comandamos a vida.
- Tenho aprendido aqui que ns criamos nosso destino. Somos donos dos nossos pensamentos. Se os
modificarmos, toda nossa vida tambm mudar. Por que no funciona com ele?
- A lei  universal. Ningum est fora dela.
- O que est errado? Por que ele no consegue sua liberdade se j mudou sua forma de pensar? Se j
aprendeu a no julgar sem provas?
- Nada est errado. Voc pode controlar sua mente, escolher pensamentos melhores e mais verdadeiros,
acreditar e perceber novos e elevados valores, contudo, para mover as coisas  preciso mais. Para
influenciar e reorganizar os fatos,  preciso emitir o teor de energia adequada.
216


O que move os acontecimentos, modificando-os para melhor,  a qualidade da energia. Ela  a fora que
transforma, que cria.
- No conseguimos fazer isso pelo pensamento?
- O pensamento  o caminho. Quando voc pe f nele, acredita, gera sentimentos que, admitidos e
cultivados, produzem emoes e energias.
- Estamos sempre produzindo energias. Somos emocionais.
-  verdade. Estamos sempre movendo os fatos com ela. A experincia demonstra que espcie de energia
emitimos e assimilamos. Para harmonizar nossa vida, ser feliz, alcanar paz e equilbrio, alegria e
entusiasmo, s h um meio: sentir o amor! Essa  a energia chave. O amor gera energia capaz de mover
fatos, pessoas, modificar para melhor os acontecimentos.
Alberto baixou a cabea pensativo. Apesar de mais maduro, Jovino ainda no chegara a esse ponto.
Inquietou-se:
- No  fcil. No caso do Jovino, por exemplo...
- No se inquiete. Ele est indo muito bem. No guarda mgoa, embora esteja triste.
- Mas da a sentir amor...
- Ele est mais prximo do que imagina. E voc? O que sente? -Eu?!
- Sim. Em relao ao crime do qual foi vtima.
- Conformei-me. Sei que errei muito no passado.
- Se quer ajudar o Jovino,  preciso mais.
- Estou me esforando. Porm, as barreiras so enormes. No sei o que fazer.
- As barreiras parecem grandes quando nos sentimos pequenos. Quando nos posicionamos
adequadamente, todas as portas se abrem.
- De que forma?
- Lembre-se que a energia do amor incondicional  o elemento mais poderoso do universo.
- Como chegar a ele?
- Percebendo que as outras pessoas so uma extenso de voc mesmo. Compreendendo-as nas fases de
experincias onde se encontram, sabendo que assim como voc, elas tambm aprendero. No h quem
valha mais, nem menos. Apenas os que j sabem e os que ignoram. Poder am-los se sentir neles a
criana espiritual.
Alberto ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
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- E o Rino? Devo olh-lo dessa forma?
- Se puder!
- Ele me tirou a vida!  perigoso. Preciso defender os meus. Ele  mau. Pouco se importa se um inocente
est preso em seu lugar. Ao contrrio, forjou provas contra o Jovino, colocando em minha mo aquele
cachecol que ele havia deixado cair no dia da briga, para incrimin-lo. Ainda agora, pensa em matar o
Jlio!
- Ele acha que est se defendendo! Sente-se preterido. Voc j o olhou sem esse sentimento de rancor?
- Est enganado. Eu no o odeio. Ao contrrio. J o perdoei. Mas no posso permitir que ele prejudique
pessoas inocentes.
- Todos somos iguais. O mal  s iluso! A realidade s nos aparece quando percebemos isso. Voc se
defende tanto quanto ele. Tem a pretenso de poder impedir fatos que no esto em sua mo modificar.
- Essa impotncia me desespera!
- Por que no tenta outro caminho? No percebeu que esse  enganoso, ineficiente?
- Como chegar  verdade?
- Percebendo que o mal  iluso. Olhando o Rino como um ser carente de sua ajuda, tentando ampar-lo.
-Eu?!
- Que melhor chance para provar que no guarda rancor? No acha que ele est iludido o bastante quando
pensa que, ferindo seu corpo, o matou para sempre? Sobre quantas outras coisas ter uma viso
distorcida? Se quer ajudar o Jovino,  esse o esforo que deve fazer. Tente compreender o Rino e inspir-
lo a perceber a verdade. Esse  o ponto importante do caso.
- Como fazer isso?
- V e prometo ajud-lo.
Alberto retirou-se pensativo. Precisaria de muito esforo para poder pelo menos pensar na possibilidade
de ajudar Rino. S ao pensar nele, sentia forte rejeio. No pensava em vingar-se. Isso no. Sabia que a
vingana s lhe traria sofrimentos. Entretanto, para ser bem sincero, esperava que a vida fizesse justia,
castigando-o pelo crime cometido.
Afinal, era um direito - pensava. - Quem mata, agride o sagrado direito  vida, logo, precisava ser
corrigido. No estava ele mesmo pagando alto preo pelo crime que cometera? Assim como ele fora
justiado,
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esperava que seu assassino tambm o fosse. Por que deveria auxili-lo? O Antunes nunca o ajudara. Era
verdade que ele era mais necessitado do que ele prprio. Por certo no teria meios para isso.
Mil indagaes acudiam-lhe  mente, e ele tentava respond-las sem xito. Ajudar o Rino! Se a liberdade
do Jovino dependesse disso, por certo seria difcil libert-lo.
No se conformando com a situao, circulou em volta de Magali e seus amigos, aproximou-se de Rino,
tentando descobrir o que ele pensava dos planos de Mariazinha e Jlio.
Rino ocupava-se em preparar uma mala para viajar. Vendo-o, Alberto sentiu-se ligeiramente tonto,
enquanto uma dor no peito o fez recordar o mortal ferimento. Reagiu.
-  s impresso - pensou. - Tudo j passou. Eu estou muito bem agora.
Aos poucos, sentiu-se melhor. Lembrou-se da tarde em que Rino tentara abraar Mariazinha, e ele a
defendera interpondo-se entre ambos. Rino sentira sua presena. Pde perceber isso.
- Preciso ter calma - pensou. - No posso me descontrolar. Se fizer isso, Cludio no me ajudar. Eu
preciso muito da sua ajuda.
Gastou alguns minutos em acalmar-se, procurando pensar nos amigos que o ajudaram em seu atual
estado. Estava se sentindo melhor quando viu que uma mulher de aparncia jovem mas inquieta,
aproximou-se de Rino, abraando-o apaixonadamente, dizendo-lhe ao ouvido:
- Meu amor! Sou eu. Estou aqui. Voc no pode me ver, mas eu voltei. Veja, sou a mesma de outros
tempos. Breve estaremos juntos e nada nos h de separar. Ela nos separou, ela nos unir de novo.
Rino no podia v-la, porm, sentiu uma onda de paixo. Em sua mente desenhou-se a figura de
Mariazinha e ele pensou:
- Eles pensam que me enganam! Esto cegos. No sabem com quem esto lidando. Tentam me enganar.
No h nada marcado na igreja e os proclamas sequer correram. Era mentira da Nair.
O esprito de mulher no percebera a presena do Alberto e abraando-o ainda mais, segredou-lhe:
- No  bem assim! Eles vo se casar mesmo. Vai facilitar? Eu os vi aos beijos, aqueles traidores.
- Eles esto juntos! - pensou Rino, enraivecido. - Com certeza beijam-se!
Tinha que separ-los. Precisava tirar Jlio do caminho. Seu plano
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era bom e o poria em prtica. Viajaria para o exterior, com alarde e grandes preparativos. Planejava
voltar, sem ningum saber, liqidar o Jlio e voltar. Tinha tudo preparado. Possua at um passaporte
falso onde colocara foto sua com a peruca e o bigode postio que pretendia usar como disfarce. Faria o
servio e ningum poderia culp-lo. Desta vez, no haveria testemunhas como da outra. Ningum saberia
de nada.
- Isso mesmo - segredou ela - deve reagir. Cuidado! Eles preparam uma cilada. No facilite!
- Todo cuidado  pouco - pensou ele.
Elaborara tudo, no poderia falhar. Ningum desconfiaria de nada.
Deitou-se, porm no conseguiu dormir. A lembrana de Mariazinha o perseguia. O esprito de mulher
permanecia a seu lado, abraando-o apaixonadamente.
Alberto notou que ela pensava em Mariazinha, visualizando seu rosto enquanto dizia ao ouvido de Rino:
-  ela! Ela me deve ajuda.  com ela, meu amor, que realizaremos nossos sonhos. Voc precisa casar
com ela. Depois,  s deixar comigo. Sei como domin-la.
Rino remexia-se no leito, perturbado por pensamentos erticos. Alberto surpreendeu-se. No esperava por
isso. Como no percebera antes? Rino estava sendo pressionado por ela.
Observando a energia escura e viscosa com que ela o envolvia, descobriu que ela mantinha grande
ascendncia sobre ele. Teria ela sido inspiradora do crime que o vitimara? Rino seria tambm uma
vtima?
Sentiu-se atordoado. Mil idias misturavam-se em sua mente e ele desejava saber a verdade. Recordando
o passado, encontrara causas inesperadas para o que lhe acontecera, mas e o Rino? No o conhecera
antes, por que lhe tirara a vida? Sabia que todo efeito possui uma causa. Por que exatamente ele? Por que,
em meio a tantas moas bonitas que conhecera na Terra, fora interessar-se por Mariazinha? No se
lembrava de hav-la conhecido em vidas anteriores.
Sentou-se a um canto do aposento pensativo. Apesar da mulher no o notar, ele podia sentir a energia
envolvente que ela emanava. Sabia que seria perigoso abord-la. Aprendera que certas emanaes
mentais so to fortes e destrutivas que seria melhor evit-las, uma vez que ele ainda no estava imune a
elas. Por isso, ficou ali observando sem interferir.
220


Notou que Rino estava totalmente dominado por ela. Agitado, insone, por fim apoderou-se de um vidro
de plulas tranqilizantes e ingeriu algumas.
- Dorme, meu bem. Eu vigiarei seu sono.
Rino acomodou-se e logo adormeceu. Seu duplo, porm, ficou ali, sobre o prprio corpo, sem
conscincia, enquanto que ela, abraada a ele, prazerosamente acomodou-se feliz.
Alberto sentia-se inseguro. Reconhecia que Rino no estava em condies de agir por si mesmo.
Compreendeu por que Cludio lhe dissera que precisavam ajud-lo. Apesar do que vira, ainda no se
dispunha a faz-lo, porm, ter raiva de algum to infeliz, obscurecido e sem lucidez para discernir, era
desigual. Se pudesse, teria ficado frente a frente com ele e lhe pedido contas pelo crime. Todavia, agora,
como faz-lo? Como responsabilizar um alienado? E ela? At que ponto estaria envolvida?
Angustiado, resolveu voltar e procurar Cludio. Precisava esclarecimentos. No se sentia com foras para
decidir nada.
Quando Magali encontrou Vanderlei, notou logo sua contrariedade.
- O que aconteceu? - perguntou curiosa.
- Nosso pssaro bateu asas.
- Como assim?
- Foi embora. Viajou para o exterior, em grande estilo, como se nada fosse. Com a despedida dos amigos,
etc.
-No diga! Quer dizer que...
- Nosso plano no deu certo. Das duas uma, ou ele no acreditou ou no ligou.
- Ser?
- No sei. Agora voltamos ao ponto de partida. Nosso suspeito no mordeu a isca.
- E agora, o que faremos?
- No sei. No vou afrouxar a vigilncia. Ele pode ter viajado para no despertar suspeitas e haver
encarregado algum de executar o servio.
- Voc acha?
- Acho. Tudo parecia to claro! Nair disse que ele empalideceu com a notcia do casamento.
- Estar querendo despistar?
- Pode ser. Em todo caso, h a hiptese dele haver descoberto a
221


verdade. Que o casamento no estava marcado realmente. Devamos ter agido de outra forma. Jlio disse-
me que pretende casar-se dentro de alguns meses. Seria bom que adiantasse essa data.
- Por qu?
- Para no haver margem de dvida. Quem nos garante que ele tenha investigado?
- Ser?
- Em todo caso, no afrouxarei a vigilncia. Quando menos se espera, eles podem tentar alguma coisa.
Foram at a casa de Mariazinha. Sabiam que o Jlio estaria l. Vanderlei foi logo contando a novidade.
- Nos enganamos - comentou Mariazinha com certo alvio.
- No diria isso - tornou Jlio pensativo. - Ele pode estar despistando.
-  o que eu penso. Entretanto, a notcia do casamento era falsa. Teria ele descoberto?
- O que faremos agora? - indagou Jlio.
- Ainda no sei. Manteremos a vigilncia. No confio nem um pouco naquele sujeito. Pode haver
preparado algo e ter viajado para despistar. Uma coisa seria muito bom fazer.
- O que ?- perguntou Jlio.
- Apressar o casamento. Gostaria de saber o que ele faria.
- Por mim, poderia ser amanh. Mariazinha  quem deseja esperar um pouco mais, terminar o enxoval.
- De fato. Sabe como , no d para comprar tudo de uma vez. Fao questo de levar tudo direitinho.
- Posso entender isso - comentou Vanderlei - mas diante das circunstncias, esse fato poderia resolver
nossos problemas.
- Comeo a pensar que sim - interveio Magali. - Se voc no se ofender, gostaria de fazer-lhe uma
proposta...
- Qual ? - indagou Mariazinha.
- Ajud-la a comprar o que falta no enxoval. Por favor, no se ofenda. Seria um emprstimo. Voc me
pagaria quando pudesse. Sabe, no vejo a hora de libertar o Jovino. Isso no tem preo.
Jlio segurou a mo de Mariazinha e apertou-a com carinho. Abraou-a dizendo:
- Por favor! Aceite. Sei que  de corao. A moa, corada, no sabia o que dizer.
222


- Aceite, Mariazinha. Deixe-me cooperar com a soluo deste caso.
- No sei... Quem nos garante que daria certo?
- Bem... garantir, no podemos. Contudo, tentar  um direito nosso - opinou Vanderlei.
- No sei se minha me vai concordar.
- Com D. Isabel falo eu. Sei como convenc-la.
Mariazinha sorriu. Sabia que sua me gostava muito do Jlio. Ele no lhe deu tempo para responder e
continuou:
- Marcaremos o casamento para daqui a uma semana.
- Isso no ser possvel. H o prazo mnimo para correr os proclamas etc. Digamos que para daqui a um
ms. Costuma levar mais tempo, mas tenho um amigo que poder ajudar - concluiu Vanderlei.
- Est resolvido. Casaremos dentro de um ms. Amanh mesmo tomaremos todas as providncias -
resolveu Jlio. - Vamos agora falar com seus pais.
Jlio e Mariazinha entraram para tratar do assunto, enquanto que Magali e Vanderlei permaneceram na
varanda conversando animadamente, planejando tudo para o casamento. Meia hora depois, os dois
voltaram:
- Eles ficaram assustados. Custaram a concordar - disse Jlio. - Posso compreender. -lhes penoso
separar-se da filha. Desejaram ret-la mais tempo. Contudo, acabaram aceitando. Afinal, desejam muito a
nossa felicidade.
- Vai dar tudo certo - considerou Magali. - Como faremos? Se quiser, posso ir com voc, ajud-la nas
compras. Adoro fazer isso!
- Obrigada. Aceito com prazer. Voc tem muito bom gosto. Vai ser timo!
- Posso ir junto? - indagou Jlio.
- De forma alguma! Algumas coisas que vamos comprar o noivo s vai ver no dia do casamento! - disse
Magali com alegria.
-  bom ir treinando - ajuntou Vanderlei - quando for a sua vez, saber como proceder.
Magali corou e sorriu. Gostava de Vanderlei, do seu riso franco, seus olhos castanhos e brilhantes, e do
sentimento terno que algumas vezes surpreendera neles. No sabia se estava apaixonada por ele. Sentia
alegria em estar a seu lado, em conversar, e quando ele a tocava, um
223


arrepio de prazer lhe percorria a espinha. Seria amor ou estaria apenas sendo grata pelo que ele estava
fazendo?
No tinha pressa. Ele nunca lhe dissera nada a respeito. No gostava de forar nada. Se alguma coisa
verdadeira comeasse a existir entre eles, se definiriam na hora certa. No desejava precipitar-se.
Conversaram animadamente, combinando os detalhes e a maneira ostensiva pela qual divulgariam o
casamento.
Os amigos de Rino precisavam saber. Se nada acontecesse, pacincia. Vanderlei acreditava seriamente
que as coisas podiam ser diferentes. Avisaram Nair que logo prontificou-se a ajudar. Conhecia algumas
comadres que poderiam ajud-los muito. Era contar-lhes as novidades e logo o bairro inteiro saberia.
Dois dias depois Rino no exterior recebia um telefonema de um amigo. Colocado a par do prximo
casamento de Mariazinha, sentiu um aperto no corao.
Contudo, no queria que ningum desconfiasse dele, nem seus amigos mais ntimos. Fingiu estar
conformado:
- No adianta mais nada. Ela no me quer mesmo. Resolvi desistir. Que se casem e nunca mais cruzem o
meu caminho!
- No vamos fazer nada? Deixar aquele safado vencer essa?
- Quem disse que ele vai vencer? Em qualquer tempo podemos dar-lhe uma lio. S que agora, no
quero fazer nada. As coisas aqui vo melhor do que eu esperava.
- Tem mulher no pedao?
- Claro! Agora eu estou interessado em outra. E ela est caidinha. O outro riu divertido.
- Estava na hora de esquecer essa provinciana da Mariazinha.  isso mesmo. S no me conformo
daquele intrometido sair ganhando.
- No se aborrea, Lineu, que ele no perde por esperar - garantiu Rino. - Veremos quando eu voltar.
- Quando vai ser isso?
- Daqui uns dois meses ou mais. Enquanto as coisas estiverem boas aqui, vou ficando.
- Feliz de voc que tem pai rico. Se eu fosse voc, morava mesmo a, nos States.
Quando desligou o telefone, Rino trincou os dentes com raiva.
- Ele vai ver o que vou aprontar - resmungou.
O plano estava todo em sua cabea. Compraria passagem de ida
224


e volta para So Paulo, com nome suposto, conforme os documentos falsificados. Usaria disfarce,
viajaria, se hospedaria em um hotel. Conhecia os hbitos de Jlio, seus horrios, etc. Ia ser fcil. Daria
cabo dele e em seguida, antes mesmo que o corpo fosse descoberto, regressaria. Ningum saberia de
nada. Nem seus amigos mais ntimos. No haveria nenhuma suspeita contra ele. Estaria a salvo. Quando
voltasse, teria tempo de convencer Mariazinha a aceit-lo. Desta vez, ia dar certo!
225


Captulo 17
Jovino, estendido no leito exguo, olhos presos no teto da cela, pensava. Apesar do apoio de Magali e seus
amigos, sua situao no se modificara. Continuava preso, por um crime que no cometera.
Muitas vezes tentara entender o porqu do que lhe acontecera, sem conseguir. Chegara a pensar que sua
indigncia, sem famlia, dinheiro, nome importante, houvesse sido a causa principal.
- Rico no vai pra cadeia!
Essa frase era comum no presdio. Contudo, estava ali h mais de trs anos e sentia que havia algo mais.
Depois de haver se interessado pelas idias espiritualistas, de descobrir que os mortos esto vivos no
outro mundo, muitas coisas mudaram em sua cabea.
Lera livros, compreendera que havia um poder superior comandando os acontecimentos. Mas, ao mesmo
tempo, j que esse poder existia, atuante, por que o mantinha preso? Deus sabia que ele era inocente! Por
que o castigava, mantendo aquela situao to dolorosa?
D. Aurora nunca fora visit-lo. Magali lhe dissera que ela acreditava em sua inocncia. Seria verdade?
Por que no fora confort-lo?
Por outro lado, as investigaes de Vanderlei no avanavam na descoberta da verdade. Estavam como no
comeo. Suspeitas, s suspeitas.
Havia uma barreira impedindo sua libertao. Por qu? Qual o mistrio que havia por trs do seu destino?
Teria mesmo vivido outras vidas? Estaria nelas, a resposta?
Levantou-se angustiado.
- Se ao menos eu pudesse fazer alguma coisa... - pensou -  horrvel ficar aqui, de mos atadas.
Sentou-se no leito. As luzes se apagaram.
- Hora de dormir - pensou. Estendeu-se no leito, mas o sono no vinha.
- No posso mudar as coisas, mas posso pedir. Essa fora que me colocou aqui, que  mais forte do que
eu, sabe a verdade. Deus  o poder maior. Ele pode tudo!
Naquela hora, sua prpria impotncia fazia-o sentir que s Deus poderia ajud-lo. Sentindo forte emoo,
jovino suplicou a ajuda de Deus.
226


Ele queria ser livre! Queria trabalhar, ter famlia. Queria que D. Aurora, o dr. Homero e o Rui soubessem
que ele no matara Alberto. Suplicava pela liberdade. Porm, se ele no pudesse obt-la, por alguma
razo superior, que pelo menos pudesse descobrir e entender a causa. A idia da injustia de que fora
vtima o machucava.
Depois disso, sentiu-se mais calmo. Aos poucos, a angstia foi diminuindo at que finalmente adormeceu.
Alberto, saindo do quarto do Rino, perturbado e inseguro, procurara Cludio em busca de ajuda. No se
sentia ainda em condies de perdoar seu assassino, no entanto, reconhecia que ele estava em m
companhia, envolvido e manipulado por ela.
Exps seus sentimentos, e Cludio disse com simplicidade:
- Rino  um doente.  bom que perceba isso.
- Isso no justifica um crime.
- Claro. No se trata de justificativa, mas de perceber a causa do comportamento dele.
- Est influenciado por aquela mulher, mas se afina com ela.
-  verdade. Ambos so doentes e fora da realidade.
- Como evitar isso? So perigosos. Esto pensando em fazer mais uma vtima! O que podemos fazer para
impedir?
- Ns? Nada.
- Eles pensam em matar o Jlio. Precisamos det-los! Cludio olhou Alberto nos olhos e respondeu com
voz firme:
- H certos acontecimentos que no podemos modificar.
- Vai deix-los fazer o que planejam?
- Voc acha que os poderia impedir?
- Eu?! No sei. Talvez ficando ali, transmitindo pensamentos bons, algum conseguisse alguma coisa.
- Foi o que eu disse. Que ele precisava de ajuda. Deseja tentar?
- Eu?! No seria a pessoa mais indicada.
- Por que no?
- Quando o vejo, no sinto bons pensamentos. Ele me tirou a vida. No consigo esquecer isso. Aquele
momento ainda no se apagou da minha mente.
- Se conseguisse perdoar, seria muito bom para voc. No desista. Continue tentando.
- E no vai fazer nada quanto a eles? Vai deix-los matar um inocente?
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Cludio respondeu com voz suave, porm firme:
- Quem lhe disse que detemos esse poder? Eles cometerem esse crime, no depende de ns. Se
pudssemos, por certo o impediramos. Esquece que esses acontecimentos obedecem a outros fatores. Se
o Jlio no for pessoa assassinvel, ningum nunca conseguir mat-lo!
Alberto surpreendeu-se:
- Pessoa assassinvel? Existe isso?
- Voc no percebeu ainda? Cada um tem o poder de criar seu prprio destino. Quando escolho minhas
crenas, atitudes, atos, estou criando as experincias em minha vida.
- Existe esse fatalismo?
- At certo ponto, sim.
- Quer dizer que eu era assassinvel?
- Claro. Pelas razes que sabe, voc carregava essa possibilidade. Se no fosse o Rino, teria sido outro.
Qualquer pessoa com impulsos de matar, seja pelo motivo que for, seria atrada por voc e acabaria por
mat-lo.
Alberto admirou-se ainda mais:
- Quer me convencer de que eu sou culpado dele haver me matado?
- No gosto de falar em culpa. No estamos aqui querendo justificar ou criticar ningum. Estamos
tentando entender.  claro que se voc no acreditasse em violncia como soluo dos seus problemas, as
coisas teriam sido diferentes.
- Quando descobri que eu tambm havia matado o Antunes, j entendi que o que me acontecera fora um
castigo.
- Preferia que no pensasse dessa forma. Deus no castiga ou pune ningum. Apenas ensina, tornando-nos
mais conscientes da realidade. Voc no pagou pelo crime. Voc acreditava na violncia, na vingana
como soluo. Sua experincia era para ensin-lo que a violncia no soluciona nada, s agrava. Ainda
agora, voc pretende impedir o Rino de ser violento. Gostaria que usssemos at a fora para tentar det-
lo, no  isso?
- Por certo. Uma doena, um acidente, algo que o detivesse sem condies de fazer o que pensa.
-Esse pensamento demonstra que ainda no aprendeu a sua lio de agora. Gostaria que pensasse nisso.
No  a fora que impede o mal. Quanto mais nos preocupamos com ele, mais energia lhe damos. O que
nos imuniza  fazer o bem.  vibrar em freqncia superior.  sair
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da faixa negativa. Para defender-se, basta no acreditar mais na violncia como soluo. Quando fizer
isso, estar imunizado. Ningum o atingir.
- No ser perigoso?
- Perigosa  a sua crena de que o mal  forte. Cuidado porque se apesar do que j passou no aprender a
inutilidade da violncia, pode acontecer-lhe coisa pior.
- Acha isso? Depois do que passei, no estou quites com a lei de Deus?
- A Lei no est cobrando nada. No se iluda. Se ainda achar que a violncia  indicada, estar atraindo
mais violncia em sua vida.
- Meu Deus! O que ainda pode me acontecer?
- No sei. Como o esprito  eterno, voc tem muito tempo pela frente.  s esperar.
- O que posso fazer para sair disso?
- Primeiro, olhar dentro de voc. Perceber seus verdadeiros sentimentos. Analisar suas crenas, tentar
descobrir as causas reais dos acontecimentos que modificaram sua vida. Faa isso. Depois falaremos.
- Farei. E quanto ao Rino?
- Pense no que eu lhe disse. Na forma como poder ajud-lo. Em todo caso, confie no bem. O Jlio pode
no ser assassinavel...
- Se isso for verdade, o que acontecer?
- Bem, nesse caso, o feitio pode virar contra o feiticeiro!
- Como saber?
- Se quer tentar descobrir, se deseja mesmo ajudar, pode ir v-los. Dou autorizao. Observe e se precisar,
venha ver-me.
- Obrigado, Cludio. Farei isso.
Preocupado com Rino, Alberto foi v-lo. Tinha esperanas de que ele houvesse desistido de seus intentos.
Percebeu logo que ele continuava determinado, preparando-se para a execuo do seu plano.
Lembrando-se de Cludio, aproximou-se para tentar convenc-lo de seu engano. Vencendo a repulsa que
sentia, aproximou-se mais. Ele no registrara sua presena, poderia tentar convenc-lo com energia boa.
Pacientemente Alberto procurou esquecer o prprio problema e quando julgou-se mais calmo e sereno,
disse ao ouvido de Rino:
- Desiste enquanto  tempo! No mergulhe ainda mais nos enganos
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que tem cometido. A violncia s gera violncia e sofrimento. Desista dessa idia, antes que lhe acontea
coisa pior.
Rino no registrou o que Alberto dizia, porm, ele no desistiu. Continuou falando as mesmas coisas,
desejando que Rino o ouvisse. A certa altura, Rino sentiu-se apreensivo.
E se fosse descoberto? E se algo desse errado? Foi tomado de angstia.
- Estou tenso - pensou.
Mas a sensao persistia. Alberto alegrou-se. Podia dar certo! Mas de repente, o esprito da mulher que
descansava calmamente na cama de Rino, inquietou-se. No viu o Alberto, mas de um salto abraou
Rino, beijando-o carinhosamente nos lbios. Depois, colada a ele, disse-lhe com firmeza:
-Acalme-se, meu amor. Estou aqui. Nada lhe acontecer. Saberei defend-lo. No tema.  preciso casar
com ela. Tenho controle sobre Mariazinha. Ficaremos juntos para sempre. Ningum nos separar nunca
mais!
Rino respirou aliviado. Alberto percebeu a inutilidade de tentar persuadi-lo. Estava inteiramente
dominado.
Lembrou-se das palavras de Cludio. Precisava ajudar todos os envolvidos. No conhecia a mulher.
Quem seria? Por que cruzara seu caminho? Teria ainda coisas do passado que ele ignorava?
Tentou envolv-la com pensamentos de compreenso e amizade. Pareceu-lhe mais fcil faz-lo. No
sentia nada contra ela. Todavia, ela nem de leve registrou seu esforo. Teve que reconhecer que ela era
mais irredutvel do que Rino. Vendo que ele se preparava para a viagem, sentiu-se mais apreensivo. Saiu
dali, foi ver o Jovino.
Encontrou-o angustiado, em orao, querendo entender o porqu do que lhe acontecera. Abraou-o
comovido. Gostaria de libert-lo. No entanto, recordava-se que, naquela noite fatdica, quando
surpreenderam Maria na cabana com Antunes, fora ele quem o incitara a matar! Como pudera ser to
cego? Essa ingenuidade custara-lhe anos de angstia. Como fora precipitado. Julgara sem provas.
Conclura sem tentar conhecer a verdade.
Ele era o dono da verdade! Ele, o senhor de tudo, o guardio da "honra"da famlia. Ele que fora trado e
enxovalhado por uma mulher doente e desequilibrada e nunca percebera nada! Quanto orgulho, quanta
iluso! E agora? Se esses fatos se repetissem, como agiria? Teria
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pacincia para tentar entender? Calma para agir? Se descobrisse a traio de sua mulher, conseguiria
perdoar?
Sentiu uma onda de rancor brotar no corao. Como tolerar a traio? Como ser ridicularizado pelos
outros e no reagir? Nesse caso, seria indigno. Estaria conivente com o erro. O que faria? Claro, puniria
os culpados.
Maria era inocente. O erro fora execut-los sem dar-lhes chance de explicar. Todo adultrio deve ser
punido. Nesse caso, a morte seria justificada.
Lembrou-se das palavras de Cludio:
- Acreditar na violncia pode atrair para voc coisa pior. Como resolver sem aplicar corretivo?
Jovino deitou-se. A prece o acalmara. De repente, pensou no Alberto e sentiu-se angustiado novamente.O
que teria feito no passado? Qual o mistrio que os envolvia para que aquele pesadelo continuasse? Sentiu
aumentar sua angstia.
Alberto percebeu que fora sua inquietao que o perturbara.
- No tenho o direito de agravar-lhe os problemas - pensou. Procurou controlar-se. Relaxou. Orou. Vendo
o amigo mais sereno,
saiu dali. Foi ver Magali, tentar sentir se podia conversar com ela de alguma forma. No conseguiu.
Recorreu  Mariazinha. Encontrou-a na varanda de sua casa com Jlio.
Aproximou-se dela dizendo-lhe ao ouvido:
-  preciso ter cuidado. Redobrar a vigilncia. O Rino vai atacar.
- Jlio - disse a moa preocupada. - De repente, senti um medo! Jlio abraou-a tentando acalm-la.
- Bobagem. Medo de qu?
- No sei. Do Rino. Tive impresso de que ele vai aparecer para tentar impedir o nosso casamento.
- Que aparea. No tenho medo. No  isso que desejamos? Esclarecer de uma vez por todas a morte do
Alberto, libertar o Jovino e viver em paz?
- Estou preocupada. Tenho um pressentimento ruim.
- Pois eu no acredito na fora do mal. Tenho pensado muito. Desde o dia em que fui agredido.
- Voc sabe que eles so cruis.
- Sei. Mas descobri algo muito mais forte.
- O qu?
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- O motivo que me tornou indefeso  maldade deles.
- No entendo.
-  fcil. Tenho aprendido com os espritos que a melhor forma de nos defendermos,  nos ligarmos com
o bem, com a luz. Se nossa energia for superior, se nossas atitudes forem elevadas, o mal no ter ao
contra ns.
- Mas o Alberto era bom e foi vitimado. Voc  correto, leal e sofreu aquela agresso.
- Quanto ao Alberto no sei, no posso conhecer suas crenas. Contudo eu, desde que conheci voc e o
Jovino, fiquei com raiva do Rino. Desejei para ele toda sorte de punies. Esqueci que a violncia, a
punio, no esclarecem nem elevam ningum. No conheo nenhum criminoso que tenha se regenerado
por haver sido punido.
- Mas se foi o Rino o culpado do crime, precisa ser preso para livrar um inocente, acabar com a injustia.
- Eu podia desejar esclarecer a verdade, era justo libertar o Jovino, prender o verdadeiro culpado para que
ele no cometa outro crime. Mas no foi isso que eu fiz. Eu desejei puni-lo com raiva. Eu no compreendi
seu desequilbrio. Eu julguei, condenei e acreditei que a punio ia resolver tudo. Fazendo isso, baixei
meu padro de energias, fiquei sem defesa. Tornei-me igual a eles. Entende o que eu digo?
- Eles o teriam agredido de qualquer forma.
- No creio. S o bem tem poder. Quando eu creio no mal, ele se manifesta em minha vida.
- No sei, no. Sinto medo. Rino pode tentar coisa pior. Jlio abanou a cabea.
- Eu sentia raiva deles e isso os atraiu. Se eu estivesse ligado ao bem, teria acontecido alguma coisa que
os desviaria do meu caminho. Hoje eu compreendo isso. No desejo mal ao Rino. Sei que ele  um
doente. No posso cur-lo. Entrego isso nas mos de Deus. Se foi ele o assassino do Alberto, Deus
mover os acontecimentos no momento oportuno, do modo melhor.
- Nesse caso, devemos esquecer o assunto e deixarmos nas mos dele.
- O que no podemos fazer. Continuaremos procurando fazer nossa parte. Apoiando o Jovino, j que o
sabemos inocente, tentando descobrir a verdade. No para punir, mas para ajudar o Jovino e proteger a
sociedade. Sem dio nem desejo de vingar ou castigar.
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Mariazinha levantou-se na ponta dos ps e beijou o rosto do Jlio com delicadeza:
- Amo voc! Sua bondade me alegra.
-No  bondade,  defesa. Entende por que no tenho medo? Como no acredito mais em punio nem
em violncia, sei que estou protegido.
Alberto ouvia o Jlio surpreendido. Comeava a entender o que Cludio dissera. Talvez ele estivesse
sendo precipitado. O Jlio no seria assassinvel por que acreditava na fora do bem? Teria uma crena,
um poder assim to grande? Acreditar mudaria o andamento dos fatos?
Alberto sentiu-se mais calmo. A serenidade do Jlio e as palavras de Cludio, comeavam a faz-lo
sentir-se melhor. Pensou em sua vida. Teriam suas crenas, sua forma de enxergar as coisas, determinado
os acontecimentos? Cludio estaria certo ao afirmar que o crime do qual fora vtima no o deixava quites
com a Lei de Deus?
Sentia necessidade de pensar, ir fundo no assunto, rever suas idias, seus conceitos, descobrir a causa real
do que lhe acontecera. Claro que o crime que eles cometeram no passado, provocara os ltimos
acontecimentos. No havia dvidas quanto a isso, contudo, agora, parecia-lhe que as coisas no eram to
simples assim.
Haveria outras causas alm dessa? Precisava descobrir. Estava cansado de sofrer. Haviam-lhe dito que
Deus era bom e justo. Por que teria criado o mal com tanto poder?
Havia cometido erros, porm, agora, estava disposto a rever seus atos, a ajudar as pessoas as quais
prejudicara. Pretendia fazer o bem. Contudo, comeava a sentir que s isso no seria o bastante.
Como ajudar pessoas que se agarram s iluses e no querem ouvir? Sentia-se inseguro. Como ajudar?
Percebia a tragdia iminente, o que fazer?
Decidiu voltar. Foi procurar Cludio. Ele, mais adiantado em seus estudos e conhecimentos, poderia
ajud-lo.
S o encontrou no dia imediato. Cludio o abraou com alegria.
- Precisamos conversar - disse Alberto - estou confuso.
- Sente-se e fale. O que aconteceu?
- Por enquanto nada. Mas vai acontecer hoje ou amanh. No sei o que fazer... Preciso impedir o Rino de
cometer esse crime.
- J falamos sobre isso.
- Sim. Fui v-lo, tentei influenci-lo, nada. Garanto que me esforcei. Fiz o que pude, ignorei o
ressentimento, acho at que consegui,
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porque ele comeou a registrar minha energia boa. Porm, h aquela mulher. Ela o domina. Para ela, foi
mais fcil mandar boa energia, mas ela  uma rocha. No consegui nem toc-la. Fui atrs do Jovino, de
Magali, de Mariazinha.
- Acompanhei tudo. Sei o que aconteceu. Alberto suspirou.
- Isso facilita. Ento sabe como o Jlio pensa. No acredita que o mal possa vitim-lo.
- Eu sei.
- E ento? Isso ser o suficiente para defend-lo?
- No sei. O que acha?
- Isso  uma infantilidade. Uma crena no tem esse poder. Eu mesmo, na Terra, nunca pensei que seria
assassinado, no acreditava nisso, no entanto, eu fui.
Cludio sorriu:
- Voc sabe as causas que determinaram sua morte.
- Sei. Sei que fui um assassino em outra vida. Mas sei tambm que o fiz pensando ser o melhor. Em
defender a honra da famlia. A educao severa que recebi, colocava o adultrio como crime passvel de
morte. E as pessoas que ns matamos, eram inocentes daquele caso. Pelo menos, Maria era. Que crime
ela estaria resgatando? Teria matado algum em outras vidas? Por que ela?
- Fez-me muitas perguntas. Vamos por partes. Claro que voc, naquele tempo, agiu pensando em fazer o
melhor. Quem age pensando em fazer o pior? Por certo, havia "vantagens" que voc colocou em primeiro
lugar na escolha das atitudes daquela hora. O problema  que seus valores de adultrio, honra, etc, eram
fruto de conceitos humanos, sociais, enganosos e distorcidos. Quanto a Maria, o fato dela haver sido
vitimada pode advir de vrias causas. Poderia at haver cometido algum crime no passado, porm, eu sei
que ela no o fez.
-Ento porqu?
- Apesar de bondosa e honesta, era medrosa e passiva. Nunca deu valor a si mesma. Deixava-se dominar
com facilidade. Sentia-se menor do que os outros. Acreditava que os outros eram mais inteligentes, mais
fortes e bondosos do que ela.
- Ento no acreditava no mal, nem na violncia.
- Acreditava no perigo. Na fora bruta dos outros. Detestava brigas. Temia a violncia. Mas eu quero crer
que a causa mais provvel
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dela haver sido envolvida naquele caso foi que ela, acreditando-se inferior, menos capaz, desejava ser a
herona. Diante de si mesma e dos outros, queria ser considerada bondosa. Jamais negava um favor a
ningum, nunca dizia no.
-  verdade. Maria era amada por todos. Eu no entendo. Seria isso um mal?
- Veja bem. Ela no o fazia por amor. Por um sentimento natural. Ela o fazia para compensar, diante do
seu prprio julgamento, os lados que considerava ruins de sua personalidade. Por essa razo, no assumia
sua fora interior. Ao contrrio. Na medida em que se desvalorizava, declinava dela. E a, meu caro,
atraiu o domnio dos outros. Amlia a dominava com facilidade.
-  verdade. Amlia possua um magnetismo impressionante. Eu mesmo fiquei fascinado.
- Ela acreditava na prpria fora. Ningum a dominava.
- Eu sei.
- Se Maria fosse menos dependente, por certo no se prestaria a ir  noite, naquele encontro suspeito. No
teria sido envolvida.
- Quer dizer que a ingenuidade de Maria, sua inocncia, no tinham defesa?
- Claro. A ingenuidade  sempre preservada. Se Maria foi vitimada, foi porque ela no era mais ingnua.
A vida, meu caro Alberto, trabalha pelo melhor de cada um. Em vrias oportunidades, Maria pudera
perceber o prprio valor, como mulher, como pessoa e chegara a posicionar-se adequadamente com o
sogro, alis, homem teimoso e com a prpria Amlia. Voc deve lembrar-se de que houve ocasio em que
ela fez prevalecer sua opinio, porque estava segura no que afirmara.
- Eu sei. At meu pai voltou atrs, coisa muito rara nele. Ela estava certa.
- Foi isso. Quando voc j sabe, a vida no o protege. Espera que voc use a sua fora. Foi o que ocorreu.
Ela voltou a agir como dependente passiva, depois de haver demonstrado que possua condies de agir
melhor. Nessa hora, a vida no a protegeu. Foi isso. Ela vitimou-se.
-  incrvel! Custo a crer.
- Teste. Tem todo o tempo do mundo para isso.
- Nesse caso, quantas coisas poderiam ser causa dos nossos sofrimentos!
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-  por isso que o melhor conselho j foi dado por Scrates h muito tempo. Conhece-te a ti mesmo.
- Nesse caso, difcil prever o que vai acontecer com o Jlio. Como saber o que vai dentro dele? O que
pensa, o que sente?
- Por isso eu disse que no sei.
- O que posso fazer?
- Vibrar amor, visualizar o bem, esperar.
- Estou inquieto. No poderei fazer mais nada?
- Se fizer o que eu disse, estar fazendo tudo. Acalme-se. Inquieto, no far nem o que poderia. Pense que
voc no tem o poder para mudar as pessoas. Saiba que o mal no existe. Os fatos, se resultarem em dor e
sofrimento para os envolvidos, sero sempre o melhor que poderia haver lhes acontecido. A vida trabalha
sempre pelo melhor. No olhe os fatos com olhos dramticos. Todos eles so efeitos passageiros,
trabalhando em funo de uma causa maior: a conquista da sabedoria e da felicidade. Deixe nas mos de
Deus, porque ele sabe o que faz e faz tudo certo.
Alberto sentiu-se mais calmo. A certeza da prpria impotncia o incomodava, porquanto uma voz dentro
de si cobrava uma atitude. Descobrir que no possua poder para mudar os outros e que no precisava
fazer isso, deu-lhe grande alvio.
- V - disse Cludio. - Faa o que puder, mas guarde serenidade. Ela o far agir melhor e mais
eficientemente no momento preciso. A f no poder de Deus acalma e fortalece. Pense nisso.
- Se dispuser de tempo, gostaria de conversar mais. Checar algumas dvidas.
Cludio sorriu:
- Est bem. Volte quando quiser.
Alberto saiu. Sentia-se renovado. Um dia ainda entenderia melhor os mecanismos da vida. Sua sabedoria
o encantava. Resolveu ir ver Odete e depois voltaria  Terra.
Encontrou Odete aflita e chorosa. Queria ver o Jovino mas no obtivera permisso.
- Qualquer dias destes, vou me embora e fao o que eu quero. Aqui, vivo tolhida, dependente. No posso
fazer o que desejo.
Alberto tentou acalm-la.
- No seja ingrata. Voc tem recebido muita ajuda aqui,  s olhar voc agora e ver como melhorou.
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- Sei disso. E por isso que me agento. Mas, s vezes, penso que eles so muito devagar. Dizem que
precisamos esperar, e no agento mais ficar aqui, sem fazer nada enquanto o Jovino sofre na priso.
Alberto olhou-a srio, dizendo com voz firme:
- Voc conhece o passado. Sabe que contribuiu mais do que eu para a tragdia.
- No precisa me recordar a minha parcela de culpa. Sei que fui errada e sei que envolvi Maria nessa
confuso. Contudo, Joo no merecia sofrer. Sempre foi bom e amigo. Nunca me abandonou, apesar da
minha loucura. Isso me di. Desejo ajud-lo. A culpa maior foi minha!
- Tenho pensado muito, Odete, tentado entender como nos envolvemos nessa situao. Culpar qualquer
de ns no vai ajudar em nada. Assim como nossa ansiedade e angstia no vo libertar o Jovino. O
importante para mim agora est sendo compreender que no disponho de poder para mudar as pessoas e
os acontecimentos fora de mim. Descobri que meu nico e grande poder s atua dentro de mim mesmo.
Eu posso olhar no meu corao e tentar enxergar meus sentimentos, compreender que minhas crenas, ou
seja, os pensamentos e valores nos quais acredito, geram atitudes e elas  que atraem para mim todos os
fatos de minha vida.
- Como pode pensar em voc numa hora destas? Voc  um egosta!
- Engana-se. Quando eu equilibro e controlo meus pensamentos e emoes, quando eu melhoro o nvel
dos meus sentimentos,  que estou em condies para ajudar os outros. Ontem, fui ver o Jovino.
Encontrei-o bem, sereno. Contudo, eu estava to ansioso, angustiado, aflito, que quando o abracei ao
invs de ajud-lo como pretendia, acabei por transmitir-lhe minha angstia e descontrole. Precisei fazer
muita fora e orar para devolver-lhe o equilbrio. Entendeu?
Odete baixou a cabea com tristeza.
- Sim. J percebi que nossas energias refletem o que nos vai na alma.
- Eis por que voc no tem permisso para visit-lo. Quer somar sua revolta, seu descontrole, aos
sentimentos dele?
- Claro que no. Desejo v-lo para dizer-lhe que estou do seu lado. Dar-lhe foras, ampar-lo.
- Quando nos aproximamos das pessoas, nossas energias se misturam. No  o que voc gostaria que ele
vai sentir com sua presena,
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mas o que voc realmente sente no corao. No se deu conta de que sua visita poder angusti-lo ainda
mais?
- Eu o amo! Posso dar-lhe amor. Ele est s, abandonado naquele antro.
- Ningum est s. Voc sabe o quanto ele tem sido amparado.
- No agento esperar.
-  preciso. Tenho aprendido que a vida  sbia. Ele s ser libertado quando houver percebido coisas que
a experincia deve lhe mostrar. A, tudo ser facilitado, voc ver.
- Voc vai v-lo?
- Consegui permisso de estar com eles. Voc sabe, ningum mais do que eu deseja libert-lo.
- Ao regressar, traga-me notcias.
- Certamente. Agora preciso ir. Fique calma. Nossos orientadores sabem o que fazer. Aprenda a dominar
seus impulsos. Lembre-se que foi por causa disso que se envolveu neste drama. Faa alguma coisa em
favor de si mesma. V fazer um curso, trabalhar, ajudar os outros, aprender coisas, principalmente
desenvolver sua lucidez, tomar-se consciente. A maturidade equilibra e traz felicidade.  o que todos ns
precisamos.
- Vou esforar-me. Obrigada, Antero.
- Melhor me chamar de Alberto.
- Como queira.
Alberto resolveu ainda ver Cludio antes de partir.
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Captulo 18
Mariazinha levantou-se feliz e agitada. Faltavam cinco dias para o casamento e havia muitas coisas a
fazer. Pedira demisso do emprego. Jlio preferia v-la cuidando da pequena casa que haviam alugado,
no muito distante dos pais dela. Ele possua algumas economias e a haviam decorado com gosto. A firma
onde trabalhava havia alguns anos, dera-lhe promoo e ele sabia que podia progredir ainda mais. Era
estimado e gostava do que fazia.
Tudo decorria maravilhosamente bem. Seu Jos tambm possua economias, assim, Mariazinha comprara
seu enxoval sem precisar do emprstimo de Magali.
A moa apressou-se. Precisava ir  modista fazer a ltima prova do vestido de noiva. Sua me
encomendara o bolo de uma amiga e devia comprar os ingredientes para deixar na casa dela.
Isabel j a esperava com a mesa posta para o caf. Andava chorosa tentando encobrir a emoo.
- Estou sem fome. Tenho muita coisa para fazer hoje.
- Voc precisa alimentar-se. Mal toca na comida. Emagreceu. Pode adoecer.
- Estou muito bem.
- No pode sair sem comer. Mariazinha olhou a me e sorriu:
- Estou muito bem. Vou tomar caf com leite. Mas no quero ver sua cara triste. Afinal, no vou morrer.
Vou s casar!
- Credo. Vire essa boca pra l. Vai casar e vai sair de casa! Voc nunca se separou de ns. Isto aqui vai
ficar muito triste sem voc.
Isabel tentava conter as lgrimas. A moa tentou alegr-la.
- O que  isso? Vou morar aqui pertinho, virei v-los todos os dias. Amo Jlio. Vou ter minha casa, meus
filhos, ser feliz! No est contente com minha felicidade?
- Claro, filha! Estou feliz. Gosto do Jlio.  um bom moo. Mas  uma emoo que no posso evitar. No
ligue para isso. Sei que ser feliz.
- Obrigada, me! Voc sabe que ningum substituir voc e o pai em meu corao.
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Para alegrar a me, Mariazinha comeu o bolo que ela fizera especialmente, tomou o caf com leite e saiu.
Foi ao encontro de Nair que prontificara-se a ir junto. As duas seguiram conversando animadas.
- Ontem eu estive com o Lineu.
Mariazinha estremeceu. Nos ltimos dias esquecera-se do Rino.
- E a? Falou com ele?
- Falei. Sabe como . Eu queria saber do Rino.
- E ento?
- Bem, eu no sei se foi verdade, mas ele me contou a conversa que teve com Rino na semana passada,
por telefone.
- Ele continua nos Estados Unidos?
- Continua. O Lineu disse que ligou para ele e "casualmente" contou sobre o seu casamento e que ele nem
ligou. Parece at que arranjou outra por l e vai ficar mais tempo. Disse que ele est apaixonado.
Mariazinha suspirou aliviada.
- Ainda bem. Graas a Deus. Podemos acabar com esse pesadelo.
- . Eu tambm senti alvio. Por outro lado, e o Jovino?'
-  verdade. Como ajud-lo? E se estivermos enganados? E se no houver sido o Rino?
- No sei. Nesse caso, tudo volta  estaca zero.
- Seja como for, estou aliviada pelo Jlio. S em pensar que algo poderia acontecer-lhe, sinto um aperto
no corao.
- Em todo caso, est nas mos de Deus. No  o que D. Dora sempre ensina?
-  verdade. Desde que estou indo ao Centro, venho me sentindo muito melhor. Nunca mais tive
pesadelo. Parece que o Alberto sossegou.
- Ele bem que podia ajudar o Jovino. Ele conhece a verdade, sabe quem  o culpado.
-  mesmo. Eu penso que ele deseja ajudar. Sei que est tentando. Sinto que h uma barreira impedindo
isso.
- Tudo vem na hora certa. Vamos continuar nossas oraes. Mariazinha sorriu.
- Voc agora pensa mais em Deus, tem mais f.
-  mesmo. Depois do que aconteceu, sei que o mundo no  s o que podemos ver e tocar. H muito
mais alm disso. Depois, sinto-me bem indo ao Centro, parece que fiquei mais alegre. Meu irmo
melhorou no emprego e est mais feliz, minha me est com a sade equilibrada. Posso sentir como as
coisas mudaram, depois que passei a acreditar
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mais na espiritualidade, rezar mais e colocar Deus em minha vida. Devo tudo isto a voc.
- Sinto-me muito feliz. Gostaria que o mundo todo fosse feliz como eu.
- Vocs merecem. O Jlio ser muito bom marido. Talvez para voc fosse melhor esquecer o passado.
- Se no fosse o Jovino, eu poria uma pedra no assunto.  triste pensar que ele est preso l por um crime
que no cometeu.
-  mesmo. O Vanderlei tem procurado, mas at agora no encontrou nada.
-  desanimador. Chego a pensar que nunca encontraremos nada.
- Deus  grande. Nele devem estar nossas esperanas. A noite, Mariazinha conversou com Jlio.
- O Rino no nos dar trabalho. Est longe e perdeu o interesse.
- Apesar do Jovino, sinto-me mais calmo por sab-lo longe de voc. No vir mais importun-la.
No dia seguinte, telefonou ao Vanderlei para dar-lhe a notcia:
- Nosso homem desistiu - disse.
- Tem certeza?
- Tudo indica que sim.  melhor parar com a vigilncia.  pura perda de tempo.
- No penso assim. Quem nos garante que esse tal Lineu procurou despistar? Faltam poucos dias e no
devemos facilitar.
- Exagero seu. Esse no nos dar mais trabalho. Sinto pelo Jovino, mas o que podemos fazer?
- Mesmo assim, no vamos parar.
- Voc deixou a ativa, mas continua policial.
- Faro, eu sempre tive. Voc sabe disso.
- Vou estar muito ocupado nestes dias. Vai ser difcil pensar em outra coisa. Tenho muito o que fazer.
Ser muito trabalhoso vigiar-me.
- No se preocupe. Faa o que precisar e deixe comigo.
- Voc  teimoso mesmo. Esse casamento ser um sucesso!
- Isso eu garanto.
Apesar da atitude de Jlio, Vanderlei no desanimou. Conversou com os policiais amigos que estavam
protegendo Jlio e pediu-lhes para continuarem atentos. Um deles aceitou a sugesto de ir diariamente ao
aeroporto verificar a lista dos passageiros. E ele realmente o fez exatamente na vspera do casamento sem
encontrar o que buscava.
241Contudo, Rino estava l. Desembarcou pela manh, tomou um txi, dirigiu-se a um hotel onde
hospedou-se com documentos falsos. Vendo-o, ningum o reconheceria. A barba e bigode castanho claro,
onde havia alguns fios brancos que o envelheceram. O traje discreto e  moda europia faziam-no parecer
bem mais velho.
Fechado em seu quarto no hotel, ele esperava a noite chegar para agir. A noite - pensava ele - seria mais
fcil realizar seus planos.
Quando Jlio deixou o trabalho naquela tarde, feliz, alguns colegas o acompanharam. Planejavam
comemorar. Queriam fazer a despedida de solteiro. Jlio tentara esquivar-se sem conseguir.
Parados na calada, eles insistiam:
- No vamos deixar passar. De forma alguma.
- Agradeo a boa inteno, mas tenho coisas a fazer. Estou atrasado. Hoje pretendo recolher-me cedo para
estar bem-disposto amanh.
- Vamos agora. No precisamos ficar at tarde.
-  - disse outro. - Vamos ao bar do Mingo. Voc no vai recusar. Que diabo, afinal o fato merece ser
comemorado. Se no for, ficaremos ofendidos.
- Est bem, vamos. Agradeo a prova de amizade. - Olhou o relgio de relance e concluiu: -At as nove
eu posso. Nem um minuto mais.
- O que estamos esperando?
- Vamos indo.
Entre risos e brincadeiras, eles foram a um bar prximo e sentaram-se em um reservado.
Rino, fingindo olhar uma vitrine, os observava disfaradamente. Dirigiu-se ao ponto de bondes. De l
podia ver a porta do bar. As coisas estavam melhores do que esperava. Uma despedida de solteiro viera a
calhar. Nessas ocasies, h bebidas, brincadeiras, e seria fcil executar seu intento.
Apertou o cano da arma que guardava na cinta, escondida pelo grosso e largo palet. O Jlio no perdia
por esperar. Ao desembarcar no aeroporto, marcara a passagem para o dia imediato. Ningum
desconfiaria. Seria o crime perfeito.
Sorriu satisfeito. Mariazinha seria dele e de mais ningum.
Embora Jlio desejasse dormir cedo, passava das duas quando eles saram do bar. Haviam bebido,
estavam alegres. Entre eles, havia alguns companheiros da adolescncia e envolvidos pelas lembranas
jocosas daqueles tempos, esqueceram das horas.
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Rino, escondido em uma esquina, observava. No queria testemunhas. Ningum deveria v-lo.
- Vamos esperar mais - sugeriu um deles. - No h bonde mesmo.
- H um nibus na linha, vamos tomar esse - disse Jlio decidido.
- Vai demorar quase uma hora.
- Talvez no.
Rindo e brincando, dirigiram-se ao ponto de nibus. Levantando a gola do casaco, Rino dirigiu-se
tambm para o ponto, mantendo-se a discreta distncia. Sentia-se seguro atravs do disfarce. Ningum o
reconheceria.
Quando o nibus chegou, esperou que todos subissem e subiu por sua vez sentando-se no ltimo banco.
Fingiu estar sonolento, mas observava-os dissimuladamente. Sabia onde Jlio morava. Havia feito at um
mapa do local. Por isso, saltou do nibus um ponto antes dele.
Tomando uma travessa, correu esconder-se atrs de um muro. Jlio seguramente passaria por ali. Sacou a
arma e verificou se estava em ordem. Com o silenciador, ningum ouviria o tiro. Seu corao batia forte
no silncio escuro da madrugada.
Jlio desceu do nibus em meio a brincadeiras dos companheiros. Consultando o relgio, dirigiu-se a casa
em passos rpidos. Rino apontou a arma, fez a mira e sentiu uma violenta dor no brao, enquanto sua
arma era jogada a distncia.
Antes que sasse da surpresa, ouviu uma voz dizer-lhe firme:
-Voc est preso!
Sentiu o cano de um revlver em suas costelas. Apesar do susto, ele reagiu, deu um salto e vibrou
violento soco que alcanou o estmago do adversrio que soltou um grito de dor. Aproveitando-se
daquele breve instante, Rino saiu correndo.
- Pare, seno eu atiro - berrou o outro.
Ele no atendeu e o policial atirou vrias vezes. Rino sentiu uma ardncia na perna, enquanto o sangue
escorria.
- Me acertou, o desgraado - pensou apavorado.
Ainda assim, saltou um muro e conseguiu esconder-se atrs de algumas pilhas de lenha que havia l.
Silncio. Rudo de passos na rua, pessoas abrindo as janelas perguntando o que estava acontecendo. Jlio,
plido, conversava com o policial.
- No h dvida que ele pretendia atirar em voc - dizia ele. -
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Vanderlei pediu para ficar aqui e eu vi quando o sujeito escondeu-se e sacou esta arma. Veja, ltimo tipo,
com silenciador e tudo. Mas eu a-certei ele. Est ferido. Olha o sangue. V para casa e chame o
Vanderlei. Hoje pegamos o homem. Ligue para a delegacia e pea ajuda. Fale com o Bento. Voc sabe.
Apavorado, Rino rasgou um pedao da camisa e amarrou bem forte o local do ferimento. No lhe parecia
grave. O que o apavorava era ser descoberto. Havia um rebolio, e ele precisava encontrar jeito de sair
dali. O rastro de sangue os levaria at onde estava.
Apesar da queimao que sentia no ferimento, conseguiu estancar o sangue. Olhou ao redor. Estava em
um terreno grande, murado, onde havia muita madeira, em um enorme galpo.
- Uma serraria - pensou ele. - Tinha que agir depressa.
Procurando no fazer rudo, caminhou pelo local. Sob um coberto estava uma pequena caminhonete. Ele
exultou. Havia um cadeado no porto de sada, mas ningum estava l. Procurou uma ferramenta, o que
foi fcil, porque l havia pequena oficina. Com ela, arrebentou o cadeado. Ele sabia fazer ligao direta
do motor. Fazia-o nas arruaas com os amigos. Ligou o motor e saiu com a caminhonete pela rua detrs
de onde ocorrera tudo. Pisou no acelerador o mais que pde. Infelizmente o carro era velho e no corria o
quanto ele desejava, mas ainda assim, conseguiu seu intento.
Apesar dos rudos da rua, a polcia ainda no chegara e quando o policial, seguindo o rastro pulou, o muro
da serraria, ele j sara.
Suando em bicas, Rino s queria escapar dos perseguidores. Quando se viu a salvo, pensou numa forma
de voltar ao hotel. Teria que abandonar a caminhonete. No podia tomar nenhuma conduo, mesmo que
aparecesse alguma.
Largou a caminhonete a um quilmetro do hotel, em um terreno baldio, meio escondida. Assim, eles no
a encontrariam com facilidade. Caminhou com alguma dificuldade, sentindo a dor aumentar. Chegou ao
hotel e na recepo o encarregado cochilava. Fingindo-se embriagado Rino entrou apanhando a chave do
quarto. O encarregado abriu os olhos e vendo-o tentou dissimular o sono. Mas assim que Rino dirigiu-se
ao elevador, ajeitou-se novamente na poltrona.
No quarto Rino sentiu-se mais seguro. A perna doa. No podia ir ao mdico nem chamar os amigos.
Havia decidido no colocar mais ningum naquela jogada. Tinha que agir depressa. No se conformava
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em haver perdido a arma e a oportunidade. De onde sara aquele, infeliz? No havia ningum na rua.
Seria algum guarda de alguma casa?
Felizmente usara luvas o tempo todo. Suas impresses no estavam na arma. Foi ao chuveiro e tomou um
banho. Precisava aclarar as idias. Acalmar-se. No pensava em desistir, s em adiar. Desmarcaria a
passagem. Esperaria alguns dias. Precisava cuidar do ferimento. Como?
Conhecia um mdico que atendia esses casos, cobrando bom dinheiro. Isso no era problema, estava
prevenido. O pior era ter que procur-lo. No lhe restava outro recurso. Cuidaria primeiro do ferimento e
depois do Jlio.
Trincou os dentes com raiva. Eles se casariam naquele dia, e ele nada poderia fazer. Sua impotncia o
sufocava. No aceitava perder.
Amarrou o ferimento com pano limpo, vestiu outra roupa, colocou a barba e logo que o dia clareou,
chamou um carro de aluguel. Parou na esquina do mdico e despediu o carro. Caminhou at l e bateu.
Uma mulher de meia-idade abriu sonolenta.
- Vim ver o doutor Milton. Estou passando mal.
- Entre. Sente-se na sala. Ele j vem.
Suando, Rino sentou-se na sala indicada e esperou. Um homem magro, moreno, de cabelos grisalhos,
apareceu na soleira.
- Doutor Milton?
- Sim.
- Preciso dos seus cuidados. Estou mal.
- Passe para o consultrio. Vamos ver isso. Sente-se.
- Estou ferido, doutor. Conheo sua discrio nesses casos. Voc atendeu o Getulinho h uns dois anos.
- Hum! No quero me meter em encrenca. Como foi?
- Uma briga. Fui trado. No esperava.
- E a polcia?
- Nada de polcia. S briga entre minha turma e a deles.
- Deite-se ali. Vamos ver isso. Est ruim. A bala saiu do outro lado. Por pouco no atingiu o fmur. Sorte
sua. Mas j est muito inflamado.
- Est queimando muito.
- Vai passar.
O mdico preparou uma seringa e deu uma injeo no local. Foi quando Rino, sentindo ruir toda sua
resistncia, perdeu os sentidos.
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Ao acordar estava deitado em uma cama limpa. Sobressaltado, lembrou-se do que acontecera. Tentou
mexer a perna e sentiu dor. Olhou ao redor e assustado viu a sua barba-postia e o bigode colocados sobre
o criado-mudo. Fora descoberto.
Assustado, examinou o pequeno quarto cheirando a ter. Sentia-se um pouco tonto. Tentou levantar-se,
mas a cabea rodou e ele deitou-se novamente.
Precisava sair dali, mas no conseguia. Seus olhos estavam pesados e o corpo mole.
Algum tempo depois, a porta abriu-se e a mulher que o atendera entrou.
- Onde estou? - perguntou ele com voz pastosa.
- Na casa do doutor Milton. Voc desmaiou. Ele tratou de voc. Como acordou agitado, deu-lhe um
sedativo. Disse que precisava descansar. Agora durma. Ao acordar estar bem melhor.
Rino queria ir embora, mas percebeu que no tinha outra opo seno ficar.
Vanderlei chegou ao local vinte minutos depois, quase ao mesmo tempo que o carro da polcia.
Vasculharam a rea, descobrindo o local onde Rino se escondera e o furto da caminhonete. Enquanto a
polcia revistava tudo em busca de uma pista, Vanderlei no se conformava.
- Se ao menos eu tivesse colocado dois homens aqui!
- Quem ia adivinhar? - disse Jlio. - At agora no parece verdade. Vai ver que nem era comigo. Pode
tratar-se de um ladro vulgar.
- No creio- respondeu Mendes, o policial que o defendera.- Eu estava vigiando, esperando sua chegada,
quando vi o homem correndo e se escondendo, olhando para o ponto de nibus. Aproximei-me
cuidadosamente, sem ser percebido. Vi quando ele fez mira contra voc. Ele estava a sua espera para
atirar.
- Se no fosse o Mendes, meu caro, voc podia estar ferido ou algo pior.
- Custo a crer! Devo-lhe a vida! - tornou Jlio com emoo.
- O bandido reagiu. Eu no esperava. Ele me acertou, e eu garanto que seu murro no  brincadeira.
Fiquei tonto de dor. Cheguei a suar. Meus olhos se turvaram. No fosse isso, eu o teria derrubado. Tenho
boa pontaria. Em todo caso, ele tem sete flegos. Apesar de ferido, escapou. Agora  ponto de honra, vou
achar esse sujeito ainda que seja no inferno!
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- Calma - pediu Vanderlei - Como era ele?
- Alto, forte, barba. Vestia-se diferente. No parecia brasileiro. A arma  importada.
- No era o Rino - opinou Jlio - Ele no se parece com isso.
- Pode estar disfarado. Quando eu era da ativa, fiz isso muitas vezes.
- Ele est fora do pas. Pelo que sabemos, no regressou ainda.
- Se ele no veio, mandou algum. O que no  difcil.
- Vamos at em casa. Mame est fazendo caf.
- No me conformo dele haver escapado.
- E agora?
- Agora ele est ferido. No tanto que o impea de agir. Mas, depois do que houve, ele ir esperar. Pode
se casar em paz. Em todo caso, colocarei duas pessoas e eu estarei por perto. Vamos ao caf-
Eles entraram na casa trocando idias e Jlio embora desejasse descansar, sentiu que no conseguiria.
Sentia-se nervoso, inquieto. Se deitasse, no ia conseguir dormir.
- Voc fez mal em no acreditar - disse a me de Jlio com ar preocupado.
- Ainda assim, continuo pensando que no era comigo.
- Voc  teimoso - tornou Esther. E dirigindo-se a Vanderlei: Pensa que ele pode voltar?
Vanderlei abanou a cabea.
- Por ora, no. Ele foi ferido. No vai querer arriscar- Pode ficar tranqila. Jlio ser bem vigiado. Nada
acontecer.
Ela comoveu-se:
- Graas a voc e ao investigador Mendes. No sei como agradecer.
- Vamos ao caf - respondeu ele em tom de brincadeira.
-Se for com bolo, melhor.
Depois do caf, Vanderlei despediu-se.
- Procure descansar um pouco - aconselhou - precisa estar em forma hoje  tarde. Eu vou com o Mendes
ver como as coisas esto.
Jlio apertou a mo do amigo com fora.
- Obrigado - disse.
Vanderlei sorriu. Uma vez na rua, foi ter com os policiais que procuravam interrogar as pessoas da
vizinhana. Infelizmente ningum vira nada. Foram procurar o dono da serraria onde Rino se escondera
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e obter informaes sobre a caminhonete. De posse desses dados, espalharam para todas as viaturas.
Mas at a hora do casamento, no haviam recebido nenhuma notcia. O autor do atentado desaparecera
misteriosamente.
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Captulo 19
Quando Alberto entrou no pequeno quarto onde Rino dormia, ainda sob o efeito dos sedativos, percebeu
que o esprito da mulher que o influenciava no arredara p.
Na vspera, ele acompanhara o desenrolar dos fatos e vira que quando Rino foi ferido, ela o havia
abraado, dando-lhe foras e inspirando-o a pular o muro e fugir. Sabia que ele havia conseguido por
causa disso.
Alberto que desejava v-lo apanhado para libertar Jovino, decepcionou-se. No entendia por que
acontecera isso. Ele que desejava ajudar um inocente e ver responsabilizado um criminoso, no
conseguira impedi-la de ajud-lo.
Por que o mal fora mais forte? No lhe haviam dito que o bem sempre vence? Decepcionado, ele
procurara Cludio, para tentar encontrar uma resposta.
Cludio o recebeu com um abrao sincero. Alberto colocou-o a par dos ltimos acontecimentos,
finalizando:
- Pensei que finalmente a verdade apareceria. Contudo, surgiu aquela triste figura e o salvou da polcia.
No consigo entender. Eu tentei ajudar. Afinal, ele  um assassino e por pouco no cometeu outro crime.
Por que ela foi mais forte do que eu?
- Porque tem mais afinidade com ele do que voc.
- Nesse caso o bem saiu perdendo.
- Eu no diria isso.
- Como explicar o que aconteceu?
- Atravs da nossa viso relativa, nem sempre  fcil. A verdade para ns  fracionada.
- Se ele fosse preso, tudo se resolveria. Ele no prejudicaria ningum e o Jovino seria libertado. Afinal,
no foi ele quem me tirou a vida.
- Na sua opinio, aparentemente a questo estaria solucionada. Porm, Rino no teria percebido nada,
continuaria revoltado, manietado por aquela criatura, e no podemos avaliar onde isso os levaria e a todos
os envolvidos. J lhe disse que a soluo verdadeira, envolve a todos. O bem no  patrimnio de alguns,
mas direito de todos, ainda mesmo
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dos que esto incapacitados de v-lo. Esse amor incondicional  o amor divino, atuando sempre. Quem
deseja efetivamente ajudar, deve faz-lo adequadamente. Os laos de ligao entre as pessoas so mais
profundos do que se poderia supor  primeira vista.
- Fico desanimado.
- Por qu? Voc tem a eternidade para tentar. A ansiedade s deturpa a realidade.
- O que posso fazer?
- Olhar os envolvidos com compaixo. Tentar saber quais suas necessidades. Contribuir para o seu
amadurecimento.
-No ser fcil. Antes desta vida, eu no os conhecia. Sequer sei porque ela o aprisiona dessa forma. 
loucamente apaixonada por ele.
- Essa histria talvez seja interessante descobrir. Investigue. Sem julgamento nem crtica. Lembre-se que
seu objetivo sempre ser o de ajudar.
-  o que me aconselha? -.
- Isso vai demorar...
-  a melhor forma.
- Tentarei.
Alberto olhou-a pensativo. Ela sentara-se ao lado do leito e observava a cena. Rino dormia pesado e o seu
corpo astral estava estendido sobre o corpo fsico, ligeiramente acima.
Certo de que ela no percebia a sua presena, Alberto aproximou-se tentando penetrar os seus
pensamentos. Encontrou-a carinhosa e atenta.
- Dorme, meu bem. Eu estou aqui. Fique tranqilo. Ningum o encontrar. Em breve estar curado -
pensava. Uma onda de tristeza a invadiu. - Ela est se casando. O que vai ser de ns agora? Como realizar
o sonho to acariciado?
No desejava esperar mais. No agentava ficar separada dele. O corpo era uma barreira difcil. Havia
pensado em solucionar de outra forma. Se ela no podia t-lo atravs de Mariazinha, se ele morresse,
estariam em igualdade de condies. Entretanto, temia o imprevisto dessa situao. Antes dele nascer, ela
o havia procurado durante muito tempo. O astral guardava segredos que ela no conseguia desvendar.
No mundo, preso ao corpo carnal, ele no tinha como fugir ao seu controle. Sem o corpo, temia que ele
desaparecesse e ela no
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conseguisse encontr-lo. Por isso, apesar da barreira que isso representava, desejava mant-lo vivo na
carne.
Alberto continuava atento, tentando registrar os pensamentos dela.
- Sem voc eu no quero viver - pensava ela, acariciando amorosamente o corpo astral de Rino. - Hei de
encontrar um jeito! Aquela sonsa. Por que ela pode ser feliz e eu no? Onde est a justia? Ela que foi a
causadora de tudo. A malvada! Hei de infernizar sua vida. Seu casamento no vai dar certo. Veremos! Ela
precisa sofrer tambm.
Alberto sentiu-se curioso. Que tragdia haveria envolvendo aquelas pessoas?
- Se quer ajudar, precisa ajudar a todos - dissera Cludio.
Ela dizia-se vtima, teria razo? A verdade atenuaria sua atitude? Ficou abalado. A repulsa que ela lhe
inspirava seria injusta? Como saber?
Recolheu-se a um canto do pequeno aposento e pediu ajuda a Deus. Ele no queria ser injusto. No
desejava julgar ningum. Por causa disso cometera um crime no passado. Precisava compreender.
Aqueles dois seriam vtimas tambm? Estaria enganado?
Orou com sinceridade. Colocou-se  disposio da sabedoria divina para ajudar no que fosse mais
adequado, uma vez que ele no sabia como fazer.
Quando abriu os olhos, uma bela mulher estava diante dele. Aparentava trinta e cinco anos, cabelos
castanhos e anelados, presos no alto da cabea em um birote elegante, rosto suave, olhos brilhantes.
- Sou Norma - disse com delicado sorriso. - Vamos conversar um pouco. Tambm me interesso por
esses dois. Venha comigo.
Alberto a seguiu fascinado pelo seu magnetismo doce e seus olhos lcidos. Em poucos instantes, estavam
acomodados em belo recanto de um parque, sob rvores frondosas.
- Que lindo lugar!
- Gosto daqui. A Terra  adorvel! Aqui se pode ouvir os pssaros e sentir o aroma das flores. Ouvi seu
apelo. Senti que deseja cooperar.
-  o que mais quero.
- Talvez seja til conhecer a histria de Cristina e Flvio. Ele percebeu que ela falava de Rino e da sua
apaixonada.
- Gostaria.
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- H muito tempo atrs, quando vivia na Terra, tive uma filha a quem muito amava. Cristina nasceu
depois de anos de um casamento de amor e ns a amamos desde o primeiro instante. Ela, contudo,
revelou-se de temperamento difcil e desde a mais tenra idade se recusava a acatar a orientao familiar.
Meu marido, abastado e de classe social elevada, desejava oferecer-lhe luxo, cultura, vida confortvel.
Ela, porm, fascinada por extravagantes idias, a cada dia tinha novo capricho. Tentamos ensinar-lhe
valores e responsabilidade inutilmente. Aos quatorze anos, fugiu de casa em companhia de um
aventureiro oportunista, envolvido com jogo e vida bomia.
Choramos sua ausncia e a procuramos por toda parte sem encontrar. Quando finalmente a localizamos,
estava em pssimo estado, doente e s. A levamos de volta para casa. Estava com vinte e poucos anos,
mostrava-se arrependida e disposta a mudar.
Amorosamente, Oswaldo e eu tentamos ajud-la. Tudo ia bem quando ela conheceu Flvio e apaixonou-
se por ele perdidamente. Personalidade exuberante, forte, bela aparncia, Flvio dominava-a
completamente. Para segui-lo, ela deixou tudo. Posio, famlia, amigos, tudo. Temperamento ardente,
dominador e ousado, no se detinha diante de nada quando pretendia alguma coisa. Aventureiro e
apaixonado, fascinou Cristina completamente. Juntos, levaram uma vida nmade, cheia de altos e baixos,
emocionalmente desequilibrada. Foi quando o pai de Flvio, homem rico e conceituado, resolveu cas-lo
com outra. Reprovando a conduta do filho, desejava integr-lo na sociedade. Homem formal e de
educao rgida, via o desregramento de Flvio como coisa natural, loucuras passageiras da juventude.
Casando-o por certo estaria salvo e se livraria das aventuras malucas.
Calmamente procurou uma noiva e escolheu Clarinha, jovem ingnua e delicada, com quinze anos,
modesta, filha de um grande amigo seu. Entendeu-se com ele e felizes acertaram o casamento de seus
filhos.
Chamado a ordem pelo pai, Flvio a princpio se recusou ao casamento. Gostava da vida livre e sem
compromissos. Depois, havia Cristina, ela exercia forte atrao sobre ele. Quando a seu lado, a paixo o
incendiava e ele a desejava mais e mais. E, embora a esquecesse assim que se afastasse, quando em sua
presena, o fogo da paixo reacendia.
Norma calou-se e Alberto esperou em silncio que ela prosseguisse:
- Ele recusou-se a casar at o dia em que viu Clarinha. Ela era menina
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 ainda, de uma beleza pura, viosa, delicada. Seu pai intencionalmente os convidara ao almoo em sua
casa e Flvio, movido pela curiosidade, aproximou-se dela. A menina pareceu-lhe assustada, arisca. A
atitude dela espicaou mais sua curiosidade. Perplexo, descobriu que, ao contrrio do que supunha ela
demonstrava no desej-lo para marido.
No jardim, Flvio aproximou-se desejando test-la. Ele era adorado pelas mulheres e suas conquistas
contavam-se numerosas. Foi dizendo  queima-roupa:
- Voc deve saber o porqu deste almoo. Ela corou ao responder:
- Sei. S vim para obedecer meu pai.
- Sabe que eles desejam nos casar?
- Meu pai falou comigo. Contudo, tenho esperana que voc no aceite.
- Por que eu?
- Porque no tenho como desobedecer meu pai. Sou uma boa filha.
- Pelo visto no deseja casar-se comigo. Tem algo contra mim?
- No, claro que no. No  isso.  que eu no me sinto preparada para o casamento. No saberia como
agir. Sinto medo.
Vendo os lbios dela tremerem e sua voz insegura, Flvio sorriu. Bobinha como era, seria fcil conquist-
la. Tomou-a nos braos procurando seus lbios com avidez. Assustada, ela desvencilhou-se dele, em-
purrando-o com fora, rosto corado pela indignao.
O inesperado espicaou-o ainda mais. Segurou-a com fora e do-minando-a, beijou-a repetidamente nos
lbios. Clarinha fora do corado ao plido tal a indignao.
- Isto  para aprender desde j que eu sempre fao o que quero. Se eu quiser casar com voc, caso e voc
vai fazer tudo que eu quiser, entende?
A menina comeou a chorar. Flvio soltou-a.
- Fique sabendo que no tolero lgrimas. Vou fazer de voc uma mulher, no uma boba como voc .
- No quero casar com voc. Eu o odeio! Nunca vou fazer o que voc quer.
- Veremos - desafiou ele com raiva.
A partir desse dia, Flvio decidiu fazer a corte a Clarinha. Sob o olhar complacente e aprovador das duas
famlias, ia visit-la como noivo
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e o que a princpio fora capricho comeou a tornar-se quase obsesso. Quando estava com Cristina, dava
vazo a sua paixo por ela, mas quando via Clarinha, esquecia tudo. O repdio da menina o excitava
ainda mais. Decidiu casar-se com ela. Em vo Cristina tentou impedir esse casamento. Chorou, pediu,
exigiu, brigou, em vo. Flvio casou-se com Clarinha.
Cheia de cimes, esquecida e s, Cristina afundou na bebida e no sexo desenfreado. Dentro de poucos
anos, em pssima situao emocional e espiritual, deixou a Terra. S muitos anos mais tarde, Oswaldo e
eu, j no astral, conseguimos encontr-la. Estava na Terra, colada a Clarinha em triste simbiose. A vida
do casal tornara-se um inferno. Sem foras para reagir, Clarinha sujeitava-se passivamente ao marido.
Fizera de tudo para escapar ao casamento, ameaara suicidar-se. Tudo em vo. Seus pais estavam
convencidos que Flvio era excelente partido e que ela no encontraria nada melhor. Diziam que,
casando-a com ele, estavam cumprindo seu dever de pais. Eles sabiam o que era melhor para ela. Tanto
enfatizaram isso que ela acreditou. Afinal, ele era jovem, belo, rico, saudvel. Muitas mulheres gostariam
de estar em seu lugar. No estaria sendo muito exigente? Sua me dizia que ele era demais para ela. Teria
razo? Os pais sabem o que  melhor para os filhos. Tm mais experincia da vida.
No dia do casamento, sua me a chamara em seu quarto e lhe dissera:
- Filha, lembre-se: deve obedecer seu marido. Ele  o chefe do lar e da famlia. Vocs vo ser uma s
carne e tero filhos. Seja uma boa esposa e boa me.
- Me, tenho medo de ficar s com ele. Ela sorriu com superioridade:
- Bobagem. Voc  criana! Quando fechar a porta do quarto com ele, ser uma mulher.
- Mas eu no sinto amor!
- Nem precisa. O amor vem depois. Flvio  um belo homem. Deixe de fantasias. Muitas queriam estar
em seu lugar. Depois, voc vai morar naquela casa linda, cheia de criados. Sero felizes! Melhor
casamento, impossvel. Trate de controlar o mau gnio, obedea seu marido, como obedeceu seu pai e
ver que tudo ir bem.
Assim, Clarinha tentou adaptar-se  nova vida. Contudo ela odiava a intimidade com Flvio e esquivava-
se sempre. Isso o atraa cada
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vez mais. Vendo o marido zangado pela sua indiferena, intimamente sentia-se culpada. Ele era seu
marido. Tinha direitos sobre ela. Por que no conseguia aceitar o relacionamento sexual com ele? Apesar
de esforar-se, odiava aqueles momentos e nem sempre conseguia dissimular.
Com o tempo, acabou por perceber que quanto mais deixava transparecer sua repulsa, mais ele a
assediava torturando-a. Decidiu ento comear a fingir. Se fingisse, ele no insistiria tanto e, assim,
conseguiu sofrer menos.
Cristina, no astral, no conseguia esquecer Flvio. Assim que recuperou certa lucidez o procurou e
empolgada, abraou-se a Clarinha na tentativa de aproximar-se dele. Fizera vrias tentativas para que ele
sentisse sua presena sem obter nenhum resultado. Abraando-se a ela, notou que podia sentir de novo
seus beijos e carinhos. Comeou ento uma triste situao para eles. Clarinha odiava o marido, porm,
sob o controle energtico de Cristina, passou a sentir-se atrada por ele. Esse relacionamento a trs durou
o resto de suas vidas. Quando Cristina a envolvia, eles entregavam-se a avassaladora paixo para depois,
carem em depresso e descontrole emocional.
Foi difcil separ-los depois da morte do corpo. Durante anos aqui no astral eles se digladiaram. Cristina
desejando afastar Clarinha do caminho, uma vez que agora podia estar com Flvio. Porm, este, tal qual
na Terra, ficava entre as duas, indeciso e desorientado, ora desejando Cristina, ora perseguindo Clarinha.
Esta por sua vez, mais esclarecida do que os outros dois, fez o que pde para libertar-se deles. Sentia
medo, pois Cristina a ameaava e a repulsa por Flvio a quem nunca conseguira amar. Socorrida por
amigos, conseguiu por fim ser conduzida a um local de recuperao onde melhorou rapidamente.
Assustada com a invaso de que fora vtima, dedicou-se a estudar os fenmenos de mediunidade. Sabia
que precisaria renascer na Terra e desejava precaver-se. Aprendeu com sofrimento o que significa abdicar
do prprio poder, sujeitar-se  orientao de terceiros, ainda que estejam nos papis de parentes prximos.
Essa passividade, junto com o desinteresse pela vida, criaram condies a que Cristina a dominasse.
Percebeu tambm que era dotada de sensibilidade especial para perceber energias e seres de outras
dimenses. Aplicou-se em aprender como utilizar essa sensibilidade em seu favor. O resto voc j sabe.
Alberto concordou com a cabea.
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- Sim - disse por fim. - Flvio  Rino, Clarinha  Mariazinha.
- . Como v, estamos nos esforando, eu e Oswaldo, para socorrer Cristina. No entanto, como j deve
saber, para isso precisamos ajudar o Flvio, ou seja o Rino.
- Eu sei. Estou no mesmo caso. Para socorrer o Jovino e Mariazinha devo fazer o mesmo. s vezes no
acho justo. Afinal ele no fez nada de bom que merea ajuda.
Ela sorriu compreensiva.
- No diga isso. Ele faz o melhor que pode.  sua maneira de ver. Ainda no tem maturidade ou lucidez
para perceber a verdade. Seria como exigir de uma criana um comportamento que ele no pode ter.
- Admiro sua bondade.
- E a vida. Aprendi isso com Cristina. Acha que no desejei que ela fosse melhor? Toda me v a filha
como algo puro, grande, belo. Di muito assistir a destruio destas iluses. O que sobra  a certeza de
que no importa como ela , mas eu a amo! E esse amor fez-me entender que ela ainda no cresceu, 
criana espiritual cheia de sonhos e medos, lutando para ser feliz sem ainda saber como. O Flvio tambm
est no mesmo caso. Como exigir deles atitudes que ainda no conseguem sentir? Por isso temos esperado
amando sempre e ajudando quando necessrio.
Os olhos de Alberto marejaram-se.
- Obrigado - disse. - Voc hoje me ensinou mais do que tenho aprendido durante toda a vida.
- Agora que sabe, podemos atuar juntos.
- Gostaria muito. Diga-me, como eu entrei nessa histria? Terei uma ligao com eles de vidas passadas?
- No. Nem todas as pessoas que cruzam nosso caminho so ligaes de outras vidas. H outros fatores
que concorrem para isso. Somos ns que escolhemos e criamos nosso destino. Nossas crenas geram
atitudes que produzem energias e movimentam os fatos, atraindo determinados tipos de pessoas,
materializando acontecimentos, criando situaes em nossas vidas. Foram suas atitudes, os valores que
voc acredita como verdadeiros que acionaram certas foras, adequadas ao seu momento, criando
situaes e confrontos que certamente lhe daro novas oportunidades de aprender, de amadurecer, de
viver melhor. Cristina e Flvio, Mariazinha e Jlio, tambm precisavam, viviam momentos semelhantes
ao seu, energeticamente. A vida  sincrnica. Isto
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, chega a ser mgica, obedece sempre s nossas necessidades verdadeiras de crescimento.
- Sinto-me comovido. Nunca percebi que houvesse tanta sabedoria no universo.
- De fato, Deus  sabedoria infinita. Confiar nele,  estar seguro. Crer na vida  ser sbio.
- Percebi que no atrapalhar j  um bom comeo! Em minha ignorncia eu queria interferir a meu modo.
Apressar os fatos, julgar pessoas, manipular situaes. Que loucura!
- Ainda bem que entendeu. Estar atento e disposto ao auxlio efetivo, conservar equilbrio, lucidez, manter
a paz,  fundamental, mas a impacincia, a pretenso de manipular os outros, o desejo de que eles se
tornem como ns gostaramos, nos arrasta ao julgamento apressado, aos inconvenientes da interferncia
indevida, imatura, que sempre complica mais e no resolve nada.  preciso dar espao a que as coisas
amaduream e andem em seu prprio passo. Quem conquista essa compreenso, vive mais feliz e ajuda
sempre com mais eficcia.
- No caso deles, o que poderemos fazer? Compreendo a histria de Cristina, mas e o Jovino? At quando
ficar preso inocente? Di v-lo sofrer, sendo desprezado pelos meus.
- O Jovino tambm est amadurecendo. Se continuar assim, acredito que em breve conseguir a liberdade.
- Sinto dizer, mas eu gostaria que sua inocncia ficasse comprovada. E, para isso, Rino precisaria
confessar. Temo que ele nunca faa isso.
- Uma das coisas mais importantes, como eu disse,  confiar na vida. Ter pacincia de esperar. Permitir
que os acontecimentos amaduream. Sua ansiedade demonstra que entendeu, mas no compreendeu. O
que determina a priso do Jovino, a atitude do Rino, so as coisas nas quais eles acreditam. Quando eles
mudarem suas crenas, todos os acontecimentos de suas vidas tambm mudaro.
- Isso me parece muito vago.
- Nada  mais objetivo do que isso. J experimentou? O fruto s cai da rvore quando maduro. Se o
arrancar prematuramente, no estar pronto para ser ingerido.
- O que quer dizer?
- Que sua preocupao  intil e prejudicial. Que quando o Jovino no mais necessitar dessa experincia e
o Rino tornar-se mais consciente,
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tudo se esclarecer com ou sem a sua interferncia. Diante da complexidade das nossas necessidades e os
limites dos nossos recursos, desejar interferir sempre complicar os fatos.
- No tenho outro jeito, seno esperar.
-Atento e alegre, cooperativo, pronto, porm, sem ansiedade ou angstia. Cultivando a serenidade. Afinal,
ela  que reflete o tamanho da sua f. S quem confia pode estar sereno.
- Obrigado. H algo mais que eu possa fazer?
- Sim. O que tem feito at agora ser de grande valia. A energia positiva  luz e ajuda muito. Quanto aos
resultados, no so da nossa responsabilidade. Damos nosso melhor, confiamos e a vida far o resto.
Agora, se quiser, poder ajudar-me. Tentarei falar com Cristina.
- Voc pode? Ela consegue v-la? Tenho tentado inutilmente.
- Vamos l novamente.
Voltaram ao quarto modesto onde Rino adormecido se recuperava. Cristina colada a ele, estava tranqila
e satisfeita. Norma aproximou-se e chamou com suavidade:
- Cristina! Cristina!
Ela teve ligeiro sobressalto e assustada olhou para os lados procurando.
- Sou eu, Cristina. Vim v-la. Saber como est. O rosto da moa contraiu-se dolorosamente.
- Me! - disse baixinho.
- Sou eu sim.
Alberto notou que Norma diminura sua luz e adensara sua figura, o mesmo acontecendo com ele.
Cristina levantou-se assustada.
- Me, voc veio! - notando a presena do Alberto, recuou aterrorizada, dizendo: -Ele! O que est fazendo
aqui? O que quer de mim?
- Nada. Ele no quer nada.
-  mentira! Eu sei o que ele quer. Quer vingar-se do Flvio e de mim. Eu no queria afast-lo! Mas ele
insistiu, cruzou meu caminho! No tive outro recurso.
Alberto estremeceu. Sentiu de repente uma onda de repulsa por ela. Por causa da sua loucura, ele fora
morto! Teve mpetos de acus-la, de lanar em seu rosto toda sua revolta. Contudo, lembrou-se de Maria,
da cabana, do homem que matara sem dar-lhe chance de explicar-se. Teria condies de ser juiz? Teria
moral para reivindicar alguma coisa? Baixou a cabea confundido.
258


Norma tornou:
- Acalme-se, filha. O Alberto no veio cobrar nada. Ao contrrio, ele deseja ajudar.
- No creio! Se ele pudesse, mandava o Flvio para a priso.  isso o que ele quer. Mas eu no vou
deixar. Juro que no.
Alberto sentiu-se mais calmo. Percebia que a oportunidade de falar com Cristina s aparecera depois que
ele se dispusera a perdoar e a compreender. A revolta e a raiva no o ajudaram em nada. Decidiu
aproveitar o momento.
- Cristina, no tema. Eu mudei. Compreendi as coisas de outra forma. Hoje, desejo que todos ns
encontremos a felicidade e a paz.
Ela olhou-o desconfiada. Ele continuou:
- A princpio senti revolta. No  fcil deixar o mundo em plena mocidade, ser agredido, assassinado!
Sofri muito, desejei que o Rino fosse preso, fosse morto, pagasse pelo seu crime. Quis libertar o Jovino,
preso inocente. Mas minha revolta no me ajudou em nada. S aumentou meu sofrimento. Recordei o
passado. Eu tambm sou um assassino e no tenho o direito de julgar ningum. Quanto a isso, pode ter
certeza. O que me tem ajudado verdadeiramente  aprender a fazer o bem,  cuidar da minha felicidade
sem atrapalhar a felicidade dos outros. Aprendi tambm que aceitar o que no tem remdio, ajuda a no
me machucar mais. Parei de sofrer a minha trgica morte, e a dor foi embora. Cristina, hoje eu no quero
mais lutar com nada, nem manipular os outros e a vida. Descobri que ela sempre sabe o que faz e por isso,
leva a melhor. Que se, ao invs de querer conduzi-la, eu aceitar o que ela me impe, estarei mais seguro.
Serei mais feliz e as coisas boas acontecero comigo.
Cristina olhava-o admirada. A surpresa a emudecera:
- Voc no est contra ns? - disse por fim.
- No. Agora no. Eu desejo paz. Estou cansado de sofrer. Aprendi que para conquistar a felicidade, eu
preciso primeiro cultiv-la no corao, irradi-la, s ento eu a conquistarei.
- Como posso me sentir feliz nesta situao? Como posso estar em paz com este inferno no corao?
- Isso  uma coisa que s voc pode descobrir. Cada um tem seus prprios meios. O que sei  que aceitar
o que a vida impe, as coisas que no podemos mudar, sempre diminui nossa dor.
- O que quer dizer?
259


- Que voc se atormenta desejando o que no pode ter por agora. Voc est aqui, o Rino l no mundo. Por
enquanto  impossvel viverem juntos. Voc, ficando do lado dele, infeliz e apaixonada, o impressiona e o
empurra  prtica de atos violentos dos quais fatalmente ele se arrepender um dia, e deixa de cuidar de
voc, tornar-se mais bela, atraente, reduzindo-se a uma mendiga de pssimo aspecto. J se olhou no
espelho? J percebeu como est se destruindo? Quando ele voltar para c, vendo-a como est agora, no a
abandonar?
Cristina passou a mo trmula pelos cabelos e dirigiu-se ao espelho, olhando-se atemorizada. Alberto
prosseguiu:
- O tempo passa depressa. Por que no deixa o Flvio um pouco livre para cuidar de si mesmo, e trata de
fazer alguma coisa em seu favor? Voc era bela e jovem, agora est muito diferente.
- V embora. Voc veio me amedrontar!
- No, filha. Alberto tem razo. Voc pode ver por si mesma. Por que no cuida de si por uns tempos? Sei
de um lugar onde em pouco tempo poder renovar-se, tornar-se como era antes e preparar-se para esperar
Flvio quando ele deixar a Terra!
- No quero. Vai demorar muito.
- Se o ama como diz, precisa cuidar de si, preparar-se para ele -disse Alberto com voz firme. - Preparar
um lugar para quando ele chegar. Tem muito trabalho pela frente, mas essa  a forma de trabalhar pela
conquista da sua felicidade com ele.
- Custo a crer!
-  verdade - confirmou Norma - Acha que eu mentiria?
- No. Voc no. Sempre foi a luz que me tem sustentado. Eu no sei... no consigo ficar longe dele... no
posso ainda...
- Seja como quiser, filha. Agora ns vamos. Se resolver, estarei por perto para busc-la.
Norma abraou-a demoradamente, transmitindo-lhe energias positivas. Alberto aproximou-se.
- At outro dia - disse. - Quando decidir, conte comigo. Cristina fixou seus olhos em Alberto que
sustentou seu olhar, depois caiu em pranto.
- Desculpe - disse. -  difcil entender que voc no nos odeia. Custo a crer, contudo...
Alberto, comovido, abraou-a.
260


- Desejo ser feliz - disse ele com simplicidade - fao votos que voc tambm seja.
- Felicidade  palavra que no conheo - respondeu ela com amargura.
Havia tanta dor em seu olhar que Alberto, sensibilizado, apertou-a de encontro ao peito com
enternecimento como se ela fosse uma criana insegura e s. Quantas coisas essenciais  alegria de viver
ela ainda no conseguia perceber? Quanto tempo, esforo, quantas iluses a arrancar at poder enxergar?
No fora ele tambm cego durante tantos anos? Quantas coisas verdadeiras e essenciais a sua prpria
felicidade ele ainda ignorava?
Aninhada em seus braos, Cristina deu livre curso s lgrimas. Norma em silencio orava com serenidade
e gratido. Ficaram assim durante alguns minutos. Depois Cristina afastou-se um pouco, fixando Alberto
por entre as lgrimas que ainda molhavam seus olhos, disse:
- Estou confusa. No esperava encontrar em voc um amigo. Sinto que no me odeia. No consigo
compreender. No me parece natural.
- A amizade e o amor, a bondade, a beleza, so sentimentos que voc no pode explicar. A cabea, o
raciocnio, so pobres demais para isso. Quem consegue perceber  o corao. Esse sim, sente,
compreende, realiza - esclareceu Norma.
- , me, eu sinto, no entendo.
- E sentindo isso, no lhe faz bem?
- Sim, me acalma e alivia. Mas por outro lado, penso que isso no pode ser.
- Voc est cansada. No tente explicar o inexplicvel. Vai confundi-la ainda mais. Basta perceber que
ns a amamos e desejamos apoi-la a que aprenda a ser feliz. Voc pode conquistar a felicidade, se
quiser.
Cristina abanou a cabea. -Como?!
- Aceite a vida como ela , repito. Acalme-se. D espao a que as coisas se acomodem. Confie na
sabedoria de Deus!
- Eu no penso como vocs. Mas, em todo caso, sei que tm boa inteno.
- Est bem, filha. Pense no assunto. Lembre-se que estamos do seu lado, sempre, torcendo por voc.
Agora, adeus.
261


Abraaram-na novamente e saram. Alberto nada disse, mas sentia uma ponta de decepo. Por que ela
relutava? Tudo lhe parecia to claro!
Uma vez fora, Norma considerou:
- Hoje demos um grande passo a frente. Alberto no se conteve.
- No penso assim. Parece que no conseguimos convenc-la. Tudo permanece na mesma.
- Engano seu. Sua presena, sua atitude e mais do que tudo, sua compreenso e carinho, tocaram fundo o
corao de Cristina. Sei o que afirmo. Foi um grande passo. Ela reluta ainda, mas sua resistncia comeou
a ruir. Ela precisa de tempo para descobrir seus enganos. Senti-me muito grata a voc pelo que fez.
Alberto fez um gesto largo.
- No precisa. O maior beneficiado fui eu. Sinto-me aliviado. Confesso que o ressentimento, a mgoa, at
o sentimento de vingana que se oculta nessas duas emoes, representam um pesado fardo. Libertar-me
dele, fez-me muito bem. Foi a contragosto que me dispus a ajudar Cristina e Rino. A princpio foi difcil.
A cena da minha morte, enfim os fatos dolorosos vibravam fortemente dentro de mim sempre que eu os
encontrava. Todavia, percebi que os caminhos que percorrera atravs da angstia e do rancor, no me
haviam aliviado, ao contrrio, quando me fixava neles, sentia-me mil vezes pior. Compreendi que para
melhorar, seria necessrio tentar outras opes. Por isso aceitei a orientao dos meus amigos e
professores. Eles sugeriram uma viso mais realista dos fatos, que s poderia ter se conseguisse suplantar
a averso. Entendi que para conseguir o que queria, precisava ajudar todos os envolvidos. Fiz o possvel.
Lutei contra a averso, procurei perceber outros lados da questo, tentei afastar o julgamento e quando
consegui, acabei por descobrir que eu fora o maior beneficiado. Que arrancando o ressentimento do
corao, eu senti a minha bondade, eu notei como  gostoso sentir-se digno, amoroso, generoso. Sempre
que relembrava a culpa deles me assassinando, logo recordava tambm o meu crime. Julgando-os, eu
trazia  tona o meu prprio julgamento. Permitindo-me compreender, sem julgar, senti a compaixo,
percebi as limitaes deles, e abraando Cristina, sentindo o amor por ela, descobri que sou bom, que sou
nobre, que sou digno.
Alberto, comovido, calou-se. Norma abraou-o carinhosa.
262


-  isso, Alberto. Quando escolhemos e aceitamos nosso melhor, quando deixamos que ele aparea,
permitimos que Deus se expresse atravs de ns. Nesse momento estamos sendo verdadeiros. Agindo em
harmonia com nossa natureza. Nesse estado, alcanamos satisfao, paz e alegria de viver.
- Compreendo. Quantas coisas ainda preciso aprender!
- No se impressione com isso. Tudo est certo como deve ser. Cada coisa a seu tempo e da forma mais
adequada a cada um. O importante  s estar aberto e no perder as oportunidades que nos so oferecidas.
- J perdi algumas. Pena perceber seu valor s depois de hav-las perdido.
Norma sorriu.
- As oportunidades so convites para novas experincias. Elas aparecem como uma forma de alargar
nossas perspectivas de vida e suprir nosso progresso. Foram-nos a selecionar e sedimentar novos
conceitos, enriquecem as chances de viver melhor.
- Tem razo. Hoje mudei alguns conceitos que considerava reais at momentos atrs. Contudo, agora, me
admira no t-los notado antes.
- Fico feliz ouvindo-o. Devo ir agora. Agradeo-lhe de corao. Alberto abraou-a com carinho e prazer.
- Obrigado. Conhec-la foi um privilgio. Sua amizade me enternece e transmite paz.
- Deus o abenoe - despediu-se ela com doura.
E antes que ele pudesse dizer algo mais, ela afastou-se. Alberto foi para casa sentindo uma energia
gostosa e branda lhe aquecendo o corao.
263
Captulo 20
Rino acordou preocupado e indisposto. Havia perdido o avio para retornar ao exterior. Agora, desejava
recuperar-se para decidir o que fazer. Sentia-se triste e desanimado. Havia planejado tudo to bem! No
se conformava por haver fracassado. Fora derrotado. Seu orgulho estava ferido! Mariazinha casara-se.
Pertencia a outro homem, aquele idiota!
Mas se eles pensavam t-lo vencido, enganavam-se. Era apenas uma trgua, no perdiam por esperar.
Tentou levantar-se e sentiu a perna doer. Sentou-se no leito e a custo conseguiu manter-se em p.
A porta abriu-se e a mulher que o atendera apareceu na soleira.
- O doutor disse que no era para se levantar. Deite-se de novo. Precisa de repouso. O corte foi fundo.
Parece que chegou no osso. Teve sorte.
- Preciso ir embora.
- No pode ainda. Deite-se. O doutor Milton vai voltar logo. Vir v-lo. Vamos, deite-se. Se der
hemorragia, pode piorar. No deve forar o msculo.
- Est bem. Assim que o doutor chegar, preciso falar com ele.
- Certamente vir v-lo.
Ela saiu e Rino, deitado, sentiu aumentar sua ansiedade. Tantas coisas a fazer e ele estava ali, preso,
impotente.
Cristina, sentada ao lado do leito,observava-o desanimada. Reconhecia que ele estava infeliz. Ela mesma
sentia-se tambm triste. Depois de tanto esforo o que conseguira? Nada.  verdade que estava ao lado
dele, mas de que lhe servia isso se ele sequer a notava?
No comeo, contentara -se com estar junto dele, abra-lo, sentir seus pensamentos, mas agora, isso j
no lhe bastava. At quando teria que esperar? Se ao menos ele se lembrasse dela ou a desejasse! Mas
no, ele s pensava em Clarinha. S desejava Clarinha.
Passou a mo pelo rosto preocupada. E se ela estivesse mesmo mais feia? Percebia que no possua a
beleza de antes. O Alberto teria dito a verdade? Flvio poderia desprez-la ao voltar?
264


Levantou-se angustiada. No queria perder a beleza. Flvio nunca a amaria se ela fosse feia. E se sua me
tivesse razo? E se se afastasse por algum tempo, apenas o suficiente para um tratamento de recuperao?
Se quando Flvio chegasse e a encontrasse linda, mais do que nos tempos de sua juventude, no resistiria.
No seria melhor afastar-se por uns tempos para se cuidar? Agora que Clarinha se casara, to cedo no
teria condies de interferir. Flvio ferido, correndo perigo, no poderia agir. Seria melhor que ele ficasse
no estrangeiro por algum tempo, enquanto ela estaria ausente, depois, ao voltar, decidiriam o que fazer.
Ao simples pensamento de afastar-se dele, ela se sentiu ainda mais triste. Aproximou-se de Rino,
abraando-o com paixo.
- Meu amor - disse angustiada - sinto-me impotente para resolver esse caso. Ficarei com voc at
melhorar seu ferimento, depois voc deve voltar para os Estados Unidos e ficar l. Dar um tempo a que
por aqui eles esqueam. Vou cuidar de mim. Quando eu regressar, decidiremos o que fazer.
Rino no registrava sua presena, mas, naquele instante, sentiu aumentar sua tristeza. Por que perdera
Mariazinha, por qu? Nunca amara outra mulher. Por que a nica que lhe interessava de verdade o
recusara? No tinha o direito a ser feliz? Se ela houvesse correspondido ao seu amor, tudo teria sido
diferente. Teriam casado, formariam uma famlia.
Ela jamais encontraria um homem que a amasse mais do que ele que chegara ao crime por seu amor!
Mesmo agora, no temia lutar por ela. Por que no era compreendido? Quantas mulheres se sentiriam no
paraso se lhes desse um pouco de amor?
Irritado, sentou-se no leito. Aquela situao de dependncia aumentava sua ansiedade. Precisava ir
embora. Voltar ao exterior. Temia que a polcia o descobrisse. Uma vez l, ficaria durante algum tempo.
O suficiente para que o incidente fosse esquecido e se recuperasse.
A porta abriu e o dr. Milton entrou:
- No deve levantar-se. Deite-se. Est forando a perna. Ela precisa ficar esticada.
- Tenho que ir embora.
- No pode, pelo menos por dois ou trs dias.
- Tudo isso?
- Se tudo correr bem. Apesar de voc haver estancado a hemorragia,
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o ferimento foi profundo e no devidamente desinfetado. Houve inflamao o que dificulta a cicatrizao.
Vamos, deite-se. Voc est aqui sob minha responsabilidade, em minha casa. Seu ferimento foi  bala de
calibre utilizado pela polcia. Deve ter-se metido em apuros. At agora, no lhes comuniquei o caso. Se
me obedecer, no o farei, mas se abusar, se tentar levantar-se ou sair, pondo em risco o meu nome, juro
que o entregarei. Posso ajud-lo, como j fiz a outros, mas no posso arriscar-me. Se no cooperar, no
tenho porque ajud-lo. Rino percebeu que ele falava srio. Deitou-se.
- Est bem - disse. - Farei como mandar.
- Assim  melhor. Agora, deixe-me ver isso. Depois de examinar, trocou o curativo e considerou:
- Ainda est bem inflamado.
- Estou preocupado com o hotel. Se eu no voltar, podem estranhar.
- Voc no mora aqui?
- No. Moro no Rio de Janeiro. Minhas coisas esto no hotel. Poderia telefonar?
- Est bem. No se levante, trarei o telefone at aqui.
Rino ligou para o hotel, prevenindo-os que estava em casa de amigos e voltaria em dois ou trs dias.
Sentiu-se mais calmo. Depositara dinheiro no cofre do hotel, no havia razo para eles no aceitarem.
Seria doloroso ficar ali, sem poder fazer nada, mas no lhe restava outro recurso seno obedecer e
esperar. Esforou-se para relaxar e aceitar a situao.
No dia seguinte ao casamento de Mariazinha era domingo. Magali e Vanderlei foram visitar Jovino.
Contaram-lhe a cerimnia de casamento com detalhes. Jovino, olhos brilhantes e emocionados,
acompanhava a narrativa. Quando Magali terminou, ele disse convicto:
- Quando voc for casar, hei de estar livre para lev-la  igreja.
- Estar livre antes disso - respondeu ela com emoo.
- Esse  um sonho que talvez eu nunca realize. Posso sair daqui, mas o dr. Homero nunca mais me deixar
voltar para casa, cuidar do carro.
Foi a vez de Vanderlei considerar:
- Por que no? Espero provar sua inocncia. Ento, tudo voltar a ser como antes. Sabe que quase
pusemos a mo no assassino?
-?
- . Na vspera do casamento, tentaram apagar o Jlio.
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Quando Vanderlei terminou, Jovino indagou ansioso:
- E agora? A polcia tem alguma pista?
- Ainda no. Encontramos a caminhonete que ele usou na fuga, mas nenhum indcio.
- Ele parecia estrangeiro?
- Parecia. Pelo traje. Mas no me convence. Qualquer um pode se disfarar.
- E o Rino, vocs no suspeitam dele?
- Claro. Mas a  que o elo se perde. Ele est fora do pas. Temos investigado a lista de passageiros e
nada.
- Nunca descobriremos a verdade! - disse Jovino preocupado.
- O fato dele estar l no impede que seja o mandante.
- Como provar?
- Encontraremos um meio. Um descuido dele, um deslize e pronto.
- Isso  muito vago. Chega a ser desanimador.
- Calma, Jovino. Tenho f que Deus nos ajudar - lembrou Magali. - E quando o momento chegar, toda
minha famlia o receber de braos abertos.
- Sabe, Magali. Aqui, tenho pensado muito em minha vida. Fiquei longe de todos, da sua casa onde tinha
apoio e amizade. Por que aconteceu comigo? A maioria tem uma famlia, eu nasci sem pai e fiquei sem
me e no tenho ningum mais no mundo. At vocs que me ampararam e criaram, a quem devo tanto,
me deixaram. No os culpo de nada. Tm seus motivos, no  isso que eu penso, d para entender que os
seus no queiram me ver. Mas a vida me deixou s no mundo, no meio de pessoas doentes, cruis,
desequilibradas e miserveis de corpo e alma. Tenho lido muitos livros. Descobri coisas. Aprendi que
Deus existe e h uma boa razo para tudo que acontece. Ele  bom e perfeito e se eu estou nessa situao,
ela certamente est sendo boa para mim de alguma forma. No me revolto mais. Questiono apenas. O que
devo aprender aqui? Qual a lio a que fao jus para que tudo houvesse acontecido comigo?
- No se atormente dessa forma - disse Magali.
- Voc no entendeu. No me atormento. Sinto que, enquanto no resolver esse quebra-cabea no serei
libertado.
- O que o faz pensar assim? - perguntou Vanderlei.
- Os fatos. A vida. Como as coisas acontecem. No s no meu caso, mas no de outros que esto aqui.
Pude perceber que de certa forma a
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vida  um pouco mgica. No sei explicar, mas sinto que quando eu aprender o que preciso aqui, minha
inocncia ser provada.
- Sei o que quer dizer - disse Magali. - D. Dora falou sobre isso.
- Falou?
- Sim. Ela disse que quando voc estivesse maduro, tudo iria acontecer.
-  isso. Agora eu entreguei tudo nas mos de Deus. E pensei, se eu estou aqui, nesse meio pervertido, foi
para deixar de ser ingnuo. Perceber os problemas do ser humano, sem deixar me envolver. Tornar-me
forte e independente. Saber pensar por mim mesmo, sem ir pelos pensamentos dos outros. Aqui, isso fica
bem claro. Podendo contar apenas comigo e Deus, sem famlia nem nada, tenho que pensar em mim, em
meu futuro. Sou jovem. Um dia sairei daqui, ainda que por cumprimento da pena. Ento, o que farei de
minha vida l fora?
-  verdade. No  fcil recomear depois de sair daqui - concordou Vanderlei.
- Decidi aproveitar o tempo. Estudar.
- timo. Farei tudo que puder para ajud-lo - disse Magali com entusiasmo.
- Vou precisar mesmo.
- O que pretende estudar? - perguntou Vanderlei.
- Leis. Aqui tenho aprendido a respeito. H dois ou trs companheiros que conhecem muito sobre isso.
- Eu posso ajud-lo - props Vanderlei. - Estou no ltimo ano da faculdade. E depois que deixei a polcia,
estou trabalhando no escritrio de advocacia do meu tio. Quando eu me formar, trabalharei com ele.
- Se me ajudar, no se arrepender. Sabe, h muita coisa por fazer nesse campo e eu gostaria de dedicar
minha vida a isso.
Vanderlei sorriu.
- Todos sonhamos em contribuir para uma melhor distribuio de justia neste pas.
- Sei o que diz, mas eu no tenho iluses. Conheo o crime por dentro. Tenho visto tanta desfaatez, tanta
hipocrisia, tanta injustia que seria um milagre esperar melhor desempenho das nossas leis. O que eu
quero mesmo  estimular pessoas a reagirem. A desenvolver fora para atravessar esse mar de trevas sem
se destruir.
- No so leis do direito civil que voc quer aprender - esclareceu Vanderlei - o que voc deseja 
estudar o comportamento
268


humano,  lidar com as emoes, com os problemas,  vencer seus medos e ir para frente.
- Isso. Acho mais forte. Quero dizer, acredito que quando eu descubro o que  bom para mim, quando eu
me esforo para alcanar isso, acabarei vencendo.
- Vamos fazer uma coisa - props Magali - trarei alguns livros de psicologia para voc ler. Vamos ver por
qual assunto voc se interessa mais.
- Eu trarei uns da filosofia do direito. Se quiser, poderei dar-lhe aulas.
- Obrigado. Mal posso esperar. A vida me colocou aqui dentro mesmo sem cometer nenhum crime. A
vida  sbia e Deus no erra. Por isso, tudo o que nos acontece de ruim, tem por objetivo o nosso bem.
Pensei, pensei, e notei entre outras coisas o que de bom eu j tenho agora. Em que esta situao pode me
beneficiar. E o bem maior que eu disponho aqui  o tempo. Se eu estivesse l fora, teria obrigaes que
me impediriam de estudar. O tempo  um bem precioso que eu desejo usar em meu favor. Deus agora me
deu todo o tempo do mundo e esse  o meu tesouro. Sou rico de tempo, vou aproveitar.
Magali saiu do presdio entusiasmada. A postura digna do Jovino a impressionava.
- Nunca vi o Jovino to determinado - disse - parecia outra pessoa.
- Ainda bem. Conseguir isso l dentro  uma vitria. Ele tem razo. Acho positiva essa vontade de
estudar. Nossa vitria pode estar mais prxima do que imaginamos.
- Deus o oua!
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Captulo 21
Sentado frente  janela no luxuoso quarto do hotel, Rino sentia-se triste e desanimado. Nova York que
fora seu enlevo em outros tempos, agora parecia-lhe ruidosa e sem interesse. Seu olhar percorria
indiferente o belo quarto onde estava hospedado, e a bela vista noturna da cidade que se descortinava
atravs da janela no o motivava mais.
Passou a mo pelos cabelos num gesto impaciente. Queria voltar ao Brasil. Fazia apenas dois meses que
regressara com nome suposto e j no suportava mais estar ali.
Mariazinha era culpada. Destrura-lhe o prazer de viver. As aventuras que antes o seduziam, agora
haviam perdido o colorido. A perna havia sarado, mas quando a temperatura mudava, ainda lhe doa,
como a recordar-lhe o casamento dela com outro.
Levantou-se nervoso. Por certo eles teriam regressado da viagem. Jlio era um joo-ningum, precisava
voltar ao trabalho. E Mariazinha? Continuaria na fbrica?
Apanhou o telefone e ligou para uma agncia de viagens. Conseguiu passagem para dali a dois dias. Teria
tempo para comprar alguns presentes para os amigos e a famlia. Sentiu-se mais calmo depois disso.
Porm, no conseguia descansar.
Os pensamentos agitados o impediam. Haveria de dar um jeito -pensava. - Ningum nunca conseguira
derrot-lo. Ele era o homem certo para Mariazinha. Poderia dar-lhe luxo, conforto e muito amor. Por que
ela no percebia isso?
O esprito de Cristina, a um canto do quarto, olhava-o triste. Ele s pensava na outra. E ela, que tudo lhe
dera, estava esquecida e s. Lembrou-se de quando ele em outros tempos, vivia com ela uma aventura de
amor e paixo.
Da sua indignao quando lhe contou que seu pai pretendia cas-lo com uma menina ignorante e
desconhecida. Naquela noite, jurara-lhe amor eterno, afirmando que jamais a deixaria e que nunca se
casaria com a outra. Contudo, aps o almoo em famlia, ele regressara diferente. J no se recusava mais
a obedecer o pai, dizendo-lhe que, mesmo casado, nunca a deixaria.
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Ela chorara, brigara, tentara por todos os meios demov-lo inutilmente. Ele casou-se, indiferente ao seu
desespero, a sua dor. Ele nunca a havia amado realmente.
Mesmo agora, depois de tudo, s pensava em Clarinha. Fora intil esperar que ele a quisesse.
Lgrimas corriam-lhe pelo rosto contrado. Ela estava ali, sofrida e s, cada dia mais triste e mais feia.
Sentia-se cansada. Comeava a desconfiar que ele nunca a amaria.
Sentiu-se mal ao pensar nisso. Se isso fosse verdade, de que lhe adiantava viver? Contudo, desejar morrer
de nada lhe valia. A vida era eterna. Teria que sofrer eternamente?
Aproximou-se de Rino que, angustiado, inseguro e triste, apanhou uma mala e comeou a colocar seus
pertences. Era cedo para isso, mas ele precisava ocupar-se. Naquele instante, s queria voltar ao Brasil.
Aproximou-se da janela e olhou para baixo. Se ele se atirasse l de cima, tudo acabaria. No teria mais
que suportar o fardo da vida. Lembrou-se de sua me. Ela sentiria, mas com o tempo esqueceria.
Encostou a testa no vidro e ficou olhando as luzes brilhando l em baixo.
- Eu no consigo dar-lhe felicidade - pensou Cristina, observan-do-o - e eu tambm estou infeliz. O que
fazer? Sua me teria razo? Sua presena o estaria perturbando?
Percebera que quando se sentia triste, ele tambm ficava. No fora isso que sonhara alcanar. Sua cabea
confundia-se, e ela exausta comeou a chorar.
Rino sentiu que as lgrimas desciam-lhe pelas faces e tentou reagir.
- No sou um fraco - pensou. - Nenhuma mulher vai me derrotar. Voltarei ao Brasil e conseguirei o que
pretendo. Desta vez no vou falhar.
Cristina, a um canto do quarto, cabea entre as mos, dava livre curso ao pranto sentindo-se rejeitada e
sem rumo. O que fazer de sua vida agora? No se sentia forte o bastante para deix-lo. Estaria condenada
ao triste espetculo do sofrimento dele por amor a outra?
No auge do desespero, pediu:
- Me! Me ajuda a entender!
To veemente foi seu chamado que Norma entrou no aposento. Aproximou-se dela e abraou-a
carinhosamente sem dizer nada.
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Aconchegada nos braos carinhosos de sua me, Cristina chorou ainda mais. Lembrava as desiluses do
passado, a mocidade perdida, os enganos e frustraes vivenciados.
Quando conseguiu falar, disse num sopro:
- Me, estou to cansada!. No sei o que fazer. Sinto-me confusa.
- Descanse sua cabea em meu peito. Acalme-se. A tempestade passar. Eu a amo muito.
- Sou uma rejeitada. A vida no me deu nada!
- No diga isso. Voc tem tudo, s que ainda no consegue ver. Vem comigo. Vamos descansar em um
lugar tranqilo, onde os pssaros cantam pela manh e as flores danam ao sabor da brisa suave
espalhando perfume pelo ar. Voc vai descansar e refazer-se.
- Me, eu no mereo. Tenho sido m e me rebelado. Sei que serei castigada.
Norma acariciou a cabea dela de leve e respondeu:
- Onde ns vamos, no h nenhuma espcie de julgamento.  um lugar de paz. Portanto, no se condene.
No seja cruel. Voc j tem se punido demais.  hora de ser feliz.
- Me! Sinto-me presa ao Flvio. Como deix-lo sem dilacerar meu corao?
- Se quer ser feliz e deix-lo procurar o prprio caminho, h que cortar as amarras. Apego no  amor. O
amor liberta. A dependncia sufoca, atormenta.
- No entendo mais nada. Sinto-me confusa. Di muito separar-me dele.
-  preciso por agora. Depois, quando estiver melhor, mais refeita, poder avaliar e escolher o que deseja
fazer.
- Poderei voltar a v-lo? No ser um adeus?
- Claro.  preciso cuidar de voc. Aprender coisas, desenvolver sua lucidez, e ento poder agir como
achar melhor.
- No vo impedir-me de v-lo?
Norma afastou-a um pouco de si, olhando-a bem nos olhos:
- Se for comigo, ficar afastada por algum tempo. Para recuperar-se, dever submeter-se s condies do
tratamento. E nesses casos eles so rigorosos. Porm, voc perceber logo que quando for possvel e seu
estado permitir sem prejuzo para ambos, eles no a impediro de v-lo.
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Cristina suspirou agoniada. Sentia que precisava ir, mas era-lhe difcil separar-se dele.
- Pelo menos, terei notcia dele?
- Prometo cuidar pessoalmente dele e contar tudo a voc durante seu afastamento.
- Nesse caso, eu vou. Tenho cuidado dele ultimamente. Farei o que puder para ajud-lo no que for melhor
para ele.
Cristina aproximou-se de Rino que ainda absorto, em p em frente  janela, olhava sem ver as luzes da
cidade e abraou-o com tristeza. Ele sentiu-se ainda mais triste e angustiado.
- Adeus - disse ela. - Vou cuidar de mim e voltarei. No esquea de mim.
Beijou-o na face, nos lbios, abraou-o com amor e depois dirigiu-se a Norma:
- Vamos embora antes que me arrependa. Norma abraou-a e logo desapareceram do quarto.
Rino sentiu-se fraco e teria cado se no houvesse se apoiado na janela. Parecia-lhe haver estado doente
durante muito tempo. Sua testa cobriu-se de suor. Sentiu-se mal. Procurou afrouxar a roupa e
cambaleando estendeu-se no leito.
- No comi nada hoje - pensou assustado.
Respirou fundo e olhou no relgio que havia na cabeceira. Eram quase vinte e duas horas. Tomara apenas
frugal caf pela manh.
No podia adoecer agora. Precisava viajar. Esperou um pouco mais e quando se sentiu mais forte, ligou o
telefone e pediu o jantar. Depois de comer com apetite, sentiu-se um pouco melhor.
Contudo, estava inquieto, inseguro. Como se estivesse acontecendo alguma coisa estranha. Precisava
saber. Pegou o telefone e ligou para a me no Brasil, anunciando sua volta.
No havia nenhuma novidade em casa, no entanto, aquela sensao de desconforto e insegurana
continuava. Por qu? Seria um pressentimento? Nunca se sentira assim.
Tentou reagir. No havia nada a temer. Apesar da empresa haver fracassado, conseguira escapar muito
bem. No deixara nenhuma pista. A essa altura a polcia estaria completamente perdida.
Apesar do esforo que fez para reagir, Rino no conseguiu dormir. Passou a noite toda remexendo-se no
leito, sentindo-se inseguro e s, como nunca se lembrava de haver sentido antes. O tempo que faltava
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para a viagem custou a passar. Ele no se sentia bem. Que fraqueza seria aquela? No se recordava de
hav-la sentido nem quando fora ferido.
No via a hora de voltar ao Brasil. Quando estivesse em casa, no aconchego da famlia, tudo seria
diferente.
Chegou em casa dos pais abatido e magro. Preocupou a me que diligente apressou-se a chamar o mdico
da famlia. Mas o clnico no encontrou nenhuma doena.
D. Eunice tranqilizou-se. Cuidaria dele pessoalmente. Estava segura que logo estaria bem.
No entanto, apesar do trato especial, Rino continuava desanimado e distante. Os amigos, instados a
cooperar, o incentivavam a sair e a participar dos seus passeios. Rino ia, porm j no era o mesmo.
Chegaram a confidenciar a Eunice que o Rino estava assim por paixo frustrada.
Lineu, seu amigo mais chegado, inconformado, procurou conversar com ele.
- Que  isso, Rino! Parte pra outra. Tantas garotas circulando, mais bonitas e mais cultas do que
Mariazinha e voc no se anima! Sai dessa.
- No sei o que se passa comigo, - respondia ele picado. - Sinto-me desanimado, fraco, sem vontade.
- No h mulher que valha a sua alegria. Nem parece o Rino que eu conheo! Vai deixar que ela vena?
Rino protestava:
- No  por causa dela que estou assim. Sinto-me mal, no sei o que . Comeou de repente, l em Nova
York.
- Eu sei. Depois que Mariazinha se casou. Voc est dando muito cartaz pra ela.
- J disse que no me importo com ela.
- No queira me enganar. Afinal, por causa dela nos metemos naquela enrascada!
- Esquea isso! Nunca mais fale no assunto.
- Acalme-se.  s entre ns.
- Nem entre ns. Para mim  como se nunca houvesse acontecido, eu esqueci, apaguei da memria.
- No valeu a pena. Voc limpou o caminho pra outro.
- Quer se calar?
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- Pelo menos voc saiu da indiferena. J  alguma coisa.
- J que falou nela, como vai indo com o casamento?
- No sei. Nunca mais os vi.
- A Nair no disse nada?
- Sabe o que descobri? Que a irm do Alberto tem aparecido muito por aqui. Ela tornou-se muito amiga
da Nair e da Mariazinha. Sem falar de um tal Vanderlei, muito ligado na polcia, amigo do Jlio, que anda
cavocando o caso.
- No vai achar nada.
- Claro que no. -Ento foi ele...
- Ele o qu?
- Nada. Eu ouvi contar que so amigos.
- Soube tambm que voc estava fora do pas. Antes do casamento tentaram matar o Jlio.
- ? Quem poderia ser?
- No sei. Vai ver que h mais pessoas querendo livrar-se dele. Sabe que a polcia investigou sobre voc?
- Verdade?
- Sim. Andaram circulando, fazendo perguntas e tal, o Nelsinho contou. Ainda bem que teve juzo e ficou
quietinho l fora.
- J disse que desisti dela. J casou mesmo, o que posso fazer?
- Antes assim. Fico aliviado. Afinal com tantas garotas dando sopa, livres e dispostas, seria loucura
meter-se em apuros por quem no merece.
- Quero apagar o passado.
- No parece. Para isso precisa animar-se. Olha, hoje mesmo poderemos sair com duas belezas como voc
nunca viu. Uma delas est me querendo, a outra, tenho certeza, faria feliz o homem mais exigente. Que
tal?
-No sei...
- No venha com essa. Pelo menos tente. Parece enfeitiado!
- Est bem. Iremos. Aceito.
- Assim  que se fala. Passo em sua casa pouco antes das oito.
Depois que o amigo saiu, Rino suspirou aliviado. No sentia vontade nenhuma de ir com o Lineu.
Todavia, no podia entregar-se ao desnimo. Ele tinha razo quanto a isso. Precisava reagir. Por outro
lado, no queria que ningum soubesse seus planos. Planejara agir
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sozinho desta vez. Era perigoso demais a cumplicidade. A maior garantia de um segredo era no partilh-
lo.
Claro que teria que esperar algum tempo. A polcia suspeitava dele. Fora ingnuo demonstrando seus
sentimentos por Mariazinha. Se aparentasse hav-la esquecido e soubesse fazer o que pretendia, ningum
poderia acus-lo de nada.
Impaciente, levantou-se e caminhou pelo quarto de um lado a outro. Ah! Se pudesse agir! Esperar era um
suplcio, mas no havia outro jeito. Se ele desejava obter o que pretendia, teria que ser paciente e esperar.
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Captulo 22
Nair estugou o passo consultando o relgio com certa impacincia. Estava atrasada. Sabia que Jovino a
aguardava com ansiedade. Magali e Vanderlei no iriam visitar o presdio naquele domingo e haviam-na
encarregado de levar alguns livros para o amigo.
Havia alguns meses que Jovino decidira instruir-se e dedicara-se inteiramente a esse propsito. No s
Magali, Vanderlei, Jlio, ajudavam-no nesse mister, como no presdio algumas pessoas comearam a se
interessar por ele. Voluntrios, religiosos e at pessoas da administrao, observando a seriedade com a
qual ele estudava e principalmente seu aproveitamento, as mudanas decorrentes que o tornaram mais
comunicativo e educado, evidenciando boa vontade, granjearam-lhe cooperao e simpatia.
Respeitado pelos outros detentos, muitos dos quais ele procurava auxiliar nas delicadas facetas da justia,
redigindo peties, encaminhando requerimentos, cartas aos familiares, tudo enfim que pudesse
proporcionar aos companheiros de infortnio um pouco de paz, ele o fazia.
Eram inmeros os que viviam aflitos e angustiados, arrependidos pelos seus enganos, amargando a
conscincia da culpa, como a ignorncia de como sua famlia estaria vivendo do lado de fora, sem que
pudessem prover-lhes o necessrio.
A ansiedade, o desespero, o medo, sempre presentes, s vezes, a agressividade retratando a necessidade
de defesa, o pavor da prpria conscincia acusando, ou a constatao das fraquezas e da incapacidade
para gerir a prpria vida satisfatoriamente.
O presdio  onde a conscincia do prprio fracasso, da prpria impotncia torna-se mais aguda,
aparecendo no desespero de uma manifestao de violncia e de crueldade prprias do animal ferido e
acuado.
Jovino percebia, sentia esse drama e tentava de todas as formas compreender, ajudar. Alberto, tocado por
esse desejo do Jovino, sentindo-se ainda impotente para libert-lo do crcere provando sua inocncia,
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visitava-o amide, cooperando nesse mister, tentando de alguma forma atenuar-lhes os sofrimentos.
Dessa forma, com o correr do tempo, havendo aprendido, estudado, praticado, foi se tornando cada vez
mais ativo e com a ajuda do esprito do Alberto, ampliou muito sua percepo e intuio. Sua f em Deus
consolidou-se, percebendo novos aspectos da espiritualidade, entendendo mais como a vida funciona e
aprendendo a viver melhor, aproveitando todas as oportunidades de fazer o bem e desenvolver sua
aprendizagem.
Jovino sabia ser sereno nos momentos de agitao, enrgico frente ao desespero de alguns, inabalvel
quanto s investidas da corrupo e dos meandros do crime.
Ele havia se tornado realmente um elemento de paz e de ordem dentro da priso. Sem sair da sua
dignidade ao lado dos companheiros, sabia agir e acomodar tanto a administrao quanto os presidirios,
contribuindo para a diminuio das tenses e dos atritos. Tornou-se bem-visto tanto pelos presos quanto
pelas autoridades.
Sensibilizada, Nair percebia o quanto Jovino distanciava-se daquele menino calado e oprimido que
conhecera, transformando-se em um moo de sorriso largo, olhos geis e lcidos.
Conservava o hbito de falar pouco. Porm, o que lhe faltava em palavras havia de sobra no gesto, na
atitude e na ao.
Nair sentia-se comovida, recordando-se das cenas que presenciara no presdio, com os familiares de
outros presos que o procuravam para abra-lo e agradecer-lhe um favor, uma carta, um conselho, um
gesto amigo no momento difcil.
Dora dissera-lhe, tempos atrs, que a vida age sempre pelo melhor. Que era preciso pacincia. Se Jovino
demorava-se na priso era porque isso era o melhor para ele. Agora, ela sentia que estava certo. Ele
aprendera muito durante esse tempo. Submetido a todos os testes da delinqncia, soubera reagir com
dignidade, espalhando benefcios ao redor.
Encontrou Jovino a sua espera ansioso. Abraou-a carinhosamente. Devido ao bom comportamento, eles
podiam conversar em um ptio, onde sentados em um banco, Nair entregou os pacotes que trouxera.
- Magali, Vanderlei, Jlio e Mariazinha no puderam vir hoje, mas mandaram esses pacotes. Os dois
livros que pediu, chocolate e um bolo que minha me fez. Est uma delcia.
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- Obrigado.
Apanhou os livros e folheou-os rapidamente.
- Era isso?
- Sim. Ultimamente tenho lido sobre o poder do pensamento. Tenho descoberto coisas fantsticas.
-?
- Sim. Nosso pensamento  a base de tudo quanto nos acontece.
- Como assim?
- Estou fascinado. Descobri que a vida age de acordo com o que voc acredita.
- Por que diz isso?
- Tenho observado. E li num dos livros que Vanderlei me deu, que voc atrai as coisas do jeito que as
imagina. Ou melhor, o que voc acredita, as idias em que voc pe f, determinam suas atitudes. Elas
irradiam-se em suas energias. E essas energias atraem para voc experincias afins.
- Explique melhor.
- Voc sabe que ns emitimos e recebemos energias. -Sei.
- Ento. Emitimos energias das coisas que acreditamos e atramos isso para ns.
- D um exemplo.
- Aqui, tenho testado. Quem acredita em agressividade como soluo de seus problemas, quer resolver
tudo na agresso, est sempre sendo agredido pelas pessoas, pelas coisas, pela vida. Quem cr em
violncia e reage violentamente, quem se revolta, odeia, cultiva o ressentimento, a vingana, irradia essas
energias, atrair para si essas foras. Se voc est infeliz, se as coisas vo mal, se voc no est satisfeito
com sua vida,  preciso analisar e tentar perceber qual crena sua deu causa a essa infelicidade. Que
pensamentos e atitudes atraram esses resultados. Bom  saber que esses so s pensamentos, crenas nas
quais voc acreditou um dia, que podem at terem sido teis de alguma forma em outros tempos, mas que
agora voc no precisa mais e podem ser modificadas quando voc quiser. E quando isso acontece, toda
sua vida se modifica, as coisas comeam a acontecer para melhor.
-  incrvel! Como sabe que isso funciona e  real?
- Experimentando. Por que no tenta?
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- Eu no saberia.
-  fcil. Precisa meditar, sozinha, em silncio, tentar descobrir como voc atraiu coisas, pessoas, fatos,
acontecimentos em sua vida. Qual a sua crena que determinou este ou aquele acontecimento.
- E voc consegue saber?
- Sim. Tenho me perguntado como atra para mim a responsabilidade de um crime que no cometi. Como,
apesar da ajuda dos amigos que crem em mim, ainda estou aqui.
- E ento?
- Tenho mergulhado fundo dentro de mim. Percebi o quanto era violento, agressivo.
- Magali nunca se referiu a voc dessa forma. Diz sempre que voc era cordato e obediente. Mais
ajuizado do que os seus irmos.
- Mas pedi ao dr. Homero uma arma para me defender.
- Isso  natural.
- No. No . Eu pensava que precisava defender o carro, os meninos, tudo, porque acreditava na
violncia como soluo. Era orgulhoso, sentia-me forte com a arma no porta-luvas e como voc sabe, foi
isso que serviu ao assassino, tirou a vida do Alberto e transformou-se em prova contra mim.
Nair abriu a boca e tornou a fech-la sem saber o que dizer. Ele prosseguiu:
- Eu costumava dizer: Quem se meter com algum da famlia, ter que haver-se comigo! Eu ameaava e
pensava que o revlver era minha defesa! Que iluso. Foi ele quem me perdeu!
- Voc est sendo cruel, acusando-se. Voc  inocente! Foi uma vtima da fatalidade!
Jovino olhou-a srio e respondeu devagar, sentindo cada palavra.
- Voc se engana. No existe vtima. No percebe que eu provoquei toda a tragdia de minha vida? No
v que se eu no houvesse assumido a responsabilidade pelos acontecimentos, pela vida dos outros, se eu
no pensasse que com a violncia eu resolveria todos os perigos, eu no estaria aqui?
- Voc exagera. Como poderia prever o que aconteceu?
- Se eu soubesse o que sei hoje, no teria aquela atitude.
- Defender a famlia que era sua, no pode ser errado.
- O erro no est em defender, mas em acreditar que atravs da violncia eu evitaria todas as desgraas.
Comeo a entender que eu sou
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o nico responsvel pelo que me aconteceu. No percebe? Enquanto eu no mudar essa crena, no serei
libertado.
- Voc me surpreende. Pensa coisas estranhas. Eu nunca imaginaria isso.
-  verdade. Acredite. Foi essa atitude, essa crena que me trouxe aqui. Se eu no a tivesse, ningum
pensaria em mim como um assassino.
- No sei o que dizer.  cruel assumir essa culpa, no sendo o assassino.
- Eu nunca mataria o Alberto, porm, teria matado qualquer pessoa que tentasse machuc-los. No
compreende onde falhei?
Nair sentiu um n na garganta. Parecia-lhe muito nobre essa atitude. No sabia ainda se era verdade o que
ele afirmava porm, seus olhos encheram-se de lgrimas. Sem dizer palavra, segurou a mo dele com
fora.
Ele delicadamente passou o dedo sobre as lgrimas que ela no conseguiu reter.
- No chore - disse. - No me lamente. Acredite. Essa compreenso no  cruel. No me acuso por isso.
Apenas olho para o que eu fiz e percebo como estou aqui. Alegre-se, porque agora no vejo mais a
violncia como soluo dos meus problemas, nem como defesa dos meus interesses. Estou interessado em
solues de paz. Para isso, tenho me dedicado, tentado mostrar s pessoas aqui como a vida age, e os
resultados tm sido muito bons.
- Soube sobre aquele preso que queria esfaquear o outro. Voc foi muito corajoso intervindo. No teve
medo?
- No. Irradiei paz. Tentei mostrar-lhes que a violncia atrai mais violncia e eles atenderam.
- Contaram-me que ficaram como hipnotizados por voc.
- Nem tanto. Irradiei paz, calma e eles sentiram, perderam a vontade de brigar. Houve uma trgua. Sei que
voltaro a envolver-se, mas at l espero mostrar-lhes algumas coisas.
- Tome cuidado. No se exponha. Podem atingi-lo.
- Sei como agir. Nada me acontecer.
- No desejo que nada lhe acontea... Jovino olhou-a com emoo.
- Voc tem sido muito dedicada. Tenho esperado voc ansiosamente.
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- Tenho pensado em voc durante a semana. Fico imaginando o que estar pensando, fazendo. s vezes
me angustio.
Ele segurou a mo dela.
- No faa isso. A angstia atormenta inutilmente. Pense em mim, livre. Meu dia chegar! Ento, talvez
eu possa falar com voc de outra forma.
- O que quer dizer?
- Agora, sinto-me fora da sociedade. No posso pretender nada. Estou impedido. No seria justo nem
honesto. Contudo, devo confessar que tenho pensado em voc com carinho e saudade.
- Voc?
- Sim. No leve a mal. Sei que na situao em que me encontro, no posso planejar nada. Mas, um dia,
quando o pesadelo acabar, terei condies de ser feliz, de pensar no futuro.
- Jovino! Voc partilharia esse futuro comigo?  isso que quer dizer?
-Ah! Se eu pudesse!...
- Fala.
- Tenho sonhado com a liberdade e com voc. -Jovino!
- Sim. Eu gosto de voc. Desde o primeiro dia, quando voc veio aqui, senti atrao.
- No parecia. Voc mal conversou.
- Eu estava muito revoltado. Mas, mesmo assim, sua beleza, seus olhos sinceros, seu jeito especial
mexeram comigo.
- Por que nunca me disse?
- No me sentia digno. Aqui, preso, condenado, no achei justo com voc. Ainda agora, me escapou.
Pretendia guardar esse segredo. No desejo turvar nossa amizade. Espero que esquea o que eu disse.
Nair sentia-se muito emocionada. Gostava muito do Jovino, uma afeio sincera e profunda que nunca
questionara, mas que agora, ouvindo-o, fazia seu corao bater mais forte e uma sensao de euforia e
prazer a dominava. Seria amor? Estaria amando Jovino?
- E se eu no quiser esquecer? - disse - E se eu disser que me sinto feliz em saber que gosta de mim?
Jovino, sem conseguir conter-se, beijou-a nos lbios apertando-a de encontro ao peito. Emocionados,
entregaram-se ao sentimento que os envolvia. Por fim, ele disse olhando-a nos olhos:
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- Devo acreditar que sente o mesmo por mim? Vrias vezes me debati na incerteza de que o carinho que
via em seus olhos ia alm da simples amizade. Temia iludir-me. Temia, ainda mais, que voc se iludisse.
-Eu?
- Sim. Talvez voc esteja confundindo seus sentimentos. Talvez deseje confortar-me, sinta pena de mim,
da minha tragdia. Isso me atormenta e deprime.
Ela alisou o rosto dele com carinho.
- Isso no  verdade. Eu gosto de voc pelo que voc . Admiro-o como pessoa. Sei que  mais digno do
que muitos homens que vivem do lado de fora. Essa situao  temporria. Logo estar livre.
- Sei que serei libertado. Agora que compreendi a verdade, confio que serei livre. No entanto, terei que
buscar meu lugar na sociedade, reconstruir minha vida.
- Sua inocncia ser provada e voc voltar para casa de Magali, que sempre foi a sua casa.
- No. No desejo voltar. Por mais que goste deles como minha famlia  hora de cuidar de mim. No
quero ser pesado a ningum. Tenho certeza de que poderei organizar minha vida.
- No ser orgulho? No est magoado com eles?
- No. Compreendo a atitude deles. Houve tempo em que voltar para l, era o que eu mais queria. Porm,
eu desejo viver minha prpria vida. Tenho pensado muito. Descobri que sou capaz de fazer muitas coisas.
Engraado. Estudando, tentando ajudar os outros, pretendendo aprender a no violncia, percebi que
tenho muitas habilidades. Sinto-me feliz em notar que eu posso fazer coisas por mim mesmo. Que eu sou
capaz.  uma satisfao grande. D para entender?
- Sim. Sei como . Minha me no queria que eu trabalhasse. Mas eu achei que precisava. Afinal, somos
pobres e eu no queria ser pesada  famlia. Fui sozinha e arranjei meu emprego naquele escritrio. Fiz o
teste e passei. Minha me surpreendeu-se. Consegui ganhar mais do que meu irmo. Fiquei muito feliz.
-  isso. Claro que eu desejo que o dr. Homero, o Rui e D. Aurora descubram que sou inocente. A
amizade deles  importante para mim. Mas eu desejo construir minha vida do meu jeito. Tenho visto o
mundo de outra forma.  preciso ser forte, tomar conta do seu pedao, seno os outros o tomam. Eu no
desejo prejudicar ningum, nem nada
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que seja dos outros, mas sei que posso ter o meu espao e pretendo tomar conta dele.
- Essa fora no seria agressividade?
- De forma alguma. No vou usar a fora para atacar ou defender nada. Vou usar a minha fora para
construir o meu lugar no mundo. Um lugar cheio de sol, de alegria, de paz e de amor. Vou me dar fora
para estudar, aprender, fazer coisas, desenvolver minhas habilidades. Esses anos aqui mostraram-me
claramente o que tem valor real, e o que eu desejo  ser feliz.
Nair ouvia-o com enternecimento e admirao.
- Sinto-me bem ouvindo-o.
- Gostaria de saber se um dia, quando eu sair daqui e houver conquistado tudo isso, voc concordar em
dividir sua vida comigo.
- Sim, eu quero. Quero aprender com voc como conquistar essa felicidade to grande.
Ele beijou-a com carinho.
- Vou pensar em voc todos os instantes. Olha Nair, todas as noites, s dez horas, vou pensar que estamos
juntos em um jardim muito lindo e que a tenho em meus braos como agora! Gostaria que fizesse o
mesmo. Nos encontraremos todas as noites em pensamento, nessa mesma hora. Far isso?
- Sim. Estaremos juntos todas as noites.
Ao despedir-se, Nair sentia-se muito emocionada. Parecia-lhe natural gostar dele, e a descoberta de que
era querida, enchia seu corao de contentamento.
No trajeto de volta, no deixou de recordar suas palavras, seu carinho, seus beijos. Sim. Ela o amava.
Sabia que a situao era difcil. Sua famlia no compreenderia se soubesse. Precisava esperar. Ser
paciente. Confiava que ele logo seria libertado. Ele parecera-lhe to confiante!
No compreendera muito bem o que ele dissera, s sabia que ele era um moo bom, cheio de planos para
o futuro e que a amava. Estar a seu lado seria a sua felicidade.
Se guardou segredo da famlia, confidenciou com os amigos. Procurou Mariazinha a quem confiou o que
lhe acontecera. A amiga olhou-a com certa preocupao.
- Eu notei o jeito como ele olhava para voc. Percebi que a admirava.
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- Foi o que ele disse. Que gostou de mim desde o primeiro dia. Voc ficou sria, no aprova o nosso
namoro?
- No se trata disso, Nair. Gosto do Jovino.  excelente rapaz, o que me entristece  a situao. At agora
no pudemos fazer nada para libert-lo. Esse amor no ser um sofrimento a mais para vocs dois?
Jlio, que ouvira calado interveio:
- Talvez no. Depende de como eles encararem a situao. Ao invs de sofrimento, pode vir a ser uma
motivao para superar o presente e esperar pela liberdade. Pode confort-lo e ajud-lo a investir no
futuro, estudando, preparando-se.
- Voc acha? - disse Nair mais animada.
- Olhe o meu caso. Nunca trabalhei com tanto gosto como agora. O amor compartilhado traz alegria,
felicidade.
- Eu gosto dele. Estou disposta a esperar que ele seja libertado. Somos jovens, temos muito tempo para
viver juntos.
- O que me aborrece  que o Vanderlei no conseguiu nada at agora. - disse Jlio.
- Ele tem se esforado - aduziu Mariazinha. - Desde que se formou, tem trabalhado para reabrir o
processo, alegando que o Jovino foi condenado com insuficincia de provas. Tem sido intil.
- Como o encontrou?- indagou Jlio.
- Por incrvel que parea, muito animado. Tentou me explicar, mas no entendi bem. Diz que descobriu o
motivo de sua priso, que ele atraiu isso porque pensava que a violncia resolvia tudo. Acho que a
solido, a priso, acabaram por criar algumas idias disparatadas na cabea dele. Ele acha que seria at
capaz de matar para defender seus amigos e isso o prejudicou. Ele disse: Eu jamais mataria o Alberto,
mas mataria quem o quisesse atacar.
- A idia no  to disparatada assim. Tem at lgica - respondeu Jlio pensativo.
-Voc acha?
- Claro. Eu mesmo j pensei muito nisso. Violncia atrai violncia.  a lei das afinidades.
- Foi isso que ele disse. Afirmou que agora mudou sua crena. No cr mais que a violncia resolva nada.
Por isso julga haver aprendido sua lio e espera que isso o liberte. Vendo-o to confiante, eu no quis
aborrec-lo, mas no creio que s isso seja suficiente. Afinal precisa encontrar o verdadeiro assassino e
provar sua inocncia na justia.
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- D. Dora disse que quando se aprende a lio, o curso acaba - lembrou Mariazinha. - Disse tambm
que quando chegar o momento certo, ele ser libertado.
- Fico satisfeito em saber que ele est confiante. Mesmo que sua libertao esteja distante, melhor que ele
permanea otimista.
-  desesperador como no podemos fazer nada - tornou Nair.
- A pacincia ser sua fora - respondeu Jlio. - Se o ama mesmo, o melhor  imaginar que tudo ser
resolvido.
- Isso mesmo, Nair. Afinal, como voc disse, so jovens, podem esperar.
Em sua casa, sentada na sala, tendo nas mos um livro que no lia, Magali sentia-se irritada. Rui no
podia ter agido daquela forma.
Estava no porto de casa conversando com Vanderlei quando o Rui chegara e fora muito grosseiro,
exigindo que o moo se retirasse e ela entrasse em casa.
Vanderlei, plido, recusara-se a ir e ele tentara agredi-lo. O moo segurara o brao do Rui, impedindo-o
de atingi-lo. Rui perdera o controle e gritara enraivecido.
Para no criar maiores problemas, uma vez que os vizinhos apareceram na janela, Vanderlei decidiu ir
embora.
Vendo-o ir-se, Rui exigira que ela entrasse e trancara o porto impedindo-a de sair. Depois, subira para o
quarto trancando-se por sua vez.
Magali sabia que ele se aproveitara da ausncia dos pais que naquele domingo haviam sado. Seu pai
consentira que Vanderlei a namorasse e fosse a sua casa. O Rui nunca aceitara a presena dele. Era
indelicado e ostensivamente demonstrava seu desagrado.
Vanderlei procurava ignorar as grosserias dele para no brigar. Mas isso tinha o dom de irritar ainda mais
o Rui que aumentava sua agressividade.
Magali era paciente com o irmo, porm sentia-se no limite da sua pacincia, uma vez que ele no atendia
a nenhuma das suas ponderaes.
Vanderlei propusera-lhe casamento e ela aceitara. Contudo, ele recm formado, iniciara sua carreira como
advogado e para realizar esse sonho, eles precisavam de certo tempo.
Ela gostaria de casar logo a fim de escapar s implicncias do irmo, mas seus pais no concordariam sem
as condies que eles
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desejavam. Pretendiam que Vanderlei pudesse oferecer a Magali o mesmo padro de vida a que ela fora
habituada.
Vanderlei concordara com eles quanto a isso. Pretendia montar uma boa casa, com gosto e conforto.
Por isso, ela precisava ser paciente e esperar. Mas, apesar disso, ela conversaria com o pai. Dessa vez o
Rui exagerara.
Era j tarde da noite quando eles voltaram, e Magali ainda os esperava.
- Ainda acordada, filha? - indagou Aurora admirada.
- Sim. Preciso conversar com papai.
Dr. Homero que fechara a porta e verificava se os ferrolhos das janelas estavam corridos, perguntou:
- O que foi?
Magali, indignada, contou. O pai ouviu-a em silncio. Quando terminou, considerou:
- O Rui se incomoda muito com voc. Vive preocupado com o que voc faz. Nunca aceitou ver voc
namorando no porto. E para ser sincero, eu tambm no gosto.
- Pai, ns estvamos s conversando. Ficamos l fora porque vocs no estavam em casa. No vejo
motivo para o Rui ser to implicante. O Vanderlei deseja casar comigo.
Homero olhou-a sem dizer nada, foi Aurora quem respondeu:
- Ele  um bom moo e bem-intencionado.  inteligente tambm. Gosto de conversar com ele.
- Pelo jeito voc o aprova para genro.
- Aprovo com gosto. Magali gosta dele. Est comeando a carreira, pode ir longe.
- Voc no aprova, papai?
- No disse isso. Ainda no o conheo o suficiente. O namoro  para isso. Vamos ver. Seria bom
evitarmos desentendimentos em famlia.
- A culpa  do Rui. Ele maltratou o Vanderlei, foi muito grosseiro, tentou at agredi-lo.
- Falarei com ele. Onde est?
- Fechado no quarto.
- Vamos dormir. J  tarde. Amanh falaremos. Magali notou que o pai parecia cansado. No insistiu.
Uma vez no leito, Homero no conseguiu dormir. Pensamentos angustiados o perturbavam. A vida fora
caprichosa com ele. Por que
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levara o filho mais brilhante e bem-dotado e lhe deixara o belicoso e temperamental? Por que fora to
cruel com ele, castigando-o daquela forma? Sabia que sua alegria se fora com a morte do filho predileto.
Desalentado, no se sentia capaz de esquecer. Por que a morte levara a melhor? Por que ele, apesar de
todo esforo nunca conseguia derrot-la?
Magali falara-lhe sobre a continuidade da vida. Era difcil aceitar. Os homens sonham com uma iluso
para amenizar sua dor. Isso era como uma aspirina, apenas um paliativo, um analgsico.
Lutar para manter a vida, curar pessoas, retardar-lhes a morte, seria um bem? De que lhe valera tantos
estudos, tanta dedicao para uma causa perdida? Por causa dela, relegara muitas coisas ao segundo
plano. De que lhe valera? Chegar  maturidade derrotado, amargurado e triste. Esse fora o resultado de
tanto esforo.
Sentia-se muito cansado. Na verdade, jamais conseguira ser feliz. Cansara-se de ver tanta dor, gente
sofrendo, tragdias e dramas sem que o sacrifcio de toda sua vida houvesse contribudo para mudar esse
fato.
Se um dos pacientes recebia alta, logo em seguida outros mais apareciam, muitas vezes em piores
condies. Isso no tinha fim. Estava cansado da dor, da queixa, dos lamentos.
Pensou em tirar umas frias, viajar durante algum tempo. H quanto tempo no vivenciava um momento
de paz?
Remexeu-se no leito inquieto. Aurora dormia tranqila. Ele levantou-se e foi  cozinha. Tomou um copo
de gua. Sua casa h muito deixara de ser alegre e na penumbra parecia-lhe ver os filhos ao redor da
mesa.
Que saudade! O rosto bonito e corado do Alberto veio-lhe  lembrana. Lgrimas desceram-lhe pelas
faces. Como esquecer? A brutalidade do crime, a dor da perda. Pensou no Jovino e o antigo rancor
reapareceu forte como no primeiro dia.
Magali julgava-o inocente. Aurora inclinava-se a isso. Ele duvidava. Como saber? Como no se
arrepender de haver comprado a malfadada arma que matara Alberto?
Passou a mo pelos cabelos suspirando angustiado. Alberto era um moo bom, estimado por todos, no
tinha inimigos. Quem teria interesse em mat-lo? S podia ter sido o Jovino. Fora a inveja. A polcia
estava certa. Nesse caso, no devia permitir que Magali fosse ver Jovino.
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Mas e se ele fosse inocente? Se estivesse sendo vtima de um erro judicirio? Tanto tempo havia passado
e a dor ainda permanecia. Quando teria paz?
O esprito do Alberto estava ali, observando sua tristeza, sentindo-se emocionado. Por que seu pai no
vencia essa tristeza? Teve vontade de gritar, de dizer-lhe que a morte do corpo no o havia destrudo. Que
ele continuava o mesmo de sempre, vivendo em outro lugar, mas guardando o mesmo amor no corao.
Aproximou-se dele. Sabia que ele no o estava percebendo. E se tentasse um contacto?
Sem vontade de deitar-se novamente, Homero sentou-se ao redor da mesa. Alberto abraou-o carinhoso.
Homero lembrou-se dos momentos em que naquela mesma mesa, os filhos tomavam o caf da manh,
antes das aulas. O Alberto ali, sorrindo, brincando, parecia-lhe real. Seus pensamentos procuravam na
memria cenas do passado, revivendo-as com emoo.
Alberto, abraado a ele, esforou-se para no se deixar dominar pela saudade. Agora, ele sentia-se mais
forte e compreendia que cultivar emoes desequilibradas s os iria prejudicar. J no via o que lhe
acontecera como uma tragdia horrvel. Sequer pensava que houvesse sido um mal.
Agora que conhecia mais sobre o passado, compreendia e valorizava as lies que recebera. Por isso,
apesar da emoo, procurou manter o equilbrio, no dramatizando a situao como Homero. Procurando
transmitir-lhe pensamentos de calma e amizade.
Disse-lhe ao ouvido:
- No faa isso com voc. A vida no  o que voc pensa. No se culpe de nada. Voc sempre fez o
melhor. Perdoe o que houve. Tente esquecer. Ajude o Jovino. Ele  inocente! V v-lo na priso.
Interesse-se em saber a verdade. Ah! Se eu pudesse contar-lhe! Se me ouvisse!
Homero pensou no Jovino. Imaginou-o na priso. Ele nunca tentara descobrir a verdade. Aceitara a tese
da polcia, mas jamais fizera nada nem um gesto para descobrir se fora mesmo ele o assassino.
Poderia ter investigado, se interessado logo aps o crime. Magali falara-lhe sobre a briga, e o Jovino
tambm alegara isso em seu depoimento. Teriam razo? Haveria outros interessados em matar o Alberto?
E a namoradinha dele por que no dissera isso  polcia? Agora, dizia
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haver sido ameaada. Seria verdade mesmo? Havia chance do Jovino ser inocente?
- Pai - continuou Alberto - ele  inocente. Voc pode ajudar Magali e o Vanderlei. Pode ir ver o Jovino,
falar-lhe.
Homero pensou:
- Preciso descobrir o que aconteceu naquela noite. No posso viver nesta incerteza. Meu Deus, o que
fazer?
- Acalme-se. Descanse. No se atormente.
Alberto, abraado ao pai, procurava transmitir-lhe pensamentos de paz. Aos poucos Homero foi se
acalmando. Quando se sentiu melhor, voltou ao quarto e deitou-se. Alberto acompanhou-o, e vendo-o
adormecer, agradeceu a Deus ter podido ajud-lo.
Quando acabou, foi surpreendido com a presena de Norma que abraando-o, disse:
- Vim cooperar. Gostaria de um encontro com ele? Alberto exultou.
-  o que eu mais quero. Ele est muito iludido. Exagera tudo. Poder ver-me?
- Vamos ver. Voc mostrou-se bem e no se deixou contagiar pela energia negativa dele. Por isso vamos
tentar.
O corpo de Homero estava adormecido e seu esprito se sobrepusera a ele, tambm adormecido.
- Ele est exausto - comentou Norma. - Vou dar-lhe foras. Aproximou-se do esprito de Homero
adormecido e segurou as
mos dele. Das mos dela, saa uma energia laranja que penetrando nas mos e nos braos do corpo astral
dele, logo ativaram seus centros de fora revitalizando-os.
Homero, esprito, abriu os olhos tentando perceber o que estava acontecendo. Vendo Norma, perguntou
admirado:
- Onde estou? Quem  voc?
- Uma amiga. Vem comigo. Vamos passear um pouco. Ele levantou-se fascinado. Foi a que viu o
Alberto.
- Alberto! - disse estremecendo. - Meu Deus! Estou sonhando! Alberto abraou-o com carinho.
- No  sonho. Sou eu mesmo. Estou vivo!
Homero emocionado no conseguia falar. Alberto prosseguiu:
- O que Magali disse  verdade. Acredite! Eu no morri. Sofro com
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sua tristeza. Gostaria que percebesse isso. A vida  preciosa! No se lastime. Aprenda a ser feliz. O
mundo  belo e Deus cuida de tudo.
Confie.
Homero olhava-o fascinado. Passou a mo trmula sobre o rosto do filho.
- Isso no pode ser - pensou. - Voc est morto e os mortos no voltam!
- Engano seu, papai. Eu estou vivo. Eu estou aqui. Vem. Vamos ver as belezas da vida! Quero que sinta
como vale a pena.
Homero sentiu que toda sua angstia desaparecia. Abraado ao filho de um lado e a Norma do outro,
deixou-se conduzir, sentindo uma alegria que nunca se lembrava de haver sentido antes.
Os trs saram abraados,  luz tnue da madrugada, olhando as luzes da cidade l embaixo, deslizando
deliciosamente por vales, montanhas, parques. Homero sentia-se feliz, maravilhado com o brilho das
estrelas que luziam no cu e a magia do momento de prazer e de reencontro.
Na volta, reconhecendo sua casa, Homero pensou:
-J? Ah! Se eu pudesse ficar aqui para sempre! Este  o paraso.
- Pai, no  possvel ainda. Aceite as coisas como so. Aprenda com elas. Procure olhar o que aconteceu
sem drama. No continue se castigando, perpetuando aquele instante. Foi um minuto. J passou. Hoje
estou feliz! Seja feliz, aproveite a vida! Vale a pena. Um dia descobrir a verdade. O Jovino  inocente.
Lembre-se disso: Jovino  inocente!
Homero acordou, de repente, tendo ainda essa frase na lembrana:
-Jovino  inocente!
Suspirou ainda semidormindo e remexeu-se no leito.
- O que foi? - indagou Aurora. - Sente-se bem?
- Como nunca me senti antes. Se a morte  isso, quero morrer! Aurora assustou-se. Acendeu a luz do
abajur.
- No diga isso, Homero. Acorde. Voc est sonhando.
- O Alberto. Onde est? J foi embora?
- O Alberto?
- Sim. Estava aqui agora.
Ela olhou-o, tentando entender.
- Foi muito bom. Se foi sonho, quero sonhar de novo. Abracei o Alberto, ele me disse muitas coisas.
Havia uma mulher junto, bonita,
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samos passeando e era como se estivssemos voando sobre a cidade. Nunca aconteceu comigo isso!
- E o Alberto, como estava?
- Bem. Disse-me tantas coisas!
- Conte-me.
- Agora parece difcil lembrar as palavras. Falou para eu ser feliz, esquecer. Pena eu ter acordado. Ele
dizia: Jovino  inocente! Falou vrias vezes isso.
- Meu Deus! Magali tem razo. Ele  inocente mesmo. Como duvidar depois disso?
- Foi s um sonho.
- Um sonho diferente. Pode ter sido verdade. Voc esteve com o Alberto. S pode ter sido isso.
- Ser? Acha possvel?
- Por que no? Se ele est l no outro mundo, claro que gostaria de nos visitar. Ah! Como eu gostaria que
fosse comigo! Vou perguntar a D. Dora. Ela pode nos explicar essas coisas.
- Ela entende disso?
- Claro. Por que no vai ao Centro conosco esta quinta-feira? Ele balanou a cabea pensativo.
- Vamos ver - disse.
Continuaram conversando, mas Homero no podia esquecer o que sentira naquela noite. Essa sensao
acompanhou-o durante vrios dias. Sempre que pensava no filho, recordando a emoo que sentira,
esforava-se para lembrar-se do que haviam conversado. Era intil. S conseguia recordar-se com
clareza: -Jovino  inocente! - Poderia confiar? No seria apenas um sonho? Ele estivera pensando muito
naquela noite. Como saber?
Sentiu vontade de ir ao Centro Esprita com Aurora. Ela ficara to melhor depois que comeara a ir l! A
princpio, pensara em auto-sugesto. O sofrimento era to grande que Aurora confortara-se com essas
idias. Mas agora comeava a duvidar. E se fosse verdade mesmo? E se o Alberto estivesse vivo no outro
mundo, desejando falar-lhe, contar a verdade sobre o crime, como se sentiria diante da sua descrena? Por
que era to difcil para ele crer?
Estava cansado, triste, vazio. A desesperana atormentava-o. Gostaria de ser ingnuo, ter a f dos simples
e ignorantes. Eles pelo menos,
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vivem em paz. De que lhe adiantava tanta cultura, tantos estudos, tanta cincia, se isso apenas lhe servia
para tornar-se descrente, infeliz?
Decidiu-se. Iria com Aurora. Queria ter f. Acreditar na vida, em Deus, na bondade, no amor, no perdo.
A crueldade do mundo, suas misrias, pesavam-lhe. Desejava esquecer. Recomear.
Magali surpreendeu-se com a deciso do pai. Aurora informou-a sobre o sonho que ele tivera e ela no
teve dvida: ele estivera mesmo com o Alberto. Ela percebera o desencanto do pai, tentara ajud-lo sem
conseguir. O Alberto havia conseguido. Agradeceu a Deus pelo socorro. Compreendeu que aos poucos
todos iam melhorando. Um dia, pensou, comovida, todos ns estaremos felizes. O Jovino estar conosco.
Quando eles foram ao Centro Esprita na quinta-feira, Homero conversou com Dora que o atendeu
carinhosamente. Ele sentiu-se bem ali, junto com aquelas pessoas cheias de f que oravam em benefcio
dos doentes, e demonstravam uma certeza na continuidade da vida aps a morte que o emocionou.
Ah! Se ele pudesse crer! Como se sentiria aliviado! Aps a reunio, sentiu-se muito melhor, mais calmo,
mais sereno. Ao despedir-se, Dora acrescentou:
- Fiquei feliz com sua presena dr. Homero. Tenho a certeza de que o Alberto tambm ficou. H muito
tempo ele desejava que viesse.
Homero surpreendeu-se:
- Como sabe? Ele tem vindo aqui?
- Tem sido visto por vrios dos nossos mdiuns. Uma noite nos pediu para atend-lo. Disse-nos que o
senhor estava muito inconformado. Desanimado, isso o entristecia muito. Desejava v-lo, contar-lhe a
verdade, mas no conseguia. Estava preocupado com sua tristeza.
Homero comoveu-se. Como aquela mulher podia saber sobre seus pensamentos ntimos? Nem a Aurora,
confidenciara seus sentimentos.
- Obrigado - disse. - Sinto-me melhor. Isto aqui  um blsamo para a alma.
- Venha quando quiser. Ser sempre bem-vindo.
Durante o trajeto de volta, Homero no disse nenhuma palavra. Aurora percebeu que ele sentia-se
comovido e calou-se. Sentia que algo estava acontecendo com ele. No duvidava mais de que ele estivera
mesmo com o Alberto e essa certeza inspirava-lhe confiana e alegria.
Uma vez em casa, Rui, na sala de estar, esperava-os. Desejara confirmar se o pai realmente fora ao Centro
Esprita. No acreditara no que
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a criada lhe dissera. Vendo-os entrar em silncio, esperou que eles falassem.
Magali subiu para o quarto. A me foi para a cozinha, fazer um ch para o marido. Rui aproveitou para
satisfazer a curiosidade:
- A criada me contou, mas no acreditei.
- O qu? - perguntou Homero com calma.
- Que voc foi ao Centro Esprita.
- Por que no?
- Logo voc! To inteligente, to culto! Achei impossvel.
- Melhor faria se tambm fosse at l. Talvez conseguisse aprender a ser mais calmo, mais controlado e
no arranjar briga com sua irm, nem com o Vanderlei.
Rui irritou-se.
-Aquele sujeitinho irritante. No sei como permite que venha aqui e o que  pior, que ande atrs de
Magali.
- Preferia que no se envolvesse no que no lhe diz respeito.
- Magali  minha irm. No posso permitir que namore qualquer um.
- Esse assunto no lhe diz respeito. Ainda sou eu quem decide o que  melhor aqui em casa.
-Voc  muito ocupado. No percebe que esse sujeito  irritante. Eu tambm vivo aqui e gostaria que me
ouvisse. No gosto de ver Magali de brao com ele. Gostaria que levasse em considerao o que eu
penso, pelo menos uma vez.
- Se tivesse motivo justificvel, eu o ouviria, mas no tem. Simplesmente implica com ele. Sendo assim,
no posso concordar. Magali gosta dele e deseja namor-lo. Pensam at em casar-se.
- Casar-se! Nunca! No permitirei. Magali nunca se casar com ele.
- Por que se irrita tanto? Sua irm  livre para escolher quem quiser para marido. Sendo um moo
honesto, trabalhador, instrudo, no me oporei. Trate de aceitar e deix-la em paz.
Rui empalidecera e trincara os dentes com raiva:
- Voc nunca me ouviu. Prefere dar ouvidos a ela. Mas saiba que nunca aceitarei esse casamento. Se
insistir em permitir que ele continue vindo aqui, vou embora desta casa e nunca mais porei os ps aqui.
Eu prometo!
Homero olhou-o surpreendido. No sabia que ele dava tanta
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importncia a esse assunto. No podia concordar. Essa chantagem era bem dele. Sabia que no podia
transigir. Por isso disse com calma:
- Voc  quem sabe. Nesta casa sempre lhe oferecemos o que temos de melhor. Nosso carinho, nosso
conforto, nossa ateno. Mas no posso permitir que me dite ordens, ou me ensine como gerir minha
prpria famlia. Se no est satisfeito com minhas decises, faa o que quiser. Voc  livre para escolher
seu prprio caminho.
Rui no respondeu. Subiu para o quarto em silncio. Homero sentou-se no sof pensativo. Era estranha a
atitude do Rui com relao a Magali. Estava claro que nada de palpvel havia contra Vanderlei, se o
tivesse, com certeza teria apontado. Sua implicncia era gratuita. Como compactuar com essa atitude
injusta?
Aurora apareceu com a bandeja onde arrumara algumas guloseimas e o bule de ch. Colocou sobre a
mesa e serviu o marido carinhosamente. Amava-o muito. Desejava demonstrar-lhe seu afeto.
Homero, apesar da discusso desagradvel com Rui, sentiu-se bem. A solicitude de Aurora o fortalecia.
Ela, sentada a seu lado, tomava seu ch em silncio.
- s vezes fico pensando - disse Homero - por que o Rui  to belicoso. Agora deu para implicar com
o Vanderlei. Ps na cabea que devemos impedir o namoro de Magali. No apresentou nenhum motivo
plausvel.
- Ele sempre foi muito ciumento de Magali. Desde criana, ela no podia brincar com nenhum amiguinho
que ele logo atrapalhava. Pensei que com a idade isso desaparecesse.
- No passou. As vezes penso que ele sofre de alguma psicose, tem certas manias... Ele sempre foi
nervoso.
-  verdade. Se ao menos ele aceitasse ir ao Centro... Tenho visto tantas coisas! Casos de doentes mentais
que se curam. Nunca falei sobre isso porque achei que voc no ia gostar.
- Hoje senti-me muito melhor. Aquele ambiente  muito especial. Acolhedor, tranqilo. Fez-me to bem
que nem as implicncias do Rui conseguiram me irritar.
- Ainda bem. Eu tambm me sinto bem l. Encontrei paz e fora espiritual.
- Reconheo que voc est muito bem agora.
-Tem razo. Gostaria que voc tambm conseguisse sentir-se
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melhor. Vive no meio de pessoas doentes, seu trabalho  rduo. Precisa fortalecer-se espiritualmente.
- Sim. Irei na prxima semana. Quero aprender a ter f. Aurora passou a mo pelo brao do marido,
acariciando-o
levemente.
- A f  nossa fora. Remove montanhas.
Homero sorriu. Comeava a perceber que ela tinha razo.
- Vamos dormir - disse. - Estou com muito sono.
Esperou Aurora levar a bandeja para a cozinha e ambos, abraados, subiram para o quarto.
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Captulo 23
Rino chegou em casa desanimado. Sua vida estava ruim e sem graa. No conseguia interessar-se por
nada. O tdio tomara conta de tudo e a insatisfao o fazia sentir-se infeliz e triste.
Fechou-se no quarto, disposto a dormir, esquecer, para fugir ao aborrecimento. Lineu foi encontr-lo
metido na cama, de mau humor. Entrou no quarto, acendeu a luz e foi logo dizendo:
- O que  isso, homem? Na cama uma hora dessas? S pode estar doente. Logo hoje que temos um
programa especial! Duas pequenas do barulho! Elas toparam sair, e voc vai levantar-se j e se arrumar
depressa. Estamos atrasados.
Rino abriu os olhos irritado e gritou:
- Apague essa luz. No quero sair. Deixe-me em paz. O outro se fez de desentendido.
- Deixa disso. No  ficando de mau humor e entregando os pontos que voc vai melhorar. A noite est
linda e temos tudo a nosso favor. Vamos. Pelo menos tente me ajudar! Estou louco por ela. Se voc no
for, elas no iro.
- Qual o qu. Voc vai e pronto. No estou com vontade.
- Sair com as duas? Como vou conseguir o que pretendo? Vamos l, voc  meu amigo. Faz tempo que
estou esperando esta chance. Voc agora no vai fazer isso comigo.
- Na outra noite eu fui, e a pequena era um terror. Parecia uma boba.
- No negue que ela era bonita. Se voc no gostou, no tenho culpa. Bonita, ela era. Sei de alguns
amigos que dariam tudo para estar em seu lugar naquela noite. Voc est difcil. Puxa! Desse jeito, no
conseguir nada.
- Estou cansado.
- Isso  desculpa. No me convence. Ser que ainda no esqueceu a Mariazinha?
Rino impacientou-se:
- Que idia!Nem lembro que ela existe. Estou cansado  s isso.
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- Est bem. Vamos hoje, e eu prometo que no insistirei mais.  muito importante para mim.
Rino suspirou resignado. No lhe convinha que o amigo desconfiasse de suas intenes com Mariazinha.
- Est bem, eu vou.
- Rpido, por favor. Est quase na hora.
Enquanto Rino tentava dar um jeito na aparncia, ele, entusiasmado, falava sem cessar do quanto
desejava aquela pequena e no via a hora de t-la nos braos.
Observando o entusiasmo dele Rino perguntou:
- E a Neide? O que disse a ela? Lineu deu de ombros.
- Estou farto dela. Seu cime j me cansou. No agento mais.
- H alguns anos voc jurava que ela era a mulher de sua vida.
- Foi h muito tempo. Alis nenhum caso meu durou tanto. Voc sabe. Quero coisa nova.
- Ela no  do tipo que se conforma. Tome cuidado. Lineu riu descuidado.
- Bobagem. Est para nascer a mulher que vai me segurar. Ela que no se faa de tola. Acabo com a raa
dela.
- Em todo caso, um escndalo no convm. Seu pai pode cortar a mesada novamente.
- Sei fazer as coisas. Deixe comigo. A Mriam vale qualquer esforo.
- Mulher nenhuma vale tanto trabalho.
- Voc diz isso agora. Houve tempo em que no pensava assim...
- Isso passou. Nunca mais farei nada por causa de mulher. No vale a pena.
Os dois saram ao encontro das duas moas. Apesar de aborrecido, Rino reconheceu que elas eram muito
bonitas. Tinham classe, coisa que o Lineu no costumava considerar. Foram a um cinema e na sada,
quando se dirigiam para o carro, foram abordados por uma mulher que gritou enraivecida:
- Bandido, traidor! Eu sabia que voc estava me traindo! Atirou-se sobre o Lineu que rpido segurou-a
pelo brao, impedindo-a de agredi-lo no rosto.
- Vamos para casa. No o deixarei a ao lado dessa magrela. Lineu segurou-a com fora fazendo-a gritar
de dor, dizendo com
raiva:
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- V se embora imediatamente. Se disser mais alguma coisa, eu a matarei. - Falou baixo, mas havia tanto
dio que ela assustou-se.
Ele soltou-a rpido e dirigindo-se  moa que se afastara envergonhada, disse-lhe:
- Desculpe essa mulher. Cismou comigo e anda me perseguindo onde eu vou. J nem sei mais o que fazer
para impedi-la de perturbar. Se diz apaixonada e anda atrs de mim fazendo cenas.  um caso de loucura.
- No tem um caso com ela? Foi o que me pareceu.
-  isso justamente o que ela quer. Para que eu no possa sair com ningum.
- O melhor  irmos embora. No gosto de escndalos. Foi muito desagradvel.
- Espere a. Ela no nos incomodar mais. Venha, vamos para o carro. Podemos ir tomar alguma coisa.
Esqueamos este desagradvel incidente.
Mas as duas moas no aceitaram. Ali mesmo despediram-se e de nada valeram as rogativas dele para
que ficassem. Quando elas se foram Rino considerou:
- Estas, pode esquecer. No vai conseguir mais nada. Tambm, depois disso!
Lineu bufava de raiva.
- Aquela rameira me paga. No vai ficar assim. Ela vai ver.
- O que pode fazer?
- Dar-lhe o que merece. Mulher alguma faz isso comigo. Depois, acabar com esse caso de vez. Estou
farto. O que aconteceu hoje nunca mais se repetir.
- No vai ser fcil livrar-se dela. Est louca de cimes.
- Quando eu tiver acabado, ela nunca mais desejar ouvir falar de mim - tornou ele, trincando os dentes
com raiva.
- Cuidado. No chegue a extremos, pode complicar. Lineu riu despreocupado.
- Sei o que fao. Nunca me enrolei com nada. No ser agora.
- Bem, j que as pessoas foram embora, vou para casa. Bem que eu estava pressentindo. Antes tivesse
ficado dormindo.
- Deixe de ser bobo. O cinema foi bom, apesar de tudo. Amanh tentarei v-la e apagar a m impresso.
Que diabo, estou muito interessado. Vou insistir.
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Rino despediu-se, e Lineu dirigiu-se ao bar. Precisava beber alguma coisa para acalmar-se. Que m sorte!
Tomou algumas doses de conhaque e ao invs de esquecer o que acontecera, sua raiva cresceu. Lembrou-
se da Neide e foi at a casa dela.
Era l que passava a maior parte das noites, recolhendo-se  casa paterna sempre quase de manh, a fim
do pai no implicar. Sabia que podia chegar tarde, mas no depois do dia haver amanhecido. Seu pai tinha
essa mania. Ele precisava da mesada, obedecia.
Colocou a chave na fechadura e entrou. Tudo escuro. Acendeu a luz da sala e foi para o quarto. Quando
acendeu a luz, Neide deu um salto da cama, olhos vermelhos e rosto marcado pelas lgrimas.
-Voc veio! - disse.
Ele olhou-a com dio.
- Sim. Eu vim. Voc vai ter o que merece. O que fez foi imperdovel. No posso tolerar uma coisa destas.
- Ah! - gritou ela enraivecida - voc no tolera? E o que fez comigo, no conta? Como pensa que eu me
sinto?
- Sente-se mal? Pois vai ficar pior. Vou mostrar-lhe que comigo no se brinca.
Aproximou-se dela que, atemorizada, recuou tentando escapar. Ele no lhe deu tempo. Cheio de raiva
golpeou-a com fora, extravasando o rancor que sentia.
Entre a dor e a surpresa, ela quis gritar, porm ele no lhe deu tempo. Enquanto batia, dizia-lhe
enraivecido.
- Eu odeio voc! Est feia, horrorosa. Nunca mais quero ver a sua cara. Deixe -me em paz. Voc  um
traste que no serve para nada. Um estorvo em minha vida. Eu gosto de outra, e  com ela que eu quero
ficar. Voc nunca mais me ver e se aparecer onde eu estiver, acabarei com sua raa para sempre. Eu
estou falando srio. Entendeu?
Vendo que ela desfalecia e que seu rosto sangrava, deu-se por satisfeito. Deixou-a estirada no cho e
procurou juntar todos os seus objetos, apagar as possveis provas de sua estada ali. Depois, sentindo-se
mais calmo, saiu fechando a porta.
- Essa nunca mais vai me incomodar - pensou ele com alvio. Acendeu um cigarro e pensando como iria
procurar Mriam no dia seguinte e o que lhe diria, foi para casa.
O dia j amanhecera quando Neide acordou. O corpo lhe doa e ela no podia mexer-se. Apavorada,
lembrou-se do que lhe
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acontecera. Estremeceu de terror e de dio. A tremenda surra que levara, fazia-a temer que tivesse
quebrado algumas costelas. Sua respirao estava difcil e seu trax doa muito.
O que fazer? A quem recorrer? Morava sozinha e longe da famlia. Ningum se interessava por ela.
Precisava fazer alguma coisa. Devagar, comeou a apalpar o corpo, tentando descobrir onde doa mais.
Sentia o rosto inchado e o cheiro de sangue incomodava-a.
Procurou arrastar-se at o banheiro. Sentia nuseas e a cabea doa-lhe muito. Aos poucos conseguiu
chegar l e segurando-se em uma cadeira, conseguiu sentar-se. Ficou tonta. Com muito custo, finalmente,
conseguiu levantar-se lentamente, segurando no lavatrio. Quando se olhou no espelho, assustou-se. Seu
rosto inchado e coberto de sangue a fazia sentir-se mais tonta.
Abriu a torneira e com esforo procurou lavar-se. Precisava tirar aquele cheiro horrvel. A gua fria fez-
lhe bem. Aos poucos conseguiu lavar-se. Pensou em ir ao Pronto Socorro, porm, de que forma? Mal
podia suster-se.
- Preciso esperar um pouco e ganhar foras - pensou.
Lentamente e com dificuldade foi at a cozinha e preparou uma salmoura e levou-a at o criado mudo.
Com cuidado, estendeu-se no leito e fez algumas compressas nos lugares mais doloridos.
Apesar de muito machucada, Neide tinha a certeza de que ficaria boa. Seu dio lhe garantia essa vitria.
Se Lineu pensava t-la intimidado e destrudo, enganara-se. Ele jamais seria feliz com a outra. Ela no
deixaria. Ele no perdia por esperar.
Nos dias que se seguiram, ela foi melhorando devagar. Mas se o corpo se recuperava da surra e as dores
haviam passado, sua alma sofria cada dia mais. A certeza da traio, o orgulho ferido por saber-se
desprezada, a humilhao que sofrera, machucavam-na profundamente. Imagin-lo nos braos de outra,
era-lhe insuportvel.
Fora enganada! Lineu havia jurado que sempre a amaria. Que nunca a deixaria e agora a trocava por outra
sem a mnima considerao, humilhando-a sem piedade. Sabia que ele era violento quando contrariado.
Tivera ocasio de presenciar muitas coisas. Contudo, jamais imaginou que ele fosse capaz de mat-la.
Agora, sabia. Por pouco ele no acabara com sua vida. Contava com isso afast-la do seu caminho. Estava
enganado.
Ela pretendia vingar-se. A cada dia, curtindo as dores no corpo
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macerado e a angstia na alma revoltada e sofrida, sentia aumentar seu dio. Tinha que ser paciente. Ele
no podia desconfiar de nada. Haveria de encontrar um meio de faz-lo pagar pelo mal que lhe fizera.
Prepararia o golpe e depois iria para bem longe, onde ele nunca mais pudesse encontr-la. Sabia que sua
vida no valeria muito depois disso.
Durante a semana que permaneceu fechada em casa procurando restabelecer-se, Neide ficou pensando,
pensando. Naqueles seis anos de vida em comum, presenciara muitas coisas. Embora ele nunca houvesse
lhe contado nada, ouvira e vira o bastante. Precisava de tempo e de conseguir algumas provas. Ele no
ficaria com ela, mas tambm no ficaria com mais ningum. Haveria de mostrar-lhe que ele no era to
forte como se fazia.
Deixaria passar algum tempo e, enquanto isso, decidiria de que forma iria destru-lo. O que precisava era
recuperar a sade e tratar de sua vida. Tinha que arranjar dinheiro. Sabia como.
Neide no se considerava uma prostituta. Tinha alguns relacionamentos habituais que lhe rendiam o
suficiente para viver dentro do padro a que se habituara. Era discreta. Seus amigos eram pessoas
conceituadas socialmente e que tinham interesse em manter-se incgnitos. Chegava a pensar que o Lineu
nunca descobrira nada. Nos bons tempos, principalmente nos primeiros anos, ele era at ciumento.
Vrias vezes pensara em largar tudo por causa dele, porm, Lineu no lhe dava dinheiro. Vivia da mesada
paterna que embora generosa era gasta com facilidade. Ela precisava manter-se. Gostava de enfeitar-se
para ele, de ter lindas roupas e at, por que no, pagar algumas despesas dele de vez em quando. Por isso,
continuava mantendo seus encontros discretos, sempre fora de sua casa.
Decidiu embelezar-se e procurar novos amantes. Pretendia juntar boa quantia para poder fugir depois de
executar sua vingana. Para atingir seu objetivo, no se importava de esperar.
Quinze dias depois, j estava pronta para recomear. Arrumou-se com capricho e gostou de olhar-se no
espelho. Estava linda. Nenhum sinal da surra. Ensaiou um sorriso e dirigiu-se ao clube no centro da
cidade, onde costumava danar nos velhos tempos.
Era sbado e o baile estava animado. Logo encontrou uma amiga com quem conversou alegremente.
Sobre sua ligao com o Lineu, disse-lhe apenas que tudo terminara, ela desejava esquecer, partir para
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outra. Recebida com entusiasmo pelos amigos, logo comeou a danar e a divertir-se.
Teve sua ateno voltada para um moo moreno e bonito que a olhava com insistncia. Seu tipo era at
atraente, porm, no lhe pareceu rico e ela no se interessou. Foi sua amiga Zez quem lhe confidenciou:
- O Mendes est interessado em voc. Ele no  para se desprezar!
- Agora estou interessada em arranjar quem possa me dar do melhor. Chega de dureza.
- Dinheiro, ele no tem, isso eu sei. Mas  policial. Ter amizade com ele  ter carta branca. Ele  boa
gente e d proteo. Se fosse comigo, eu at gostaria. As coisas andam pretas por aqui. A turma do
Armandinho anda levando dinheiro das garotas.
Neide interessou-se de repente. A amizade de um policial poderia ser-lhe til. Olhou o Mendes e sorriu.
Ele apanhou o copo de cerveja sobre o balco e bebeu tranqilamente. Depois, foi ter com ela. Logo
estavam danando prazerosamente. Durante o resto da noite, ficaram juntos, danando, conversando.
Quando saram, ele ofereceu-se para lev-la em casa. Uma vez no carro com ele, ela disse:
- S aceitei que me acompanhasse, porque sei que posso confiar em voc. A Zez me disse que  da
polcia.
- As notcias correm - respondeu ele sorrindo.
- No costumo sair com ningum. H muito tempo no ia ao clube.
- Talvez estivesse muito ocupada para isso. Ou algum a impedisse. Levando-a, no estarei criando um
problema?
- Claro que no.
- Em minhas folgas costumo ir ao clube. Nunca a vi por l.
- Bem, para dizer a verdade, eu tinha uma pessoa. Acabamos tudo h quase um ms.
- Eu tambm acabei recentemente com um caso que tinha mais de cinco anos. No  fcil. A traio
enlouquece.
Neide estremeceu. No conseguiu esconder o rancor ao dizer:
- No existe nada pior. Aconteceu a voc?
- Aconteceu. Durante anos amei uma mulher e uma tarde, inesperadamente a apanhei nos braos de outro.
Jurava amor eterno, a
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infeliz. Tive mpetos de mat-la. Mas, depois resolvi esquecer. Mas ainda agora, ao pensar nisso, sinto o
sangue ferver.
- Eu tambm no me conformo.
- Imaginar eles se beijando, trocando carinhos na intimidade. Tudo que passamos juntos e agora, ela com
o outro.  demais!
Neide sentiu que lhe faltava o ar. Sufocava. Mendes parou o carro e perguntou:
- O que est acontecendo? Sente-se mal?
- No suporto mais essa lembrana - respondeu ela - ele nos braos daquela lambisgia. Sinto vontade de
mat-lo! Infelizmente ele  mais forte do que eu. Sei por experincia.
- Nem sempre a fora nos impede de conseguir o que desejamos. H outros meios. Tenho pensado muito.
- Tem razo. Eu tambm.
- Somos duas vtimas. Ambos fomos enganados. Podemos somar nossos esforos e juntos planejarmos
uma desforra.
Os olhos dela brilharam de satisfao.
- Voc me ajudaria?
- Por certo.
- Vamos at em casa. L conversaremos.
Na manh seguinte, Vanderlei recebeu um telefonema. Era o Mendes, precisava falar-lhe. Passaria pelo
escritrio  tarde.
Passava das quinze horas quando ele chegou e, pela sua fisionomia, Vanderlei logo viu que trazia boas
notcias. Aps se acomodarem, ele foi logo dizendo:
- Trago novidades. Agora, penso que estamos na pista certa.
- No diga! Conte logo homem, o que aconteceu?
- Voc sabe que desde aquele acidente na vspera do casamento do Jlio que eu no me conformo. O
homem estava na mo e no conseguimos peg-lo. Apesar do tempo decorrido, no desisti. Estudei o caso
do Jovino, o de Jlio e alguma coisa me dizia que o tal do Rino tinha que ver com o assunto. Ento
pensei: ele estava fora do pas, mas tinha amigos. Por isso, fiquei alerta e sempre que tinha tempo
procurava investigar essa turma. Passei a seguir-lhe os passos principalmente do Lineu que sempre foi o
elemento mais chegado ao Rino. Descobri muitas coisas. O grupo  realmente perigoso. Comecei a me
relacionar com uma moa vizinha da amante do Lineu, na esperana de descobrir alguma coisa. Soube
que eles haviam se separado. Ela o
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apanhara com outra, fizera escndalo, o que lhe valeu uma tremenda surra. A Neide ficou mais de uma
semana sem pr a cara na rua. Achei que nada melhor do que mulher ciumenta para dar com a lngua nos
dentes e comecei a segui-la. Eles no voltaram a ver-se. Lineu agora est empenhado em conquistar uma
outra que, por causa do escndalo, no quer mais nada com ele. Est obcecado. Ontem segui Neide at o
clube que ela freqenta e tentei uma aproximao. Consegui. Depois, tentei envolv-la a que falasse.
Fiquei sabendo coisas inportantes!
- No diga! Que maravilha! Voc merece uma medalha. Foi genial. Que faro! E a, o que descobriu?
- Bem, primeiro tentei confort-la. Dar-lhe carinho, ganhar confiana. Depois como eu lhe dissera que
estava no mesmo caso, fizemos um pacto de vingana. Ela no v a hora da desforra.
- Voc foi grande.
- O malandro que me fez aquela, no vai fazer outra. Voc vai ver. Ela viveu com ele durante muitos
anos. Sabe sobre o caso do Alberto.
- No diga! Ento foram eles. Ela disse isso?
- Ainda no afirmou, mas deixou entrever. Eu disse que a ajudaria a livrar-se do Lineu e a retir-lo de
circulao. Agora, penso que ser questo de tempo. Ela deve saber muito mais. Vai confiar em mim.
Deixe comigo.
- Precisamos no s descobrir a verdade como arranjar provas. S assim poderei reabrir o processo. O que
ela lhe disse de positivo?
- Bem, quando eu lhe perguntei como pensava em vingar-se, ela disse:
- Se eu abrir a boca, contar o que presenciei, ele vai passar um bom tempo na cadeia.
- Veja bem - disse eu - para isso  preciso provas. No se prende uma pessoa por qualquer motivo. H de
ser por alguma coisa grave.
- Um assassinato no  grave?
- O suficiente para deix-lo fora de circulao por anos. Tem certeza do que diz? No se pode brincar
com a polcia, muito menos com a justia. Est segura do que afirma?
- Sei o que estou dizendo. Conseguiram enganar muito bem mas eu sei de tudo.
- Nesse caso,  melhor me contar tudo. Eu procurarei ajud-la a arranjar as provas. Como  que ele
conseguiu escapar  polcia?
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- Armaram uma cilada para um pobre coitado que est preso at hoje, por um crime que no cometeu.
- O Jovino! - exclamou Vanderlei sem poder conter-se.
- Foi o que pensei. A eu disse: - Preciso de todas as informaes. Voc vai me contar tudo e juntos
armaremos um plano. Como policial, posso dar-lhe todo apoio que precisar. Alm de tudo estar
prestando um servio  polcia.
- O que me interessa  salvar a minha pele depois disso. Ele  vingativo e nunca me perdoar. Preciso
fazer muito bem feito.
- O que pensa fazer depois que conseguir o que pretende?
- Irei embora para bem longe. Um lugar onde ele nunca me possa encontrar quando sair. Nem ele nem os
outros.
- Posso ajud-la em tudo. Vamos, conte como foi. Os nomes dos envolvidos, tudo.
- Hoje estou cansada. Preciso pensar melhor. Amanh veremos.
- Est com pena dele? Vai se arrepender?
- No  isso. Preciso conhec-lo melhor. Voc sabe, depois do que eu passei.
- Eu a abracei e desconversei. Tenho certeza de que vamos conseguir tudo.  s questo de tempo.
- Cuidado para ela no sumir. Pode se assustar, pensar melhor, sentir medo. No podemos perder essa
oportunidade.
-No se preocupe. Deixei um amigo vigiando. Hoje mesmo voltarei l a pretexto de v-la. Ela est muito
por baixo, muito carente. No ser difcil conquist-la. Sei como valorizar uma mulher, faz-la sentir-se
bem. Depois disso, tudo ser fcil. Ela vai confiar em mim. Sabe que eu posso ajud-la mais do que
qualquer pessoa. No vai perder essa chance.
- Finalmente! Finalmente encontramos alguma coisa palpvel. Mantenha-me informado. Sei que fez isso
pela nossa amizade, mas garanto que ser recompensado.
- Sabe que eu nasci com senso de justiceiro. No posso ver um inocente preso e um malandro solto. Esse
 o meu mal. Depois, sabe que a Neide  muito bonita? Recompensa, eu estou tendo desde j.
- Cuidado, pode apaixonar-se.
-  uma bela mulher. Boa demais para um malandro como o Lineu. Porm, estou vacinado. To cedo no
entro noutra.
Vanderlei riu gostosamente. Quando ele saiu, imediatamente
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telefonou ao Jlio, combinando de passar em sua casa naquela noite, contar as novidades. Foi logo
convidado a jantar. Teria tempo de falar com Magali antes disso.
Era uma esperana, mas ele sentia que no fundo do tnel, uma nova luz comeava a brilhar.
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Captulo 24
Eram quase sete horas da noite quando Rino decidiu sair um pouco. Em casa, sentia-se sufocar de tdio.
Havia duas noites que ele no conseguia dormir e as plulas que costumava tomar j no o faziam dormir
como anteriormente. Sentia-se desanimado, perdera a alegria de viver.
-  por causa dela - pensou - devo reconhecer que no consigo esquec-la. A vida sem ela perdeu todo o
encanto.
A saudade doa. Desejava v-la, saber se era feliz. No acreditava que aquele joo-ningum fosse capaz
de dar-lhe o que ele poderia dar.
A noite estava escura e um vento frio cortava-lhe o rosto enquanto caminhava pelas ruas. Precisava v-la!
Tinha que saber.
Contudo, no desejava despertar suspeitas. Como despistar? Lembrou-se de Rosa. Era uma moa que
morava perto da casa onde Mariazinha vivia com o marido. Ela sempre fora loucamente apaixonada por
ele. Se a namorasse, poderia vigiar a casa de Mariazinha sem despertar suspeitas.
Estugou o passo. Sabia como encontr-la. Entrou em uma farmcia e pediu para telefonar. Rosa atendeu
ao telefone trmula de emoo. ComRinou o encontro. Ele passaria em sua casa, dentro de alguns
minutos, e gostaria de conversar. Ela aceitou emocionada. Pediu dez minutos para preparar-se.
Quando ele passou pelo porto da casa dela, j a encontrou a espera. Enquanto conversavam, Rosa no
escondia a satisfao. Ele procurava observar a casa de Mariazinha, do outro lado da rua, quase em frente.
As luzes estavam acesas, e ele no pde furtar-se a uma onda de cime. Era l dentro que ela vivia com o
outro, que podia beij-la, am-la  vontade enquanto que ele sofria, sozinho e desesperado.
Seu corao batia descompassado e sua voz um tanto trmula traa seu descontrole. Rosa imaginou que a
emoo dele fosse por causa dela.
- No pensei que voc ainda se lembrasse de mim. Nunca mais me procurou!
- Estou aqui, no estou? Isso no diz nada?
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Ela sorriu animada.
- Claro. Antes voc nunca quis chegar aqui no meu porto. Hoje voc veio.
- Sim. Senti saudades. Nunca a esqueci.
- Eu tambm, nunca pude esquecer. Seus beijos ainda esto vivos em minha memria.
Ele aproximou-se mais beijando-a nos lbios. Ela entregou-se com emoo. Rino era tudo que sonhara na
vida obter. Amava-o com paixo. Em apenas duas semanas de namoro, envolvera-se profundamente.
Nunca se conformara com o afastamento dele. Agora, como em um conto de fadas, seu sonho tornara-se
realidade. Rino estava ali, apaixonado.
Foi fcil para Rino recomear o namoro. Comeou a freqentar a casa de Rosa e a famlia, lisonjeada com
a possibilidade de um casamento vantajoso, recebeu-o de braos abertos. Ele fingia-se apaixonado por
Rosa e procurava estar sempre l, de onde podia observar a casa de Mariazinha sem despertar suspeitas.
Descobriu que Mariazinha no mais trabalhava. Porm, s saa em companhia do marido. Foi Jlio quem
encontrou Rino primeiro. Uma tarde quando voltava do trabalho, viu-o na varanda de Rosa. Sentiu um
aperto no corao.
O que ele estaria fazendo perto de sua casa? Mariazinha, vendo-o entrar em casa, percebeu logo que havia
algo.
- O que foi? Voc parece aborrecido.
- Acabo de ver o Rino aqui perto. No gosto que ande rondando por aqui.
- Onde?
- Em casa daquela mocinha loira, em frente.
- Da Rosa?
- No sei o nome. Acho que  essa. Estavam abraados na varanda. Mariazinha riu aliviada.
- No se preocupe. No tem nada a ver conosco. A Rosa foi namorada dele, h muito tempo. 
apaixonada por ele.
- No gosto de v-lo to perto de voc. Nunca se sabe o que pode estar tramando.
- Bobagem Jlio. Ele sabe que estamos casados, no pode fazer mais nada. Depois, talvez j tenha at
esquecido.
- Em todo caso, fiquei preocupado. Hoje o Vanderlei vem aqui. Tem novidades e deseja nos falar.
Convidei-o para jantar.
309


- timo! Magali vir com ele?
- No sei. Ele parecia ansioso para nos contar e at esqueci de perguntar.
- Espero que ela venha. Vou para a cozinha melhorar o jantar.
- Vou tomar um banho e esfriar a cabea enquanto isso.
Mariazinha concordou e foi para a cozinha. Sentia-se feliz e realizada. Jlio a cada dia se revelava mais
companheiro e amoroso. Ela procurava corresponder a essa dedicao com alegria e amor. Sentia-se
segura e tranqila. No acreditava que Rino pudesse tentar alguma coisa. Ele parecia-lhe to distante!
Quando Vanderlei chegou, vinha s. Infelizmente Magali no pudera acompanh-lo. Dr. Homero e D.
Aurora no estavam em casa e Rui conseguira impedi-la de sair.
Vanderlei aborrecia-se com a situao. Pretendia casar-se o mais breve possvel, contudo sua situao
financeira no lhe permitia. Seu orgulho fazia-o desejar oferecer a Magali todo conforto. Estava em
comeo de carreira. As coisas iam bem e ele sabia que conseguiria tudo quando desejava. Porm,
precisava esperar. Amava Magali. Despos-la era seu maior desejo. Sonhava com o dia em que
estivessem juntos para sempre.
Ficou na sala conversando com Mariazinha e quando Jlio chegou, aps os cumprimentos, foi direto ao
assunto:
- Finalmente temos uma pista. Jlio deu um salto de alegria:
- No diga! Puxa! At que enfim.
- Graas ao Mendes. Ele foi genial.
Em poucas palavras, Vanderlei contou-lhe tudo quanto sabia.
- Quer dizer que foi o Rino mesmo? - inquiriu Jlio.
- Tudo leva a crer que sim. O Rino e sua turma. Pelo que Neide contou...
- Que horror! - disse Mariazinha. - Ento foram eles que mataram mesmo o Alberto.
- Estou inclinado a dizer que sim.
- Ele teria algo a ver com o atentado contra mim?
- Imagino que sim. O fato dele estar fora do pas no impede nada. Qualquer do grupo, o prprio Lineu,
poderia t-lo feito.
- Conheo o Lineu - disse Jlio pensativo - vi-o algumas vezes. No se parece nada com o tipo que o
Mendes descreveu.
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- Podem haver contratado algum, ou usado disfarce. No escuro da madrugada, tudo fica mais fcil.
- Hoje fiquei nervoso. Vi o Rino aqui perto, em uma casa quase em frente da nossa.
Vanderlei franziu o cenho:
- O que estaria fazendo por aqui? Foi Mariazinha quem respondeu:
- O Jlio est se preocupando sem razo. Ele estava em casa de Rosa. Ela foi namorada dele e 
apaixonada. Os dois estavam abraados na varanda.
- No gosto nada disso. Ele nunca se interessou por ela. De repente, vem por aqui. No estar arranjando
um pretexto para v-la?
- Foi coincidncia - disse Mariazinha com convico. - Ele j deve ter esquecido aquela loucura.
- O Jlio tem razo Mariazinha. O Rino no  confivel. Eu tambm no gosto de v-lo circulando por
aqui. Pode estar querendo descobrir seus hbitos para tentar alguma coisa. No confio nele. Ainda mais
agora que temos srias suspeitas dele ser um assassino.
- O que faremos ento? - indagou Mariazinha.
- Seria bom que o Mendes conseguisse logo as provas que precisamos. Penso que com ela nos livraremos
dele.
Um brilho de emoo passou pelos olhos de Mariazinha.
- Se isso for verdade, poderemos libertar o Jovino! A Nair vai chorar de alegria.
- Essa ser a parte mais agradvel - disse Vanderlei -  comovente como ele tem se comportado
ultimamente.
- E o mais curioso - esclareceu Jlio -  que ele pressentiu que estava prestes a ser libertado. Seu esprito
aproveitou a lio que a vida quis lhe dar. Foram palavras dele.
- Vou servir o jantar. Conversaremos enquanto comemos.
- O cheirinho est bom - disse Vanderlei com satisfao.
- Voc ainda no viu nada! - arrematou Jlio. - Mariazinha tem mos de fada.
Magali entrou em casa pensativa. Gostaria de ter ido com Vanderlei jantar em casa de Mariazinha. Porm
Rui, mais uma vez intrometera-se, obrigando-a a entrar em casa. Ela atendera para no provocar um
escndalo. Sabia que seu pai detestava cenas e no desejava desgost-lo. Contava t-lo como aliado para
casar-se com Vanderlei.
311


No compreendia a atitude de Rui. Por que era to ciumento? Vigiava-a constantemente. Chegava ao
cmulo de no sair de casa para poder fazer isso. Desejava que ele sasse com os amigos, arranjasse uma
namorada para deix-la em paz. Mas ele continuava sozinho e interessado em tudo quanto ela fazia.
As vezes pensava que ele deveria procurar um psiclogo. Seu comportamento parecia-lhe doentio e
neurtico. Mas ele se recusava. Preocupada em essa situao, Magali conversara com Dora, pedindo-lhe
ajuda espiritual.
Dora interessara-se pelo assunto, pedira-lhe alguns dias e depois lhe dissera que tivesse pacincia e
procurasse ajud-lo.
- Ele me irrita o tempo todo. s vezes no consigo ser paciente. Implica comigo. No me d paz.
-  muito difcil para ns entendermos os outros, porque no sabemos o que vai em sua alma. As
experincias vivenciadas, as feridas e as iluses sepultadas e escondidas pelo esquecimento da vida atual.
Embora apagadas da lembrana, elas permanecem no mundo interior de cada um e se expressam em
atitudes e posicionamentos conflitantes e inabituais. Elas so responsveis por atitudes intempestivas e
apaixonadas nem sempre explicveis pela nossa lgica.
- Como saber o que ele sente? Como descobrir a causa de tudo isso?
- Nem sempre nos ser possvel saber. Contudo, sempre poderemos perceber como  difcil controlar as
emoes desencontradas que fluem de nossa alma e nos causam sofrimento e infelicidade. Seu irmo 
um ser atormentado. Sente-se inseguro, infeliz, solitrio.
- Porque quer. Isola-se voluntariamente. Vanderlei j tentou aproximar-se em vo.
- Reconheo que ele atrai para si mesmo a prpria infelicidade. Mas por isso mesmo, no se torna mais
vulnervel? No lhe parece que sua fragilidade reside exatamente na falta de confiana na vida, em Deus
e em si mesmo?
Magali ficou pensativa por alguns instantes, depois respondeu:
- Tem razo. O Rui no confia em ningum. No cr em Deus nem tem um objetivo em sua vida. No
quis estudar, o que aborreceu muito a papai.
- Voc pode imaginar como ele vive? Que pensamentos povoam sua mente? Quais seus medos, suas
angstias, suas dvidas?
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- Acho que estou sendo egosta pensando s em mim.
- Eu no diria isso. Voc tem o direito de defender-se e conquistar seu espao. Fazer o que deseja de sua
vida. Nesse ponto, voc  dona do seu destino. Seus pais compreendem, isso facilita muito as coisas.
Contudo, sem sair da sua posio, voc pode compreender seu irmo.
- Gostaria que ele fosse diferente. Que ele mudasse.
- Por mais que deseje, no conseguir modific-lo. O que poder fazer  mudar a forma como voc o v.
No adianta querer o impossvel. Deixe-o ser o que ele . No se impressione com ele, respeite-o, mas
faa de sua vida o que acha adequado. D tempo ao tempo. Sinta que o ama, que ele  seu irmo e no
revide. A revanche no  defesa.  nivelamento. Expresse seu afeto e no se preocupe.
- Vou tentar. Mas como no me preocupar se ele me sufoca, implicando com meu namoro e tentando
atrapalhar? J lhe disse que amo Vanderlei, que pretendo me casar com ele. O Rui no aceita isso.
- O cime  um sinal de carncia. Ele deseja obter todo seu carinho. No aprendeu a dividir. Por isso,
procure dar-lhe afeto. Faa-o sentir que o fato de gostar do seu namorado no a impede de am-lo
tambm. s vezes, quando nos abandonamos, duvidamos dos sentimentos dos outros. Seu irmo se
abandonou h muito tempo. No se julga merecedor da felicidade. Carrega a culpa no corao. No se
perdoou pelos erros de outras vidas. Assim, no confia que seus pais o amem, que voc o queira bem.
Afasta-se das pessoas, desconfia delas e no percebe que a causa est dentro dele mesmo. Quando uma
pessoa se julga errada, no percebe suas boas qualidades, s enxerga os defeitos, acredita que no merece,
julga-se sempre preterida, prejudicada, desvalorizada. Como confiar no amor das pessoas?
- Se ele pensa assim,  muito infeliz.
- Por acaso ele parece bem? No disse que ele anda sempre irritado, insatisfeito e sem prazer de viver?
Esse estado de depresso revela o que lhe vai no corao.
- Como ajud-lo se ele sequer ouve? Mame, papai e at eu, todos tentamos faz-lo entender inutilmente.
-As palavras pouco ajudam nesses casos. Principalmente porque nessa tentativa quase sempre enfocamos
o lado negativo. Isso jamais funciona. Apenas refora a resistncia contrria. Mud-lo, ningum
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conseguir. S ele mesmo tem esse poder. No entanto, vocs podem alm de visualizar o bem, aproveitar
todas as chances positivas que houver. Elogi-lo sempre que fizer algo melhor, mostrar afeto com
naturalidade, principalmente com sinceridade. No lhe ser difcil, eu sei, porque na verdade voc o quer
muito bem. No d nfase a sua infelicidade. Ignore-a. Seja firme em suas decises pessoais, mas
demonstre-lhe o quanto o estima.  a melhor maneira de lidar com o assunto e a nica que, alm de evitar
que voc se enerve inutilmente, ainda a deixar satisfeita e serena. Lembre-se, ns no temos condies
de saber o que ele guarda no corao. No conhecemos suas razes. O respeito sempre ser um santo
remdio.
- Obrigada, D. Dora. Sinto-me mais calma. Na verdade, o Rui  a infelicidade em pessoa. Tem razo. Vou
me esforar para entender.
Lembrando-se das palavras de Dora, tentou controlar-se. Era-lhe difcil, mas de nada lhe servia irritar-se.
Decidiu procur-lo. Ele fechara-se no quarto, como sempre. Magali bateu na porta.
- Abra, Rui. Quero falar com voc. Silncio. Ela insistiu:
- Eu sei que est acordado. Abra a porta.  importante. Esperou alguns momentos at que ele abriu uma
fresta da porta,
perguntando:
- O que foi? O que quer?
- Falar com voc.
- Quero dormir. Amanh voc fala.
- Tem que ser agora. Deixe-me entrar.
Ele abriu a porta e correu para o leito, enfiando-se embaixo dos lenis. Magali entrou, pegou uma
cadeira e sentou-se ao lado da cama em silncio. Depois de alguns minutos, ele perguntou:
- Afinal, o que deseja? Por que me acordou?
- Voc no estava dormindo. No adianta mentir. Sei que estava acordado, no escuro, ruminando suas
tristezas. Acontece que estou me sentindo sozinha. Preciso de companhia. Voc no me deixou sair, agora
pelo menos fique comigo.
- Voc preferia a companhia daquele sujeito.
-  diferente. Ele  meu namorado. Claro que eu gosto de estar com ele, mas voc  meu irmo e eu lhe
quero muito bem. Principalmente
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quando voc est alegre. Lembra-se do quanto brincvamos antigamente?
- Isso era no tempo em que ramos felizes. O Alberto ainda estava vivo. Agora, quem pode estar feliz?
- Ns podemos. Ficar infeliz no muda os fatos. Ele morreu e nada podemos fazer quanto a isso. Vamos
ficar infelizes o resto da vida por uma coisa sem remdio?
- Voc continua fria. Como pode dizer isso?
- Ns temos pontos de vista diferentes. Voc no aceitou ainda a morte do Alberto.  um direito seu.
Quanto a mim, sei que ele continua vivo em outro mundo. Tive provas disso. Sei que ele sofre vendo a
nossa tristeza, que ele gostaria de poder nos dizer que a vida continua, a morte no  o fim de tudo.
- So fantasias, nada mais.
- Para voc. Para mim  a pura verdade. Isso me conforta e me d paz. Saber que tudo est certo, que a
vida tem suas razes e que elas so justas e sbias, que tudo  passageiro neste mundo e que somos
eternos, tem me ajudado a entender muitas coisas.
- Voc  muito ingnua.
- Essa "ingenuidade" me faz bem. Sou mais feliz do que voc com sua "esperteza" ruminando tristeza e
insatisfao. Quer passar toda sua vida cultivando essa infelicidade? Quer jogar fora sua mocidade, sem
perceber o que a vida pode lhe dar de bom? Pois faa como quiser, a vida  sua. Quanto a mim, sei o que
me faz feliz e eu desejo usufruir da felicidade. Desejo construir minha vida com alegria e entusiasmo.
Quero ver o mundo com olhos amorosos, cultivando o belo e o agradvel.  uma questo de escolha. Se
quer ficar com a tristeza, tudo bem. Eu escolho a felicidade, o amor, a bondade, a alegria.
- Voc fala como se isso dependesse s de ns! No v que  iluso? Que a vida  perigosa e traioeira?
Que quando menos voc esperar uma tragdia pode acontecer? S uma menina como voc poderia ser to
crente.
- A f em Deus tem me ajudado muito.  bom confiar,  bom saber que estamos amparados pela bondade
divina. Eu no desejo viver assustada, ansiosa, esperando por dificuldades e tristezas que provavelmente
jamais acontecero. Essa  a sua crena. Eu j sei que a verdade no  essa. Um dia, no sei quando, voc
tambm perceber
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isso. Seja como for, se voc ainda no pode sentir como eu,  pena, enquanto eu vivo melhor, voc sofre
muito mais.
- Eu sofro, porm no me iludo, enquanto que voc...
- Ser? Quem garante isso?
- Est claro. A vida no  o que voc pensa.
- Mesmo que no seja, sinto-me melhor pensando assim. E o que eu quero  me sentir bem.
- Mesmo sendo enganada? Magali sorriu:
- Voc no sabe tudo que pensa que sabe. Entendeu?
- Eu sei de onde vem essas suas idias. Voc levou mame e agora at papai j anda naquele Centro
Esprita. Eu  que no vou. Voc no conseguir impressionar-me.
- Sabe que papai sonhou com o Alberto? Sabe que ele disse ao papai que o Jovino  inocente?
- No acredito!
- Pois foi. Ele apareceu a papai em sonhos e lhe contou isso.
- O sonho  sempre a realizao de um desejo. Freud j disse isso. Papai no se conformou ainda de haver
perdido o Alberto. Por isso criou essa fantasia no sonho. Vocs esto ficando loucos. Logo papai, um
mdico!
- Hoje o Vanderlei me contou que a polcia j tem uma pista sobre o verdadeiro assassino do Alberto. J
pensou como voc vai ficar o dia em que isso ficar definitivamente provado? A injustia  dolorosa e o
remorso triste. Pense nisso. Eu tenho certeza de que o Jovino  inocente. Penso mesmo que estamos perto
de conseguir provas irrecusveis.
- No acredito em voc. Aquele sujeito  capaz de inventar isso s para impression-la.
Magali esforou-se para controlar-se. Estava decidida a mudar de atitude com ele. Por isso respondeu:
-No quero discutir com voc. O tempo vai mostrar quem estava com a razo.
Magali mudou de assunto, tentando interess-lo em coisas mais amenas e ligadas a ele que, envaidecido,
respondeu de forma menos agressiva.
Quando ela se recolheu, sentia-se satisfeita. Se ele no se mostrara
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muito receptivo, ela pelo menos, conseguira manter maior lucidez, chegando a notar com clareza as
dificuldades dele.
Chegara  concluso de que carregar o peso da descrena e da insegurana era de fato uma infelicidade.
Dali para frente, acreditava que seria mais fcil conviver com ele.
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Captulo 25
Mariazinha estugou o passo. Eram quase onze horas e ela precisava chegar em casa com tempo de
preparar o almoo. A sacola das compras estava pesada, mas mesmo assim ela caminhava
apressadamente pensando no que faria logo ao chegar.
- Precisa de ajuda?
Ela levantou os olhos e deu com Rino parado em sua frente, tentando evitar que ela continuasse.
Mariazinha sentiu um baque no corao. No esperava encontr-lo e muito menos que ele a abordasse.
Tentou prosseguir dizendo:
- Obrigada. No preciso de nada.
- No precisa esquivar-se. Afinal, somos amigos. Ela tentou seguir, e ele interceptou-lhe os passos.
- No seja injusta. No pretendo molest-la. Afinal, voc agora j se casou e eu no pretendo mais nada.
No poderia ser mais delicada comigo? Agora estou namorando a Rosa, mas gostaria que voc no
sentisse raiva de mim. Voc foi o amor de minha vida. Sempre desejei dar-lhe tudo. Se tivesse me
escolhido, no estaria pelas ruas carregando esse peso. Mas voc no quis. Me conformei. S no desejo
que tenha raiva de mim. Isso me fere e me deixa triste. Ser que no pode esquecer o passado? Ser que
no podemos ser bons amigos?
Ela olhou-o sria e considerou:
- No desejo sua amizade. Siga o seu caminho e deixe-me em paz. No guardo rancor. Apenas pretendo
viver minha vida do jeito que eu escolhi. Agora, saia do meu caminho. Estou atrasada e no desejo
conversar com voc. Por favor, esquea que me conheceu.
Com um gesto decidido, Mariazinha empurrou-o e continuou caminhando apressadamente. Seu corao
batia descompassado, e seu rosto ruborizado expressava sua indignao.
Apesar da atitude amistosa do Rino, ela no acreditou no que ele disse, o brilho de seus olhos desmentiam
suas palavras. Ela estava assustada. O Jlio teria razo? Ele estaria planejando algo? Como agir? Deveria
contar ao marido o que acontecera? Temia que o Jlio reagisse e as coisas se tornassem piores.
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Com o corao apertado, ela chegou em casa trmula e agitada. Agora que as provas contra o Rino se
avolumavam, ela ficava aterrorizada s em pensar que ele havia matado o Alberto. E se ele estivesse
mesmo a fim de acabar com o Jlio?
Seu desconforto aumentou. Decidiu falar com Vanderlei. Ele saberia contornar a situao e tomaria
providncias. Ele nunca acreditara na inocncia do Rino.
Quando Jlio chegou para o almoo, percebeu logo que alguma coisa havia acontecido. Porm
Mariazinha no contou nada.
- No vai me contar por que est to angustiada?
- Quem disse que estou angustiada? - disfarou ela.
- No precisa dizer nada, eu sinto. Voc est nervosa, preocupada. Por qu?
- No sei. Sinto-me um pouco nervosa, sem motivo. No sei o que .
- Tem certeza que no aconteceu nada? Olhe para mim. Ns nunca tivemos segredos.  melhor contar.
Ela comeou a chorar, abraando-o.
- Tenho medo. Se o Rino matou o Alberto, pode querer matar voc! Se isso acontecer, no vou agentar.
No saberia viver sem voc!
Ele apertou-a com fora acariciando-lhe os cabelos.
- Isso nunca acontecer, pode estar certa. Acalme-se. Onde est sua f em Deus? Vem aqui, sente-se a
meu lado. No adianta querer encobrir. Sei que aconteceu alguma coisa. Foi o Rino. O que ele fez?
apareceu aqui?
- Vou lhe contar, mas me prometa que no ir procur-lo.
- No prometo nada. Voc me assusta. Ele veio aqui? Fez alguma coisa?
- No. Ele me abordou quando eu voltava das compras. Mariazinha contou tudo. E finalizou:
- Suas palavras foram pacficas, mas eu senti que ele no estava sendo sincero. Seus olhos me deram
medo. Jlio, ele ainda no esqueceu. Eu senti!
- Isso eu j sabia! Depois do que houve, voc no dever sair sozinha. At resolvermos esse caso, eu a
levarei s compras e s sairemos juntos. E no abra a porta antes de saber quem est do lado de fora.
- Voc no compreende. Eu no sinto medo por mim. Tenho
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certeza que ele no vai tentar nada contra mim. Ele vai tentar contra voc. Temo pela sua vida!
- Estou alerta. Nada me acontecer. No desejo que ele se aproxime de voc, seja a que pretexto for.
Nunca se sabe do que ele ser capaz.
- Pensei at em nos mudarmos daqui. Iremos para longe, um lugar onde ele no soubesse.
- Nada disso. Estamos bem aqui, em nossa casa, perto de seus pais. Por que fugir se nada fizemos? No.
Ficaremos aqui e resolveremos esse caso, com a ajuda de Deus. No podemos perder a confiana. A ajuda
espiritual nunca nos faltou. Temos recebido tanto!
-  verdade. Amanh quando formos ao Centro, pediremos proteo. Tudo em nossa vida est to bom!
No desejo ser ingrata.
- Assim  melhor.
- Seria bom falarmos com Vanderlei.
- Isso sim. Ele nos ajudar como sempre. O que eu no quero  v-la nervosa.
- Voc  muito importante para mim. S em pensar que pode lhe acontecer algo, me desespero.
Jlio beijou-lhe a face com carinho.
- Nesse caso, cuide do meu bem-estar. Estou morrendo de fome. Ela sorriu. Sentia-se mais calma. Jlio
sabia compreend-la. Mais refeita, tratou de servir o almoo.
Vendo Mariazinha afastar-se, Rino no conteve o rancor. O desprezo dela feria fundo seu orgulho. Ela
no desejava v-lo sequer. Afinal, ele a abordara com educao, tentara uma reconciliao. Por que ela o
repudiara? Sentia tanta averso assim por ele? Ser que nunca o aceitaria?
Sentia-se inconformado. Quem ela pensava que era para trat-lo daquela forma? Ele, a quem as mulheres
disputavam e que deixara tudo, chegara at ao crime por amor a ela? At quando ela tripudiaria sobre os
seus sentimentos?
Com os pensamentos tumultuados e sentindo grande irritao, ele foi para casa. No podia mais esperar.
Precisava fazer alguma coisa. Mas, o qu? Como livrar-se do odiado rival sem comprometer-se? Sentia
vontade de acabar com ele de uma vez. Contudo, seu senso de defesa lhe dizia que precisava fazer bem
feito. Afastar qualquer suspeita. Alis, deveria arranjar um libi perfeito. Mariazinha jamais poderia
descobrir que fora ele.
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Poderia chamar o Lineu, afinal, j lhe fizera inmeros favores. Ele era seu amigo. Poderia tambm
recorrer a algum profissional. Dinheiro no lhe faltava para isso. Talvez fosse melhor deixar o Lineu fora
disso. Por outro lado, sabia por experincia que partilhar um segredo desses com um marginal, era ficar
sujeito a chantagem. Isso ele no toleraria.
Passou o resto da tarde ruminando esses pensamentos sem chegar a nenhuma concluso. Sentiu-se
arrasado. O que estaria acontecendo? Antes ele se sentia encorajado e as idias acudiam-lhe com
facilidade. Agora, sentia-se vacilante, sem saber o que fazer. Estaria doente? Sentia-se fraco e emagrecera
apesar da constante vigilncia de sua me, tentando faz-lo alimentar-se melhor.
O fato  que ele perdera a alegria de viver. Aquela mulher acabara com sua vida. Se ela o houvesse
aceitado tudo teria sido diferente. Ela era a nica responsvel pelos problemas que tivera. E se, apesar de
tudo, ela no o aceitasse? E se depois de tanto esforo, de haver matado por causa desse amor, ela
continuasse a desprez-lo? O que seria de sua vida? Estaria destinado a viver o resto dos seus dias
angustiado e sem prazer? Esse seria o seu destino?
No. Ele no estava disposto a suportar o fardo da vida sozinho e sem amor. E se ele resolvesse de forma
diferente? E se ao invs de acabar com o Jlio ele acabasse com ela? No fora ela a responsvel por tudo
que estava passando?
Passou a mo pelos cabelos, sentindo aumentar sua revolta. Sim. Ela fora a causadora da sua infelicidade.
Ele era um moo cheio de alegria, de prazer de viver e agora, por causa dela, estava reduzido a uma
sombra. Se acabasse com Jlio, ela poderia encontrar outro para substitu-lo. No fizera isso com o
Alberto? De que lhe valera acabar com ele? Apenas limpara o caminho para outro. No. O que ele
precisava era solucionar o problema para sempre. Acabar com ela. Mas, como viver depois disso? Como
passar a vida tendo perdido o gosto de viver?
De repente, ele sentiu o que desejava fazer. A vida no era digna de ser vivida. Era uma experincia intil
e desagradvel. No sentia vontade de continuar vivendo. Ele acabaria com Mariazinha e, depois, daria
cabo da prpria vida. No lhe restava outra alternativa. Qualquer outro caminho o deixaria solitrio e
infeliz. Acabar com tudo seria o descanso, a paz que tanto precisava. No pensar mais, no sofrer mais,
no sentir mais.
Decidiu preparar o plano. Pensaria em uma forma. Teria que ser
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algo magistral. Digno dele, da sua inteligncia. Todos saberiam que ele vencera. Ele, o desprezado, o
abandonado, vencera. Alcanara o que pretendia. Ela estaria com ele para sempre. Ningum mais os
separaria. No podendo viver juntos na vida, estariam juntos na morte.
Com a cabea tumultuada por esses pensamentos, fechou-se no quarto. Por que no pensara nisso antes?
Reconheceu que no o fizera, porque alimentava ainda a esperana de conseguir o que pretendia. Como
fazer?
Antes de acabar com tudo, ele a levaria para um lugar seguro onde realizaria seu sonho de amor. S ao
pensar nisso, sentiu seu corpo tremer de emoo. Como sonhara em t-la nos braos! Longe de todos, a
ss com ela, saberia domin-la.
E se ela reagisse, se gritasse? Teria que ser um lugar deserto. Claro! A casa em Campos do Jordo. Era
isolada e durante a semana, fora de temporada, seria ideal. Um lugar perfeito para uma noite de amor.
Excitado e disposto a executar esse plano, deu largas  imaginao, visualizando como faria tudo. Com
uma arma, a obrigaria entrar no carro e a levaria a casa. Uma vez l, faria dela o que quisesse. No
haveria ningum para interferir.
Gastou horas imaginando as cenas de amor, dando asas s mais loucas fantasias. Depois, deixaria uma
carta onde descreveria seu amor por ela, tudo quanto fizera por esse amor e, por fim, acabaria com ela e
depois de dispor tudo como gostaria que as pessoas encontrassem, acabaria com a prpria vida.
Precisava ser cauteloso. Agora, depois da deciso que tomara, no sentia mais medo que descobrissem
seu crime. S no queria que impedissem seu plano. Isso agora era o mais importante. Precisava ter calma
e usar de todo sangue frio. Ningum deveria suspeitar de nada. Nem seus amigos.
Sabia que quando Mariazinha desaparecesse, suspeitariam dele, tentariam encontr-lo. Para realizar seu
plano, precisaria de tempo. Apesar da impacincia e da vontade que sentia de fazer tudo o mais breve
possvel, sabia que teria de esperar. Decidiu continuar freqentando a casa de Rosa, namorando-a. De l
estudaria melhor as possibilidades. Talvez fosse bom oficializar o namoro, marcar o casamento. Desse
modo, afastaria qualquer suspeita.
Alberto, preocupado, observava-o. Vira quando ele abordara Mariazinha e notando-lhe os pensamentos
agressivos, seguira-o na
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esperana de conseguir influenci-lo a que desistisse do seu intento. Tudo intil.
Era verdade que ele, por mais esforo que fizesse, no conseguia ainda enviar-lhe pensamentos elevados.
Tinha essa inteno, contudo, ao aproximar-se dele, sentia viva repulsa, que lutava para vencer. Era-lhe
difcil conseguir isso, embora j compreendesse que esse seria o melhor caminho e obteria mais resultado
em favor do que desejava. Para defender Mariazinha, ele precisava vibrar amor para o Rino. Sabia que a
violncia se anula com serenidade, a crueldade, com amor.
Triste, ele percebeu mais uma vez que entre o saber e o fazer h grande distncia. Como fazer? A prece
sempre ajuda nesses momentos. Por isso, pediu a ajuda de Deus. Sentiu-se mais calmo depois disso e
percebeu que nada mais poderia fazer ali. Rino no o ouviria, uma vez que ele no conseguia envolv-lo
com a energia adequada.
Saiu e decidiu procurar Norma. Sabia como encontr-la. Dirigiu-se ao jardim onde haviam conversado e
pediu que ela viesse v-lo. No precisou esperar muito. Ela abraou-o carinhosamente e indagou:
- Aconteceu alguma coisa?
- Ainda no, mas vai acontecer. Estou muito preocupado com o Rino.
- Logo vi que ele no estava bem. Precisei acudir Cristina. Ela estava muito agitada e tive que usar de
todos os recursos para acalm-la. Diz que o Rino vai cair no abismo e que nunca mais ir v-lo. Chora
muito e pede a minha ajuda.
- Ela tem razo. Se ele fizer o que pretende, to cedo ela no o ver. Est cada vez pior. Agora planeja
matar Mariazinha e matar-se em seguida. Tentei intervir, mas no consegui. No consigo ainda. Quando
chego perto dele, tudo se modifica dentro de mim. Por isso a chamei. Talvez possa ajudar-me. Desejo
impedi-lo, mas no sei como.
Norma suspirou pensativa depois disse:
- Sei como se sente.  difcil reconhecer os prprios limites e mais difcil ainda  compreender as
decises da vida. Eles vo muito alm da nossa compreenso. Contudo, nessa hora, mais do que nunca, 
necessrio confiar. No podemos perder a calma nem querer ir alm das nossas possibilidades. Depois,
preso em suas iluses, tendo uma viso distorcida, como faz-lo entender?
- Temo por Mariazinha. Est to feliz, levando sua vida!  uma boa moa, no gostaria que algo lhe
acontecesse.
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Norma sorriu: -Voc gosta dela!
- Gosto. Gosto muito. Se eu tivesse continuado na Terra, teria, quem sabe, me casado com ela. Sou-lhe
grato. Nos momentos difceis pelos quais passei, ela me ajudou muito, pensou em mim com carinho e
amor.
- Os laos de amizade e do amor andam juntos. Ningum sabe onde acaba um e comea outro.
Preservando o lar de Mariazinha, voc pode estar conquistando, quem sabe, um lugar para voltar ao
mundo.
Alberto assustou-se:
- No penso ainda em voltar. Isto , no antes de resolver o caso do Jovino.
Norma olhou-o nos olhos, dizendo com voz firme:
- Tudo vir a seu tempo.  preciso manter a serenidade e a confiana.
- O que fazer enquanto esperamos? Como cooperar?
- Se no consegue influenciar o Rino, por que no tenta o mais fcil? Fique ao lado de Mariazinha, do
Jlio, inspire-lhes bons pensamentos e tente elevar-lhes o padro mental. Voc sabe que essa  a melhor
defesa. A sintonia  lei natural.
O rosto do Alberto distendeu-se:
- Tem razo. Por que no pensei nisso antes? Ficar junto deles  bom e proveitoso.
- Cuidado para no lhes transmitir suas preocupaes. Pode influenci-los a atrair justamente o que voc
deseja evitar.
- Achei que seria bom preveni-los.
- Foi o que pensei. Para que assust-los? Isso no garantir a defesa. Ao contrrio. O medo no s impede
a energia superior de entrar, como baixa o padro mental e abre o canal para o que se teme e deseja evitar.
Por isso, se deseja ajud-los, nada de pensamentos negativos. S otimismo, luz, confiana e amor.
Transmitindo-lhe essas energias, eles estaro mais distantes das intenes do Rino.
- Est certo. Tentarei fazer como pede. Eu ainda tento fazer as coisas ao modo da Terra. Aqui tudo
funciona de forma diferente.
- Nem tanto. Apenas somos mais sensveis e maleveis. Contudo, os princpios, as leis so as mesmas.
No se esquea disso. Agora preciso ir. Cristina no est bem.
- Por qu?
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- Continua obcecada pelo Rino. s vezes, para cont-la, precisamos faz-la dormir. Contudo, est fazendo
um tratamento intensivo muito bom, e eu espero que venha a melhorar.
- No melhorou nada ainda?
- Eu no diria isso. Eu sabia que ela demoraria a reagir. Uma obsesso dessas ningum sabe quando vai
acabar. Mas, pelos sintomas que ela tem apresentado ultimamente, percebo que melhorou. J no tem
crises de desespero como antes e comeou a interessar-se por algumas coisas.
- Fao votos que ela fique boa logo.
- Obrigada. Eu tambm espero que Rino no consiga o que deseja. Confiemos em Deus.
- Tem razo. Obrigado por tudo.
Norma abraou-o carinhosamente e afastou-se. Alberto dirigiu-se  casa de Mariazinha. Era j noite e
Vanderlei estava com eles na sala.
- Foi isso que aconteceu - dizia Mariazinha. - Ele no fez nada de mal, ao contrrio. Foi at educado,
coisa que ele no , mas eu senti medo. Seus olhos me pareceram ameaadores. No sei explicar.
- Nem precisa - respondeu Vanderlei.- Tem toda razo. Talvez ele esteja tramando algo, porm, se estiver,
no vai ter chance. Est na hora de mantermos vigilncia de novo.
- Isso no ser fcil. Sai caro e voc sabe que no podemos pagar muito.
- No se preocupe com isso. Eu dou um jeito. Sei como conseguir. Seria ideal que colocssemos um
homem aqui, direto, e outro atrs dele.
- Seria bom um protegendo o Jlio.  contra ele que o Rino est - sugeriu Mariazinha.
Vanderlei abanou a cabea.
- No penso assim. O Rino me parece at um psicopata. Analisando sua obstinao, suas atitudes
anteriores, sua forma de viver, tudo leva a crer que o seja. E nesse caso, ningum pode prever o que ele
far.
- Concordo plenamente. Eu ficaria mais tranqilo se algum ficasse de olho aqui em casa. Seria o
suficiente - considerou Jlio.
- Verei o que posso fazer. Em todo caso, seria aconselhvel Mariazinha tomar cuidado.
- Pedi a ela que no sasse sozinha.
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- Ser melhor. Pelo menos durante algum tempo.
- Meu Deus! Ser que esse pesadelo no vai acabar? Eu pensei que ele houvesse esquecido! - disse
Mariazinha.
- Tenha um pouco mais de pacincia. Estamos no fim, pode ter certeza - respondeu Vanderlei.
- Teve alguma notcia da Neide? - perguntou Jlio.
- Nada ainda. Mas pelo que sei, o Mendes no brinca em servio. Quando se empenha, consegue o que
quer. Ele no engoliu o baile que levou do sujeito que tentou atirar em voc. E, pelo que conseguiu at
agora, no duvido que esteja na pista certa.  s questo de tempo.
- Tomara que consiga. Gostaria de viver em paz. H tambm o Jovino. O que fizeram com ele foi muito
triste.
- Tambm acho. Quero ter o prazer de ver como o lado descrente da famlia do Alberto vai reagir, quando
a verdade for revelada.
- Voc fala do Rui - tornou Jlio.
- O Rui  intratvel. Mas, at agora, s Magali foi realmente ajudar o Jovino. D. Aurora e o dr. Homero
ainda no se decidiram. Esto comeando a pensar na inocncia dele, mas sequer foram visit-lo. Parece
que ainda lutam com o ressentimento e a dvida.
- Ainda no venceram a dor da perda. No  fcil para eles - disse Mariazinha.
- Por isso  que eu desejo provar a inocncia do Jovino de forma que no paire nenhuma dvida. Depois
do que ele sofreu,  o mnimo que podemos fazer. Certamente, depois disso a famlia toda lhe far justia.
- Ele merece. Tem se esforado, estudado, no se deixou abater, faz planos para o futuro. Quer se casar
com Nair, eles se amam. Estou torcendo pela felicidade deles - disse Mariazinha com convico.
- Todos ns estamos - concordou Vanderlei. - Eu j vou indo. Vou pensar como fazer e amanh voltarei.
Enquanto isso, cuidem-se bem.  melhor Mariazinha no sair sozinha, pelo menos por enquanto.
- Eu no corro nenhum perigo. O Jlio, sim. Em todo caso, no sairei.  desagradvel encontrar o Rino.
No gostaria de repetir a experincia.
-  melhor assim. Cautela  bom e no prejudica. At amanh. Os dois acompanharam Vanderlei at a
porta e depois de conversarem um pouco mais, foram dormir.
Alberto aproximou-se deles, permanecendo ao lado da cama,
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procurando enviar-lhes energias positivas. Sentiu-se bem. Era fcil desejar o bem a eles. Do seu corao
saam energias vivificantes de amor e paz envolvendo o casal semi-adormecido, fazendo-os se sentir
relaxados e alegres, no tardando a adormecer.
Mais calmo, Alberto deixou a casa. Precisava confiar. Todos seus amigos mais esclarecidos do que ele
mesmo, aconselhavam isso. Contudo, quando pensava no Rino, sentia um aperto no corao. Seria um
pressentimento ruim ou seria apenas reminiscncia? Esforava-se para manter o pensamento positivo.
Mas a lembrana do passado reaparecia, e ele sentia reaparecer a angstia do crime do qual fora vtima.
As emoes que julgara vencidas e superadas reapareciam com fora, fazendo-o perceber que ainda
conservava impresses fortes e dolorosas. At quando carregaria esse peso? Conhecera as causas que
deram origem s suas experincias, compreendera como a vida reage s nossas atitudes, acreditara-se
livre. De repente, parecia-lhe que todas as emoes reapareciam. De onde viriam? Como conseguir
serenidade?
No dia seguinte procurou Cludio. Sentia-se angustiado e no conseguia vencer a depresso.
- Preciso de ajuda - disse. - No sei o que aconteceu, parece que voltei ao comeo. Estava to bem e, de
repente, a sensao desagradvel voltou e sinto medo. Sei que preciso confiar em Deus, mas ao mesmo
tempo, a angstia me oprime. A lembrana da minha morte me persegue e por mais que eu tente reagir,
ela volta. Estou assustado. Acreditava haver vencido j esse processo. Quero sair, melhorar, o que devo
fazer?
- Calma. No se atormente inutilmente. Relaxe.
- At a fraqueza daqueles dias voltou. Por qu? O que eu fiz de errado?
- Nada. Procure conservar a calma.  s uma crise, vai passar. Faz parte do processo de renovao.
- Logo agora que eu me sentia melhor! Pensei haver aprendido tanto.
- Por isso mesmo. Voc est eliminando os bloqueios energticos que ainda se ocultavam em seu interior.
O pensamento positivo, o esforo de melhoria, dissolve os blocos energticos negativos e h que deix-
los ir. No lhes d mais importncia do que o necessrio. Identifique-os e liberte-se deles.
- De que forma?
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- No lhes dando importncia. Na verdade, agora voc no precisa mais deles, conhece coisa melhor. 
por isso que reagiu com tanta veemncia quando os identificou.
-No quero mais voltar a ser como antes. Estava to leve, alegre.
- Nada mudou. Voc continua como antes. Ao identificar essas energias que emergiram das profundezas
de sua alma, voc percebe claramente a diferena. Antes, quando voltou aqui, esse era seu estado
habitual. Depois de haver experimentado outros estados mais elevados, no aceita mais o passado.
Reconhecendo que esses pensamentos no servem mais para voc e que no os deseja, nem se
impressiona com eles, essas energias o deixaro. Para isso no  preciso combat-los. Basta pensar no que
 melhor agora.
- Tive medo de voltar ao que era antes.
- Se alimentar esse medo, eles no iro embora. No h dificuldade,  s afirmar o bem, acreditar nele.
- Assustei-me. No pensei que ainda guardasse essas energias dentro de mim.
- A reciclagem leva tempo. O saber  a base, mas a ao, a experincia  que amadurecem e elevam,
fortalecem. Voc est se saindo muito bem.
- Sinto-me melhor agora.
- Quando sentir angstia, tristeza, depresso novamente, mantenha a calma, observe e decida que agora
voc no deseja mais isso. Em seguida, pense que est se libertando dessas energias. Depois, lembre-se de
coisas agradveis, lugares, momentos positivos. Dessa forma, ir vencendo suas dificuldades e
melhorando sensivelmente sua vida.
- Parece to simples...
-  simples, funciona, mas  preciso tentar.
Alberto sorriu aliviado. Quantas coisas ainda precisava aprender? Ele no se deixaria mais dominar.
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Captulo 26
A partir do dia em que encontrara com Mariazinha e traara seu plano, Rino no conseguiu pensar em
outra coisa. Passava o tempo imaginando como seria, o que faria, as hipteses que poderiam ocorrer e
quanto mais pensava, mais conclua que a soluo estava nisso.
Afinal, a vida no valia nada mesmo e pelo menos ele poderia realizar seu sonho de amor, ainda que por
breves instantes, que certamente o levariam ao paraso. Sentia enorme prazer em imaginar o momento em
que a teria nos braos, o que faria, o que sentiria e criava fantasias cada vez mais ousadas, vendo-se como
um romntico que dera tudo por um amor.
Esses momentos para ele valeriam por todos os outros que poderia viver o resto da vida, se desistisse do
seu projeto. Enquanto imaginava e sonhava com o clmax do seu desejo, ele representava melhor a
comdia com Rosa, fingindo-se mais apaixonado a cada dia e, de certa forma, quando a tinha nos braos,
imaginava o que faria se fosse Mariazinha, aumentava sua euforia e ela, feliz e apaixonada, retribua
crente de que era amada de verdade.
Rino passou a freqentar-lhe a casa diariamente. Em uma semana, ficou a par dos hbitos e horrios do
casal. Ele no queria esperar muito mais. Notou que Mariazinha no saa mais sozinha e que Jlio s saa
para o trabalho, permanecendo em casa todo o tempo disponvel.
Como fazer? Resolveu deixar tudo pronto e no marcar o dia. Sempre tivera muita sorte. Tinha certeza de
que seria favorecido de alguma forma. Por isso, comprou alguns alimentos, roupas, coisas que julgou
essenciais para os momentos que idealizava passar com Mariazinha e foi a Campos de Jordo, onde
arrumou tudo para o grande momento, verificando o que faltava para providenciar.
Havendo deixado tudo preparado, voltou a So Paulo, continuando a vigiar a casa de Mariazinha,
aguardando uma oportunidade de levar adiante seu plano.
Mendes chegou em casa de Neide com um pacote caprichosamente embalado e algumas flores. Tocou a
campainha e esperou. Neide abriu a porta e, vendo-o, sorriu satisfeita.
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- Voc  pontual - disse. - Chegou bem na hora.
- Estava ansioso para v-la. Isto  para voc. Entregou-lhe as flores e o pacote. Ela corou de prazer.
- Espere um pouco. Vou pegar o vinho. Ficou no carro. Volto j.
Ele saiu e dentro de alguns minutos reapareceu com uma sacola de onde tirou o vinho e alguns petiscos,
que disps sobre a mesa.
- Voc  gentil. Obrigada.
-  muito importante para mim estar aqui com voc.
- Para mim tambm  - ela hesitou um pouco depois disse: - sinto um pouco de medo. Voc est me
interessando alm do que eu gostaria. Estou cansada de sofrer. No estou preparada para amar de novo.
Mendes abraou-a com carinho:
-No tenha medo dos seus sentimentos. Para ser sincero, nosso relacionamento  recente, mas todas as
vezes em que estamos juntos, o tempo voa e nos tornamos alegres e felizes. Isso  o que importa. O
amanh ningum sabe. No vale a pena atormentar-se com ele. Tambm sinto medo de amar de novo,
mas  muito bom estar aqui, t-la em meus braos. Voc nunca foi valorizada como merece. Gostaria de
poder fazer isso.
Beijou-a nos lbios amorosamente. Neide serviu o jantar caprichado que havia preparado para eles,
depois foram para o quarto abraados.
Uma hora depois, ainda na cama, tendo a cabea dela apoiada em seu peito, Neide considerou:
- Gostaria de hav-lo conhecido antes. Talvez meu destino houvesse sido diferente. Voc me inspira
pensamentos bons, faz-me sentir digna.
- Voc  digna.
- Tenho sofrido muito, feito coisas erradas. Tive muitas iluses e estou pagando bem caro por elas.
- Voc ainda no esqueceu o Lineu.
- No me lembre aquele patife.
- Voc ainda gosta dele!
- No  verdade. Eu o odeio! Vou me vingar. Voc sabe, prometeu ajudar-me.
- Prometi e cumpro. O que ele fez com voc, no se faz. Usou e abusou dos seus sentimentos e depois
atirou fora, pisou a sua dignidade.
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Neide trincou os dentes com raiva.
- Alm de quase me matar. No bastou a traio, a humilhao. Ainda me deu aquela surra. S em pensar,
meu sangue ferve!
- Acalme-se. J passou. Ele fez tudo isso e agora est com a outra muito  vontade.
- Voc sabe de alguma coisa?
- Bem... eu o vi com uma loira ontem. No sei se  a mesma que voc conhece.
- Alta, magra, metida a gr-fina?
- Isso mesmo. Estavam abraados e pareciam muito apaixonados. -Que cachorro!
- Mas voc no sente cimes. No gosta mais dele!
- Sinto dio porque fui enganada,  isso. Mas ele me paga!
- Voc fala muito, mas na hora mesmo no tem coragem, fica com pena dele.
-Eu?!
- Voc, sim. Temos sado juntos e voc nunca mais tocou naquele assunto. Acho que na verdade voc no
deseja mesmo vingar-se. S fala. Se quisesse mesmo, sabe que estou aqui, disposto a ajud-la, proteg-la
e coloc-la a salvo bem longe.
- Est enganado. No h nada que eu queira mais na vida do que isso.  que preciso ter algum dinheiro,
programar o que farei depois. Aqui, tenho amigos, posso ganhar melhor, juntar algum para depois. Longe,
em lugar estranho, o que ser de mim se no tiver recursos?
- Posso arranjar-lhe um emprego no norte do pas. Se tiver interesse mesmo em refazer sua vida, mudar,
tenho certeza de que daremos um jeito.
Os olhos dela brilharam emocionados:
- Voc acredita que eu possa me regenerar? Isto , que depois de tudo que eu tenho feito aqui, do meu
passado, ainda haveria chance para mim de levar uma vida normal como qualquer mulher?
Mendes alisou o rosto dela com carinho.
- Claro. Voc  livre para escolher o seu caminho. Se esse que escolheu at hoje, no a tornou feliz, por
que no mudar? Conheo uma pequena cidade perto de Recife onde tenho alguns parentes e muitos
amigos. Se estiver mesmo disposta a encarar uma nova vida, a trabalhar com vontade, posso arranjar-lhe
um emprego digno e que lhe d
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o suficiente para uma vida decente, embora sem luxo. Tudo depende do que voc realmente quer, do que
pensa que a far feliz. Neide suspirou pensativa, depois considerou:
- Estou cansada desta vida, de ser olhada como leviana, de ser escarnecida pelos homens, trada, olhada
com desconfiana pelas mulheres. Se eu pudesse voltar atrs, faria tudo diferente. No escolheria este
caminho que s me trouxe desiluso, infelicidade. Se puder fazer isso por mim, serei agradecida pelo
resto da vida.
- Farei, se voc quiser.
- Eu quero. Mas antes, vamos preparar a cama para o Lineu. No posso esquecer o que ele me fez. Jurei
que me vingaria.
- Para isso tambm precisa ter com qu. No se pode brincar com a justia. Afinal, voc no me contou
ainda o que ele fez. Falou em crime, mas  muito vago.
- Vou contar-lhe tudo direitinho. O Lineu tem uma turma de amigos que gostam de andar juntos. O
manda-chuva  um tal de Rino. O Lineu no faz nada sem falar com ele e os outros tambm. Uma noite o
Lineu chegou em casa muito irritado. Eu sabia que quando ele chegava assim, havia se metido em alguma
encrenca, o que era comum para eles. Brigavam com facilidade, no bairro todos os temiam. Quis comer e
eu esquentei a comida e quando a coloquei na mesa, havia um cachecol que eu nunca vira.
- O que  isto? - perguntei. - Voc nunca usou uma coisa dessas! - Ele era muito vaidoso e cuidava
muito da aparncia.
- Claro que no  meu! Caiu na hora da briga. O Rino cismou com uma garota e demos um corre no
malandro que estava com ela.
- Parece que estou vendo. Ele est correndo at agora!
- Nem tanto. Tivemos que arrepiar. Demos conta dele e do irmo, mas no sabamos que perto havia um
carro com o motorista deles que puxou um revlver e o jeito foi fugir. Ele deu alguns tiros e ns nos
escondemos no quintal do Nelsinho. Vimos quando eles entraram no carro e foram embora. Esses nunca
mais aparecem por aqui. Quando samos, encontramos esse cachecol no cho. Apanhei-o de brincadeira.
- Qualquer dia destes vocs ainda acabam levando um tiro. Abusam demais.
- Vire essa boca pra l! Onde j se viu? Parece que est contra ns!
- No gosto de v-lo metido em confuso.
- Sabemos fazer as coisas. No vai nos acontecer nada.
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Neide calou-se por alguns instantes. Depois continuou:
- O tempo passou e uma noite, passava da meia noite, eu j estava dormindo quando o Lineu apareceu e
me acordou. Estava plido e nervoso.
- Escuta, onde est aquele cachecol que eu trouxe naquela noite? Voc guardou?
- O cachecol? - respondi meio sonada. - Acho que guardei. Para que o quer a esta hora?
- Para nada. Eu preciso dele. Onde est? J revirei as gavetas e no achei. Voc vai dar conta dele.
- Acho que est na sala. Vou procurar. - Levantei-me e fui at a sala e o Rino estava l, plido. Percebi
que eles haviam se metido em alguma confuso. Procurei o cachecol e finalmente o encontrei. O Lineu
apanhou-o, sorriu e disse para o Rino:
- Com isso, estamos salvos. A culpa cair sobre ele! - e voltan-do-se para mim que os olhava curiosa -
este assunto no interessa a voc. V para a cozinha e faa um caf bem forte. Rpido, estamos com
pressa.
- Fui para a cozinha e coloquei a gua no fogo, mas estava temerosa. P ante p, aproximei-me da porta e
procurei ouvir o que diziam:
- Voc acha que com isso despistaremos a polcia? - perguntou Rino.
- Claro. Alm do mais, h o revlver. Deve ser o mesmo que eles tinham no carro, que o motorista usou
naquela noite.
- Ele veio armado, o malandro. Pensou que assim estaria protegido. - continuou Rino - ainda bem que
voc tomou a arma dele, seno um de ns poderia estar l agora.
- Tive o cuidado de limpar a arma. No encontraro nossas impresses digitais. Por sorte, guardei este
cachecol. Sempre tive muita sorte. Colocamos l e pronto, ningum saber de nada.
- Vamos logo, esquea o caf. J pensou se algum descobre o corpo?
- Corri passar o caf para que eles no desconfiassem que eu ouvira tudo. Era perigoso para mim. Servi o
caf, eles tomaram e saram. Fui me deitar, mas no consegui dormir. Um crime! Fiquei apavorada.
Depois vi no jornal o que acontecera. O motorista levou a culpa, mas eu sei que ele  inocente. Fiquei
com pena do moo. Mas nada pude fazer. Senti medo. Eles ficaram contentes, comemoraram. Quando o
rapaz foi condenado, eles marcaram at um jantar para festejar. Ouvi
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algumas conversas entre eles. O Rino  apaixonado pela Mariazinha, mas ela no gosta dele. Bem-feito.
Soube que ela casou com outro. Eles deram at uma surra nele mas no o intimidaram. Mas o motorista
est preso at hoje.
- Tudo o que me contou  muito triste. De fato, esse moo continua preso. Conheo o caso. Voc no tem
nenhuma prova a no ser seu testemunho. Se quiser incrimin-lo, ter que depor como testemunha, contar
 polcia tudo que sabe.
Neide deu um pulo na cama assustada:
- Eu?! Eles acabam comigo. Eu quero preparar a armadilha, mas no posso aparecer. Deus me livre!
- Voc  muito corajosa. No pode desistir agora. Ns procuraremos um advogado amigo, que j foi
policial, ele nos dir como fazer. Ningum saber de nada. Reabriremos o processo, e a essa altura, voc
ir para longe. Quando for testemunhar, ns a traremos sob custdia e em seguida voltar onde estava.
Eles no podero fazer nada. J pensou que desforra? No tribunal, testemunhar diante dele e contar tudo
como foi? Ser magistral!
Os olhos dela brilharam de alegria.
- Acha que serei capaz? Que terei coragem? Garante que no me acontecer nada?
- Claro. Eles estaro presos e nada podero fazer. Ela calou-se pensativa. Depois disse:
- No sei, no. E se no der certo? E se eles conseguirem safar-se? O Rino  rico e o pai, muito poderoso.
Eles sempre fizeram o que quiseram e nunca ningum conseguiu venc-los. Alm disso so muito
espertos.
O Mendes sorriu confiante.
- S que agora eles abusaram. Um crime no  brincadeira. Tenho certeza de que voc no correr
nenhum risco. Sei fazer as coisas. Tenho experincia. Confie em mim. Est na hora de algum pr esses
malandros na cadeia e libertar o motorista que  inocente. O que fizeram com ele no se apaga com
facilidade.
- Concordo. Deve ser muito triste ficar preso por um crime que no cometeu.
- Sem falar do desprezo da famlia. Segundo sei, ele era como filho na casa. No tem parentes e foi criado
com eles. Foi duplamente machucado! J pensou se ele fosse seu irmo ou coisa assim, como voc
estaria?
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-  verdade. Tem razo. Se me garante que no vai me acontecer nada, eu topo. Me vingo daquele
cachorro e ainda fao uma boa ao.  como se eu me limpasse um pouco de toda a sujeira que tem sido
minha vida. Sinto-me cansada de ser desprezada. Quero mudar de vida, ser decente, trabalhar e quem
sabe... um dia... Deus me ajude e eu possa reconstruir minha vida. Longe daqui ser mais fcil.
Mendes beijou-a delicadamente na face.
- Isso mesmo. Voc  uma boa moa. Merece ser feliz. Conte comigo em tudo quanto precisar. Tenho a
certeza de que meus amigos tambm a ajudaro. Amanh voc ir comigo ver o Vanderlei, um amigo
advogado que nos ajudar. Juntos, traaremos nosso plano.
Ela segurou a mo dele, apertando-a com fora.
- Voc vai ficar comigo o tempo todo?
- Certamente.
- Voc me d muita segurana. A seu lado, sinto-me forte.
- Pode contar comigo. Ficarei com voc desde agora.
Ela abraou-o agradecida. O Mendes inspirava-lhe idias novas de felicidade e renovao. Sentia vontade
de formar famlia, criar filhos, levar uma vida comum, em paz. Desejava algo mais consistente do que
uma aventura. J no era criana, precisava pensar no futuro. No queria passar o resto da vida sozinha,
infeliz.
Mendes passou l o resto da noite e na manh seguinte levou-a ao escritrio de Vanderlei. Diante dele,
Neide contou tudo quanto sabia.
Ouvindo-a descrever a histria que eles tanto desejavam conhecer, ele comoveu-se muito. Acreditava na
inocncia do Jovino, confiava nele, contudo, diante da verdade, da prova da sua inocncia, no podia
conter a emoo.
Finalmente, sabiam como o Alberto fora assassinado. Suas suspeitas confirmaram-se. O caso era da
mxima gravidade, por isso, ele chamou o tio, mais experiente do que ele, para juntos resolverem como
fazer.
- Em primeiro lugar, a testemunha  fundamental e a pea mais importante - considerou o dr. Rogrio. -
Temos que garantir sua segurana. Antes de qualquer providncia concreta, ela precisa desaparecer.
Arranjaremos um lugar seguro, que ningum saiba e a esconderemos l.
- Fora da cidade? - indagou Neide.
- Por enquanto no ser preciso. Espalhe para os amigos e para os
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vizinhos que vai embora de So Paulo. Ningum, mas ningum mesmo, poder saber do seu paradeiro.
- Eu cuidarei disso - resolveu o Mendes. - Ficarei com ela todo o tempo.
- Isso mesmo - concordou Rogrio. - Ela desaparece da circulao enquanto montamos a pea principal
e pediremos a reviso do processo e a reabertura do caso.
- Acha que conseguiremos? - perguntou Vanderlei - Ele pode alegar que ela est agindo assim por
despeito. Por que ele a abandonou. O juiz pode aceitar essa hiptese. Rever uma condenao no  fcil.
- Ele pode alegar isso mesmo, mas a verdade tem um peso muito forte. No creio que consigam ludibriar
a justia. Conto com isso.
- Estou pronta a tudo, mas infelizmente no tenho dinheiro suficiente para fazer o que me pedem. Talvez
seja preciso esperar um pouco mais. Tenho tentado economizar, juntei algum mas no o suficiente. No
posso sequer pagar seus honorrios.
Foi Vanderlei quem respondeu:
- No se preocupe. Sei como arranjar isso. Mendes, voc pode tratar de tudo. Vou dar um cheque para as
primeiras despesas.
- Est bem. Providenciarei tudo e voltarei para dar notcias assim que estiver pronto.
Quando eles saram, Vanderlei no escondeu sua alegria. O tio comentou:
- Parece que voc venceu. Finalmente encontrou o que procurava. Para ser franco, no pensei que
conseguisse. No acreditava muito na inocncia do Jovino.
- Eu, sim. Voc no o conhece.  um moo bom e digno. Preciso contar essa novidade a Magali e a
famlia.
- As coisas ainda no esto resolvidas. Temos um bom trabalho pela frente.
- O mais difcil aconteceu. As provas que precisvamos.
- Como pensa em arranjar dinheiro?
- Tenho certeza de que o dr. Homero ter interesse em ver esse caso solucionado. O Jlio tambm. O
Rino anda rondando Mariazinha e ele vive preocupado. Agora, ns temos certeza de que ele tem motivos
para isso.
- Faa isso. Eu vou redigir o depoimento da Neide para que ela
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assine e a petio pedindo a reabertura do processo e a incluso dessa prova nos autos.
- Capriche, tio. Temos que conseguir.
- Ser minha obra prima, voc vai ver. No haver juiz que resista. Satisfeito, Vanderlei saiu. Estava na
hora do almoo. Pretendia dar as novas a Magali e sua famlia. Por certo estariam reunidos. No
agentava esperar at a noite.
Meia hora depois tocou a campainha da casa de Magali, tendo notado com satisfao que o carro do dr.
Homero estava parado em frente da casa.
Uma criada o atendeu e convidou-o a entrar. Eles estavam  mesa e Vanderlei disse delicadamente:
- No os incomode. Tenho um assunto urgente. Mas espero que eles almocem.
A criada saiu da sala e logo Magali apareceu com um sorriso:
- Vanderlei, que bom v-lo!
- Desculpe vir na hora do almoo, mas tenho novidades e desejo falar com todos da famlia. Calculei que
estariam reunidos agora.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu. Mas  muito boa. V terminar seu almoo e eu espero.
Aurora apareceu na sala.
- Vanderlei! Venha, almoce conosco. Mandei colocar mais um prato.
- No se preocupe, D. Aurora. Tenho boas notcias e no agentei esperar.
- Boas notcias? - indagou ela curiosa.
- Sim. Termine o almoo e falaremos.
- S se almoar conosco.
- Est bem - concordou ele um pouco acanhado. Conduzido a copa, cumprimentou o dr. Homero que
convidou-o a sentar-se, ignorou o Rui que mal respondeu ao seu bom dia. Enquanto comiam, Vanderlei
explicou:
- Vim em hora imprpria porque aconteceram algumas coisas que eu gostaria de contar a todos.
Homero olhou-o admirado, mas no disse nada. O Rui comia olhos no prato, como se ali no houvesse
ningum. Vanderlei continuou:
- Gostaria que me ouvissem, ao terminarmos.
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- Est bem - concordou Homero. Depois do caf, Homero convidou:
- Venham todos ao meu gabinete. L conversaremos melhor.
- No estou interessado - disse Rui - vou para o meu quarto.
- Gostaria que me ouvisse - disse Vanderlei com voz calma. -Garanto que serei breve e o assunto interessa
a todos.
- Vamos, Rui - disse Homero, olhando-o srio. Evidenciando m vontade, ele os acompanhou. Uma vez
l, Vanderlei foi direto ao assunto.
- Creio que todos vocs sabem como conheci Magali e do meu interesse em resolver o caso do Jovino.
Agora, depois de tanto tempo, finalmente, temos provas de que ele no matou o Alberto! Ele  mesmo
inocente. Descobrimos quem foi o assassino.
- Santo Deus! - disse Aurora, levantando-se da poltrona. Homero tambm se levantara e, um tanto plido
perguntou:
- Tem certeza do que afirma?
- Tenho, dr. Homero. Sabemos como aconteceu, por que e quem foi. Vamos reabrir o processo e tenho a
certeza que desta vez faremos justia.
Magali no conseguiu articular palavra. Lgrimas desciam-lhe pelas faces e abraou a me que tremia
sem poder conter-se.
Homero passou a mo pelos cabelos, tentando controlar a emoo. Sentou-se novamente, respirou fundo e
pediu.
- Por favor, Vanderlei, conte-nos tudo.
Ele no se fez de rogado. Falou das tentativas de encontrar o assassino, do atentado que Jlio sofrera na
vspera do casamento e da inteno do Mendes de prender o homem. De seu trabalho junto a Neide e
finalmente de tudo quanto ela contara em seu escritrio naquela manh.
- Eu sempre disse que o Jovino era inocente! - disse Magali. - Ele nunca seria capaz de matar ningum,
muito menos o Alberto a quem ele sempre defendeu.
- Estou penalizada por causa dele - comentou Aurora. - Como deve ter sofrido! Ns sequer o ouvimos!
- Ele nos considerava como sua famlia - prosseguiu Magali. -Mas  um moo to bom que mesmo dentro
do que lhe fizeram, conseguiu entender nossa atitude e no nos condena, embora se sinta triste e
desiludido com a atitude de vocs.
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Homero passou novamente a mo pelos cabelos dizendo:
- Quem poderia imaginar? A polcia estava to segura, to certa! Eu acreditei. O corao humano guarda
muitos mistrios. Poderia mesmo haver sido ele.
- Mas no foi - disse Magali. - Agora, ele ser reabilitado. No  sem tempo.
- Certamente minha filha. Sinto-me envergonhado. Agora compreendo muitas coisas. O Alberto estava
certo! No foi sonho mesmo. Ele sabia que estvamos enganados.
O Rui abanou a cabea negativamente.
- Vocs so muito crdulos. Essa conversa toda bem pode ser inveno da moa. Ela quer vingar-se,
porque foi abandonada. Vocs podem, isso sim, estar incriminando um inocente, um moo de boa famlia.
Foi Vanderlei quem respondeu:
- Tenho absoluta certeza de que ela disse a verdade. Contou o caso em mincias e com detalhes.
- Eu acredito nela - disse Homero com voz firme - E agora, o que faremos?
- Devemos fazer tudo para que a verdade aparea e libertarmos o Jovino. Ele j sofreu muito, devemos
reparar esse erro o mais depressa possvel - decidiu Aurora.
- Meu tio Rogrio j est estudando o caso e preparando os documentos necessrios para a reabertura do
processo.
- Acha que vai demorar? - perguntou Magali. Vanderlei sacudiu a cabea.
- No sei. Vamos fazer a petio, juntar novas provas, o depoimento da Neide e esperar a deciso da
justia.
- Isso pode demorar muito. Sei como so essas coisas. No teramos uma forma de apressar isso? O
Jovino j foi injustiado demais. Precisa ser libertado o quanto antes. Repugna saber que ele  inocente e
est l preso e condenado.
- Concordo, dr. Homero. Faremos tudo para apressar essa deciso.
- Gostaria de colaborar.
-Vamos precisar da sua ajuda. Ele foi condenado. Se conseguirmos sensibilizar a justia, ele ir a um
novo julgamento. A batalha est apenas comeando.
- Conte comigo. Quero acompanhar de perto todos os detalhes. Desta vez, no serei omisso. A justia ser
feita.
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- Nesse caso, gostaria que o senhor fosse ao nosso escritrio e pudssemos discutir o caso juntos. Temos
que preparar. O Rino  moo rico e de famlia influente. No poupar esforos para defender-se.
- Irei quando quiser. H duas coisas que eu pretendo fazer: primeiro visitar o Jovino e depois conhecer
esse casal que fez mais por ns e pelo Jovino do que qualquer pessoa.
- Refere-se a Mariazinha e ao Jlio. Ser timo. Juntos haveremos de libertar o Jovino.
Rui olhava em silncio. Parecia-lhe que eles fantasiavam. No acreditava que Jovino fosse inocente. Por
isso acrescentou:
- Melhor tomar cuidado. Podem acabar caindo em uma arapuca. Esses advogados fazem tudo por
dinheiro.
Homero endereou ao filho um olhar severo.
- Melhor seria se voc cooperasse. Pode arrepender-se de ser to insolente. Vanderlei, espero que no leve
em considerao o que ele disse. Seu tio  um advogado respeitvel em quem admiro e confio.
- Estou tratando deste caso e gostaria de acompanh-lo at o fim. Contudo, o senhor tem toda liberdade de
consultar outros da sua confiana.
-Absolutamente. Tudo est muito bem como est. No quero ningum mais. Ns vamos conseguir o que
desejamos, agora tenho a certeza.
- Nada mais tenho a fazer aqui. Vou para meu quarto. Ainda acho que vo meter-se em encrencas, -
concluiu Rui retirando-se em seguida.
Vendo-o sair, Aurora aproximou-se de Vanderlei, dizendo:
- No ligue para ele. Isso passa. Quando tudo terminar, ele ter que aceitar a verdade.
Vanderlei sorriu:
-No se preocupe, D. Aurora. Basta-me o apoio de vocs. Agora preciso ir. Desejo dar a boa nova ao
Jlio.
Homero apertou a mo de Vanderlei com fora, dizendo com emoo:
- Obrigado, meu filho. Voc hoje despertou em mim nova motivao para viver, e a certeza de que ainda
teremos dias melhores. Obrigado.
O moo no respondeu, apertou a mo do dr. Homero com fora
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e recebeu o abrao agradecido de Aurora. Magali acompanhou-o at o porto.
- Estou to contente! Estamos chegando perto do que desejvamos. Vanderlei abraou-a com carinho
dizendo:
- Eu tambm. Mas para o meu maior sonho ainda falta um tempo. Mal posso esperar!
- Depois de hoje, papai vai nos favorecer. Voc acabou por conquist-lo de vez. Sei o que estou dizendo.
- Seu pai  um homem digno. E eu no pretendo abusar da sua estima. S nos casaremos quando eu tiver
possibilidades financeiras.
- Essa  a sua pressa?
- Voc sabe o que eu estou dizendo. No tente me fazer fraquejar.
Vanderlei beijou-a com carinho e saiu. Magali acenou satisfeita vendo-o desaparecer, entrou em casa.
Vanderlei consultou o relgio. Aquela hora Jlio j teria voltado ao trabalho. Teria que esperar a noite
para contar-lhe as novidades. Decidiu telefonar. Voltou ao escritrio e ligou para o Jlio. Depois dos
cumprimentos foi direto ao assunto:
- Tenho boas novas. Finalmente a Neide deu o servio. Contou tudo.
Jlio no conteve a curiosidade:
- E ento?
- Nossas suspeitas eram verdadeiras. Foi mesmo o Rino junto com o Lineu.
-Tem provas?
- Ela contou tudo nos mnimos detalhes. Falei com Magali e a famlia. Eles vo cooperar. O dr. Homero
quer conhec-los. Disse que vai visitar o Jovino e trabalhar para libert-lo. Amigo, estamos na reta final!
- Precisamos dar a boa nova ao Jovino! Poderamos arranjar uma visita extra.
- Como advogado, verei o que posso fazer.
- Mariazinha vai ficar feliz. Finalmente, esta histria vai terminar bem.
- Gostaria de saber os detalhes.
- No por telefone. A noite irei at sua casa e conversaremos.
- Venha jantar e traga Magali.
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- Vamos ver.
- Estaremos esperando. s sete, est bem?
- Est bem. Precisamos pensar nos detalhes. Vamos iniciar uma batalha judicial, e o Rino vai se defender
de todas as formas.
- Mas a verdade h de vencer. Confio em Deus.
- Assim espero. At a noite. -At.
Jlio desligou o telefone e ficou pensando. S ficaria sossegado quando o Rino estivesse longe.
Esforava-se para no desejar-lhe nada de mal, porm reconhecia que sua obstinao por Mariazinha era
preocupante.
Agora que tinham a certeza mesmo de que fora ele o assassino, precisavam aumentar a vigilncia.
Haviam suspendido a vigilncia da casa. Mant-la durante o dia inteiro no era nada fcil. Agora, pelo
menos enquanto o Rino estivesse por ali, deveriam pensar em alguma coisa. A noite, falaria com
Vanderlei sobre isso.
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Captulo 27
Mariazinha acenou para o Jlio e entrou em casa. Dirigiu-se  cozinha satisfeita. O almoo fora delicioso,
e o Jlio adorara. Enquanto tirava a mesa e procedia a arrumao, sentia-se feliz e alegre.
Ligou o rdio, como sempre fazia enquanto se entretinha nas atividades da casa. Lavou a loua, guardou
tudo, acabou a cozinha e apanhou um livro para ler, sentando-se confortavelmente em uma poltrona,
iniciando a leitura.
Passava das quinze horas quando o telefone tocou. Mariazinha atendeu:
-Al.
-  da casa de D. Mariazinha?
- Sou eu. Quem est falando?
- Um colega de seu pai na fbrica. Houve um acidente com ele. Mariazinha assustou-se:
-  grave? O que aconteceu?
-  grave. Preferi avisar a senhora. No quis avisar D. Isabel. Mariazinha tremia:
- Fez bem. Onde est ele?
- No Pronto Socorro. Esto pensando em remov-lo para o Hospital Matarazzo. Ele est chamando a
senhora. Venha correndo.
- Irei. Qual  o Pronto Socorro?
- Em frente da fbrica. A senhora conhece.
- Sei. Vou correndo. No deixem lev-lo antes que eu chegue a.
- Farei o possvel.
Trmula, sentindo as pernas tremerem, Mariazinha fechou a casa, apanhou a bolsa. Pensou em ligar para
o Jlio, mas no podia perder tempo. Ligaria do hospital.
Fechou a porta e saiu. Iria de txi. Estava ansiosa para chegar. Sua rua era deserta e no passavam muitos
carros. Precisava caminhar alguns quarteires para chegar  avenida onde por certo conseguiria o que
pretendia.
Quando se preparava para atravessar a rua, sentiu que algum a
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segurava pelo brao e alguma coisa dura empurrava suas costelas. Assustou-se, ia gritar, mas ouviu uma
voz ameaadora:
- V andando naturalmente. No grite. Se reagir, eu atiro.
- Rino! Voc enlouqueceu de vez. Deixe-me ir. Estou com pressa. Meu pai est mal. Por favor! Solte-me!
- Venha comigo, calada.
Levou-a at o carro parado a alguns metros dali. Abriu a porta e obrigou-a a entrar, sempre com a arma
apontada para ela que, plida, tremia sem saber o que dizer.
Ele entrou no carro e disse com voz que procurou tornar calma:
- Se me obedecer, nada lhe acontecer. Voc sabe que eu a amo muito e s farei o que for bom para voc.
Um pensamento de terror tomou conta de Mariazinha.
- O que fez com meu pai? Foi voc, no foi?
- Ele est em lugar seguro. Se me obedecer, nada acontecer a ele. Caso contrrio...
- O que vai fazer?
- Depende de voc. S de voc. Se se comportar, prometo que ele voltar para casa so e salvo.
- Para onde quer me levar?
- Para um lugar maravilhoso onde estaremos no nosso paraso. Nosso sonho de amor se tornar realidade.
Voc nunca soube o quanto eu a amava. Chegou a hora de eu provar isso. Voc vai ver.
Mariazinha, assustada, notou que ele estava determinado. Havia algo em sua fisionomia que a fazia
acreditar que ele estava disposto a tudo. Ele parecia louco, e ela resolveu ganhar tempo. Estava com o
corao apertado, mas lutou contra o medo e tentou dar a voz um tom calmo.
- Eu acredito que me ame. No duvido disso. Mas agora eu casei com outro. No tem mais jeito.
- Voc vai me amar. Hei de ensinar-lhe isso. Vamos embora. Apavorada, Mariazinha o viu pr o carro em
movimento e em
poucos minutos estavam na periferia da cidade. Onde estavam indo? Arrependeu-se de no haver
telefonado ao Jlio. Estava  merc daquele obstinado. Teria mesmo aprisionado seu pai?
- Voc machucou meu pai ? - perguntou aflita.
- No. Ainda no. Pegamos ele s para garantir sua obedincia. Se me obedecer, nada acontecer a ele.
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- O que est tentando fazer? No vai dar certo! Pense um pouco. O que est fazendo no  direito. Sou
casada e amo meu marido. Por que no desiste? Est a fim de destruir minha vida?
- Estou a fim de realizar nossa felicidade. No acredito que ame aquele paspalho. Eu posso lhe dar muito
mais do que ele. Voc ainda vai reconhecer isso. Depois, eu no agentava mais pensar, que todas as
noites, voc estava nos braos dele, que podia beij-la quando quisesse. Voc  minha e se no for minha,
nunca mais ser de ningum.
- Voc enlouqueceu! No v que  impossvel? No adianta querer me obrigar. Eu nunca o amarei. Leve-
me de volta, por favor. Deixe meu pai em paz e esqueceremos tudo isso. Prometo que no contarei a
ningum o que voc fez. Por favor!
Ele riu sarcstico:
- Isso  o que voc quer! Voltar para aquele idiota. Voc nunca mais o ver. Agora me pertence. Ou ser
minha ou acabaremos tudo agora mesmo! No me custa jogar o carro em qualquer barranco. Estou
desesperado. Um homem desesperado faz qualquer coisa!
Mariazinha sentiu um arrepio de terror. Rino estava realmente louco. O que fazer? Como agir? Estaria
destinada a morrer nas mos dele? De nada lhe adiantaria pedir. Ele no a atenderia. Precisava encontrar
uma forma de livrar-se. Mas, como? Pensou em abrir a porta do carro e atirar-se, mas teve medo. Estavam
em uma estrada deserta, e ela poderia machucar-se muito, piorar as coisas e no conseguir escapar. Seria
fcil para ele parar o carro e apanh-la de novo.
Calou-se, tentando desesperadamente encontrar uma sada. Ele pareceu advinhar seus pensamentos.
- No adianta nada. No vai se livrar de mim. Se tentar fugir, eu atiro, no duvide.
- Como fez com o Alberto - disse ela, enraivecida.
- Isso mesmo! Como fiz com ele E como farei com qualquer um que tente separ-la de mim.
- Foi voc que tentou matar o Jlio antes do nosso casamento!
- Fui eu mesmo.
- A polcia vai prend-lo por isso. No duvide.
- No h provas contra mim. Naquela noite eu estava oficialmente em Nova York. Quem poder acusar-
me?
- Por que me persegue tanto? Por que no me deixa ser feliz com a vida que escolhi?
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- Porque ningum a ama tanto quanto eu. Estou lhe contando todas as loucuras que cometi por seu amor!
No fica orgulhosa em saber disso? Eu matei por sua causa, eu estou jogando minha vida por esse amor.
No acha que mereo ser amado? No percebe o quanto eu a amo?
Mariazinha no encontrou palavras para responder. Estava paralisada de medo. Compreendia, talvez um
pouco tarde, o quanto ele estava perturbado. Estaria destinada a morrer nas mos dele? Depois de haver
confessado seus crimes, ele por certo no pretendia deix-la escapar. O que estaria planejando?
Seus pensamentos tumultuavam-se em perguntas assustadoras. Ele sabia que, de posse da verdade, ela
jamais permitiria que um inocente continuasse preso, enquanto que o verdadeiro assassino ficava impune.
Rino a conhecia o suficiente para saber que ela jamais concordaria em acobert-lo. Se ele lhe confessara
tudo, fora porque pretendia acabar com ela tambm.
Sentiu um arrepio de terror. Pensou no Alberto. Lembrou-se do Centro Esprita onde tantas vezes
recebera ajuda e por fim pensou em Deus. Fechou os olhos e pediu ajuda. Estava nas mos daquele
insano. Ningum sabia onde estavam nem o que lhe acontecera. Naquele instante, teve a certeza de que s
Deus poderia ajud-la.
Jlio chegou em casa e estranhou vendo tudo escuro. Mariazinha estaria dormindo? Abriu a porta, entrou
acendeu a luz e procurou-a por toda parte. Intrigado, notou a cozinha arrumada, e nem sinal do jantar. Ela
sara, pelo jeito no voltara ainda. Era estranho, porquanto ela nunca se ausentava sem lhe dizer. O que
teria acontecido? Teria havido alguma coisa com os pais dela? Por que no lhe telefonara? Deu uma
busca pela casa e teve a certeza de que ela sara mesmo. A bolsa no estava. Onde teria ido?
Procurou pela casa para ver se havia deixado algum bilhete, mas no encontrou nada. Resolveu ir at a
casa dos sogros. Eles no tinham telefone. Preocupado, foi at l. Eles mostraram-se surpresos. No
sabiam de nada.
Jlio, inquieto, procurou dissimular a preocupao.
- Com certeza ela foi fazer alguma compra e logo estar de volta - disse para no assust-los. - Vai ver
que j est em casa. Vou voltar para l.
-  estranho Mariazinha sair sem falar nada. Ela sempre diz onde
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vai. Nunca saa sem dizer para onde - comentou Isabel admirada. - Ser que aconteceu alguma coisa?
- No. Claro que no - disse Jlio, tentando acalmar-se. - Vou para casa. Vai ver que ela j voltou.
- Acho que vamos com voc - disse Jos preocupado.
- No  preciso.
- Ento eu telefono logo mais. Seno no ficarei sossegado.
- Est bem. Agora eu vou indo. Boa noite.
Jlio foi saindo e voltou para casa ansioso. Mariazinha ainda no voltara. Um pressentimento, um receio
tomou conta dele. Apanhou o telefone e ligou para o Vanderlei.
- Vanderlei, estou assustado. Sa um pouco mais cedo, desejava avisar Mariazinha de que voc viria para
o jantar. Cheguei em casa e no a encontrei. Ela desapareceu. Nem fez o jantar. Sinto que aconteceu
alguma coisa. Ela nunca saa sem me falar. Pelo jeito, ela saiu h muito tempo. Nem recolheu a roupa do
varal, coisa que ela nunca deixa de fazer.
- No teria ido fazer alguma compra?
- No. Desde aquele dia em que Rino a abordou, nunca mais ela saiu sozinha para compras. Temos ido
sempre juntos. Depois, que eu saiba, no estvamos com inteno de comprar nada. Estou preocupado. J
anoiteceu e no sei dela.
- Procurou se deixou algum bilhete ou coisa assim?
- No deixou nada. J vistoriei tudo.
- Vou buscar o Mendes e iremos at a imediatamente.
- Estou apavorado. Teria sido coisa daquele patife? Voc acha que ele ousaria fazer alguma coisa a ela?
- Fique calmo. Pode ser que no tenha acontecido nada. Dentro de alguns minutos estaremos a.
Jlio desligou o telefone e sentiu a inquietao aumentar. Saiu para o jardim e olhava atentamente para os
dois lados da rua, na esperana de v-la surgir. Ficou andando de um lado para outro, inquieto.
Quando Vanderlei chegou com o Mendes, meia hora depois, ele ainda estava andando inquieto de um
lado a outro, sem poder dominar a ansiedade. Vendo-os chegar, foi logo dizendo aflito:
- Ela ainda no apareceu. Sinto que alguma coisa aconteceu. Ela no costuma sair e muito menos deixar
de fazer o jantar.
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- Calma. Pode no ser nada de mais. Vamos entrar, quero ver se descubro alguma coisa.
Uma vez l dentro, eles procuraram alguma pista .
- Veja tudo e procure descobrir se h alguma coisa diferente. - disse Vanderlei.
-J procurei. Tudo parece igual. No h nenhum sinal que possa significar que aconteceu alguma coisa.
Est tudo em ordem. Ela saiu e levou a bolsa, isso eu j vi.
- O que quer dizer que ningum entrou aqui.
- Se entrou, no deixou nada - disse Jlio.
- Se aconteceu o que estou pensando... - Mendes parou interdito sem coragem para finalizar.
- Fale - encorajou Jlio num fio de voz. - Eu tambm estou pensando nisso.
- Bem, se o Rino teve alguma coisa a ver com isso, ele procurou atra-la para algum lugar, faz-la sair
espontaneamente.
- Meu Deus! - fez Jlio assustado. - Se foi ele, precisamos encontr-los! Como saber?
- Vamos procur-lo. Voc sabe onde  a casa da pequena dele?
- Da Rosa? Sei.  logo aqui em frente.
- Vamos at l.
Os trs saram e tocaram a campainha da casa dela. Ela apareceu na varanda e, vendo-os aproximou-se
admirada.
- Boa noite - disse Jlio.
- Boa noite.
- Gostaria de falar com o Rino, ele est? - perguntou Vanderlei. Ela sacudiu a cabea negativamente.
- No. Ele ainda no chegou. Quando vocs tocaram, pensei at que fosse ele.
- A que horas ele costuma chegar? - perguntou Jlio. -J deveria ter chegado. Posso saber do que se trata?
- Temos um negcio urgente a tratar com ele. Pensamos encontr-lo aqui - disse Vanderlei.- Se no se
incomodar, voltaremos mais tarde. Talvez j tenha chegado.
- Est bem. Despediram-se e saram.
- Ele tambm desapareceu - foi dizendo Jlio. - O que vamos fazer?
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- Vamos  casa dele. Sabe onde mora?
- Eu sei - respondeu Mendes. - Andei atrs dele muito tempo. Vamos at l.
Quando D. Eunice abriu, Vanderlei perguntou pelo Rino.
- Ele saiu - disse ela. - Do que se trata?
- Precisamos v-lo com urgncia - disse Vanderlei. - Sabe a que horas ele saiu?
- No sei bem. Pouco depois do almoo. Por que? Aconteceu alguma coisa?
- A senhora sabe a que horas ele vai voltar? Ela fez um gesto negativo.
- Ele nunca tem hora para voltar.
- Precisamos encontr-lo. Sabe onde foi?
- Ele raramente diz onde vai. No estar em casa da namorada?
- No. J o procuramos l.
O Mendes mostrou os documentos,dizendo:
- Sou da polcia e estou seriamente preocupado com o seu filho. Ele corre perigo. Precisamos avis-lo.
Eunice empalideceu.
- Meu Deus! Perigo de qu Teria se metido em alguma briga?
- Depois explicaremos tudo. Agora precisamos da sua ajuda para encontr-lo. Poderamos dar uma busca
em seu quarto?
- Por qu O que pensam encontrar?
- Talvez uma pista de onde ele foi. Suspeitamos que ele tenha ido se encontrar com pessoas muito
perigosas. Ele est correndo risco sem saber. Temos que avis-lo.
- Meu Deus! Onde ter ido? Em que estar metido? Eu mesma vou dar uma olhada em seu quarto.
Esperem um pouco. Meu marido no est,e eu no posso deixar ningum entrar aqui.
Ela fechou a porta e entrou. Eles esperaram impacientes do lado de fora. Quando ela voltou,disse:
- Est tudo em ordem. No h nada diferente. Vocs no teriam se enganado?
- Infelizmente, no. Aqui est um telefone. Se ele aparecer, ligue para este nmero e informe que ele
voltou.  para o bem dele.
- Sinto-me assustada. O que est acontecendo?
- Nada podemos dizer-lhe por agora. S pedir que nos ajude. Assim estar ajudando seu filho.
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- Est bem. Assim que ele chegar, telefonarei.
- Obrigado.
O Jlio quis passar novamente em casa para ver se Mariazinha havia voltado. Estava cada vez mais
temeroso. O desaparecimento do Rino aumentava suas suspeitas. Ele no queria pensar no que poderia
estar acontecendo.
- Vamos at a delegacia. Precisamos agir. Temos que encontr-lo. Ele  capaz de tudo. - decidiu o
Mendes.
- Estou apavorado - disse Jlio. - Temos que encontr-la ele deve ter armado uma cilada e ela caiu. Est
nas mos dele. Meu Deus!
- Vamos tomar providncias - disse Mendes decidido. - Desta vez, ele no vai escapar.
Uma vez na delegacia, ele conversou com o delegado. Obteve autorizao que precisava e disse aos dois
amigos.
- Vou fazer uma diligncia. Prender um cara que eu acho que pode saber tudo que est acontecendo.
- O Lineu! - disse Vanderlei.
- Esse mesmo. Est na hora de engaiolar o pssaro.
- Sob que alegao? - perguntou Vanderlei.
- Suspeita de seqestro. Vamos l. Vocs esperam aqui.
- No agentaria esperar - disse Jlio. - Ns vamos com voc.
- Est bem.
Subiram na viatura e levaram mais um investigador. Quando a criada abriu a porta, os policiais foram
entrando e perguntando pelo
Lineu.
Os pais correram assustados saber do que se tratava, tentaram impedir a priso, mas assim que o Lineu
apareceu para ver o que estava acontecendo, deram-lhe voz de priso.
Ele empalideceu.
- No sei do que se trata - disse. - Eu no fiz nada. Esto enganados.
- Vocs vo arrepender-se dessa violncia - disse o pai dele enfurecido.- Sob que acusao?
- Suspeita de seqestro. Ele precisa ir para a delegacia prestar declaraes.
- Seqestro?! De quem? Nada tenho com isso. No seqestrei ningum.
- Se no tem nada a ver com o caso, no precisa temer. Faremos as averiguaes e voltar para casa. Mas
agora precisa nos acompanhar.
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- Vou chamar meu advogado - disse o pai dele.
 - Pode chamar quem quiser. S que ns vamos indo. No podemos esperar. Vamos embora.
Pegaram Lineu e sob os protestos dele e da famlia, levaram-no para o carro. Vendo Jlio, Lineu
empalideceu. Comeou a suspeitar que Rino tinha alguma coisa a ver com aquela histria de seqestro.
Procurou dissimular sua suspeita, aparentar calma e displicncia. Nada poderiam provar contra ele.
Teriam que solt-lo em seguida.
Tentando aparentar calma, perguntou:
- Posso saber quem foi seqestrado? De que me acusam?
- Na delegacia conversaremos - disse Mendes. - Talvez as coisas se compliquem para voc. No se trata
s de seqestro, mas de assassinato.
Lineu estremeceu. Esforou-se para dissimular. Teriam descoberto alguma coisa? De que forma? Eles no
deixaram nenhuma pista. Eles estavam querendo intimid-lo. A polcia costuma usar ardis para envolver
as pessoas. Ele no se deixaria apanhar. Estaria prevenido.
Uma vez na delegacia, o colocaram em uma pequena sala para interrogatrio.
- Muito bem - disse Mendes - agora podemos conversar. Voc pode ir contando o que sabe se quiser
salvar a pele. Onde est o Rino?
- O Rino? Eu no sei. No o vejo h alguns dias. Desde que ele comeou a namorar firme, ns no temos
sado juntos.
- Mentira. Vocs tm se encontrado. Voc sempre cooperou com ele em tudo quanto ele faz. Alis, so
inseparveis. Eu posso esclarecer as coisas para voc. Ns j estamos de posse de um depoimento
estarrecedor. Sabemos como foi que voc e o Rino mataram o Alberto e forjaram as provas contra aquele
motorista.
Lineu sentiu-se desfalecer. O susto fez suas pernas tremerem. Tratou de defender-se:
- Isso  mentira! Uma calnia deslavada. Ningum pode provar nada contra ns. Vocs esto querendo
nos envolver. Eu bem conheo o Jlio. Sei que nos odeia. Acha que fomos ns que cometemos esse
crime. Mas ele mente. No tem nenhuma prova.
- Ele no tem mesmo, mas ns temos. Algum abriu o bico para a polcia e contou tudo. Vamos reabrir o
julgamento. O advogado j juntou esse depoimento no processo e j pediu sua reabertura.
-  mentira. Vocs esto todos enganados.
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- No adianta mais negar. O melhor  contar como foi. Sabemos que no foi voc quem deu os tiros. Foi o
Rino. Ele est perdido, e voc, se o acobertar, tambm. Sabe qual  a pena por assassinato e por
seqestro?
- No sei de nenhum seqestro. Por que insistem nisso?
- Porque Mariazinha desapareceu e o Rino tambm. Ele a raptou. E voc sabe onde eles esto. Se nos
disser, prometo que intercederemos por voc no julgamento.
- Ele no seria to louco! Ele disse que j a havia esquecido.
- Mas no esqueceu. Ele a seqestrou e voc sabe onde eles esto.
- Juro que no sei. Como posso saber?
- Ele deve ter combinado tudo com voc, como sempre fez. O tempo passa e precisamos encontr-los.
Vamos, onde eles esto?
Lineu abanava a cabea apavorado. Dessa vez a loucura do Rino fora demais. Seqestrar Mariazinha!
Nada lhe dissera sobre isso, mas ele no tinha dvida de que fora ele mesmo. Uma loucura dessas s
poderia ter sido dele! Muitas vezes o avisara de que ainda se destruiria por causa daquela paixo. Alm do
mais, ainda o comprometera daquela forma.
Abanou a cabea energicamente:
- Sou amigo do Rino, mas no sei nada sobre isso. Faz tempo que no samos juntos. Desde que ele
comeou a namorar a Rosa. Vocs esto enganados. Ele est at pensando em casar com ela! No
acredito que ele tenha alguma coisa que ver com Mariazinha. Vocs esto querendo me incriminar. Eu
no fiz nada!
- No? - disse o Mendes com ironia. - Se no me disser j onde eles esto, vou indici-lo por crime de
morte. Voc matou o Alberto, e ns j temos provas suficientes para mand-lo para a cadeia.
- No fui eu. Isso  mentira. Esse tal de Jlio cismou conosco. Tem cimes de Mariazinha e vive
pensando que o Rino ainda gosta dela.
Mendes agarrou Lineu pelo gasnete levantando-o da cadeira e, olhando-o bem nos olhos, disse furioso:
- Vai contar ou teremos que persuadi-lo? Fique sabendo que temos mtodos especiais para os mentirosos.
Lineu empalideceu. Estava apavorado. Aquela histria do Alberto podia complicar. Hesitou. Um brilho
astucioso passou pelos seus olhos e o Mendes percebeu:
- Se eu fosse voc, ajudava a polcia. As coisas esto muito
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complicadas. Voc pode se dar mal acobertando um criminoso. Estamos comeando a pensar que voc
pode  estar querendo encobrir o seu crime.
- Eu no cometi nenhum crime. Ningum pode provar nada contra mim.
- Eu posso. A Neide contou tudo sabia? Ela sabe at dos detalhes daquele crime e muito mais.
Ele estremeceu de surpresa e de raiva.
- Ela est despeitada. Levou o fora. Quer me incriminar.
- E conseguiu. Com as provas que temos, voc no sair daqui to cedo. Amanh mesmo ser
responsabilizado pela morte do Alberto. Voc e seu amigo Rino.
- Esto cometendo uma tremenda injustia. Dar ouvidos a uma mulher desprezada!
- Ela tambm deu queixa contra voc por ferimentos graves. A surra que lhe deu a deixou marcada, e ns
fizemos exame mdico com-probatrio. Voc est realmente em maus lenis. Agredir uma mulher
daquela forma  crime, sabia? S por isso, voc pegar cadeia por um bom tempo.
Lineu mordeu os lbios tentando encontrar uma sada. No conteve um pensamento de rancor. Neide ia
ver quando ele escapasse daquela.
Mendes pareceu ler seus pensamentos quando disse:
- Ela est bem longe daqui em lugar seguro. Voc no poder fazer nada contra ela. Estamos perdendo
um tempo precioso. V falando. Conte tudo. O escrivo vai tomar nota.
- No vou dizer nada. No tenho nada a dizer.
- Se me disser o que quero saber, intercederei por voc. Talvez, dependendo do seu depoimento, talvez
at possa liber-lo.
Os olhos de Lineu brilharam. Se conseguisse sair dali, ningum mais colocaria as mos nele. Iria para
bem longe, para o exterior talvez e ficaria at que no corresse mais nenhum risco.
Decidiu cooperar. Afinal, Rino o metera naquela confuso. Tentar raptar Mariazinha, era uma rematada
loucura. Tentou ganhar tempo.
- Se eu soubesse onde ele est, eu diria. Creia, ele no me disse nada sobre Mariazinha. Ele sabia que se
tivesse me contado, eu no o deixaria cometer essa loucura, se  que ele fez mesmo isso.
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- No podemos perder mais tempo. Ele a raptou e precisamos saber onde esto. Onde voc acha que ele a
levaria?
- No tenho a menor idia. Pode ter ido para qualquer hotel, em qualquer cidade distante. No sei. Ele
enlouqueceu de vez. Eu no sei de nada e no quero participar dessa aventura. Chega de loucuras. Ele j
fez muitas por causa dela. Agora eu no quero mais nada com ele nessas coisas. Quero cuidar da minha
vida, estudar, casar e ter famlia.  s o que eu quero.
- Ficou bonzinho de repente! - disse o Mendes.
Um policial entrou e disse algumas palavras em voz baixa para o Mendes.
- Chame o Maia e o Lauro para que continuem com esse caso. Saiu da sala e foi atender ao telefone.
- Sr Mendes? Aqui  a me do Rino. Estou muito preocupada, porque ele ainda no voltou. Ele levou uma
poro de coisas da dispensa, a criada viu, e uma mala. Fui procurar a chave de nossa casa de Campos de
Jordo, e ela sumiu. Ele teria ido para l? Tentei telefonar para l, mas ningum atende. Se ele corre
perigo, por favor, nos ajude.
- Claro Estamos pensando em ajudar a todos. A senhora poderia nos acompanhar at l para nos ensinar o
caminho?
- Certamente. Meu marido tambm poder ir conosco. Estamos aflitos e assustados. Poderia nos dizer o
que est acontecendo? Qual  o risco que ele est correndo?
- Logo estaremos a e ento conversaremos.
Mendes desligou o telefone e chamou o Jlio e o Vanderlei, contando-lhes o que estava acontecendo.
- Iremos imediatamente. Finalmente uma pista. Ele a levou para l! No temos tempo a perder.
- Isso mesmo - disse Vanderlei. - Vamos no meu carro.
- Vocs vo nos acompanhando, mas vamos com o carro da polcia. Ele pode reagir. Ao tomar essa
atitude, ele deve estar decidido a tudo.  preciso ter cuidado. Levarei alguns homens armados.
- Santo Deus, - disse Jlio. - Mariazinha deve estar apavorada!
- Calma, Jlio. - tornou Vanderlei. - Desta vez ns o pegaremos. Deus  grande.
Em poucos minutos eles saram, passaram em casa do Rino onde seus pais estavam prontos. O Mendes
tentou convencer Eunice a ficar.
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- Seu marido nos acompanhar - disse. - Se o Rino voltar para casa, a senhora nos avisar. Pode ser que
ele no esteja l.
- Estou angustiada. Quero saber o que est acontecendo com meu filho! Em que ele est metido agora?
- Sim - disse o pai dele. - Ns temos o direito de saber. O Mendes olhou muito srio e disse:
- Seu filho raptou uma moa contra a vontade dela. O marido est conosco e vamos busc-la. Suspeitamos
que ele no esteja bem. Est alterado e fora de si.
- Ele vinha ultimamente muito triste - disse Eunice contendo o pranto. - Por que teria feito isso? Tem
certeza de que foi ele?
- Sim.  quase certo. Ela desapareceu e ele a perseguia mesmo depois de casada. Infelizmente, parece que
foi ele mesmo.
- No acredito - disse Eunice. - Vai, Hamilton, - disse ao marido. Leva estes senhores at l e mostra a
eles que no aconteceu nada disso. Ele foi para l sozinho ou com algum amigo, nada mais. Vocs vo
ver.
- Veremos isso - disse o Mendes. - Vamos indo. O senhor pode ir conosco. H lugar.
Eles se acomodaram no carro da polcia e partiram, seguidos pelo carro de Vanderlei e Jlio .
Encolhida em um canto do carro, Mariazinha via aterrorizada se distanciarem cada vez mais. Onde a
estaria levando? Precisava dar um jeito de fugir, mas como? Pensava na aflio do Jlio sem saber onde
ela estava. Desconfiaria da verdade? Estariam a sua procura?
Mesmo que desconfiassem do Rino, como descobrir onde eles estavam? Ele levava algumas horas de
vantagem. Jlio s teria chegado em casa s seis. J havia escurecido e ele continuava estrada a fora,
subindo uma serra que parecia nunca ter fim.
Mariazinha sentia-se enjoada e com dores na barriga.
- Gostaria que parasse em algum lugar - disse. - Preciso ir ao banheiro.
- Por aqui no h nenhum lugar para parar. Logo chegaremos e ento tudo estar resolvido. Acalme-se.
Nossa aventura est apenas comeando.
- Por que no me leva de volta? Ainda  tempo de voltar para casa! Pense um pouco. No me
encontrando, minha famlia ir  polcia.
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Pode ser pior para voc. O que est fazendo est errado. Vamos voltar e esqueceremos tudo. No direi
nada sobre voc.
- Fique quieta que me deixa nervoso. Planejei tudo to bem e voc vai cooperar. Tudo que fiz foi pela
nossa felicidade. Ainda vou provar a voc quanto eu a amo e como sou muito melhor do que aquele idiota
do seu marido.
- Voc est louco! No v que  impossvel ? Eu gosto do Jlio.  s ele que eu amo. Nada do que fizer
poder modificar isso. Ao contrrio. Far com que eu o odeie. No percebe isso?
- Vocs, mulheres, so muito resistentes. Precisam ser dominadas. O homem nasceu para dominar. Vocs
adoram ser dominadas. Sei como fazer isso. Voc vai ver.
- No  nada disso. Deixe-me em paz.  s o que eu quero.
- Estamos chegando.
As luzes da cidade j apareciam e ela, em sua angstia receava chegar. O que ele pretendia? Passaram
pelas ruas movimentadas da pequena cidade e logo tomaram por pequena estrada sem iluminao e
calamento. Em frente a largo porto de madeira, Rino finalmente parou. Imediatamente desceu e abriu o
porto.
Mariazinha olhou em volta, sentindo um aperto no corao. Estavam em um lugar escuro e deserto.
Pensou em tentar fugir, mas para onde? Sequer enxergava onde estavam.
Rino subiu no carro e o colocou para dentro, parando em frente da casa completamente s escuras.
Mariazinha tremia de frio e de medo. Ele foi at o. porto e o fechou, passando a corrente e o cadeado.
Depois voltou, abriu a porta da casa e acendeu a luz da sala. Vendo que Mariazinha continuava dentro do
carro abriu, a porta dizendo:
- Desa. Venha conhecer o nosso paraso. Preparei tudo com muito carinho para receb-la.
Mariazinha continuou no mesmo lugar. Rino insistiu:
- Venha, no adianta relutar. Voc agora est em minhas mos. Posso fazer de voc o que eu quiser.
Estamos muito longe, no h nenhuma casa aqui por perto. Pode gritar, fazer o que quiser, ningum a
ouvir.
Ela continuou dentro do carro. Ele puxou-a para fora, dizendo irritado:
- Voc no vai estragar tudo agora. Se o fizer, juro que acabo com
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voc. Eu sempre me aproximei de voc cheio de amor e voc me repeliu. Agora acabou. Trate de ser
amvel, seno acabo com voc agora mesmo.
Tirou a arma e apontou-a para ela. Seus olhos brilhavam estranhamente, e Mariazinha percebeu que ele
estava completamente fora de si. Ela de fato estava nas mos dele. Ningum viria em seu socorro.
Ningum sabia onde eles estavam.
Ela no queria morrer. Amava a vida, o marido, os pais. Era muito moa para acabar daquela forma, nas
mos de um louco. Resolveu reagir. Tentou acalmar-se. Precisava de toda sua lucidez para encontrar uma
sada. Decidiu-se:
- No precisa ficar nervoso. No pretendo fazer nada. Sei que estou em suas mos. Reconheo que voc
foi mais esperto e inteligente do que todos ns.
Ele guardou a arma.
- Assim  melhor. Depois de tudo, eu no gostaria de ver nossos melhores momentos, a realizao dos
nossos sonhos, destruda. Vamos entrar. Venha ver o que eu preparei para voc.
Mariazinha sentia o corao bater descompassado, mas lutou para controlar-se. Talvez pudesse ganhar
tempo. Entrar um pouco no jogo dele.
- Venha - disse ele. - Vou acender a lareira. Deixei tudo preparado. Ela fingiu prestar ateno, enquanto
ele acendia a lareira, mas
furtivamente procurando uma maneira de fugir dali. Ele, apesar de absorto no que fazia, estava atento ao
menores gestos dela. Mariazinha no tinha dvidas que, se tentasse fugir, ele atiraria.
- Com o fogo aceso, fica mais confortvel - disse ele olhando satisfeito as labaredas que j comeavam a
aparecer.
- A casa  sua? - perguntou ela tentando amenizar um pouco a situao para ver se ele descuidava.
- . Comprei-a h alguns anos. Esperava passar aqui a nossa lua-de-mel. Sempre sonhei com o dia em que
estivssemos aqui, s ns dois, como agora.
Aproximou-se dela olhando-a apaixonadamente. Mariazinha estremeceu.
- Estou com fome - disse.
- Eu pensei em tudo. Vou preparar um belssimo jantar para ns. No nos faltar nada. Voc ver.
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- Aqui?
- Sim. Preparei tudo. Estive aqui e deixei tudo pronto. Se quer comer, dentro de meia hora no mximo
estaremos jantando. Venha comigo. Quero mostrar-lhe.
Orgulhosamente levou-a  cozinha, abriu a geladeira e ela pde ver que estava repleta de iguarias.
- Eu mesmo vou fazer tudo. Quero ter o prazer de servir esse jantar. Primeiro vamos tomar alguma coisa
para quebrar o gelo. Voc est nervosa. Eu quero que fique  vontade, que esquea tudo que passou.
Vamos fazer de conta que nos casamos hoje e que o passado nunca existiu. Ou melhor, que ns
namoramos e casamos como todo mundo. O que voc bebe?
Mariazinha tentou reprimir o tremor que lhe percorria o corpo e acalmar-se.
- Voc sabe que eu no bebo.
- Hoje  uma ocasio especial. Voc tem que beber!
- Est bem. Um Martini.
- Vou preparar no capricho.
Enquanto ele preparava prazerosamente, Mariazinha procurava ansiosamente uma brecha para poder
escapar. Mesmo que conseguisse sair da casa, vira que ele fechara o porto com cadeado e guardara a
chave no bolso. Seu instinto lhe dizia que no deveria irrit-lo.
Com ar triunfante, ele lhe estendeu o copo com o aperitivo, onde colocara um palito com pedacinhos de
ma e uma cereja.
- Vejo que tem jeito para isso - disse ela pegando o copo. - E voc, no vai tomar nada?
- Claro. S que no essa perfumaria. O meu  especial.
- Quero ver como voc faz.
Lisonjeado com a postura dela, ele esmerou-se no preparo do seu aperitivo, olhos brilhando de prazer
vendo-a observ-lo.
- Est pronto. Agora, sente-se na sala. Fao questo de servi-la. Sinto-me muito feliz esta noite.
Finalmente, estamos juntos.
Ela obedeceu, enquanto ele preparava alguns petiscos que colocou na mesa, em frente ao sof.
- Experimente isso. Veja que delcia!
Mariazinha no sentia vontade, mas pegou um salgadinho.
- A nossa felicidade! - disse ele brindando. E como ela no respondesse, ele insistiu:-Vamos. A nossa
felicidade!
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Ela olhava-o assustada. Rino estava completamente louco. Ele pegou-a pelo brao, apertando-a com
fora. Ela gemeu de dor.
- Vamos, brinde: A nossa felicidade! Quero ouvi-la dizer isso. Mariazinha engoliu a raiva e o medo e
murmurou:
- A nossa felicidade!
O rosto dele desanuviou-se.
- Assim  melhor. Ver que quando faz o que eu quero, as coisas correm melhor. Por que voc no foi
assim desde o comeo? Por que tive que fazer tudo o que fiz?
- Por que matou o Alberto? Ele no lhe fez nenhum mal.
- Ele me roubou voc. Eu sou louco por voc! Vamos, d-me um beijo! Vivo sonhando com isso h tanto
tempo!
Mariazinha estremeceu. Tentando desviar o assunto, perguntou:
- E a Rosa? Voc no vai casar-se com ela? Ela o ama muito! Ele balanou a cabea:
- No. Nunca pensei nisso. Est com cimes? No precisa. Eu s a procurei, porque queria ficar perto de
sua casa, estudar seus hbitos, programar nossa viagem. Agora, estamos aqui, juntos. Finalmente. Vem,
meu amor, beije-me!
Rino aproximou-se dela tentando abra-la, e Mariazinha, apesar do medo que sentia, empurrou-o firme:
- No, Rino. No faa isso!
- Vou fazer e voc vai cooperar. Chega de me repudiar. Quer me levar  loucura?
Tomou-a nos braos tentando beij-la. Ela defendeu-se como pde. Ele agarrou-a firme, colocando os
braos dela nas costas, fazendo-a gemer de dor.
- Eu queria que fosse diferente. Mas se voc no quiser cooperar, terei que amarr-la.
- No precisa fazer isso.
Ela sabia que se ele a amarrasse, ficaria ainda mais indefesa. Ser-lhe-ia mais difcil a fuga. No podia
perder as esperanas.
- Ento prove que vai cooperar. Venha e me beije. Mariazinha, trmula, sentindo nuseas aproximou-se
beijando-o
levemente na face.
- No  isso que eu quero. Vem que eu vou mostrar como  que se faz.
Abraou-a com fora e beijou-a nos lbios apaixonadamente.
359


Mariazinha tremia, seu corao batia descompassado de terror e de nojo. Mas, ao mesmo tempo, sabia
que estava lidando com uma pessoa fora de si, disposta a tudo. Tinha a certeza de que se no o
obedecesse, ele usaria de violncia para obrig-la. Ela precisava de toda sua fora para aproveitar
qualquer oportunidade de fuga que aparecesse. Apesar do horror que sentia, em seu pensamento pedia a
ajuda de Deus. S ele poderia ajud-la naquela hora dramtica.
Aproveitando um momento em que ele a largou e tomava alguns goles de aperitivo, ela pediu:
- Estou com muita fome. Voc disse que ia fazer o jantar.
- V comendo os salgadinhos. Agora eu quero  ficar perto de voc.
- Posso ajud-lo a preparar a comida. Sou boa nisso. O que tem para o jantar?
- Comprei tudo pronto. No precisamos fazer nada. S esquentar. Agora vem, vamos ao que interessa.
Esta noite ser a melhor da nossa vida. Voc nunca ter outra igual.
-  que eu no comi nada desde cedo. No almocei, porque estava indisposta - mentiu ela. - Agora estou
tonta de fome. Depois, voc me assustou muito. Agora estou mais calma. Cheguei a ficar com medo de
voc.
Ele aproximou-se, abraando-a carinhosamente.
- Voc sabe que eu seria incapaz de fazer qualquer coisa contra voc. Tudo que eu fao  visando a nossa
felicidade. Eu sei que s eu tenho o poder de faz-la feliz.
- Eu seria muito feliz agora se pudesse comer algo quente. Estou realmente com muita fome.
- Est bem. No quero que diga que eu fui muito egosta. Vamos l. Vou preparar o jantar. Venha
comigo. Quero voc bem perto.
Mariazinha obedeceu. Enquanto ele ia e vinha, preparando tudo, ela olhava-o estudando a situao.
Apesar de ocupado, ele no descuidava. Com a arma pendurada na cintura, ao alcance da mo, ela sabia
que, se tentasse algo, ele atiraria.
Ele arrumou a mesa, cuidando de tudo com esmero enquanto a comida esquentava no fogo. Tudo estava
disposto com luxo e finura. Desde a toalha ricamente bordada  mo, a loua inglesa, os copos de cristal,
os talheres de prata os candelabros cujas velas ele acendeu emocionado:
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- Veja - disse. - Eu sei fazer um clima delicioso. Aposto como voc nunca teve uma mesa to linda!
- Nunca - concordou ela tentando ganhar tempo.
- Vamos apagar todas as luzes. S as velas presenciaro nossa felicidade. Nosso ninho de amor!
Aproximou-se dela beijando-a demoradamente nos lbios. Mariazinha no reagiu. Animado com a
aparente passividade dela, ele disse emocionado:
- Estou inclinado a deixar esse jantar para depois!. Vamos para o quarto.
- Voc disse que este seria um jantar inesquecvel! Fao questo dele. Estou com muita fome. Depois
iremos.
Animado pela docilidade dela, ele concordou. Tinham muito tempo. Ele estava sendo muito afoito.
Pretendia saborear aquela noite.
Colocou a comida na mesa e antes de sentar-se ao lado dela, alisou-lhe os cabelos e o rosto com enlevo.
- Assim  que eu gosto de voc. Preparei esta festa por que a amo muito.
- Eu sei - respondeu ela, percebendo que quando ela concordava, ele se acalmava.
- Finalmente comeou a perceber o quanto eu a amo! S isso valeu todo meu esforo. Agora coma. Eu
estou sem fome. Vou servir o vinho.
Mariazinha tambm no sentia fome, mas tinha que fingir. Serviu-se e comeou a comer vagarosamente.
Apanhou o copo de vinho que ele colocara em sua frente e brindou:
- Ao bem e  felicidade - disse.
- A nossa felicidade! - corrigiu ele.
- . A nossa felicidade.
Ele bebeu animado e ela comentou:
- Que vinho delicioso!
-  importado. Aqui s temos do bom e do melhor.
- Nunca provei nada igual!
- Beba,  bom para relaxar - disse ele enchendo os copos novamente.
Mariazinha no estava acostumada a beber, mas naquela hora, reconheceu que seria bom para acalmar a
tenso. Tratou de comer para
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no ficar tonta. A comida era boa e muito bem preparada, mas ela sequer prestou ateno a isso.
- Est delicioso este prato. O que ?
- Peito de peru. Feito de uma forma especial. S um lugar que tem esse prato.
- No vai comer?
- No agora.
Ele levantou-se e foi virar os discos da vitrola.
- Gosta dessas msicas? Escolhi especialmente para ns.
Ela percebeu que eram msicas romnticas. Apesar da loucura, ele pensara em tudo nos mnimos
detalhes. A medida em que o tempo passava, Mariazinha sentia aumentar sua preocupao. Tentou
prolongar aquele jantar o mais possvel. O que ela esperava? Um milagre talvez. Sabia que estava nas
mos dele e estremecia de medo imaginando o que ele pretendia fazer quando no conseguisse mais
entret-lo.
Enquanto fingia beber e tentava engolir a comida, seu pensamento em splica muda e desesperada,
procurava pedir a ajuda dos espritos, lembrando-se do Centro que freqentava. Pensou no Alberto. Teria
condies de ajud-la?
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Captulo 28
Foi com preocupao e tristeza que o Alberto acompanhou a movimentao do Rino, na preparao do
seu terrvel plano. Tentou de todas as formas que sabia, influenci-lo a que desistisse do seu intento, sem
obter nenhum resultado.
Recorrera a seus assistentes espirituais que o aconselharam a acompanhar o caso de perto, mantendo
pensamentos positivos e a confiana na ajuda de Deus.
No tendo conseguido nada com o Rino, foi a casa de Mariazinha, procurando envolv-la com energias
positivas e ampar-la para que pudesse defender-se.
Tranqila e despreocupada, ela entretinha-se nos afazeres domsticos com disposio e alegria. Ficou ao
lado dela, disposto a proteg-la. Contudo, angustiado, viu-a atender o telefone e tentou influenci-la a que
no sasse. Mas ela estava por demais preocupada com o pai, e ele no conseguiu det-la
Nada pde fazer quando Rino a abordou e obrigou-a a entrar no carro. Ele sabia para onde ele a estava
conduzindo. Sentado no banco trazeiro do carro, Alberto procurava influenciar o Rino, mas descobria
desolado que no conseguia. Ele estava fora da realidade, enlouquecido.
Vendo-o e ouvindo-o, sentindo seus pensamentos, Alberto no conseguia vencer a repulsa que sentia,
vendo-o mencionar o crime do qual fora vtima e o horror de Mariazinha, no desespero da situao
inesperada e perigosa em que se encontrava.
Tentou acalmar-se. Sabia que precisava manter a serenidade e no devia de forma alguma dar fora
quela energia negativa que sentia. Na tentativa de manter a serenidade, rezou, pediu orientao aos seus
amigos espirituaise sentiu-se um pouco mais calmo.
A noite j descera e eles continuavam viajando. Alberto sabia que demorariam a chegar. Sabia que Rino
no faria nada antes de levar a cabo seu plano. Por isso, ele tinha algum tempo para tentar fazer alguma
coisa de outra forma.
Imediatamente, foi  procura de Jlio. Sabia que ele estaria procurando pela esposa, sem saber o que
acontecera. Ficou ao lado dele tentando
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orient-lo na busca. Mentalizava o Rino para que ele fosse a sua procura na sua casa.
Acompanhou-os durante todo tempo e quando finalmente chegaram na casa do Rino, ele exultou.
Finalmente. Infelizmente a me dele no sabia de nada. E eles foram embora. Mas o Alberto permaneceu
ali, tentando de alguma forma envolv-la.
Eunice ficara muito assustada com a polcia  procura de seu filho e principalmente com o fato dele estar
em perigo. Fora uma boa idia do Mendes.
Depois que eles se foram, ela sentou-se na sala, apanhou uma revista mas no conseguiu ler. O tempo
passava e Alberto, preocupado, aproximava-se dela, dizendo-lhe ao ouvido:
- Voc precisa fazer alguma coisa para ajudar seu filho!. Ele est em perigo e voc pode salv-lo! Vamos.
V ao quarto dele e procure melhor.
Eunice levantou-se e comeou a andar de um lado a outro. Sentia uma preocupao e angstia muito
grandes. Chamou a criada e perguntou:
- Maria, estou preocupada com o Rino. Ele saiu e parece que foi se meter em encrenca. Voc est aqui h
tanto tempo, eu sei que deseja o bem dele. Preste ateno e me conte, viu alguma coisa diferente ontem
ou hoje, com ele?
- Eu pensei que ele fosse viajar. Arrumou a mala, colocou muita comida, vinho, no carro, roupa de cama,
tudo. Ele no disse nada  senhora?
- No, Maria. No disse. Ele pode estar em perigo. Preciso ajud-lo. Estou angustiada. Sinto que ele est
em perigo.
- Cruz-credo D. Eunice. Senti at um arrepio! A senhora tem razo.
- Onde ter ido?
- Ser que num foi pra Campos de Jordo? Ele se preparou como quando vai pra l com os amigos.
- Pode ser mesmo. Vou ver se a chave est no escritrio. Alberto exultou e as acompanhou at l.
- Olha, Maria, a chave no est. Ele foi mesmo pra l.
- Se ele foi pra l, num tem perigo de nada.
- E. Isso . L no tem perigo de nada. Mas ele no foi sozinho.
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Ser que levou algum marginal? O Rino gosta do perigo. Vive se metendo em encrencas.
- Bom, vou esperar mais um pouco e telefonar para l. Quem sabe ele atende e explica tudo.
- Isso mesmo, D. Eunice. Vai ver que no aconteceu nada.  melhor sossegar.
Eunice voltou  sala e apanhou novamente a revista. Sentia-se mais calma. Tentou interessar-se pela
leitura.
Alberto no desistiu. O tempo estava passando e ele precisava voltar at onde Mariazinha e Rino estavam.
Aproximou-se de Eunice, procurou envolv-la dizendo-lhe ao ouvido:
- Seu filho est em perigo. Telefone para polcia, conte tudo. Vamos, antes que seja tarde.
Ela sobressaltou-se, pensou em ligar para a polcia, pedir ajuda, mas conteve-se. Alberto no lhe deu
trgua. Ficou ali, repetindo aquela frase em seus ouvidos. At o momento em que ela no suportou a
incerteza. Levantou-se e foi telefonar para o Mendes.
Alberto respirou aliviado. Comovido, agradeceu a Deus haver conseguido. Esperou a chegada da polcia,
e vendo-os sair rumo a Campos do Jordo, foi at l.
Quando chegou, viu logo que a situao era crtica. Eles terminavam o jantar. Mariazinha tentava
prolong-lo ao mximo, mas Rino no se sentia mais disposto a esperar.
- Agora chegou a nossa hora - disse, levantando-se e abraando-a com paixo.
- No, por favor. Rino, deixe-me.
- Agora, estamos s ns. Ningum poder ajud-la. Voc me pertence!
Foi nesse instante que Alberto, surpreendido, viu Cristina entrar na sala. Estava plida e seus olhos
chispavam de rancor. Passou por ele sem v-lo e atirou-se sobre Rino, dizendo:
- Louco! Voc est louco! Essa paixo vai acabar com voc! Como pode ainda gostar dela desse jeito? E
eu? No pensa em mim que tudo sacrifiquei por sua causa e agora s tem olhos para ela. Eu no posso
permitir que faa o que pretende. Voc quer atirar-se ao precipcio, e eu vou impedir!
Rino sentiu uma tontura violenta, largou Mariazinha que aproveitando-se dessa inesperada situao,
correu para o quarto, fechando a
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porta  chave. Corao batendo descompassado, ela encostou uma pesada poltrona na porta.
Apoiado na mesa, Rino tentava reagir.
- Eu bebi e no comi - pensou ele. -  melhor eu comer mesmo sem fome.
Agarrada a ele, Cristina beijava-o com carinho, dizendo-lhe ao ouvido:
- Eu voltei! Agora, sei que voc no vai sair dessa situao sozinho. Tenho que ajud-lo! Meu Deus! Eu
ainda no posso nada. Se ao menos eu pudesse lev-lo at o hospital. L eu melhorei tanto!
Em um canto, sem ser visto, Alberto observava. Norma chegou preocupada e dirigiu-se a ele:
- Ela fugiu. No conseguimos det-la. Foi ficando aflita, aflita, e no houve o que pudesse impedi-la. Vim
para tentar ajudar.
- Eu tambm estou tentando. Apesar de tudo, ela chegou na hora certa e sua interveno foi providencial.
De uma certa forma, ela conseguiu impedi-lo de ir adiante. Ele est obstinado. No consegui demov-lo.
- H momentos em que a fora das coisas  muito atuante. Ns no conseguimos modific-las. Agora, s
nos resta observar e doar energias. A confiana em Deus  sempre a maior ajuda.
- Tem razo.
Sentado  mesa, Rino preparara um bom prato e comia mesmo sem apetite. Sentia-se atordoado, cabea
pesada, corpo dolorido, estmago enjoado. Talvez comer no fosse a melhor soluo. Sentindo aumentar
o enjo, largou o prato e foi ao banheiro  procura de algum remdio para tomar. Arranjou um
comprimido e tomou apressado.
Depois, sentou-se em uma poltrona, passando a mo pela testa numa tentativa de afastar o peso que sentia
na cabea. Lembrou-se de Mariazinha. Onde fora?
Levantou-se e procurou-a. Viu a porta do quarto fechada e tentou abri-la.
- Mariazinha! - chamou. - Abra esta porta. Sei que est a. Cristina procurou arrast-lo para a poltrona.
- Sente-se - disse ela abraando-o fortemente. - Vamos. Sente-se seno vou jog-lo no cho! Voc no vai
fazer o que pretende. Eu no vou deixar. Vim aqui para isso. Enquanto eu puder, voc no cometer esse
crime.
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Rino sentiu a tontura aumentar. Assustou-se. O que estaria acontecendo com ele? Sempre tivera boa
sade. Por que isso agora?
Cambaleando, foi at a poltrona e sentou-se. As coisas no estavam acontecendo como planejara. Por que
tudo estava contra ele? Precisava acalmar-se. A emoo daquela hora fora muito forte. Ele tinha tempo.
Ningum sabia onde eles estavam. Podia descansar um pouco, melhorar e depois continuaria.
Deixou-se ficar na poltrona, enquanto Cristina, abraada a ele, o mantinha sob controle.
Alberto, admirado, comentou:
- Norma, voc pode no concordar, mas Cristina apesar de tudo, est conseguindo fazer mais do que ns.
Pelo menos o est impedindo de cometer um erro e prejudicar uma pessoa inocente.
- A vida tem seus prprios meios e ela aproveita tudo da maneira certa. Naturalmente, Mariazinha atraiu a
ajuda que nessa hora seria mais eficaz.
-  surpreendente. A primeira vista, poderamos pensar que algum, com nvel melhor de lucidez, mais
desenvolvimento espiritual, tem sempre mais eficcia na hora de ajudar. No entanto, Cristina, que se
encontra ainda tentando recuperar-se do seu desequilbrio, conseguiu muito mais do que ns dois.
- Isso  natural. Voc se esquece de que ela conviveu muito estreitamente com ele. Conhece-o muito bem.
Afina-se com sua energia. Usa de meios de persuaso que para ela so vlidos e naturais e que ns no
teramos vontade de usar.
-  mesmo. Tudo  relativo e adequado.
- Nessa hora, ns podemos compreender por que existem na Terra tantos nveis diferentes de
compreenso. E como as pessoas se atraem mutuamente, na busca da satisfao de suas necessidades de
progresso e aprendizagem.
- Sinto-me comovido - disse Alberto, olhos brilhando de emoo.
- A perfeio do universo comove e alegra. Agora, vamos nos concentrar muito bem. Eu sinto que a vida
nos colocou aqui reunidos com uma finalidade. Sei que hoje vamos juntos tentar vencer uma etapa. Que
Deus nos ajude!
Alberto concentrou-se em orao. Ele tambm sentia que o momento exigia prece e confiana.
Mariazinha, no quarto, sentada na cama, procurava acalmar-se.
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O silncio do Rino fazia-a ter esperanas de que ele houvesse desistido. Contudo, no se atrevia a abrir a
porta e olhar. Tentara abrir a janela, mas ela tinha grades por fora e ela a fechara novamente. Estava frio.
Ela ouviu o barulho de um carro. Seria possvel? Teriam sido descobertos? Foi com o corao batendo de
alegria que ela ouviu uma voz dizer:
- Rino, meu filho. Voc est a? Abra o porto, sou eu. Silncio. Rino teria sado?
- Rino, sou eu, seu pai. Vamos, venha abrir o porto, est muito frio aqui e eu desejo entrar.
Na sala, Rino, ouvindo a voz do pai, ficou enraivecido. O que ele teria ido fazer l? No permitiria que
ele entrasse. Abriu a janela e gritou:
- V embora. No vou abrir. No o quero aqui.
- Vamos, meu filho. Deixe-me entrar. Sou eu, seu pai.
-Voc veio com mais pessoas. Estou vendo daqui. Como pde fazer isso? Voc me traiu. Agora no h
mais remdio para mim.
- No diga isso. Vamos, abra para mim. Vai me deixar aqui fora a noite toda? Est muito frio.
- No vou abrir para voc e nem para ningum. Voc no  meu pai.  um inimigo que quer me derrotar.
Mas aviso que no vai conseguir. Eu juro que no. E no tentem entrar. Mariazinha est aqui comigo. Se
tentarem entrar, ela morre. Eu juro que vocs no vo mais pr as mos em ns. Deixem-nos em paz.
Hamilton, l fora, chorava assustado:
- Ele enlouqueceu! - dizia aos policiais. - No acredito no que estou ouvindo. O que vamos fazer? Ele
parece disposto a fazer o que est dizendo.
- No podemos ir embora - disse o Mendes. - Vamos traar uma estratgia para apanh-lo.
- Eu vou entrar de qualquer jeito - disse Jlio aflito.
- Voc fica onde est - respondeu Vanderlei com voz firme. - Um gesto em falso e pode precipitar tudo.
Fique calmo. Eles sabem como enfrentar situaes como esta.
Mendes, rodeado pelos policiais, conversava em voz baixa, combinando como iriam invadir a casa. Todo
cuidado era pouco. Eles no sabiam o que estava acontecendo l dentro e se Mariazinha estava
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bem. Depois, ele aproximou-se de Hamilton que arrasado, observava e pediu:
- Diga-lhe que no faa mal  moa e que se ela estiver bem, ns vamos embora. Pea a ela para falar
conosco. Se ela fizer isso, ns iremos embora.
Passando o leno nos olhos, Hamilton pigarreou, tentando firmar a voz. Depois gritou:
- Filho, no faa nada para a moa. Deixe-a ir. Silncio.
- No adianta pedir-lhe isso, vai irrit-lo ainda mais - disse o Mendes. - Diga-lhe que, se ela falar conosco
e disser que est bem, iremos embora.
Hamilton concordou com a cabea:
- Estamos preocupados com a moa. Queremos saber se ela est bem. Se ela falar conosco e disser que
est tudo bem, ns iremos embora.
- Ela est bem e no vai dizer nada. E tratem de sair daqui o quanto antes seno vou expuls-los.
Atrs da janela, revlver em punho, Rino olhava para fora na tentativa de impedir que eles entrassem no
jardim. Viu um vulto galgar o muro e atirou.
- Santo Deus! Ele est armado! - disse Hamilton horrorizado. Vendo-o atrs da janela, o policial jogara
uma capa sobre o muro
e, enquanto Rino atirava nervoso, os outros tentavam entrar pelos fundos.
Mariazinha, no quarto, rezava aflita. No se atrevia abrir a janela. Temia precipitar a tragdia.
- Oua, Rino,  a polcia - disse Mendes com voz firme. - A casa est cercada. Entregue-se. Saia com as
mos para cima. No vamos atirar. Vamos, obedea e nada lhe acontecer.
- Venham - gritou ele. - Venham. Voc e aquele paspalho do Jlio. Eu sei que ele est a. Veio atrs da
mulherzinha.
- Entregue-se - continuou o Mendes. - Voc no tem outro caminho. Vamos resolver tudo com calma. Seu
pai est aqui, quer falar com voc! - em voz baixa para o Hamilton : - Fale com ele, entretenha-o. 
preciso distra-lo para que ele no perceba nossos homens nos fundos.
Hamilton, nervoso, fez um esforo para falar alto o que conseguiu com alguma dificuldade:
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- Rino - chamou. - Ns compreendemos que voc queria muito a essa moa, mas volte  razo. Ela
casou-se com outro, no quer ficar com voc. Conforme-se. No pode obrig-la desse jeito! No  justo.
- Voc no compreende nada! - gritou ele furioso. - Ningum compreende! Mariazinha  minha e sempre
foi. Ningum vai tir-la de mim nunca mais. Ficaremos juntos para sempre. Vo embora, seno acabo
com tudo j. Se no sarem imediatamente, eu dou cabo dela e me mato. Morreremos juntos. Esse  o
nosso destino.
Hamilton , plido, disse aos policiais:
- Meu filho enlouqueceu! Nunca pensei que isso pudesse acontecer. Ele est louco. Ajudem-no. Ele vai
fazer o que diz. Meu Deus! Vai ser uma tragdia. Vou entrar e impedi-lo.
Hamilton precipitou-se pelo jardim, e o Mendes atirou-se sobre ele, derrubando-o. Na mesma hora em
que ouviu-se alguns disparos que passaram raspando o local onde eles estavam.
- Contenha-se! - disse o Mendes com voz enrgica. - Est me obrigando afast-lo daqui. Quer
precipitar tudo? Ele est louco e voc tambm. Vamos nos arrastar at o lado de fora. Venha, cuidado,
devagar. Ele pode atirar de novo. A estas horas voc poderia estar morto.
Hamilton soluava descontrolado, e Mendes conseguiu rastejar e arrast-lo para fora. Enquanto isso, um
outro policial conversava com Rino, tentando desviar sua ateno e mant-lo ocupado. Dois haviam ido
pelos fundos e cautelosamente, tirando algumas telhas, saltaram para dentro do banheiro. Com cuidado,
espiaram para fora e viram no fim do corredor, o Rino de costas, frente  janela, arma em punho.
- Vou atra-lo - disse um, baixinho.
O outro acenou concordando. Ele dirigiu-se  cozinha e colocando-se atrs da porta, fez um rudo.
Imediatamente, Rino virou-se assustado.
- Quem est a? - perguntou. -  voc, Mariazinha? Silncio. Preocupado, ele tornou a perguntar:
- Quem est a?
A passos cautelosos, ele caminhou pelo corredor em direo  cozinha, ao passar pelo banheiro, o policial
vibrou violento murro no revlver, derrubando-o, e saltou sobre ele tentando domin-lo.
Rino reagiu violentamente. Vibrou violento soco no policial, que deu um grito de dor, enquanto o outro
sara da cozinha, apontando a arma e dizendo:
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- Pare ou eu atiro. Voc est preso. Acabou.
Por um momento, Rino parou e olhou-o sem compreender. Isso no estava acontecendo com ele. No
podia ser. Era um pesadelo.
De um salto, apanhou o revlver do cho e atirou. Apanhado de surpresa o policial escondeu-se atrs da
parede, mas ainda assim sentiu que a bala o atingira no ombro e o sangue escorria. Nervoso, gritou:
- Largue a arma ou eu acabo com voc!
Ao invs de obedecer, Rino arrastou-se e escondeu-se atrs de uma mesa que derrubara fazendo de
trincheira. No estava disposto a entregar-se. Venderia caro sua vida.
- Venham todos - gritou. - Venha, Jlio! Por que no vem? Covarde!  com voc que eu gostaria de
ajustar contas. Fui um idiota. Por que no acabei com voc daquela vez?
Do lado de fora, aflitos, Vanderlei e Jlio esforavam-se para controlar-se. Sabiam que o Mendes era
capaz e confiavam nele.
Alberto e Norma, atentos, procuravam manter a calma apesar de tudo. Cristina, abraada ao Rino,
concitava-o a resistir.
- Ningum vai prend-lo, meu amor. Estou aqui para defend-lo. Voc no ir para a cadeia. Confie em
mim.
- Ningum me prender - dizia ele. - Vocs no podem comigo. Eu sou mais forte.
O policial ferido saiu pela porta dos fundos enquanto o outro continuava com a arma apontada. O Mendes
decidiu entrar. Apanhou a arma e foi pelos fundos. Apareceu no corredor e fez um sinal ao companheiro e
comeou a atirar alguns objetos para cima.
Assustado, Rino atirou vrias vezes, e de repente, os policiais perceberam que as balas do revolver
haviam acabado. No lhe deram tempo de carreg-lo de novo. Saltaram sobre ele, segurando-o
fortemente.
Rino esperneava e gritava como louco. Foi difcil segur-lo. Os demais entraram e ajudaram a cont-lo.
Ele espumava de raiva. Muito bem amarrado e algemado, seus olhos pareciam querer sair das rbitas.
Jlio e Vanderlei entraram e comearam a procurar Mariazinha. Chamaram-na, e ela finalmente abriu a
porta do quarto. Estava plida e trmula. Vendo Jlio, correu para ele abraando-o e chorando
nervosamente.
- Graas a Deus! - exclamou ele, apertando-a nos braos. - Quase morri de preocupao! Meu Deus!. No
esquecerei esta noite enquanto
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eu viver! Calma, meu amor. Tudo est bem agora. Acabou. Vamos para casa.
Vendo-os, Rino ficou ainda mais furioso.
- Vocs me pagam ! - gritou com voz que a raiva enrouquecia. -Vou acabar com vocs! Ningum me
vence! Eu no perdi. Eu sempre ganho. Clarinha  minha!. S minha. Me pertence. Eu sou seu marido. S
eu. Ela nunca ser de outro. No vou deixar!
Cristina, agarrada a ele, chorava desesperada.
- Flvio, sou eu, Cristina. Eu estou aqui. Eu nunca o tra. Eu o amo.
- Cristina! Cristina! Voc tambm? Voc tambm? O que quer de mim? Pedir-me contas?
Penalizados com a situao, Norma e Alberto aproximaram-se para tentar acalm-los. Foi quando Rino
notou a presena do Alberto.
-Alberto! - gritou. - Voc veio vingar-se de mim! Maldito! Voltou do inferno para me acusar? Se eu no
estivesse amarrado, acabava com voc de novo.
- Ele delira - disse Hamilton assustado. - Meu filho enlouqueceu. Que tragdia!
- Foi o Alberto quem me salvou - disse Mariazinha trmula. - Eu pedi a ajuda dele e agora temos a prova.
Ele est aqui. Meu Deus! Obrigada, Alberto. Deus o abenoe.
- Vamos voltar - disse o Mendes. - Precisamos passar no hospital. O Maia est ferido. Nada grave, espero.
Mas precisa de cuidados.
- Meu filho tambm precisa ser atendido. Ele est mal!- disse Hamilton nervoso.
- Seu filho ser atendido quando voltarmos. Na cela, ele vai se acalmar e voltar ao normal - disse o
Mendes.
- Ele est fora do normal. Est doente e no pode prend-lo.
- Ele est preso. Se estiver doente, ser atendido na delegacia. Mas de agora em diante, ele est preso, por
tentativa de seqestro e assassinato.
- Assassinato?
- Sim. Mas essa  uma historia que resolveremos depois. Carlos, d uma busca e vamos ver o que
encontramos mais.
Rino continuava brigando e dizendo coisas desconexas. Eles o colocaram na viatura bem amarrado, e seu
pai, inconformado e triste, sentou-se a seu lado.
372


O Vanderlei revistara a bolsa do Rino e mostrou uma carta que encontrava. Emocionado, no conseguiu
falar o que ela continha.
Mendes apanhou-a e leu: nela, Rino contara por que ele idealizara tudo e depois da noite de amor, onde
realizara seus sonhos, ele a matara e se matara. Havia tambm todas as loucuras que ele fizera por ela,
inclusive uma confisso completa de como matara o Alberto.
- Esta  a prova mais importante de todo o caso - comentou ele satisfeito. - Ainda bem que chegamos a
tempo!
Vanderlei concordou aliviado. Sim. Eles haviam chegado a tempo e tudo terminara bem. Mas,
certamente, eles haviam recebido alguma ajuda extra, algo especial, que dava para sentir, mas que no se
podia traduzir com palavras.
Enquanto o carro da polcia preparava-se para voltar a So Paulo, Vanderlei, junto com Jlio e
Mariazinha, levou o policial ferido para um Pronto Socorro onde ele foi medicado. A bala passara de
raspo pelo ombro, deixara um ferimento pouco profundo.
Isso resolvido, eles voltaram a So Paulo e durante a viagem de volta, Mariazinha contou como tudo
acontecera e, Vanderlei pde finalmente contar tambm sobre a Neide e a conversa que tivera naquele dia
com a famlia de Magali.
- Os acontecimentos se precipitaram - disse Jlio. - O Jovino pressentiu.
- Apesar de tudo, a Nair vai ficar contente. Agora ele ser libertado - disse Mariazinha.
- Mal posso esperar para dar a notcia ao Jovino - comentou Vanderlei. - Ele  o maior interessado.
Solicitei uma visita especial ao presdio para amanh. Como seu advogado, eu posso.
- Gostaria de ir com voc ! - disse Jlio.
- Eu tambm - ajuntou Mariazinha.
- Vamos ver. O dr. Homero e Aurora tambm gostariam, mas eu penso que s no domingo vocs podero
ir. Em todo caso, agora, depois da carta do Rino confessando tudo, penso que o juiz anular o julgamento
e poderemos impetrar um mandato de segurana para libert-lo e esperar o desfecho legal em liberdade.
- Quem diria! - disse Mariazinha - Tudo parecia to difcil, to distante e, de repente, todas as portas se
abriram.
-  mesmo. Muita ajuda espiritual, isso eu tenho certeza, mas certamente o Jovino encontrou o caminho
da liberdade.
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- Eu estive pensando - disse Vanderlei- faz tempo que eu no vou a nenhum Centro Esprita. Acho que
comearei a freqentar o de vocs. O que acham?
Jlio sorriu malicioso e considerou:
- No foi por falta de convite. Sempre o chamamos para ir.
- Agora, estou com vontade.
- Certamente. Assim  que se faz.
A conversa fluiu alegre, enquanto desciam a serra e se aproximavam de So Paulo, mas o Jlio, abraado
a Mariazinha, intimamente no se cansava de agradecer a Deus poder traz-la de volta s e salva.
374


Captulo 29
Sentado no leito da cela, Jovino apertava as mos inquieto. Na vspera, Vanderlei estivera com ele e lhe
contara detalhadamente os ltimos acontecimentos.
Emocionado, ouvira tudo sem articular palavra. Finalmente, sua inocncia ficaria provada de forma
inquestionvel. Sabia que seria libertado, porm, agora que a situao realmente ocorrera, no conseguia
dominar a emoo.
Finalmente! D. Aurora e o dr. Homero sabiam que ele no matara o Alberto. Eles viriam v-lo naquele
domingo. Sentia-se nervoso e inquieto. As horas no passavam. Como os receberia? O que lhes diria?
Como contar-lhes sua dor aqueles anos todos, sozinho, desprezado e carregando uma culpa que no tinha?
E eles, o que lhe diriam?
Levantou-se agitado, caminhando pela cela de um lado a outro. Vanderlei lhe dissera que, dentro de mais
alguns dias, ele seria libertado. Para onde iria? Sem dinheiro, nem emprego, o que faria?
No tinha medo quanto ao futuro. Certamente arranjaria um bom emprego. Estava disposto a trabalhar
muito e a refazer sua vida. Pensou em Nair e seu corao vibrou de alegria.
Pretendia casar com ela e ter sua prpria famlia. Ele no mais seria s no mundo. Teria filhos, esposa,
um lar s dele, onde seria feliz.
Por que as horas custavam tanto a passar? E se eles no viessem? E se se arrependessem? No, isso no
iria acontecer. O dr. Homero agora estava interessado em libert-lo. Prometera dedicar-se a isso mesmo
quando o Rino ainda no havia sido preso.
Era quase meio-dia quando Vanderlei chegou em casa de Magali. Fora convidado para almoar com a
famlia e depois eles pretendiam ir ao presdio visitar o Jovino. Ele estava feliz. Era um momento que ele
esperara com ansiedade.
Estivera com a famlia no dia anterior e relatara tudo quanto havia acontecido. O dr. Homero fizera
questo de chamar o Rui e contar-lhe tudo. Assustado, ele no encontrou palavras para dizer.
Guardou silncio por alguns instantes depois disse lutando com a emoo:
375


- Ento foi mesmo aquele pretensioso. Por que no desconfiei dele? Nunca pensei que ele tivesse
coragem. Parecia um gal de subrbio. Um filhinho de papai.
- No deve menosprezar as pessoas. Aprenda isso - disse Homero. - Pois foi ele quem atirou no Alberto.
Confessou tudo na carta, certo de que a descobriramos depois que ele estivesse morto. A vida disps
diferente.
- Ningum me tira da cabea que teve o dedinho do Alberto. Foi ele quem mais se esforou para libertar o
Jovino - disse Aurora convicta.
- Eh! Me, no precisa exagerar agora. Est ficando fantica.
- Melhor faria voc se comeasse a encarar essa realidade - disse Homero bem-humorado - quem sabe,
eles conseguem dar um jeito em voc!
- Voc agora deu para caoar de mim. At parece que cismou comigo. - reclamou Rui.
- No, meu filho. Ns vamos visitar o Jovino e gostaramos que fosse conosco.  o mnimo que podemos
fazer por ele depois de tudo.
- A culpa no foi nossa. A polcia tinha provas. Ele no pode nos culpar de nada.
- Ele no culpa ningum. Compreendeu a situao. Ficou triste, mas no guardou mgoa.- disse Magali.
- Vamos, Rui - disse Aurora, - Vocs sempre foram amigos. O Jovino sempre atendeu tudo que voc
queria com dedicao e amizade. Sempre defendeu vocs, inclusive naquela noite da briga.
-  verdade. Naquela noite ele foi grande! s vezes, penso por que o Alberto tinha que voltar l
escondido? Parece uma tentao.
Uma sombra de tristeza passou pelo rosto de Aurora. Ela ficou pensativa, depois disse:
- Eu tambm pensava assim, como voc. Mas agora, sei que o que tem de acontecer tem uma fora
invencvel. Ningum consegue impedir.
- Se ele no tivesse ido l naquela noite, nada teria acontecido -retrucou Rui.
- No teria sido naquela noite, teria sido em outra. Se ns precisvamos passar por essa experincia, nada
nem ningum conseguiria impedir. Tenho comigo que, um dia, seja onde for, e quando for, ainda
saberemos a causa verdadeira de tudo quanto nos tem acontecido. Agora, eu sei que no existe injustia.
S acontece o que  preciso, para nossa aprendizagem.
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Homero abraou a esposa dizendo, com voz calma:
- Comeo a pensar que tem razo. Muitas vezes tenho me sentido impotente diante da fora das coisas
que ocorrem contra minha vontade. Outras tantas, sem fazer nada, acontece tudo. Como explicar?
- Eu tambm estou intrigado com certas coisas. Por isso, resolvi comear a estudar esse assunto, l com
D. Dora - disse Vanderlei.
- Esta  uma boa notcia - retrucou Magali com alegria. - Seria bom se voc, Rui, fizesse o mesmo.
Garanto que se surpreenderia com o nvel intelectual dos estudiosos desses temas, que so mais para
gente erudita, ao contrrio do que muitos pensam.
- At que me provem o contrrio, no irei - disse ele.
- Esse  um problema que s voc pode resolver. Eu no desejo provar nada para ningum. Dou graas a
Deus de encontrar um caminho melhor para mim. Mais feliz, mais alegre, mais gratificante.
- Estou vendo que vocs so fracos. Esto todos fantasiando.
- Seja como for, vamos sair dentro de alguns minutos - disse Aurora. - Voc vai conosco?
- Tem certeza de que querem mesmo ir a um presdio? No seria melhor esperar quando ele sasse de l?
Homero abanou a cabea.
- Se quer ir, vamos. Se tem medo de ir ao presdio, pacincia. Iremos do mesmo jeito.
- Medo, eu? Quem disse isso? No  por medo, no. Mas hoje, eu no quero ir.
- Faa como quiser, meu filho - disse Homero. - Vamos indo que  hora.
Chegando ao presdio, logo na entrada, encontraram-se com Nair, Mariazinha e Jlio. Magali abraou-os
com alegria, apresentando-os ao pai. Homero cumprimentou-os emocionado.
-Tenho muito prazer em conhec-los. Vocs nos ajudaram muito. Sou muito grato por tudo.
- Ns tambm nos sentimos felizes por termos conseguido descobrir a verdade. Desde o comeo,
sabamos que o Jovino era inocente -disse Jlio.
Homero olhou-os srio e seus olhos brilhavam quando disse:
- Foi muito difcil, para mim, entender isso. Mas agora que sei a verdade, reconheo que a inocncia do
Jovino me devolve a confiana na vida, nas pessoas, na amizade.
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- Ele era como um filho - disse Aurora emocionada. - Foi muito duro pensar que havamos perdido os
dois de uma s vez.
- Vamos entrar - disse Vanderlei. - Jovino deve estar impaciente.
Conduzidos ao ptio, eles esperavam, emocionados. Jovino apareceu, cabea erguida com dignidade,
porm seus olhos brilhavam ansiosos procurando por eles. Vendo-os, a pequena distncia parou.
Aurora correu para ele abraando-o com fora:
-Jovino! Me perdoe. Eu no sabia o que estava fazendo. O golpe foi muito duro. Durante muito tempo eu
no pude concatenar as idias! - parou engasgada de emoo, apertando-o nos braos enquanto ele
soluava sem poder falar.
Tanto sofrimento guardado, tanta mgoa, tanta dor, reprimidos durante aqueles anos, transformaram-se
em lgrimas que ele no conseguia dominar. Abraado a Aurora, sentia naquele momento o quanto, na
solido de sua cela, desejara poder abra-la de novo, o quanto desejara poder descansar a cabea no
aconchego bondoso do seu corao de me.
Os demais, olhos midos e brilhantes, esperaram que a crise passasse. Quando os viu mais calmos,
Homero disse ao Jovino:
- Eu tambm desejo que me perdoe. Fomos mais injustos com voc do que a prpria justia.
Aurora afastou-se um pouco, e Jovino olhou para Homero. Quis falar, mas no conseguiu. Fez um gesto
desalentado. Homero abraou-o carinhosamente:
- Sinto muito o que lhe fizemos. De agora em diante, tudo ser diferente.
- Desculpe - balbuciou ele. - Esperei tanto este momento, pensei o que dizer, o que fazer, mas agora, no
sei... fiquei sem saber. No consegui me controlar.
-  natural - disse Jlio. - Afinal, conseguimos. Vamos deixar as tristezas. De hoje em diante, elas
acabaram para ns. Venha de l esse abrao!
Jovino tentou sorrir e abraou-o carinhosamente. Um por um o abraaram e Nair, por ltimo, beijou-o
delicadamente na face.
- Ns conseguimos - disse. - O pior j passou, agora podemos fazer nossos planos para o futuro.
-  verdade. Agora, tudo ser diferente - disse Jovino - o pesadelo acabou. Vamos nos sentar e conversar.
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As mulheres sentaram-se em um banco, enquanto os homens ficavam em p ao lado.
- Como o Vanderlei j deve ter-lhe dito, voc sair dentro de dois ou trs dias. J estamos cuidando de
tudo.
- Obrigado - respondeu Jovino.
- Vou arrumar o quarto do Alberto para voc - disse Aurora. -Nunca mais quis deixar ningum dormir l.
Agora,  seu.
- D. Aurora, no me leve a mal, mas eu estou decidido a cuidar de mim. Aprendi muito aqui, apesar de
tudo, tenho estudado, feito planos. Quero casar, ter minha prpria famlia, meus filhos, fazer alguma coisa
por mim. Vocs j me deram muito, agora que sou um homem, no  justo que eu continue dependendo
da famlia.
- Tem toda razo - disse Homero - compreendo o que quer dizer. Contudo, tenho pensado muito
tambm. Voc sempre viveu em nossa casa, ns o criamos e somos a sua famlia.  verdade que no
momento em que precisou, ns no soubemos ajud-lo. Mas o fato de nos sentirmos duplamente feridos,
pensando que voc havia cometido o crime, demonstra o quanto o estimamos. Naquela noite, perdemos
dois filhos. Agora, estamos arrependidos, finalmente conhecemos a verdade, e se um no pode voltar aos
nossos braos agora, o outro pode. No nos prive deste conforto.
- No sei o que dizer, dr. Homero...
-  importante para ns sentir que, de fato, voc no est magoado conosco. Que compreendeu e nos
perdoou.
- Quanto a isso, eu posso entender... Afinal, a polcia me culpou.
- Ento. Voc vai l para casa, pensa o que quer fazer, no que quer trabalhar. Se quiser terminar seus
estudos, terei a maior alegria em ajud-lo. A independncia  uma conquista e voc tem razo quanto a
isso, mas  preciso ser bem planejada. Terei muito gosto em cooperar para o que quiser. Ser uma forma
de me sentir til e de refazer um pouco o mal que involuntariamente lhe fizemos.
- Depois, tenho a certeza de que o Alberto deseja isso mesmo. Ele foi quem se esforou para que
soubssemos que era inocente. Ficar feliz vendo-o em casa, no quarto que era dele, vivendo conosco.
Jovino, comovido, no se sentia com coragem de recusar. Olhou para Nair que sorriu feliz. Fixou os olhos
nos rostos amigos que o fitavam alegres e exclamou:
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- Ah! Se eu pudesse ir com vocs agora!
- Pode ter certeza de que no vai demorar.
Alberto os observava com prazer. Finalmente conseguira o que pretendia. Mais um pouco, e tudo estaria
em paz. Saiu dali e foi ter com Norma.
- Felizmente agora tudo se encaminha melhor - disse ele assim que a viu. - E Cristina?
- Infelizmente, continua colada ao Rino. Gostaria que fosse comigo at l, ver se conseguimos ajud-la.
- Estou  sua disposio.
O Rino, levado a delegacia, colocado em uma cela, dera vazo a seu descontrole. Furioso, arrebentava
tudo que lhe caa nas mos. A polcia solicitara a visita de um psiquiatra, e a famlia mandara um famoso
mdico. No desejava que ele fosse atendido pelo profissional da delegacia.
Juntos, os dois mdicos tentaram estudar o caso dele. Chegaram a concluso que ele estava em crise e o
remdio seria faz-lo dormir. Deram-lhe alta dose de sonfero, e ele perdeu a conscincia.
Eles eram de opinio que s quando ele acordasse, depois de alguns dias de sono, j mais calmo, eles
poderiam fazer um diagnstico. Enquanto isso, providenciaram alguns exames, de rotina.
Norma e Alberto chegaram  cela onde Rino dormia, corpo astral estendido um pouco mais acima do
corpo de carne. Ele estava completamente inconsciente. Cristina continuava ali, abraada a ele, vigilante e
dedicada.
Estava triste e abatida. Norma aproximou-se dela, chamando-a:
- Cristina. Sou eu.
- Me! Me ajude! Como foi acontecer essa desgraa com ele? Que loucura! No sei o que fazer para
ajud-lo!
- Calma. O desespero e a tristeza s atrapalham.
- Eu sei. Mas no consigo me acalmar. Ele est desesperado.
- Ele est com raiva, porque no conseguiu o que queria.
- Eu no podia deix-lo cometer aquela loucura. Eu fiz para o bem dele. Mas no pensei que ele fosse
enlouquecer por isso.
Norma olhou-a nos olhos e disse com firmeza:
- Filha, voc no teve culpa de nada. Evitou um mal maior. Contudo, a vida deseja que ele aprenda que
no pode controlar os outros, nem usar as pessoas de acordo com sua vontade. O Flvio fez
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isso a vida inteira. H muitos anos que ele vem sendo mimado e se mimando, pretendendo que o mundo,
as pessoas, as coisas, girem em torno dele, de acordo com sua vontade. A verdade  bem diferente. Deus
no mima ningum. Olhando os problemas que as pessoas enfrentam em toda parte, para aprender a
disciplinar suas emoes, percebemos isso.
- Eu no queria que ele sofresse!
- Voc o est julgando um fraco, que no pode resolver seus prprios problemas. Est enganada. Ele 
forte e inteligente e deve aprender a usar essa sua capacidade em favor da prpria felicidade. Ningum
pode fazer isso por ele, por mais que o ame. O que est acontecendo, no  um mal, ao contrrio.  o
remdio para que ele possa mudar para melhor.
- O que posso fazer para ajud-lo?
- Nada. Voc no pode fazer nada. Ele  quem precisa ajudar-se. Claro que no faltaro dedicados
assistentes espirituais que, melhor do que voc, certamente j o esto ajudando. Contudo,  preciso que as
coisas amaduream, que ele se conscientize, que perceba coisas. Isso no depende de voc. Tem estado ao
lado dele durante tanto tempo e no conseguiu transform-lo. Por isso, o melhor a fazer  voltar comigo
para o tratamento. Cuidar de voc. Tentar aprender e preparar-se mais para quando chegar o momento
propcio, possa estar bem e cooperar com ele. Tudo  temporrio, pode crer. Se quer fazer alguma coisa
por ele, comece se ajudando, faa por voc. No perca mais tempo. Vamos voltar.
- E ele, o que vai acontecer?
- Veja, ele tem enfermeiros que esto cuidando. Surpreendida, Cristina viu dois atendentes que, na
cabeceira do
Rino, o examinavam minuciosamente.
- Eles vo tomar conta dele?
- Sim. Vamos, venha comigo. Voc poder vir v-lo quando quiser.
- Tem certeza de que ele ficar bem?
- Tenho. Agora, voc precisa de atendimento. Veja o seu estado. Quando melhorar, poder voltar.
Olhando tristemente para ele, Cristina finalmente concordou.
- Est bem. Eu realmente no me sinto bem. Reconheo que estava muito melhor, mais calma, agora,
depois do que fiz, sinto uma
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insatisfao, como se eu houvesse perdido alguma coisa. No sei como explicar.
-  que depois de haver experimentado um ambiente melhor, uma situao mais equilibrada, voc no se
sente confortvel em voltar ao que era antes. Isso demonstra que voc j progrediu. Ao contrrio do que
imagina, voc est indo muito bem. Dentro de pouco tempo, tenho certeza, se sentir muito melhor.
Cristina olhou-os pensativa. Depois disse:
- Voc sempre teve razo, me. Estou cansada. J perdi muito tempo. Comeo a pensar que tudo poderia
ter sido diferente se eu tivesse percebido certas coisas.
- Filha, nada poderia ter sido diferente do que foi, porque era a maneira que voc sabia ver na poca. No
se culpe por isso. A culpa tem nos atormentado durante sculos. Todavia, segundo sei, diante da vida,
ningum  culpado. Somos todos inocentes. Sempre fazemos o que pensamos ser o melhor dentro do
nosso nvel de lucidez. E o erro faz parte da aprendizagem e costuma ensinar muito mais do que o acerto.
- Mesmo quando cometemos um crime? Mesmo quando tiramos a vida de um ser humano? - perguntou
Alberto emocionado.
- Mesmo assim. Quem age com violncia, at com crueldade, sempre pensa que est se defendendo. No
conhece ainda nada superior, acredita que o melhor seja isso. Na verdade, s o tempo, a vivncia, a
prpria vida podero mostrar-lhe uma nova maneira de viver, mais lcida e feliz. Por isso, na cidade onde
eu resido, todos gostamos de prestar servios aos que sofrem, mas o fazemos sem paternalismo,
porquanto ele mais prejudica do que ajuda. Nos abstemos de julgar quem quer que seja. S cooperamos
com os que realmente desejam mudar, que j perceberam que precisam agir de forma diferente do que
fizeram. Nessa hora, todo recurso de auxlio bem dirigido, faz maravilhas.
- Reconheo que o peso da culpa  muito doloroso. Eu mesmo, quando tive conhecimento do passado,
senti isso. Ainda hoje, a conscincia do erro, quando aparece, me deixa deprimido. O remorso tambm me
deixa angustiado.
- No se atormente. Procure desenvolver a auto-estima, porque ela desenvolver a sua dignidade como
esprito eterno. Deus no fez ningum errado. Cada um  perfeito em seu nvel e todos ns estamos
desenvolvendo nossos potenciais. As dificuldades, os problemas, os enganos e at as iluses so formas
de treinamento para que alcancemos
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a maturidade. Por isso, a culpa deve ser banida da nossa mente. Somos todos inocentes, todavia, estamos
sujeitos s leis naturais do universo. Elas respondem a todos os nossos atos e so os mestres do nosso
desenvolvimento. Por isso, alegremo-nos e cultivemos a confiana na vida, que sempre faz o melhor.
- Ah! Se eu pudesse pensar como voc! - disse Cristina. - Me, eu quero mudar. Eu quero ser feliz. Eu
quero aprender. Me ajude a viver melhor. Farei tudo que voc mandar.
Norma abraou-a com alegria.
- Obrigada pela confiana. Agora, vamos embora. O Rino ficar bem assistido.
Cristina aproximou-se dele e beijou-o delicadamente na testa.
- Adeus - disse. - Reconheo que nunca o ajudei verdadeiramente. Agora, sei que no podia fazer melhor.
- Vamos embora - disse Norma.
E os trs, conversando amigavelmente, saram da cela, ganhando a rua, desapareceram no horizonte.
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Captulo 30
Aurora entrou no quarto do Alberto decidida. Queria arrum-lo e deixar tudo bonito. Finalmente, Jovino
sairia naquele dia. Magali e Vanderlei iriam busc-lo, e dentro de algumas horas, ele estaria de volta.
Libert-lo levara um pouco mais do que eles esperavam. O dr. Rogrio juntara as provas aos autos,
reabrira o processo, mas, ao mesmo tempo, em uma pea magistral, descrevera a situao do Jovino,
preso injustamente, o que ele j sofrera e diante dos fatos, solicitara ao juiz que o libertasse, mesmo antes
do tempo legal dos trmites do processo. Impetrara um Habeas Corpus e fora atendido.
Comovida, Aurora passou a mo pelo travesseiro onde o Alberto dormia e no pde deixar de recordar
seu rosto bonito e alegre. Sentiu uma onda de saudades, porm no se deixou dominar pela tristeza.
- Voc est bem onde est, e eu desejo que seja muito feliz - disse ela em voz alta como se ele estivesse
ali.
Decidida, arrancou a roupa da cama e dobrou-a cuidadosamente. Desde a noite em que Alberto sara, ela
nunca mais mexera naquela cama. No permitia que ningum tocasse nela. Mas, agora, sentia que no
devia mais retardar essa mudana.
O quarto estava limpo, e ela arrumou pessoalmente a cama e abriu o armrio. L ainda estavam algumas
roupas do filho. Ela havia doado uma boa parte, contudo conservara algumas como lembrana.
Alberto que a observava, aproximou-se dela abraando-a e dizendo-lhe ao ouvido:
- Me, no guarde mais nada que a entristea. Vamos renovar nossas vidas.
Embora no o pudesse ver nem ouvir, ela sentiu vontade de reagir. Decidida, Aurora apanhou-as e
dobrou-as cuidadosamente colocando-as dentro de uma mala. Pretendia mand-las ao Centro Esprita,
onde eles costumavam desenvolver um trabalho de Assistncia Social. Elas eram grandes demais para o
Jovino.
Foi abrindo as gavetas e juntando tudo para doar. S deixou
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alguns objetos de uso do Alberto que ela tinha a certeza de que o Jovino gostaria de possuir.
Feito isso, sentiu-se aliviada. De agora em diante, estava disposta a deixar a tristeza de lado. Sua famlia
precisava viver bem, e ela sentia que podia contribuir muito para que eles vivessem em um ambiente de
paz e de serenidade.
Abriu as janelas e deixou o sol entrar. Colocou alguns porta-retratos dos trs meninos e um vaso com
flores.
Agora, o Jovino podia chegar. Aurora sentou-se em uma poltrona e ficou pensando. Sentia-se alegre
como h muito tempo no se lembrava estar. A volta do Jovino dava-lhe agradvel sensao de bem-
estar.
Agora, que conhecia a reencarnao, se perguntara muitas vezes, que ligaes eles teriam tido em vidas
passadas. Por que o Jovino viera ter a sua casa e acabara sendo criado e educado por eles? Por que o
Alberto partira to cedo e de forma to dramtica? E o Jovino, por que teria sido atingido?
- Eu sei que tudo acontece da maneira certa. Terei um dia condies de saber? - pensou ela.
Alberto, que a observava, abraou-a dizendo-lhe ao ouvido:
- Me, no pense nisso agora. Aproveite a vida, a felicidade que pode desfrutar agora.
Rui enfiou a cabea na porta, dizendo:
- Me, o que est fazendo? Aurora olhou-o e pediu:
- Entre aqui, meu filho. Desejo lhe falar.
Surpreendido, Rui entrou. Ele tambm evitava entrar no quarto do irmo.
- Sente-se aqui a meu lado.
Ele obedeceu. Aurora segurou a mo dele afetuosamente. Alberto abraou o irmo, com muito carinho.
- Precisamos conversar. Voc, como todos ns, sofreu muito o que nos aconteceu. Apesar das diferenas
de temperamento entre voc e o Alberto, vocs sempre foram inseparveis, se estimavam de verdade.
Pelo rosto do Rui passou uma sombra de tristeza.
-  verdade, me. Sinto muito a falta dele.
- Eu sei. Contudo, ele se foi e ns ficamos aqui. Eu sei que a morte no  o fim de tudo. Quer voc queira,
quer no, o esprito do Alberto
385


continua vivo e feliz. Claro que ele sente saudades, claro que gostaria que ns fssemos felizes. Por isso,
a nossa tristeza, certamente, o tem castigado muito.
- Me, eu no consigo acreditar nisso. Se ele estivesse mesmo vivo, ento, seria mais fcil me conformar.
Mas at agora, no tive nenhuma prova disso.
- Mentira. Ns tivemos inmeras provas. Voc tem se fechado e se recusado sequer a falar sobre o
assunto. No pretendo insistir nisso. Esse; um problema s seu, mas tomei a resoluo de modificar
nossa vida, de comear a viver melhor, e preciso da sua ajuda para isso.  importante para mim que voc
coopere conosco, para que possamos nos compreender melhor e sermos mais felizes e tolerantes uns com
os outros.
- No tenho feito nada contra ningum. Alis, nesta casa a minha opinio  a ltima que importa.
- No seja injusto. Ns lhe queremos muito bem e nos sentimos tristes quando percebemos que voc no
se sente feliz. Que se fecha no quarto ao invs de sair com os moos da sua idade, de namorar, de divertir-
se.
- Voc me mandando fazer isso?
- Sim, eu. At quando vai continuar qual criana caprichosa, batendo o p, se machucando, pensando em
brigar com a vida? Ela no vai trazer o Alberto de volta nem se preocupar com a sua atitude infantil. Est
na hora de crescer, de ser homem, de perceber que voc  responsvel pela sua vida.
Rui olhava-a assustado. Aurora nunca conversara com ele daquela forma e ele sentiu-se tocado.
- Por que est me dizendo todas essas coisas?
- Por que gosto de voc e quero que voc cresa, amadurea e se torne um homem. Um homem digno,
feliz, responsvel.
- Voc fala como Magali. Como se isso dependesse s de mim.
- S depende. Saiba que se voc continuar na dependncia, se julgando vtima de um destino implacvel,
pode atrair para voc mais infelicidade. No percebeu como cultiva a tristeza, a insatisfao, a raiva, a
revolta? A sua energia  to agressiva que chega a tolher toda manifestao de carinho que sentimos para
com voc.
- At voc, me, agora me critica?
- No o estou criticando, e voc sabe disso. Estou pedindo para
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cooperar conosco. Chega de tristezas e de tragdia. Gostaria que se esforasse para ser mais alegre, mais
calmo, mais amigo. Eu sei que voc pode e que dentro do seu corao existe muito amor, e muita vontade
de ser feliz.
Rui sentiu que as lgrimas lhe vinham aos olhos.
- Eu gostaria, me. Mas no tenho muita sorte. Com o Alberto sempre foi tudo diferente. Tinha muita
sorte.
- Isso no  verdade. Ele morreu e voc ainda est vivo.  que ele era mais amvel, bem-disposto, mais
compreensivo. Por que no tenta isso? Tenho a certeza de que tudo se modificar em sua vida.
- No  to fcil assim.
- No coloque dificuldade. Voc pode fazer como ele, e at mais. O Jovino est de volta hoje. Como sabe,
seu pai o convidou para voltar aqui.
- Eu sei.
- Agora, ele est mudado. Tem estudado, quer continuar os estudos e pretende se casar.
- Ele? Mesmo preso, arranjou namorada?
- . Ele e a Nair vo se casar. Assim que ele estiver bem empregado. A Magali tambm pretende casar-se
o ano que vem. Voc, por enquanto, ainda no pensa nisso, portanto, dentro em breve, ficaremos s ns
trs nesta casa. Assim, eu espero que possamos ser felizes juntos e viver melhor.
- O Jovino, aquele sonso. Vai se casar mesmo?
- Vai. E ele no  sonso nada. L no presdio, conseguiu impor respeito.  estimado pelos outros presos e
pela administrao. Voc precisava ver os elogios dos diretores. Eles ficaram muito felizes com a
libertao dele.
- Eu pensei que ele fosse ser motorista de novo.
- No mais. Ns agora no precisamos de um. As coisas mudaram. Mas como ele decidiu estudar direito,
j tem emprego no escritrio do dr. Rogrio, junto com o Vanderlei.
- Logo com esse!
- Meu filho. Melhor seria que procurasse ser amigo dele. Dentro em pouco, far parte da famlia e se voc
no aceitar, ser posto de lado por Magali. Ela gosta muito de voc e adoraria que vocs se dessem bem,
mas se voc continuar a hostiliz-lo, perder a amizade dela.
- Ela gosta mais dele do que de mim.
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-  diferente. Voc  irmo ele o noivo. Ela gosta muito dos dois, s que de forma diferente. Ela me disse
que reza todas as noites para voc aceitar a amizade do Vanderlei.
- Afinal, o ruim sou eu - lamentou ele.
- . O teimoso  voc, o irredutvel  voc e quem est perdendo  s voc. Porque, eu estou tentando
inclu-lo em nossas vidas, desejando que coopere conosco e possamos ser felizes juntos, mas se voc no
quiser e continuar agindo como at agora, pretendemos respeitar sua vontade. O deixaremos de lado, at
que se decida. Ns j escolhemos. Queremos viver bem. Estamos cansados da infelicidade. Pretendemos
aproveitar a nossa convivncia e viver melhor.
Rui abriu a boca e tornou a fech-la. A dignidade de Aurora o impressionava. Seu tom firme e carinhoso
no deixava margem a que ele mantivesse a postura costumeira. Ela nunca lhe falara daquela forma.
Suspirou pensativo.
- Voc est mudada - disse.
- Estou. Aprendi que no vale a pena cultivar a revolta e a queixa. Elas s nos atormentam sem nenhum
resultado bom. De agora em diante, nunca mais farei isso, acontea o que acontecer. Estou ouvindo
barulho, penso que eles esto chegando.
Realmente, o carro de Vanderlei parara diante do porto da casa e Homero j sara para receb-los.
Jovino desceu do carro em silncio. No conseguia articular palavra. Nair que o acompanhava,
observava-o comovida.
- Que bom que chegaram - disse Homero com alegria. - Estava ansioso.
- Nos demoramos um pouco, porque alguns detentos quiseram homenage-lo.
- Voc precisava ver - comentou Magali com entusiasmo. -Tivemos que esperar mais de uma hora. O
diretor do presdio fez questo de dar uma coleo de livros para o Jovino. Disse que espera que ele possa
utiliz-la no seu curso de direito.
Aurora apareceu e abraou o Jovino, cumprimentou Nair.
- Venha - disse. - Vamos entrar. Hoje  dia de festa, porque voc est de volta.
Na porta de entrada da sala, estava o Rui. Jovino olhou-o srio. No sabia o que ele iria dizer. Temia que
no aprovasse sua volta a casa.
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Rui, vendo-o, sentiu-se comovido. Aproximou-se dele olhando-o nos olhos, o Jovino sustentou o olhar.
Compreenderam-se. Rui abraou-o fortemente e no conteve as lgrimas. Esqueceu onde estava, as outras
pessoas e permaneceu abraado a ele chorando sem encontrar palavras.
Alberto, tambm os abraou. Chorando, mas um pranto de gratido e de alegria, de felicidade e de
reencontro. Finalmente, eles estavam juntos de novo. Haviam sofrido, amadurecido, aprendido. Seus
espritos se encontraram naquele abrao, e eles sentiam que dali para frente haveria novos caminhos de
progresso, de felicidade e de paz. Uma nova fora os alimentava. Uma viso mais real da vida, das
pessoas e das coisas, e uma vontade muito forte de viver e de amar.
Horas mais tarde, quando Alberto deixou a casa, sentia-se livre e leve. Estava em paz. Dali para frente,
podia cuidar de sua vida, tranqilamente. A vida era uma aventura extraordinria e incessante, onde havia
muitas coisas a descobrir, e ele se sentia como um adolescente, cheio de alegria, entusiasmo e f. Tudo
estava certo no universo. S existia o amor e o caminho da felicidade. Por mais ingnuo que algum
fosse, por mais que demorasse a perceber, sempre haveria para ele o dia de se encontrar e a hora de ser
feliz.
Olhando o cu onde as primeiras estrelas comeavam a brilhar, sentiu um profundo sentimento de
gratido e, embora seus lbios se abrissem em largo sorriso, algumas lgrimas em sua face comearam a
rolar.
Fim
